Unforgivable
21 Warrior
Notas iniciais
Francis encara aquela praça. Gira sobre os calcanhares, examinando, alarmado.
– Não posso deixar isso acontecer com meus irmãos — ele fala. — Olhe isso! Toda a imprensa está aqui.
Katerina analisa as pessoas amontoadas, falando diferentes idiomas, as câmeras estrangeiras...
– O mundo está aqui — ela sussurra em meio à confusão. — Todos querem a confissão.
– Isso não é certo. Eu preciso impedir.
Katerina segura o braço dele.
– Francis, eles vão te matar.
– E eu devo simplesmente deixar meus irmãos serem espancados em praça pública? Kat, eu não posso. Eles são sangue do meu sangue.
– Eles estão perdidos, Francis. Seu tio o deixou ir embora. Vamos antes que seja tarde, por favor.
Francis vira para ela, indignado. Katerina nunca faria algo como aquilo, nunca diria palavras tão absurdas. Ele não podia simplesmente admitir, não conseguia nem deixar de se sentir ofendido só por ela pensar naquilo. Ele nunca deixaria o sangue do seu sangue para trás.
– Eu não pedi para você vir — ele rosna. — Você veio por livre e espontânea vontade e se quer ir embora, pode ir. Não estou a prendendo aqui, mas eu não vou embora sem eles.
– E o que você pretende? Matar todos os carrascos, resgatar seus irmãos e sair por aí voando com o seu topete de herói, tudo isso enquanto o mundo o assiste?
– Se fosse Hana e Michael lá, você deixaria seus irmãos para trás?
Katerina parece finalmente compreender a profundidade da situação. É claro que ela nunca deixaria Hana ou Michael. Ela nunca deixaria alguém importante para ela e sabia que Francis pensava da mesma maneira. A ruiva não conseguia compreender porque havia falado aquelas coisas.
– Eu já perdi muita coisa e muitas pessoas — ela fala, soltando o braço dele. — Eu só não quero perder você.
– E você não vai — ele se aproxima e a beija devagar. — Eu te amo, Kat, mas a minha família precisa de mim — ela assente, ainda de olhos fechados. — Se algo der errado, fuja.
– Eu vou estar aqui — ela murmura — esperando por você.
+++
Rebekah observa tudo pela televisão. Ela liberou alguns guardas do palácio para a patrulha da cidade, em busca de bombas escondidas e outras armas. Ela também havia cancelado uma reunião com o rei e a rainha da Alemanha, remarcada para amanhã. Hoje era dia de castigo e ela lamentava não ter sido informada antes para assistir tudo pessoalmente. Havia pedido as criadas para prepararam muitas porcarias para ela e se jogou no sofá de uma das salas de estar há muito tempo não usada.
A rainha Rebekah saboreava um pote de pipoca salgada enquanto a repórter falava sobre os acusados.
– Hector e Alison Kionbach, filhos do falecido rei Jean-Pierre Kionbach e da também falecida princesa da França e rainha ao lado do marido em Altulle, Alícia Kionbach, são acusados de incesto.
Rebekah quase se afoga enquanto ri.
– Uma semana atrás, o Conselho pegou todo o mundo de surpresa ao mandar executar seu rei Regente Jean-Pierre. Seu herdeiro Francis Kionbach ainda continua desaparecido, mas é procurado por vários países aliados para prestar esclarecimento. Hoje pela manhã, o Conselho anunciou o motivo da execução de Jean-Pierre: ele estava ciente do crime dos filhos e não fez nada. Quem daria o exemplo ao país se não o seu próprio rei, não é mesmo? Agora a tarde, em poucos minutos, começará uma cerimônia para a confissão dos irmãos, para em alguns dias a execução ser planejada.
Rebekah solta um riso estridente, recheado de felicidade.
– O dia está maravilhoso, não é mesmo? — ela pergunta a uma das criadas, que apenas assente. — Fale algo, idiota. É para isso que eu te pago.
– Sim, Majestade. O dia realmente está maravilhoso.
– Sim — Rebekah concorda. — Digno da minha beleza. Poderia dar um passeio pelo jantar se não estivesse tão ansiosa para as chibatadas nos Kionbach.
– Isso irá refletir não só no continente Manske, mas também na Europa — o Primeiro Conselheiro adentra a sala silenciosamente. — Fique consciente, minha rainha, de que essa é uma perfeita hora para fazer um anúncio.
