Unidas pela guerra

1 Aurora e a partido do castelo


Enquanto passava pelo corredor, Filipe ouviu os gritos de Aurora e entrou correndo no quarto.

– Aurora! Aurora, meu amor! Acorde, é só um pesadelo! Acorde!

Aurora acordou em um sobressalto, assustada e tremendo.

– Está tudo bem, querida. Está tudo bem agora. – Disse Filipe abraçando-a. – Eu achei que isso tinha parado, achei que você estava conseguindo dormir normalmente de novo.

– Eu estava, mas agora parece que esses pesadelos voltaram. – Disse Aurora com a voz trêmula e ofegante.

– Então eu vou ficar aqui, te abraçando, até você pegar no sono novamente. – Filipe então deitou na cama junto a ela, confortando-a em seus braços.

Quando finalmente adormeceu Aurora sonhou de novo, mas dessa vez não era um pesadelo, dessa vez ela não estava presa em nenhum lugar que a amedrontava, dessa vez o seu sonho tinha levado-a ao passado.

– Por que você está com esse sorriso no rosto? O que aconteceu que você está tão feliz? – Indagou Mulan.

– Mulan, eu tenho uma ótima notícia! – O sorriso de Aurora parecia brilhar mais que nunca. – Eu estou grávida! Eu e Filipe vamos ter um bebê!

Essa notícia surpreendeu Mulan de tal forma que ela sentiu seus joelhos tremerem, como se quisessem ceder e desmoronar. Seu coração de repente desacelerou, toda a ansiedade e adrenalina que ela sentia quando estava perto de Aurora se esvaíram. Mas Mulan forçou um sorriso e disse com peso no coração:

– Isso é incrível, Aurora! Fico feliz por vocês.

– Obrigada! Mas você disse que tinha algo pra me falar. Vamos, diga! – Pediu Aurora ainda sorrindo.

– Eu vou me juntar ao bando do Robin Hood e estou partindo hoje. Vim aqui para me despedir. – Mulan forçava um sorriso para não parecer despedaçada.

– Hoje? Mas você não pode ir assim de repente, você não pode nos deixar agora. – O sorriso que Aurora tinha no rosto acabara de se desfazer.

– Eu preciso. Adeus, Aurora. Vou sentir saudades. – Mulan abraçou Aurora e naquele momento ela teve certeza que estava deixando o amor da sua vida para trás.

Aurora foi acordada por gritos e passos de pessoas correndo. Quando sentou na cama viu Filipe entrar pela porta do quarto com o desespero e medo estampados em seu rosto.

– Aurora, nós precisamos ir embora, agora! – Falou Filipe enquanto pegava uma bolsa e colocava algumas roupas dentro. – Pegue algumas roupas para você também, rápido!

Aurora pulou da cama e atendeu ao pedido do Príncipe sem questionar.

Quando chegaram ao lado de fora do castelo, onde se encontravam a família de Aurora e todos os criados, ela não conseguiu mais segurar a curiosidade e teve que perguntar:

– O que está acontecendo? Filipe, por que estamos saindo correndo do nosso castelo com a apenas um pouco de roupa, comida e armas?

– Alguns saqueadores estão vindo tomar o castelo. – Respondeu Filipe.

– Alguns? De acordo com o soldado que Robin Hood mandou, são pelo menos 500 saqueadores, por isso precisamos fugir, minha filha. Não temos homens o suficiente para lutar contra eles. – Interveio o Pai de Aurora.

– Espera, Robin Hood mandou um soldado para nos avisar sobre os saqueadores? Mas como ele sabia disso? – Aurora não conseguiu conter a ansiedade em sua voz. Se um soldado do bando veio avisá-los e já foi embora, isso podia significar que eles estavam por perto. Isso podia significar que sua amiga Mulan estava por perto.

– Segundo o soldado, esses saqueadores vêm espalhando o terror por todos os castelos que ainda estão habitados. Eles sempre vão em grande número para garantir a vitória. – Filipe agora falava com pressa, como se quisesse encerrar logo o assunto para que pudessem partir. Então, virando-se para as outras pessoas gritou: — Agora precisamos ir! Nós vamos para onde Robin Hood e seus soldados estão instalados, lá juntaremos forças com eles e se for preciso lutaremos lado a lado com todos os refugiados dos outros reinos.

