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14 Uma nova perspectiva
— Nossa, que simples, da mesma nave. Não tem nada de simples nisso, pelo menos não pra todos nós aqui.
— É o seguinte, podemos conversar em particular? E também, é meio cansativo conversar com as mãos pro alto.
Ilana pegou a arma dele e deixamos ele mais a vontade, fomos lá pra fora da loja conversar enquanto os outros ficavam de olho nos que estavam desacordados:
— Então, sei o que pode ter parecido mas é verdade, Shelly nos mandou até aqui pra te procurar. Estávamos a bordo da Nefertari procurando por você, ela veio direto pra essa cidade quando a colisão aconteceu.
— Colisão? Está se referindo a essa zona de tempos, passado e futuro, esse tipo de colisão?
— Sim, isso mesmo. Agora que te encontramos, podemos ir? Ela não vê a hora de te encontrar.
— Espera. E como vou saber se não está me levando pra uma armadilha?
— Não saberá. Você vai ter que confiar em mim. E além do mais, eu te contei sobre alguém muito específico pra ser armação, não acha? Você parecia ser mais inteligente pelo que ela contava.
— Olha o abuso, lembre-se que esta desarmado.
Entramos de volta a loja e passei as informações pro povo, dada essa situação, Kage indagou:
— Tem certeza disso? Ela pode estar te esperando mas isso não quer dizer que seja uma coisa boa.
— É a Shelly, com certeza é uma coisa boa, você ainda não conheceu ela, quando chegarmos a essa tal nave, você vai ver do que estou falando.
Ele continuou com a pulga atrás da orelha mas eu não me importei muito, era a Shelly, eu queria muito ver ela faz muito tempo. Nos aprontamos e fomos em direção a floresta novamente, logo perto da entrada da floresta estava a tal nave, a mesma que eu vi descendo pela fenda. Morgana veio até mim enquanto entrávamos na nave e disse:
— Você confia mesmo nesses homens? Não sei se isso tudo me parece uma boa idéia.
— Não confio não, mas é uma chance que tenho de ver minha finada irmã novamente, e sem a parte do 'finada'.
— Mas e se...
A interrompi, me virei de frente pra ela e disse:
— Se tudo der errado, eu confio em você e confio em todos nós pra sairmos de qualquer situação juntos, okay?
Ela se contentou com a minha resposta, Kage que ouvia tudo, sorriu e levantou o polegar, Morgana me deu um abraço e finalmente entramos na nave. Não havia assento para todos nós, afinal éramos quatro pessoas e haviam mais quatro contando com os amigos de Shelly, então eu e Ilana sentamos no chão da nave enquanto Kage e Morgana ficaram em pé observando todo o trajeto pelo parabrisa da nave, era tudo muito bonito quando você conseguia ver algumas estrelas não tão longe, a poeira estelar, alguns cometas, o grande 'vazio' que é o espaço, até um pouco de lixo espacial conseguimos ver, e eu nem estou falando sobre os quatro amigos de Shelly. Um dos homens que desacordamos na loja disse a mim:
— Não precisava daquilo tudo, nós não íamos machucar vocês.
— Achamos melhor nos prevenir, que bem viria de gente armada?
— Mas vocês também estão armados.
— Nós nos conhecemos, sabíamos quais eram os nossos objetivos.
— Então o que faziam numa loja de armas?
— Estávamos procurando munições ou mais armas para nós defendermos.
Ilana ficou bocuda de repente e disse:
— Sim, nós estávamos a procura de um lugar que pudesse servir de abrigo para o povo que estava com eles.
— Que povo? Vocês não são os únicos?
Olhei pra Ilana indignado, voltei minha atenção ao homem e disse:
— Não importa, vocês estavam me procurando, não é?
— Calma, já disse que não queremos fazer nada com ninguém. Talvez apenas aos que merecem.
