Unforgivable

22 Life and Death


Notas iniciais
Muito sofrimento no capítulo passado? Desculpem pela demora. Anyway, estou aqui de chata cobrando comentários. Sim, de novo. É chato? É sim. É terrível? Também. Mas de que adianta várias pessoas acompanharem se nenhuma comenta? Como eu vou saber se vocês estão gostando ou não? Quais casais shippam, quais pessoas odeiam e o que esperam para os próximos capítulos. Muitas vezes coisas que eu já tenho planejado podem mudar e isso só depende de vocês. Um comentário, uma recomendação, favorites... isso faz um autor muito feliz. Obrigada (se é que alguém leu essa coisa enorme). Agora vamos ao que realmente interessa: BOA LEITURA.

Francis encara o irmão dormindo no sofá do galpão. Não era um lugar confortável, não mesmo, mas era tudo o que eles conseguiram arranjar. Algumas pessoas sempre permanecem leais aos seus verdadeiros reis, afinal.

Depois do choque inicial das pessoas pela aparição dele e do discurso de "eu sou o rei e eu mando na porra toda", Francis conseguiu libertar os irmãos. Os Conselheiros apareceram e insistiram para que Hector e Alison fossem executados.

– Ela poderia tê-lo denunciado — um deles insiste. — Ela teria proteção e ainda assim não o fez. Devia ter pensamentos profanos com seu irmão de sangue. Vai saber se ela não gostava?

Francis achou aquilo tudo absurdo. Mesmo que Alison tivesse sido estuprada, o que não foi o caso, ela teria medo de denunciar. Muitas mulheres teriam. E quem é que gostaria de passar por tal atrocidade?

Porém algumas pessoas insistiram que Alison era vítima de estupro e que não merecia a morte, mas que apenas Hector deveria morrer. Uma confusão foi armada. Pessoas invadiam o palco improvisado na praça, pulando a cerca. Os carrascos ligaram a cerca e ela começou a afastar os que estavam do lado de fora, dando choques em quem quer que tentasse pular. Porém havia muitos lá dentro e a bagunça já havia começado. Francis aproveitou o alvoroço para ir embora.

Katerina estava o esperando dentro de uma van de jornalismo. Altulle Post, era o nome. Ele percebe naquele momento que, mesmo estando naquela situação desesperadora, conseguia rir.

– Desde quando você sabe dirigir?

– Não sei. Piloto automático, GPS...

– Salvos pela tecnologia.

Com esse comentário final, Francis coloca Hector na parte de trás da van. Alison havia acordado e o ajudava a empurrar o irmão, que sangrava muito.

A polícia os perseguiu, mas Katerina e o GPS milagroso os despistaram. Eles encontraram um soldado aposentado muito amigo de Jean-Pierre que cedeu o galpão nos fundos de seu terreno para eles. Não era muito confortável, mas era espaçoso o suficiente para eles ficarem até planejaram algo. E não podiam ficar muito, é claro. Não conheciam o homem bem o suficiente para afirmar que era confiável e mesmo que conhecesse, as maiores traições vem das pessoas mais próximas de nós.

Havia duas camas de solteiro e um sofá pequeno, uma televisão pequena e de tela fina, bem antiga. Atualmente as televisões são todas feitas em hologramas. Um pequeno armário com comida e uma geladeira quase vazia. Havia outro armário, esse para guardar roupas, de madeira velha e com poeira que se encontrava no canto do cômodo e logo ali perto tinha uma enorme mesa de madeira com dois bancos, pia, tanque, um pequeno fogão cooktop... Hoje em dia nem boca os fogões tem.

Francis deu risada da situação. Ele era um rei e Katerina era uma rainha. Hector e Alison estavam na linha de sucessão logo depois dele. Eles nunca saberiam lavar alguma coisa, muito menos cozinhar. E, bom, seus irmãos eram fugitivos, o que fez com que ele se tornasse um também. Katerina está morta. Bom, tecnicamente. Eles não podiam sair por aí comprar roupa e comida. E com que dinheiro? Ele trouxe o suficiente para a viagem, mas não era o bastante para quatro pessoas sobreviverem nem por uma semana. Ainda mais quatro pessoas acostumadas a comer do bom e do melhor e viver no extremo luxo.

