Vagalumes Cegos
5 És um pranto do avesso
Notas iniciais
O quarto de hotel tinha apenas um problema:
a cama era de casal.
Quer dizer, não tinha só uma cama, e essa cama era a de casal. Tinha um beliche, em um dos cantos do quarto, uma cama de solteiro, no outro canto, e no centro, uma cama de casal cheia de almofadas.
Mayuzumi, que foi o primeiro a entrar no quarto, jogou a mochila para a cama de cima do beliche e lá ficou como se não fosse sair por nada no mundo. Hayama seguiu o exemplo e voou porta adentro, caindo como uma pedra na cama de baixo. Reo entrou depois. Correu os olhos pelo quarto. Quis dizer alguma coisa sobre aquilo, mas não conseguia pensar em nada, então ficou quieto. Akashi veio logo em seguida, silencioso como um gato.
Também não disse nada.
E aí Nebuya empurrou os dois.
— Eu fico com a de solteiro!
— E eu durmo aonde?! — Reo protestou imediatamente.
— Eu é que não vou dividir a cama com ninguém! Dorme no chão!
— Nebuya, eu juro que eu vou bater tanto em você que—
— Eu durmo com o Akashi! — É claro que essa não podia faltar. — Dorme aqui, Reo-nee! — Hayama sorria, todo animado.
— Ah, Koutaro! — Reo realmente se sentiu lisonjeado, apesar de não entender direito as intenções de Hayama. — Eu agradeço, mas é que o Sei-chan provavelmente não vai querer dormir com ninguém—
— Eu não me importo de dividir a cama com você, Reo.
Se não fosse pela risadinha de Mayuzumi, Reo provavelmente teria ficado vermelho como uma cabine telefônica. Por sorte ele se distraia fácil e a irritação o atingiu antes do constrangimento.
— Chihiro, fica quieto aí atrás! — Ele reclamou, virando-se para a praga.
— Mayuzumi, eu não estou entendendo o que é engraçado — Akashi falou. — Se importaria de me informar?
Uma das coisas que Reo mais gostava em Akashi:
ele era absoluto.
E instantâneo, como uma cup noodles.
Mayuzumi soltou um resmungo. Parecia até uma criança contrariada, colocando a mochila sob a cabeça e se virando para a parede naquela típica atitude “entendi, entendi, cala a boca que agora eu vou dormir”.
— Akashi, você tá falando sério? — Nebuya quis saber, sentadinho na sua cama, parecendo surpreso.
Reo se sentiu ofendido.
— O que você está insinuando, Nebuya?! Posso saber?!
— Ué, é que é estranho...
— Estranho, Ei-chan? Estranho como?
— O Akashi não parece o tipo de gente que divide a cama com outra gente...
— Outra pessoa, Nebuya, “tipo de gente que divide a cama com outra pessoa”, por favor — Tá bom que o tópico ali era outro, mas Reo precisava treinar aquele buldogue sem modos. — E além disso—
— Sei-chan, se você divide a cama com outras pessoas, então divide comigo! — Hayama sorria. — Eu juro que não me mexo muito.
— Porque alguém iria querer dormir com ele? — A voz de Mayuzumi se fez presente, bem baixinha.
— Porque deve ser legal, ué. E ninguém quer ficar na cama de casal, que é a melhor de todas as camas daqui de dentro, porque teria que dividir com outra pessoa!
— Eu não disse que eu não queria ficar na cama de casal — Reo disse. E quase (quase) se arrependeu.
— Mas também não se ofereceu — Hayama retrucou. Esse cara... Reo sabia que ele era sério e afiado quando queria, e realmente odiava quando ele ficava assim.
— Espera, você quer dormir nessa camona aí por causa do Akashi ou não?
— Não, né, Ei-chan. É que como o Reo-nee reclamou — Um “eu não reclamei” resmungado foi prontamente ouvido de Reo, e também foi prontamente ignorado —, eu pensei que era a minha chance de ficar na cama mais confortável! Mas se o Akashi quer dormir com o Reo-nee e o Reo-nee quer dormir com o Akashi, eu não vejo problema nenhum!
— Realmente, vocês nem precisam duvidar da integridade dele — Mayuzumi deu o ar da graça de novo. — Ele obviamente só queria dividir a cama com o Akashi porque é a cama mais confortável.
— E como você tem certeza disso? — Akashi, até então quieto, cometeu o erro de perguntar.
— Era só olhar pra ele e praquele cara do terceiro ano da Shutoku hoje. Vocês são mesmo tão densos assim? Sério, meu Deus.
Foi uma reação em cadeia. Muito embora as palavras de Mayuzumi tenham sido superficiais, dizendo quase nada, foi o suficiente para dar a vaga ideia do que era, deixando a história aberta à especulações próprias de cada um. Todos coraram um pouco, principalmente Hayama, que do nada ficou quieto. Reo pôs a mão sobre a boca e olhou furtivamente para Akashi, cujas bochechas também pareciam mais rosadas. Nebuya coçou a nuca, sem jeito.
E Mayuzumi continuou lá, deitadinho de costas para o mundo.
— Okay. Reo-nee, boa noite pra você e pro Akashi — Hayama ganiu antes de puxar as pernas para cima da sua cama e virar para a parede também, encolhendo-se em uma posição fetal.
Nebuya resolveu se retirar também. Pegou umas roupas e escova de dentes e sumiu banheiro adentro. Akashi suspirou. Reo suspirou. Então eles se olharam e Reo sorriu.
— Não puxe o cobertor, Sei-chan.
— Não me esmague, Reo-nee.
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