O piloto nos interrompeu dizendo para olharmos a frente. Vimos uma nave bem maior do que a que estávamos, umas 10 vezes maior, formas pontiagudas, toda cinza com alguns detalhes em azul, armas em locais estratégicos. Será que eu poderia trazer aquele povo pra cá? Espera, no que estou pensando, eu só vim pela Shelly. Nossa nave entrou por um dos compartimentos da Nefertari e então descemos. Ali era como um hangar para naves menores como a que estávamos, parecia uma garagem, peças de nave, instrumentos de reparo, máquinas consertando algo e afins. Foram nos levando mais pra dentro da nave, Morgana veio do meu lado e seguiu segurando minha mão. Tenho certo apreço a ela mas eu acho melhor que eu ou ela definissemos que tipo de relação estamos tendo neste momento. Fomos andando pelos corredores, várias canos e tubulações por toda parte, luzes em todos os cantos, portas trancadas com algum tipo de reconhecimento manual, o tipo de coisa que vemos em filmes de ficção científica. E então nos levaram ao refeitório, onde eu pude finalmente ver Shelly. Ela estava ali, sentada olhando para sua refeição, cutucando-a com um garfo. Quando ela percebeu que alguém entrou no cômodo, ela olhou direto pra mim, foi certeiro, parecia que ela já sabia que eu estava aqui. De prontidão ela se levantou, veio até mim e me deu um forte abraço sem dizer nada, se pra mim pareceu uma eternidade, imagino pra ela que esteve me procurando por sei lá quanto tempo. Ela me segurou pelo rosto e disse:
— É você mesmo? Eu não tô acreditando.
E voltou a me abraçar, eu estava perplexo, nunca pensei que pudesse voltar a ver seu rosto, sentir seu cabelo, seu cheiro, pra mim era tudo uma vaga lembrança, eu não sabia mais como ela era direito e agora ela está realmente aqui, na minha frente. Ela me soltou, segurou meus braços e disse:
— Venham comigo, quero lhes mostrar uma coisa.
Shelly pegou minha mão e nos levou a um outro compartimento que por sua vez parecia ser um tipo de sala de controle, havia uma enorme janela no meio com vista para todo o espaço, painéis e botões que provavelmente são usados para comandar a nave de modo manual, porém ninguém estava operando no momento. Todos estavam achando aquilo o máximo, eu já estava farto de olhar o grande 'nada', eu só pensava em como a Shelly estava realmente ali ao meu lado, segurando minha mão. Shelly disse a mim:
— Incrível, não é? Sempre pensei em te mostrar esse lugar e agora você realmente está aqui.
— Como você sabia que eu iria aparecer?
— Não foi só o seu mundo que mudou. Quando eu soube o que estava acontecendo, eu sabia que teria uma chance te encontrar novamente.
— O que você quer dizer com "o meu mundo"?
— Como posso explicar...eu não sou a SUA Shelly.
— Eu não tô te entendendo.
— Desde o início do Grande Erro Temporal, eu sabia que poderia te ver de novo porque você estava morto no meu mundo.
— ...oi?!
— Nós pudemos nos reencontrar de novo porque eu não sou do seu verdadeiro mundo, nem você do meu.
Nem quando os habitantes do vilarejo balbuciavam qualquer coisa eu fiquei tão confuso. Shelly percebeu minha falta de reação e entendimento, ela disse pra nós irmos a um outro cômodo para conversarmos a sós. O pessoal que veio comigo não estavam tão a vontade de me deixarem ir, Kage estava o tempo todo em estado de alerta, Ilana estava ao lado dele observando a maquinaria da Nave e Morgana parecia meio ansiosa com tudo isso. Eu e Shelly fomos para seu quarto, logo que entramos, ela disse:
— Lembra quando costumávamos passar em frente a loja do Sr. Many e toda vez você queria um sorvete de lá? Não podia ser de outro lugar, tinha que ser o dele.
— Tenho muitas lembranças suas mas não essa.
— Pois é, eu me lembro de tudo.
Ela disse isso segurando um porta retrato, havia uma foto nossa nele, comigo segurando um sorvete e sorrindo junto a ela. Então ela disse:
— O que eu queria dizer é que, como nossas linhas do tempo estão entrelaçadas, com certeza íamos nos encontrar. Eu não sei o que aconteceu na sua linha do tempo, mas na minha você morreu. O grupo que procurava por seu pai te encontrou antes de você completar 15 anos, você ainda era só uma criança. Eu tinha ido trabalhar, fui a primeira pessoa no local, vi seu corpo ensanguentado no chão da sala, eu gritava com a dor da perda, me culpei por anos pela sua morte e agora você está aqui na minha frente, como se nada tivesse acontecido, como se tudo tivesse sido um sonho ruim. Você me entende agora?