Francis nunca se preocupou com o que aconteceria se algum dia o dinheiro parasse de fluir. Sempre que precisava, ia a um caixa eletrônico e retirava da sua conta. Sempre estava cheia, algumas vezes mais do que outras, mas sempre com muito dinheiro. Em qualquer lugar do mundo que estivesse havia caixa eletrônico, então sempre que quisesse ele simplesmente pegava.

É olhando para a situação atual que ele começa a dar valor a vida que tinha.

Katerina liga a pequena televisão enquanto Alison coloca Hector em uma das camas. Francis ajeita alguns cobertores para o irmão, que não se mexe, mas que está com a respiração estável.

– Ele está vivo — fala, apenas para reconfortar a irmão. Ele não sabe se é suficiente, mas ela assente e então olha para as próprias mãos. O sangue de Hector está seco, grudado e impregnado nela, misturado ao seu. Suas mãos começam a tremer. Francis não sabe o que dizer e olha ao redor, mas Katerina não está lá.

Então ele abraça Alison. As lágrimas dela escorrem naquele momento, como se estivessem aprisionadas por tempo demais. Soluços baixos saem da sua garganta e ele não diz nada, apenas a manteve ali, em seus braços. Ela estava desacordada quando aconteceu, não sabia o que Hector havia feito por ela. Ele sabia que precisava contar. Quando suas mãos tocaram as costas da irmã, ela recua com um gemido de dor. Ele a afasta e a encara.

Ele puxou Alison devagar até a mesa de madeira e a sentou em um dos bancos, sentando na sua frente. Ele segurou as mãos da irmã. Não sabia como lidar com aquela situação. Os três deviam se amar como irmãos, não deveria ter algo a mais ali. Não sabia o que dizer, mas não podia falar que desaprovava e desprezava os dois em uma situação como aquela, mas sentia que se aprovasse, mesmo que algo dentro dele dissesse para fazê-lo pela felicidade dos irmãos, estaria traindo a sua linhagem e seus princípios. O que Hector havia feito, porém, fora uma prova de que era muito mais do que Francis sempre pensou que era e isso era algo que não poderia ser ignorado.

– Hector fez algo por você — ele começa. — Eles iriam matá-la. Vocês dois. Você estava desacordada. Então ele disse...

Francis não consegue continuar. Os olhos de Alison o falam para prosseguir, mas ele sente que não é algo seu para contar. Ele não tem esse direito. Deveria esperar Hector acordar e contar. Mas talvez ele não acorde tão cedo, e Alison precisa saber. Precisa saber porque se ela vai desistir, precisa saber que, por pior que seja a situação e por pior que as coisas estejam, então ela deve tomar essa decisão, de continuar com ele ou não, sabendo que ele a amava de tal forma que daria seu orgulho, sua integridade e sua vida por ela.

– O que ele disse?

– Ele falou para o Inquisidor que você não tinha culpa de nada, então eles decidiram matar somente à ele. Foi quando eu cheguei.

– Como ele convenceu aquele homem? Nós negamos tudo tantas vezes... Ele não pode simplesmente ter dito e o velho ter cedido.

– Ele... ele falou que você nunca quis nada, que a culpa era dele. Toda a culpa era completa e unicamente dele. Ele disse que você nunca fez nada, pelo menos não por vontade própria.

– Mas, eu não consigo entend...

Francis não aguentava mais guardar aquilo para si. Parecia que ia explodir a qualquer momento. Ele sabia que se culparia para sempre por ter jogado aquilo daquele jeito, mas era necessário:

– Hector disse ao Inquisidor que ele a estuprava.

Alison trava. Seus olhos se enchem de lágrimas novamente. Ela olha para Hector, desacordado, no sofá, e chora.

– Ele não pode ter feito isso — ela balança a cabeça — ele... ele não fez isso.