Aurora não sabia ao certo se tinha ouvido bem. Eles estavam mesmo indo de encontro ao bando de Robin Hood, quer dizer, ela estava mesmo indo de encontro à Mulan? Seu castelo estava prestes a ser saqueado, ela e todas as pessoas que amava estavam abandonando seu lar para poderem se proteger. Mas Aurora estava prestes a rever Mulan, depois de três anos sem vê-la, elas iriam se encontrar novamente. Aurora se sentia egoísta por estar feliz com isso, mas não conseguia controlar o sentimento.

– Então vamos! Patrick, meu querido, é melhor você vir nessa carruagem com a mamãe. – Aurora acenou para seu pequeno filho, que saiu do lado de uma das criadas e foi para os braços da mãe.

Aurora estava acomodada junto ao corpo de Filipe, com o filho deles em seu colo, quando de súbito a carruagem parou. Ela nem teve tempo de processar o que poderia estar acontecendo até que gritos foram ouvidos.

– Tem alguma coisa acontecendo lá fora. Fique aqui com Patrick, eu já volto! – Ao dizer isso Filipe saiu correndo e Aurora não conseguiu ao menos tentar impedi-lo.

Os gritos e barulhos de espadas atingindo umas as outras continuavam. Depois de dois minutos Aurora não aguentou mais esperar.

– Patrick, meu amor, eu quero que você se cubra inteiro com essa coberta. Fique escondido aqui e não saia, nem abra a porta da carruagem para ninguém. Entendeu? – Aurora tinha as mãos no rosto do filho, com o coração apertado deu um beijo em sua testa.

– Entendi, mamãe. – Respondeu o garoto se escondendo embaixo das cobertas.

Ao sair da carruagem a cena quase fez Aurora gritar. Haviam dois corpos ensanguentados no chão e mais à frente estava ocorrendo uma luta onde Filipe, o pai de Aurora e um dos soldados do castelo tentavam proteger as carruagens de quatro homens que ela nunca havia visto.

Não era fácil ver o que exatamente estava acontecendo, mas Aurora conseguiu ver que Filipe sangrava, não parecia ser grave, mas ele estava machucado. O Rei e o soldado não pareciam ter sido atingidos, mas a exaustão era evidente em seus movimentos. No meio da confusão de espadas Aurora ouviu um grito, era seu pai, ele havia sido atingido no rosto pelo punho de uma espada. Ela saiu correndo para amparar o pai, sem pensar no que estava acontecendo ao seu redor.

Quando de repente aconteceu. Foi tudo tão rápido que Aurora só percebeu o que havia ocorrido quando viu Filipe golpear um dos inimigos no estômago com a espada e vir correndo na direção dela.

– Aurora, meu amor. O que você fez? Por que você veio se meter aqui no meio? – Disse Filipe com os olhos cheios de preocupação.

– Meu pai... Eles atingiram o meu pai... Preciso ver como ele está... – A voz de Aurora saia com dificuldade, mas ela não sabia ao certo por que. Foi então que sentiu uma pontada do lado esquerdo de seu corpo, direcionou os olhos para aquele ponto e viu que estava sangrando. – Filipe, eu... Eu fui... Atingida? – Agora ela começava a ficar zonza.

– Sim, meu amor, você chegou perto demais e te atingiram. Agora eu preciso que você fique em silêncio, para não gastar suas energias. Nós vamos te tirar daqui.

Do lado direito de sua visão seu pai já estava recuperado e havia derrubado dois inimigos, agora estava ajudando o soldado a derrubar o terceiro.

Eles entraram na carruagem, Filipe colocou-a onde o filho deles estava escondido antes.

– Nós conseguimos matá-los. Vamos embora, ela precisa de cuidados, agora! – Disse o pai de Aurora ao colocar a cabeça para dentro da carruagem. Ele tinha um dos supercílios cortado e estava sangrando muito. Mas Aurora estava zonza demais para conseguir se preocupar.

– Certo, meu amor. Nós estamos retomando o caminho para o acampamento do Robin Hood, ao chegar lá vamos cuidar de você. – Os olhos de Filipe estavam começando a se encherem de lágrimas.

– Quem eram... Quem eram aqueles homens? – Apesar do esforço para falar, Aurora precisava saber.

– Eram só alguns inimigos do Robin Hood e seu bando. De alguma forma eles ficaram sabendo que estamos indo nos encontrar com eles. Mas agora está tudo bem. Você vai ficar bem.

Dito isso Filipe ordenou que partissem. A carruagem deu um tranco e seguiu a viagem, junto com outras três carruagens, onde duas eram guiadas agora por criadas, pois seus condutores haviam sido mortos.