– E o que eu deveria dizer?
– Que apoia o novo rei, Henry, é claro. Que sua linhagem é pura.
– Pura? O sangue que corre nas veias de Henry é o mesmo que corre nas veias daqueles incestuosos nojentos. Henry não serve para ser rei, engravidou uma vagabunda do bordel daquele irmão dele, vai ter um bastardo! Bem feito para Claire e sua horda Hallaya. Que todos queimem no inferno! — ela berra o final. — Falando em queimar, como vão nossos prisioneiros?
– Queimamos vinte, Majestade, como ordenou. Executamos cinquenta na forca.
– Excelente. Quero todos esses traidores mortos.
– Você não tem certeza se eles realmente são traidores, minha filha — Ivna aparece. — Eles não foram interrogados, apenas presos e logo executados.
– Se foram presos é porque há um motivo, minha mãe, e qualquer um que seja suspeito de traição não é digno de pisar no meu país.
Ivna suspira. Que monstro ela havia criado? Cada dia mais pessoas eram executadas porque Rebekah achava que todos eram traidores. Ela não confiava em sua própria sombra, quem dirá na mãe. Mal a ouve. Vive trancada com os Conselheiros, tomando atitudes imprudentes e impensadas enquanto aqueles velhos fazem uma lavagem cerebral nela.
– Rebekah, minha querida, não acho certo matar suspeitos. Quantas vezes pessoas suspeitas são inocentes e as que menos desconfiamos são as verdadeiras culpadas?
– Você anda assistindo televisão demais, mãe. Espero que nos próximos dias se junte a mim e aos Conselheiros na Sala do Trono para usar mais o cérebro.
Ivna treme diante de tamanha afronta.
– Eu sou sua mãe, Rebekah. Eu sei o que é melhor para você.
– O melhor para mim é reinar em paz.
– Você se esquece quem a colocou aonde está? — Ivna rosna, furiosa e magoada. — Tudo que eu fiz nessa vida foi por você, ingrata! Seu pai está lá na Rússia curtindo a vida de czar, enchendo a pança de comida e vinho enquanto finge que reina. E eu? Eu sou uma otária porque estou aqui tentando te ajudar quando todos viraram as costas.
– Eu acho melhor eu me retirar... — o Primeiro Conselheiro foi se esquivando, mas Ivna fez sinal para ele ficar.
– Rebekah confia em você, não é mesmo? Talvez seja melhor eu me retirar — ela encara a filha com ressentimento. — Para sempre. Seu pai e Michael já se foram, agora é a minha vez.
– Pode ir — a morena dá de ombros. — Não me fará diferença.
– Fará sim quando você acabar louca e sozinha.
Aquelas palavras ecoaram na cabeça de Rebekah por muito tempo. Louca e sozinha.
+++
Francis não sabe o que fazer. Perdeu Katerina no meio do tumulto e seus irmãos entraram na praça, fazendo o amontoado de gente aumentar o fluxo na frente, o empurrando. Ele estava perdido em meio a confusão enquanto Hector e Alison eram amarrados em troncos, ambos de roupas cinzas, ele com uma calça e um casaco de moletom, ela com um vestido velho e usado. A aparência do rosto era pior. Hector mal abria o olho esquerdo de tanto apanhar e a boca de Alison sangrava, o corpo de ambos cheio de hematomas arroxeados e cortes à faca. Aquilo o doía na alma.
Um homem perguntava e mais dois, um ao lado de Hector outro do lado de Alison, os castigavam quando eles não respondiam nada. Os irmãos de Francis, ambos amarrados no tronco, tiveram partes de sua roupa arrancada. Hector estava tremendo de frio quando sua jaqueta foi jogada de lado, enquanto o vestido de Alison foi rasgado nas costas, apenas para deixar a pele branca à mostra para o público quando aconteceu.
A primeira chibatada acertou as costas de Alison, que urrou de dor. O homem perguntava, sem dar tempo deles negarem ou fazer qualquer outra coisa. Cinco, seis, sete, oito. Oito chibatadas nas costas de Alison, uma atrás de outra. Hector não havia recebido nenhuma, mas chorava ao ver a dor da amada, que por um infortúnio da vida veio a ser sua irmã.
