Vagalumes Cegos
6 Ninguém vai dizer
Notas iniciais
O visor do celular marcava 22:04 e Akashi não sentia mais o braço.
Isso era bem preocupante. Quer dizer, virar para o outro lado não era uma opção. Agora que Akashi parou para pensar, ele podia ter usado todo o seu poder de hierarquia imaginária para trocar de lugar com Nebuya. Tá bom que, na hora, dormir com Reo não parecia tão ruim. Só que... é difícil, cara. Dormir na mesma cama que a pessoa que você gosta, isto é. Akashi sabe que ele não é uma pessoa fresca, nem acatada, nem receosa, nem nada do tipo. Mas ele não consegue se obrigar a virar. No momento, ele pode ficar com o braço todo necrosado que ele não liga. Nada no mundo vai fazer com que ele se vire para Reo.
Ainda mais porque ele também sabe que Reo está acordado.
Eles haviam se deitado há uns bons quinze minutos. O quarto no momento cheirava a vapor de banho e desodorante masculino, apesar do ventilador de teto ligado. Na opinião de Akashi, a função dos banhos que se seguiu assim que Eikichi saiu do banheiro tinha sido mais cansativa do que as partidas de basquete que tiveram de tarde. Um, porque Reo se negou de coração e alma a tomar banho depois de Nebuya, alegando que as roupas sujas ainda estavam no chão, junto com a toalha molhada, e o sabonete era, agora, um objeto no mínimo duvidoso. Dois, porque Mayuzumi bravamente resolveu tomar banho e não saía nunca, até Hayama perguntar gentilmente se ele tinha morrido. Mas não, ele só estava borbulhando e queimando (de ódio ou de vergonha, não se sabe) a ponto de matar alguém, porque ao que parecia, Nebuya tinha usado as duas toalhas de banho que estavam no banheiro para se secar.
“Essas toalhas vagabundas encharcam muito rápido”, Nebuya tinha dito, para se justificar do feito.
Akashi suspirara com a situação e fora ao resgate do infeliz Chihiro, pegando uma das toalhas brancas empilhadas dentro do armário e entregando-a ao furioso terceiranista por uma meia-fresta da porta.
Esse foi o primeiro dos problemas.
Hayama decidiu ir em seguida. Assim que ele deu o primeiro passo para dentro do banheiro, foi ao chão. Um punc extremamente alto, resultado de um Mayuzumi indeciso ter ficado vagando pelo cômodo molhado dos pés à cabeça.
“Reo-neeeeeeee”, Hayama chorara, estatelado no piso, “acho que sofri um traumatismo!”
E Reo correra ao seu socorro. Se ajoelhara e segurara a cabeça de Hayama sobre seus joelhos — o que fez Akashi se sentir um pouquinho, só um pouquinho incomodado —, procurando algum possível dano. Era o protocolo: sempre que Hayama se machucava, Reo ia socorrer o pobrezinho. Dessa vez, pelo que parecia, Reo não estava levando muita fé que o tombo de Hayama realmente tenha causado um machucado, mas então:
“Meu Deus, Koutaro! Tá sangrando!” Ele gritara. “Não se mexe, não se mexe! Sei-chan, tem gaze e antisséptico na minha mochila! Traz pra mim!”
Foi uma confusão. Mayuzumi saltara do beliche e, como um bom samaritano, entrou no banheiro para ajudar Reo. Enquanto um fazia Hayama sentar, o outro enchia as mãos de água e molhava a cabeça do acidentado para lavar o sangue que começava a escorrer.
E céus, era muito sangue.
“Não devíamos levar ele prum hospital?!” Mayuzumi perguntara enquanto passava os dedos pelo cabelo, agora molhado, de Hayama, tentando limpar o máximo que podia os fios que ficavam cada vez mais escuros. A água que pingava no chão já estava meio vermelha e Akashi estava ficando preocupado.
“Reo?” Ele direcionou a pergunta para o lançador, afinal, Reo fazia parte do comitê da enfermaria. Se alguém ali sabia se aquilo era só questão de conseguir estancar ou se seria necessário um raio-X, era o Reo, obviamente. “O que você acha de devemos fazer?”
“Koutaro, tá doendo?” Reo indagara, meio alheio, passando a gaze que Akashi lhe trouxera na parte de trás da cabeça de Hayama.
“Não muito, na verdade, Reo-nee.”
“Arde?”
“Um pouco.”
“Não vai precisar de ponto?” Nebuya quis saber também.
“Provavelmente”, Reo dissera, a mão na nuca de Hayama para manter a cabeça alta, olhando para Akashi com o cenho franzido.
Akashi sentira, na hora, que aquela seria uma longa noite: “Vou chamar um táxi”.
Um time de basquete num carro apertado, vinte minutos numa sala de espera e 12 pontos depois, eles voltaram para o hotel. Hayama tomou banho de porta aberta por exigências de um Reo meio aflito, que argumentara que se Koutaro desmaiasse e caísse de cabeça no chão de novo, eles não teriam como saber. Akashi foi depois, porque Reo quis ficar cuidando de Hayama até que este dormisse, caso ele tivesse alguma convulsão (Hayama não o chama de “Reo-nee” por nada), inconscientemente torcendo para que nada desse errado.
Não deu. E quando ele saiu do banho, todos estavam dormindo e Reo ainda estava sentado no chão ao lado da cama de Hayama, olhando para os próprios cadarços.
“Ele vai ficar bem, Reo” Akashi assegurara.
