Valerion - a Busca por Yggdrasil
41 Os Três Valetes
A notícia correu como fogo em palha seca: cavaleiros sagrados caíam, cavaleiros negros sangravam, e o nome dos hereges soava em praças, tavernas e quartéis. As estátuas dos deuses, imóveis, pareciam assistir. Os valetes — mãos que executam a vontade divina — decidiram agir.
No silêncio de um salão sem portas, uma única fechadura flutuava no ar como um coração metálico. Dela, fios de luz corriam como nervos em todas as direções do mundo. Uma figura ergueu a mão: manto cinza, capuz baixo, passos sem som. A chave em suas costas era maior que uma espada, velha como um juramento e leve como um truque.
— A rebeldia não é a chama — murmurou. — É o oxigênio. Se abafá-la, acende em outro lugar. Se guiá-la, mostra o caminho.
Anorith, o Último Chaveiro, Valete de Velaska, encostou a chave na fechadura suspensa. O metal cantou. Em lugares distantes, o ar tremeu como água prestes a ferver.
Sob um céu de cobre, Lorvek da Explosão, Valete de Hyperion, caminhava por um campo devastado por testes de pólvora divina. O calor ondulava sobre a terra ressecada; crateras fumegavam, lembranças de batalhas que ele vencera sem testemunhas. Seu corpo parecia uma forja: cicatrizes retinham brasas, os olhos acendiam-se e apagavam-se como mechas.
— Alenor se curva ao encanto de um garoto — rosnou. — Um Ás fascinado por um herege? Hyperion exige rigor, não devaneios.
Parou, cerrando o punho.
— O que esse garoto tem que eu não tive? O que faltou em mim para encantar um Ás?
A pergunta ardeu mais que qualquer explosão. Ao longe, o vento trouxe murmúrios de soldados celebrando a “ordem restabelecida”. Lorvek sentiu náusea diante daquela mentira. Ordem? Não enquanto um nome incendiava as bocas: Kaelvor.
Um brilho recortou o horizonte — não de fogo, mas de uma fenda. Uma porta sem batente flutuou ao seu lado, abrindo-se para um vazio âmbar. Lorvek viu o reflexo de sua própria chama no metal invisível da passagem e sorriu, sombrio.
— Muito bem, Anorith. Vamos ver quem sobra de pé quando o sol fecha os punhos.
Entrou.
Em um salão de cristal, o chão era um lago petrificado, e as paredes, mil lâminas translúcidas. Ali reinava Arkanis dos Cristais, Valete de Phýton. Seus dedos tocavam a superfície e, a cada contato, memórias vinham: tropas congeladas em delicadas cárceres, vilas aprisionadas em globos, rebeldes exibidos como insetos em âmbar.
— Drael tombou — disse, sem emoção. O nome ecoou oco. — Koedmiya também. A feiura da desordem já rachou minhas vitrines.
Servos-cristal curvaram-se, suas faces lisas sem expressão. Arkanis ergueu uma esfera: dentro dela, Valerah dormia, ressoando como um coração aprisionado. O Valete inclinou a cabeça, quase com ternura.
— Belos defeitos, vocês todos. Tão humanos, tão… incompletos. Talvez por isso tão perigosos.
Fendas azuis apareceram ao redor, como rachaduras no ar. Arkanis fechou a mão e a sala inteira cintilou, coros de vidro vibrando em harmonia.
— Se a rebeldia é uma flor, eu a colocarei num vaso pequeno. Se for uma erva daninha, não terei medo da tesoura.
Passou através da fenda. O som foi o de um copo perfeito pousando na mesa exata.
Anorith girou a chave pela segunda vez. A fechadura cantou outra nota, mais grave, e ecos alcançaram cantos distintos do mundo.
Em Velaskia, uma velha casa de pedra guardava dois guerreiros à força: Soraja e Ephiron. Ainda havia poeira de golem no teto e um cheiro leve de chá amargo nas tábuas. Soraja limpava sangue seco da maçaneta dourada presa ao punho; Ephiron, sem elmo, encarava a porta que ela abrira e fechara tantas vezes na luta anterior — uma cicatriz no espaço.
— Ainda não confio no que você guarda aí dentro — disse ele, sombrio, apontando a pequena porta que tremeluzia na palma dela.
— E eu ainda não confio no que você guarda atrás desse olhar bicolor — devolveu Soraja, um meio sorriso cansado.
O ar dobrou, como tecido puxado de fora. Uma porta sem tranca se insinuou na parede, sem maçaneta, sem promessas, apenas um retângulo de luz pálida. Soraja ergueu o rosto, os pelos do braço se eriçando.
— Isso não é meu.
Ephiron levou a mão à lança, o instinto gritando.
— É deles.
A porta se abriu; o vento sugou a poeira da casa. Soraja apertou os dentes, e a pequena porta na sua mão respondeu, vibrando — reconhecimento, repulsa, chamado. Ela encarou Ephiron.
— Se for uma armadilha, abrimos outra dentro.
— Se for uma arena, eu luto ao seu lado — respondeu ele, firme.
Entraram juntos.
Na orla de uma floresta, Tiberan examinava a cor da luz nas folhas quando sentiu a mudança. O Broto da Yggdrasil no seu cinto pulsou com um brilho âmbar, como se a seiva lembrasse um perfume antigo. Nymira, apoiada em sua água, controlava a respiração: a mancha negra no braço avançara um dedo desde a manhã. Ignara farejou o vento, o pelo em brasas.
— Parem — disse Tiberan, calmo, embora o coração disparasse. — O ar foi… polido.
Nymira ergueu os olhos escuros. — Polido?
— Como quando alguém lixa o caminho para você escorregar sem perceber.
A fenda se abriu diante deles: não uma porta de Soraja, mas algo mais antigo, mais… deliberado. Ignara rosnou; a chama dela vacilou, reconhecendo ameaça.
— É um convite — sussurrou Nymira. — Ou uma sentença.
Tiberan tocou o broto. O pequeno galho apontou para a luz, como quem responde “sim”. Ele respirou fundo.
— Se nos querem juntos, verão o quanto juntos somos perigosos.
Foram engolidos pela claridade.
Em Hyperia, o salão de vitrais devolvia cores de brasa ao rosto de Kaelvor. A presença de Alenor ainda pesava como montanha, mas a cabeça do jovem, afiada por derrotas e promessas, procurava saídas. A claridade pálida apareceu na base da escadaria, recortando o chão como lâmina. Alenor virou-se, olhos de aço-azul estreitando.
— Chaveiro.
— Valetes — corrigiu Kaelvor, com um meio sorriso sem humor. — Quando o mundo decide nos reunir, é porque quer assistir.
Alenor não impediu. Apenas pousou a mão no ombro do rapaz — breve, quente como bênção, pesado como dever.
— Se entrar, sairá outro. Para melhor ou pior, só você decidirá.
Kaelvor fitou a luz. — Eu já decidi no dia em que abri a boca numa praça.
Deu o passo.
O lugar de encontro não era sala, nem arena, nem templo. Era um triângulo monumental de pedra negra suspenso sobre um vazio sem estrelas. Em cada vértice, um patamar alto; no centro, um círculo amplo como um campo de batalhas. O ar tinha o gosto de metal novo.
Os Valerions surgiram em lampejos separados: Soraja e Ephiron, ombro a ombro; Tiberan, Nymira e Ignara, alinhados como raiz, água e fogo; Kaelvor, sozinho, mas com os passos firmes de quem aprendeu a cair.
E as portas que não existiam se fecharam atrás deles.
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