Dessa vez, chibatadas acertaram Hector, que sentiu a dor de Alison. Era como uma espada recém forjada, pelando de quente, o furasse repetidas vezes. Essa era a dor do chicote. Suas mãos atadas no tronco por uma corda grossa que pinicava, seu corpo entregue à dor, ele não conseguia se manter de joelhos, seu corpo cedia, mas os homens o juntavam, o faziam ficar de joelhos, seu pulso sendo rasgado contra a corda.
Ao olhar para o lado, seus olhos encontraram a imensidão que era o mar dos olhos de Alison, um mar que costumava ser revolto, hoje recuado de medo. Ela estava tremendo, seus olhos quase cedendo. Ele sabia que não podia confessar: se o fizesse, executariam os dois no ato, mas enquanto mais retardava a morte, mais Alison sofria. Ele não se importava com a própria vida, era uma bosta, queria apenas que Alison ficasse viva.
Eu te amo, ele sussurrou sem fazer barulho algum e mesmo em meio à confusão, ele conseguiu a ver sorrir. Uma última vez, pensou.
Quando a chibata encontrou as costas de Alison novamente, ela tinha os olhos fechados, o corpo mole. Inconsciente ou provavelmente morta, Deus queira que seja a segunda opção, assim ela sofreria menos.
Porém os homens não ligavam. Continuavam açoitando Alison. Ele não podia admitir tamanha afronta, tamanha desumanidade com ela. Não deixaria que maculassem seu corpo diante dele, não mesmo.
– Parem! — ele junta todas as forças que tem para berrar. — Alison nunca fez nada — ele sussurra para o homem que os interrogava. — Eu fiz tudo. Durante todos esses anos, eu fiz tudo.
– Quando um não quer, dois não ficam, Hector.
– Você não está entendendo — ele sibila. — Eu a estuprava.
Aquelas palavras o doeram e o chocaram mais do que a qualquer outra pessoa. Ninguém sabia a dor que dentro dele ao dizer aquelas palavras, negando qualquer amor entre ele e Alison, mas era a única maneira de mantê-la viva, se ela ainda estivesse. A onda de flashes quase o cegou naquele momento e em meio a confusão ele sentiu mais uma chibatada contra suas costas.
– Hector Kionbach, você está condenado à morte. Por deixar sua irmã apanhar até a inconsciência e por ser estupro contra alguém da Família Real, o condenarei a morte por chibatadas.
Não, ele pensa. Não pode ser.
Todas as mortes eram rápidas e indolores. Decapitação, mesmo o pelotão de fuzilamento, a primeira bala acertava a cabeça e a pessoa já se encontrava morta, mas apanhar até a morte é cruel, até mesmo para ele.
Ele fecha os olhos quando a chibata encontra suas costas novamente e morde os lábios até sentir o gosto de sangue, sem gritar dessa vez. É então em meio a confusão que ele o vê. Francis. Francis, que está escalando a cerca de arame que separa o público deles.
– Parem! — ele berra. — Parem, em nome da linhagem Kionbach, eu ordeno que parem!
Ele nunca viu o irmão daquela maneira. O rosto vermelho, expressão transtornada, o rosto com fuligem e sangue, cabelos loiros emaranhados.
– E quem é você, jovem insolente? — o inquisidor pergunta.
– Eu sou Francis Kionbach, o verdadeiro herdeiro de Altulle e assumindo esse posto eu ordeno que parem com essa merda agora!
Hector queria sorrir naquele momento, mas não conseguia, sua expressão estava transtornada demais para isso, a dor não permitia. Esse era o Francis que ele sempre imaginou que seria o futuro do país. Aquele que nasceu para comandar. Um verdadeiro guerreiro. Francis finalmente havia se tornado alguém.
Quando Francis vem até ele, desamarrando as cordas, deixando seus pulsos expostos em carne viva, ele tenta segurá-lo, mas Hector o puxa para baixo, para junto de si.
– Eu teria seguido você — o loiro fala com a voz trêmula, os dedos ensanguentados tocando o rosto de Francis. — Meu irmão, meu capitão, meu rei.
Tudo o que Hector vê é sangue diante dos seus olhos quando tudo desaparece, suas palavras para Francis ecoando em seus ouvidos.
Eu teria seguido você, ele pensa novamente. Meu irmão, meu rei.
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