“Você ouviu o barulhão que fez quando ele caiu, Sei-chan?” Reo dera uma risada. “Espero mesmo que não tenhamos que voltar pro hospital amanhã. Ele iria odiar perder os jogos.”
“Ele tem uma cabeça dura. Iremos precisar de muito mais do que uma simples queda pra hospitalizá-lo.”
Então Reo foi tomar banho também, e quando ele saiu, Akashi deu o dia por encerrado. Tudo o que queria fazer era dormir e dormir muito. Todos seus músculos doíam, em especial as costas, e aquele colchão era realmente super confortável.
Mas então, eis que voltamos ao problema atual: ele não consegue dormir. Normalmente, Akashi põe a cabeça no travesseiro e dorme em, no máximo, dois minutos.
Já fazem dezoito.
22:07, e o braço dele vai cair.
Ele se vira de barriga para cima, esperando não estar respirando muito alto. Dá uma olhada de soslaio na silhueta das costas de Reo antes de encarar o ventilador girando preguiçosamente no teto.
Para o seu desespero interno, então, Reo se vira também.
— Sei-chan?
— Sim?
— Nós nunca conversamos sobre aquele jogo.
Reo estava sussurrando para que ninguém mais ouvisse.
— Você quer conversar sobre ele?
— Não de verdade.
— Então por quê?
— Não dá pra conversar com você se você estiver olhando pro teto, Sei-chan — Reo reclamou com um tom divertido. Akashi trincou os dentes. Ele não sabia o que era pior: o fato de Reo querer, sim, trazer a tona um dos piores momentos da vida dele (quando ele quase perdeu seu time, seus amigos, por ter sido um, peço perdão pelo palavreado, idiota filho da puta) ou pelo fato de Reo ser audacioso demais para o próprio bem.
Apesar dos pesares, Akashi se deitou de lado, frente a frente com Reo.
— Você quer me dizer alguma coisa, Reo?
— Nós não guardamos rancores de você daquele jogo — Quando Akashi não respondeu, Reo continuou: — Nem mesmo o Chihiro, acredite.
...
— Sei-chan.
— Eu ouvi — Aquele suspiro podia ser chamado de hesitação. — Como você pode falar com tanta certeza sobre eles?
— Porque eu conheço o Eikichi e o Koutaro. E se o Chihiro não foi embora até hoje, é bem óbvio. Nós tivemos nossos bons momentos antes daquele jogo com a Seirin. Não seria só por causa de algumas humilhações que desistiríamos de você tão fácil, Sei-chan.
— Você não parece guardar zero rancor.
— Eu falei sério. Não temos nada para reclamar de você hoje. Foi humilhante na hora, é. O nosso máximo não era o suficiente. Você exigiu mais do que podíamos dar no início, e acabou desistindo de ter um time. Foi horrível para nós, Sei-chan, e eu sei que você sabe disso. Mas nós superamos.
— Não entendo aonde você quer chegar — Aquilo estava ficando desconfortável.
— Sei-chan, nós somos um time. Nós somos amigos. E amamos você, você sabe.
Ok, aquilo estava extremamente esquisito. Akashi encarava fixamente os olhos de Reo, sem saber o que dizer, meio atônito, porque “amamos você” e “eu amo você” são coisas bem diferentes, mas... diacho. Reo era a pessoa de quem ele gostava, e o verbo “amar” saído de sua boca mais o “você” direcionado a ele eram tão facilmente moldáveis.
Fora aquela última frase, que fazia, para todos os efeitos, sua garganta apertar, Akashi estava feliz. Ele se sentia muito mais feliz ultimamente quando estava por perto não só de Reo, mas do time inteiro. E saber aquilo diretamente meio que era... um alívio? Algo assim. Ele não sentia a necessidade de se redimir, mesmo, mas uma partezinha do seu ser sempre estaria em conflito com aquilo: aquele jogo tinha lhe posto abaixo de tanta pressão, e o tinha feito pressionar tanto seus companheiros de time, que Akashi realmente temeu por um tempo que as coisas ficassem diferentes.
Elas, em parte, ficaram.
Mas, recitando o velho clichê: elas mudaram, só que para melhor.
— Obrigado — Akashi disse, por fim. Era o que tinha.
— Não é o tipo de coisa pelo qual você precisa agradecer, Sei-chan.
Ah, Deus. Será que Reo fazia alguma ideia de o quão bonito ele ficava sorrindo daquele jeito, com o braço dobrado sob a cabeça e os cabelos caindo sobre o seu rosto? Os olhos dele não brilhavam como as estrelas da noite no escuro, mas ele continuava lindo. Ele cheirava à desodorante masculino e tinha aquele aroma fresco de xampu de bebê.
— Reo?
— Diga, Sei-chan.
...
Definitivamente, não hoje.
— Boa noite.
Reo sorriu e continuou sorrindo enquanto se ajeitava para deitar de bruços — Boa noite, Sei-chan —, ele disse antes de virar o rosto para o outro lado. Akashi suspirou, torcendo o canto da boca, levemente desapontado consigo mesmo.
Dois minutos se passaram.
E então cinco.
E cinco se tornaram dez, e Reo já ressonava; os músculos das costas haviam relaxado e de vez em quando seu corpo tinha aqueles típicos espasmos do sono.
Akashi passou a língua por cima dos lábios meio rachados. Sem emitir som algum, moveu a boca como se dissesse
“eu gosto de você”
, porque caso ele não o fizesse, certamente ele não conseguiria dormir.
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