Parece que tudo aconteceu ao contrário pra ela, eu que sofri com sua morte no "meu mundo". Perguntei a ela:
— E o que aconteceu com você depois disso?
— Bom, eu fiquei um bom tempo de luto e um pouco depois, eu comecei a estudar algumas maneiras de conseguir reanimar coisas, com o intuito de trazer você de volta. Eu sei, foi estupidez mas eu não conseguia digerir o que aconteceu, eu precisava te trazer de volta. Fiquei bem conhecida nessa área específica, a equipe NEZHA reconheceu meus esforços e decidiu compartilhar comigo alguns segredos.
— E você conseguiu? Digo, me trazer de volta, isso daqui foi causado por você?
— Não, eu nunca conseguiria fazer algo com tal magnitude. As vezes eu acho que possa ter sido acidental, as vezes não, mas pra mim isso foi meio que um milagre. De tanto que eu lutei e busquei revê-lo, o universo me deu essa oportunidade de te reencontrar uma outra vez, e crescido.
Seus olhos lacrimejando, seu sorriso direcionado a mim, eu a abracei por um instante que parecia ser tão infinito, tão completo, parecia que minha jornada tinha terminado ali e eu seria feliz pra sempre. Eu a perguntei:
— Então é isso mesmo? Estamos juntos de novos?
— Como sempre foi.
Confesso que não pude conter uma lágrima ou outra de cair nesse momento, ela passou por tanta coisa assim como eu passei no meu mundo e agora estamos juntos novamente. Ela sorri e diz:
— Vamos voltar aos seus amigos, eles devem estar preocupados.
— Nos conhecemos faz poucos dias mas é, acho que seria bom voltarmos antes que Kage arranque a cabeça de alguém.
Ela sorriu e logo depois arqueou as sobrancelhas dizendo:
— Sempre tão exagerado. Assim espero.
Voltamos e quando chegamos na porta do refeitório, estavam todos conversando normalmente, brincando, tendo um bom momento, menos Morgana que estava mais acanhada, olhando pra baixo, mãos embaixo da mesa. Ilana nos chamou para sentar ao lado deles, fomos até lá e conversamos todos:
Ilana: Você já esteve no espaço Stan? Aqui é muito bonito.
Stanley: Sim, bonito mesmo. Acho que devemos desculpas a vocês, por pouco não matamos todos antes de vir pra cá.
Shelly: É verdade, vocês não os conhecem, deixe me apresentá-los. Este aqui a minha direita é Dion, a minha esquerda está o Vogler e esse aí de capuz é o novato, Nero. Encontramos ele em uma das nossas tentativas de te encontrar, ele estava em um pet shop perto das florestas.
Estavam todos sentados, Dion parece ser o cara que está sempre esperando uma confusão acontecer, um homem branco, barba por fazer, sorrisinho irônico, acho que não vou ir muito com a cara dele. Vogler foi quem me contou da situação na loja de armas, parece ser simpático mesmo sendo um homem grande, metade do rosto dele é branco, piercings e tatuagem pelo corpo, uma figura única. Por fim temos Nero, homem forte, alto e sempre bem agasalhado, bem misterioso, não tenho muito o que ver nele, ele está de capuz e máscara. Shelly diz a ele:
— Não precisa se esconder deles Nero, eles são amigos.
Ele olha pra ela, em seguida me olha de rabo de olho, volta a olhar pra mesa e então ele tira seu capuz e sua máscara, revelando orelhas pontudas e felpudas, em volta de seu focinho longo, havia uma pelagem branca e em todo o resto do rosto era preto. Estávamos diante de alguém não-humano mas ele não foi o primeiro e pelo que parece, não será o último. Ele acenou, fazendo um "olá" com a mão para todos nós e em seguida, desviou o olhar rápido, Shelly viu que ele não estava muito a vontade e disse:
— Nós o encontramos em uma das nossas buscas na Terra. Estava mais relutante em se mostrar do que agora.
Ele olhou pra ela e fez um sinal com a cabeça dizendo 'não'. Acho que ele não queria que todo mundo soubesse como ele foi encontrado. Shelly disse:
— Mas isso é assunto pra uma outra hora, agora precisamos resolver outra coisa.
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