Vagalumes Cegos

4 Nem sei, desses meios-dias feios


Notas iniciais
É só pra desenrolar o tapete vermelho pro próximo capítulo, gente! Prometo que não é uma completa perda de tempo e encheção de linguiça iauhiauhaiuh

— Akashi! O Kuroko me disse que você vinha!

Akashi olhou para o cara correndo na direção deles de cima a baixo, quase sem acreditar. Os cabelos pretos estavam pingando água, o colete verde-limão estava sujo — espera, aquilo era sangue? — e ele tinha uma faixa enrolada no tornozelo direito, mas era tão familiar que por um momento Akashi não soube o que dizer.

Quando Mibuchi desceu do ônibus, porém, e parou ao seu lado, Akashi descobriu que ainda tinha uma língua e disse:

— Shuuzou, você ainda joga basquete.

Talvez porque não fosse habitual para ele levar petelecos na testa, ou talvez porque o pequeno espaço de tempo em que Nijimura franziu as sobrancelhas, fez uma careta e se plantou diante dele não foi o suficiente para Akashi prever o que estava para acontecer, mas assim que o indicador de Nijimura acertou em cheio o centro da sua testa, ele arregalou os olhos e começou a piscar rapidamente, tentando entender como... como Shuuzou teve aquela ousadia.

— Ai meu deus você matou o Akashi! — Hayama exclamou, bem assim. — Reo-nee, o Akashi está morrendo!

— S-Sei-chan!, você está bem?

— Heh...

— Oe, Mayuzumi, não faça essa cara, cara! Isso é um problemão! — Bom, tirando o sorrisinho afetado de Mayuzumi, e a voz alta de Nebuya atraindo a atenção de todo mundo, Akashi estava bem.

Um pouco.

— Você perdeu o respeito, é? — Nijimura reclamou, nada impressionado. — Esqueceu como tratar os mais velhos, pirralho?

Instantes de silêncio se seguiram.

E em um sussurro-nem-tão-sussurrado, Hayama disse:

— Ele chamou o Akashi de pirralho...

E Nebuya completou:

— Você só ficou surpreso com isso...?

Akashi respirou fundo. Reencontrar Nijimura não era bem o que ele esperava fazer quando se inscreveu no torneio, e levar um piparote, muito menos. Akashi observou o antigo capitão com os olhos semi-cerrados. Ele sentia a ansiedade de Hayama (talvez porque o loiro não parasse de se esticar e sapatear atrás dele), a curiosidade de Reo, o interesse levinho de Mayuzumi e, claro, a relutância de Nebuya entre apreciar o show e procurar comida.

Suspirou.

— Nijimura-san — Para o inferno que ele chamaria Shuuzou de senpai como na Teikō —, você está jogando em algum time?

Nijimura o encarou, insatisfeito e desconfiado por estar sendo obrigado a engolir o migué. — Estou jogando com o pessoal da Kaijo.

— Ryouta está competindo?

— Ele não pode — Nijimura resmungou, dando de ombros —, mas tá assistindo. Vem, a gente montou uma tenda ali perto da quadra.

Akashi olhou para Reo. Não tinha nenhuma intenção nisso, mas ele o fez antes de seguir Shuuzou parque adentro. Havia uma quadra de cimento, onde alguns times se aqueciam, e tendas e arquibancadas montadas por todos os lados. Akashi viu Midorima sentado no chão, fazendo alongamento com aquele garoto com olhos de falcão, Takao (Kazunari?) empurrando seus ombros para frente. Mais adiante, ele viu Momoi sentada em uma das arquibancadas junto à Kise — algo estranho apertou seu peito quando ele viu as muletas apoiadas perto de Ryouta.

— Mas vem cá, é coisa da luz, ou um dos seus olhos tá laranja?

Reo emparelhou seus passos com eles.

— Você não o vê desde o ginásio?

— Eu fui para os Estados Unidos no segundo ano deles.

— Coisas aconteceram — Reo diz, e Akashi não entende muito bem o porquê de ele parecer tão sério. Nunca tinham tocado nesse assunto entre si, mas Reo o mencionava para Shuuzou como se fosse algo a ser preservado —, mas não há nada com o que se preocupar.

— Você é dos Reis Sem Coroa, não é? O Yaksha?

— Só Mibuchi, Nijimura-san. Só o vice-capitão da Rakuzan.

— Você fala com orgulho — Shuuzou comentou, um certo tom de admiração roendo sua frase. — O Raijuu te chamou de Reo-nee.

— O nome dele é Hayama.

Ah, Akashi pensou, Reo está sendo hostil. Ele está sendo hostil com o Shuuzou.

