Vagalumes Cegos

7 Um certo surto que não veio


Notas iniciais
Watch out, que esse capítulo meio que saiu do controle! uahiuahuiahi Peço perdão antecipado =')

Reo abriu os olhos quando Nebuya emitiu um ronco que mais parecia um tambor de guerra em uma guerra.

Ele não fazia ideia de que horas eram. O quarto não tinha janelas e seu celular estava perdido em algum lugar da mochila. Tentando não fazer barulho, Reo se moveu para achar uma posição mais confortável, e foi aí que viu Akashi.

Quase caindo da cama, jazia um corpo encolhido em uma bola de lençol. Ele literalmente estava com os joelhos para fora e Reo podia prever Akashi acordando no chão. Porque será que ele estava tão longe? No espaço que havia entre eles, Hayama e Chihiro caberiam tranquilamente. Juntos. Um do lado do outro.

Err, ok, talvez não. Mas Hayama cabia ali sem problema nenhum, e podia até ficar deitado todo esparramado como de costume, de barriga para cima, que nenhum deles seria prejudicado.

Afinal, Reo teve que sorrir sozinho. Poderia, ó, o nobre Sei-chan estar acuado demais para dormir normalmente? Porque, convenhamos. Akashi estava tão longe que Reo nem sabia se seria ouvido caso sussurrasse alguma coisa. O coitado estava até sem travesseiro, exilado no outro polo da cama. Seria isso tudo para evitar que eles se esbarrassem durante a noite? Parecia uma preocupação boba aos olhos de Reo. Quer dizer, eles sempre dormiram em futons lado a lado quando acampavam fora para treinar. Era quase como dormirem na mesma cama de casal, certo? Os futons eram grudados um no outro; havia tanto espaço entre eles na cama hoje do que sempre houve entre os dois nos futons. Qual a diferença, Reo indagou-se, o que mudou?

Akashi resmungou, então, um sonzinho meio suspirado sob a respiração, que fez Reo se apoiar nos cotovelos quase de imediato.

— Sei-chan? — Ele chamou. Nada. Esperou alguns segundos. — Sei-chan?

Sei-chan não era do tipo que falava dormindo.

Reo se sentou.

— Sei-chan, hey — Agora ele podia ver metade do rosto de Akashi. Ele estava suando. Outro resmungo, mais parecido com um gemido de dor dessa vez, e suas sobrancelhas se franziram. Os olhos se moviam de um lado para o outro por baixo das pálpebras.

Ué...

Instintivamente, Reo averiguou o terreno, olhando em volta. Mayuzumi estava virado para a parede. Koutaro também. Nebuya roncava e nem se mexia, o que era uma boa prova de que ele estava bem apagado.

Então Reo chutou o lençol para o lado e se ajoelhou para tocar o ombro de Akashi com as pontas dos dedos, meio indeciso.

— Sei-chan, acorda.

Mas nada. Os resmungos continuavam, baixinhos, sem fôlego. Reo via direitinho o movimento que as costas dele faziam por causa da respiração toda desregulada. Em uns intervalos de cinco, dez segundos, Akashi pulava, seus braços tinham espasmos.

— Sei... Sei... é um sonho, Sei-chan...

Só podia ser um pesadelo, certo? Reo passou a empurrar o ombro dele com mais força.

Ar... — Akashi murmurou baixinho, mais baixo do que uma expiração. Ele continuava dormindo e Reo estava ficando nervoso.

Ar? Ar, o que era ar? Ar, tipo oxigênio? Ou ar... ar-alguma-coisa? Armário? Arma? Artrose? Arco? Arrrr— areia?

Bom, Reo não precisou queimar muitos neurônios.

Akashi começou a sufocar.

Quer dizer, não, não literalmente. Eram sons engasgados, os pulmões trabalhando rápido e pesado como se não houvesse ar o suficiente, dentes trincados. Mas que diabos, Reo estava quase o empurrando pra fora da cama e o desgraçado não acordava!

É um pesadelo, é só um pesadelo, ele não vai morrer.

Pasme, ninguém morre sonhando.

Certo?

— Sei-chan, Sei-chan, acorda, vai, é só um sonho ruim, Sei-chan — Reo puxou-o pelo ombro, fazendo-o se virar de barriga para cima novamente. Eles estavam na escuridão de um quarto sem janelas e sem nenhuma luz acesa, mas Reo podia dizer que Akashi estava extremamente branco. — Sei! — Sibilou. — Você não pode morrer ainda! — Ele estava prestes a começar a falar alto.

Mas aí, como num filme bem clichê, o rosto de Akashi caiu um pouco na direção da mão de Reo, e aos poucos a agitação do pesadelo foi passando. Primeiro o corpo se aquietou, e depois a respiração ficou uniforme.