Francis segura as mãos da irmã. Sentia que precisava estar em contato com ela naquela hora difícil, mas não podia abraçá-la por causa das suas costas. Sentia que não podia ficar calado naquele momento e decidiu que faria o que seu coração estava mandando, ignoraria completamente a sua consciência, abandonaria a razão. Poderia se culpar o resto da vida por ter dito tais palavras, mas naquele momento Alison e Hector eram apenas uma mulher e um homem que se amavam e não podiam ficar juntos por qualquer outro motivo, não pelo fato de que tinham o mesmo sangue.

– E isso foi uma prova — ele fala. — Ele provou não só para você, mas para mim também.

Alison não diz nada, apenas olha para o irmão mais velho.

– Eu sempre achei que o quer que vocês tinham era errado, repulsivo. Mas hoje eu entendi. Quando eu vi os olhares que vocês trocaram diante da morte, do sacrifício que ele fez, mentindo para todos sobre o relacionamento de vocês para te salvar... eu percebi que era mais do que a sede pelo proibido. Eu percebi que Hector a ama, Alis, e que ele não tem medo de morrer por esse amor.

Lágrimas jorram dos olhos de Alison como em uma fonte e ela não tenta esconder. Sabe que não é preciso. Finalmente alguém a entende. Ela ente que o irmão estava sendo verdadeiro e que era difícil para ele admitir aquilo, mas que ele disse. Ele cedeu. E ela sabia que também era a sua hora de ceder:

– Eu o amo tanto, Francis. Você não faz ideia do quanto. Eu amo tanto Hector que chega a doer. Minha respiração sai dolorida quando estou perto dele e eu sinto cada músculo do meu corpo contraindo quando ele se aproxima — ela suspira. — É tóxico, eu sei. É impossível, horrível, repugnante... nós sabemos disso, a diferença é que não ligamos. Eu só queria ser feliz com o homem que eu amo, sabe, mas parece que o Universo conspira contra nós.

Ela tenta limpar os olhos, mas o irmão não solta suas mãos.

– Eu tentava procurar uma saída, mas eu nunca encontrei um homem como Hec — ela conta. — Então eu comecei a procurar mulheres. Procurei em todos os lugares, em todas as pessoas, mas não achei. Eu não podia negar, entende? Eu não podia negar que toda vez que ele me abraçava, eu sentia calafrios, desde pequena. Que quando alguma garota se jogava para cima, eu morria de ódio. Tentei me convencer que era ciúme de irmã, mas no fundo eu sabia que não era. Então Hec confirmou que sentia o mesmo e tudo despertou. Eu sentia que não podia mais esconder isso, que eu tinha com quem compartilhar meus segredos mais terríveis, porque nós dois mantínhamos um segredo obscuro. Eu sentia que ele sente estaria por perto, porque realmente estaria, que ele nunca me abandonaria, como tantas outras pessoas fizeram. Eu sentia que tinha um porto seguro só para mim e que ninguém precisava ficar sabendo. Hec me entendia, me amava e não me prendia. Bem sabemos como os Kionbach prezam por sua liberdade. Éramos tão livres, mesmo quando estávamos escondidos — ela sente mais lágrimas chegando. — Nós demos o azar de nascer na mesma família, de termos o mesmo sangue, mas nós nos amamos tão verdadeiramente que o resto do mundo não importa.

Francis assente. Não sabe o que dizer diante daquilo. Alison realmente ama Hector, assim como ele a ama. O mais velho percebeu que não importava quantas chibatadas eles levaram, não importava o julgamento alheio, o tempo que levasse, ele sabia que eles se amariam para o resto da vida e até depois dela. Ele sabia que um amor daquele jeito só acontecia uma vez na vida, por mais que você tentasse. Era o mesmo que ele sentia por Katerina. Não podia negar a chance de felicidade para os seus irmãos.

Seus pais estão mortos. Seu tio o traiu para pegar seu trono e nada fez para reverter a situação, ou simplesmente para que seus sobrinhos não fossem chicoteados. Ele tinha Katerina, sabia disso. Sempre a teria, mesmo quando ela estava longe fisicamente, estava em seu pensamento. Acontece que ele precisava de seus parentes de sangue perto dele e as únicas pessoas em que ele confia que tem o mesmo sobrenome que ele são seus irmãos. E ele os entendia. Queria ser feliz com Katerina e tantas pessoas os impediram, mas ali estavam eles. Juntos. Tantos meses depois, mesmo pensando que nunca mais daria certo.