E Nijimura, que sorria aos ventos, nem percebeu. Apesar do frio que estava fazendo, o suor escorria pelo rosto e pescoço de Nijimura e tanto o colete quanto a bermuda esportiva estavam grudando no corpo dele. Akashi pensou que ele deveria estar feliz. Pelo que ouvira, Nijimura tinha parado de jogar basquete assim que saiu da Teikō. Isso provavelmente fora um inferno, ainda mais para ele, que sempre foi um jogador que borbulhava alegria mesmo ao ter sua orelha puxada quando marcava uma falta em um adversário. Shuuzou gostava de jogar competitivamente. Akashi não sabia, de verdade, desde quando ele estava em Tokyo, ou quem esbarrara com ele primeiro ou quem o tinha convidado para participar do torneio, mas estava contente.

Shuuzou enfim estava de volta às quadras de basquete, onde ele pertencia.

— Bom, aqui estamos — Ele disse.

Eram, na verdade, três tendas montadas praticamente uma em cima da outra. Na grama, havia toalhas, mochilas de quatro escolas diferentes — Akashi não viu sinal algum da Yosen High — e várias cadeiras. De plástico, de praia, até banquinhos de madeira.

E, claro, sacos (muitos, muitos sacos) de salgadinho e garrafas (muitas garrafas) de água, energético e refrigerante dentro de isopores no chão.

Nijimura gesticulou na direção onde eles deveriam largar suas coisas — Fomos montando as coisas durante o dia. Sintam-se em casa, Rakuzan.

— A Seirin está aqui? — Mayuzumi perguntou enquanto ouviam Nijimura abrir o lacre de um dos energéticos.

— Yeap — Ele observou superficialmente todos os integrantes do time. — Não está tudo bem?

Akashi o encarou.

— Está.

— Vocês parecem meio cabisbaixos de saber isso — Provocou Shuuzou. — Efeito colateral de ter perdido pro Kuroko?

Ele enrijeceu. Tocar nesse assunto diretamente era tabu. Akashi tinha consciência de que tinha perdido, e tinha admitido e aceitado a derrota, mas ainda sim, nenhum deles mencionava o ocorrido.

— Vamos nos alongar — Ele disse, mais para Reo do que para o resto do time.

Mas Shuuzou fez aquele negócio estranho com o lábio, e segurou o ombro de Akashi com um olhar irritado — Não foge.

A diferença de altura entre eles era muito menor, agora.

— Nijimura-saaan... — Hayama ganiu, quase que como temendo pela vida do dito cujo.

— Não somos mais senpai e kouhai, Shu— Nijimura. San.

— Você está evitando o assunto.

— Nós perdemos. E é isso, Nijimura-san.

— Foi um ótimo jogo. Porque você quer esquecer? Não vai mudar o fato de que voc—

— Sei já disse, nós perdemos. Não estamos fingindo que isso não aconteceu.

Houve novamente aquele silêncio estranho, a tensão que antecede um tapa na cara de alguém. Akashi não olhou para Reo dessa vez, mas ele não entendia: desde quando Reo era assim? Ele nunca (repito: nunca) ouvira a voz de Reo com um tom tão agressivo, nem durante um jogo. E Reo o chamara de Sei. Inconscientemente ou não, Reo não usara o –chan e Akashi... bom, ele gostou disso.

Nijimura tirou a mão do ombro dele.

— Eu só espero que vocês saibam que ganhar não é tudo — Mostrando que se rendia, Nijimura ergueu as mãos e suspirou. — Vocês não perderam porque são ruins, nem porque você estava errado, Akashi. A Seirin era mais forte, e foi isso.

Reo suspirou também. Akashi, pela primeira vez na vida, começou a ficar agitado de tão confuso que estava. Desde quando Reo se alterava e tomava a dianteira de Akashi em uma discussão?

— Nós sabemos.

— Não é suficiente — Palavras sábias de um senpai que se deixou perecer às sombras de uma geração mais talentosa —, só lembre o Akashi de que às vezes temos que escolher entre amar mais a vitória, ou amar mais o basquete.

Há mais silêncio, e isso já estava começando a ficar incômodo.

— Senpai é tão legal! — Hayama diz (apesar de ter a mesma idade que Shuuzou, vai entender) e começa sorrir, fascinado. — Joga com a gente, hoje! Eu quero te mostrar meus dribles! Você vai gostar, tenho certeza!

Akashi então riu, porque Reo agora estava rindo e porque Nijimura estava ficando aborrecido com Hayama pulando em volta dele. Até Mayuzumi deixou escapar um suspiro de alívio, e enquanto Nebuya resmunga que quer ter um one-on-one com Shuuzou para ver se ele joga “tão bonito quanto fala”, Akashi olha para os próprios pés.

Ele quer agradecer à Shuuzou.

Ele quer agradecer à Reo.

E quer, inexplicavelmente, que Reo note que o sorriso dele de agora é genuíno.

No momento, ele quer coisas bem simples, mas a única que ele pode realizar é a primeira.

— Foi bom te ver, Nijimura-san — Ele diz.

— Vou jogar com você ainda antes do torneio acabar — Nijimura retruca em tom de desafio. — E vou vencer.

Akashi sorri, e de repente está ciente dos olhos de Reo em cima dele.

— Eu duvido, mas gostaria de vê-lo tentar.

Notas finais
Que tal um beijo e um queijo, nos reviews? ;]