— Sei-chan, hey, você está me ouvindo? — Reo estava mesmo ficando bom em sussurrar sem ficar com a voz soprada.

... sempre ouço...

Ahnn??

—...a voz...

Ahhnnn??!

Reo quase morreu. Akashi estava completamente apagado, suando frio, e falando coisas aleatórias que faziam sentindo. Porém, aleatórias. Ele estava tendo um pesadelo. Ele não ouviria a voz de Reo no sonho, é claro que não. Dã. Quer dizer... isso lá é cientificamente possível?

Bom, não importa! Mesmo que tenha sido comprovado, provavelmente a mente de Akashi filtrou a frase; no sonho, outra pessoa deve ter falado aquilo para ele. A mãe, talvez? Uma garota? A pessoa pela qual ele está apaixonado?

O coração de Reo falhou umas batidas. Não— na verdade, ele não parece estar falhando. Ele parece muito mais rápido que o normal, muito mais barulhento, martelando como um tambor contra suas costelas.

Reo engole em seco. Pelo menos Akashi está bem agora. Parece. Ele também não está mais caindo da cama, é uma coisa boa.

Cuidadosamente, Reo se deita de lado para manter um olho nele.

Tudo está tão quieto que é quase ensurdecedor.

Antes mesmo de abrir os olhos, uma coisa é óbvia:

tem algo errado.

É a segunda vez que ele acorda com um som. Dessa vez, é mais baixo, menos grosseiro que o ronco de Nebuya.

O som é uma palavra:

— Reo.

A palavra se repete:

— Reo. Reo...

E é seguida por tapinhas no seu braço.

— Reô — tap tap.

A voz é de Akashi.

Reo está deitado de costas, abraçando alguma coisa, e de repente ele sabe que não é um travesseiro.

Ele escuta a risadinha de Mayuzumi em algum lugar do quarto.

— Reo... — Akashi parecia super constrangido.

— Acho bom você acordar ele antes que o Hayama e o Nebuya voltem.

— O que você acha que eu estou tentando fazer?

— Tentando acordar um filhote de cachorro. Se fosse qualquer outra pessoa, você já teria acordado ela. Se fosse um de nós, provavelmente seria como o toque de despertar do exército.

— Fique quieto, Chihiro.

— Com medo que eu acorde o Reo-nee indelicadamente? — Por que ele parece que está sorrindo?

— O que você— você não está fazendo isso.

— Já fiz — E Reo escuta um som parecido com o clique de uma câmera. Ele suspira, mexe a cabeça para o lado e seu nariz afunda em uma coisa macia e cheirosa. Seu braço está dormente, mas ele ainda sente nas pontas dos dedos um tecido. Há um peso aconchegante no lado direito do seu corpo, uma respiração perto da sua clavícula—

Outro clique.

A nuvem de desorientação se vai em um estalo.

Tudo faz sentindo. O mundo clareia em volta dele quando ele abre os olhos e se senta, fazendo um Akashi subitamente confuso se sentar junto.

Ah, não. Não, não.

Reo olha para Akashi, e depois para Mayuzumi, de pé na frente da cama, com o celular na mão, sorrindo como uma criança que acabou de derrubar o coleguinha na lama.

Suas roupas ainda estão quentes no lugar onde Akashi estava deitado alguns segundos atrás.

Notas finais
Sobre o negócio do sonho: bom, que algumas pessoas falam dormindo não é nenhuma novidade, mas esses dias um amigo veio dormir aqui e eu fiquei vendo TV até de madrugada enquanto ele dormia. Aí eu falei uma coisa e ele resmungou uma resposta. Foi tipo "ah, eu odeio esse filme" e ele "hm, eu gosto...", e eu fui cutucar ele pra ver se ele estava acordado e... surpresa, ele não estava! Hehehe! E ele não lembra de nada, então meio que eu não sei se ele falou do filme mesmo ou foi um negócio aleatório. Depois, quando eu tive a ideia pra esse capítulo, eu fui pesquisar e li em algum lugar que algumas pessoas, entre os períodos do REM (rapid eye movement, a fase do sono onde se tem os sonhos mais vívidos), meio que "despertam" e dependendo do que está acontecendo em volta delas, elas absorvem coisas; tipo uma pergunta, uma música, uma voz. E... é, achei que eu devia me explicar depois daquele super clichê ali em cima aiuhaiuhauihi Mas as bases são puramente científicas! Embora, err, as fontes não sejam das mais confiáveis? Enfim! Espero que tenham gostado ♥ Vale um beijo e um queijo? =3