A porta sendo aberta interfere seus pensamentos. Katerina então aparece, abrindo a porta do galpão com um sorriso no rosto e os cabelos tingidos temporariamente de pretos molhados e já voltando a serem ruivos.

– Está nevando.

+++

Rebekah olha para o homem diante de si.

– Você foi acusado do quê?

– Roubo — um dos soldados responde.

– Deixe o homem falar, estrupício — ela o repreende. — Levem esse homem para as masmorras por desobediência à Coroa.

Enquanto alguns soldados arrastam o outro para fora da Sala do Trono, ela vira-se para o homem sujo de joelhos diante dela.

– O que você fez?

– Eu roubei, Majestade.

– Por quê?

– Minha família estava com fome. O meu salário como mineiro não é o suficiente...

– Está dizendo que o que eu pago não é bom o bastante?

– Nunca, Majestade. É que somos em muitos para comer e poucos para trabalhar...

– Pode ir, mas não roube mais.

O soldado que havia trazido o homem até ali a encara, incrédulo.

– Mas ele quebrou uma sessão inteira de frutas! Machucou pessoas ao fugir. Destruiu bens privados e públicos.

– Eu sou a rainha, eu decido quem é ladrão e quem não é.

Rebekah caminha até o canto do salão. Estava nevando lá fora e as tochas dentro da sala a aqueciam.

Sentiria frio não só no corpo por esse ato, mas também no coração.

Ela joga a tocha da direita no soldado que a questionou e em questão de segundos ele pegou fogo. Ela riu de prazer em meio aos guinchos de dor dele, enquanto os presentes sussurravam de horror, o que só a fazia rir mais ainda.

Ela olha para o ladrão.

– Você está livre para ir, mas se algum dia me aparecer aqui de novo, vai ter o mesmo fim desse desgraçado.

Ivna aparece no salão logo após o podre ter saído aos tropeços. Rebekah dispensa os guardas e fala para a mãe se aproximar.

– Eu estou indo embora.

– Seja feliz naquele mausoléu que seu pai chamava de palácio.

– Bekah, não se finja de forte.

– Eu sou forte.

– Estou voltando para a Rússia. Seu pai deve estar se esbaldando com prostitutas e festas as custas do meu povo.

– E agora você se importa com os russos?

Ivna fica em silêncio por pouco tempo.

– Meu pior erro foi ter a colocado nesse trono, mas pode ter certeza que irei repará-lo.

Rebekah se levanta, furiosa.

– Quem você pensa que é?

– Além de czarina da Rússia, rainha dos Países Eslavos e Senhora de Frömming? Sou sua mãe. E a sua mãe está falando que você será deposta. Acredite em mim, você não estará nesse trono no final desse ano.

+++

Henry assente diante das informações. Entrega uma mala prateada de dinheiro para o homem.

– Cuide bem dos meus sobrinhos, Hawthorne.

– Eles estão no galpão da minha casa. Eu os abriguei e disse que era conhecido de Jean-Pierre, como ordenou, Majestade.

Henry faz que não com a cabeça diante da palavra.

– Francis é o rei. Eu serei apenas um Regente até ele voltar.

– O senhor é muito justo, Regente.

– Eu não me importo com o que os meus sobrinhos fazem, se são ou não incestuosos ou coisas do tipo. A única coisa com que me importo é que estejam vivos.

O homem assente e vai embora. Henry ouve um barulho e então olha para trás, dando de cara com Claire.

– Hum, você estava aí.

– E você está abrigando seus sobrinhos em algum lugar?

Se ela perguntou, é porque ouviu. Porém ainda não sabia de nada e nem ficaria sabendo. Não havia porque negar.

Ele dá de ombros.

– Não é da sua conta.

– Então você está — ela sorri, se colocando na frente de Henry.

– Eu não vou contar, não adianta.

Claire o puxa para um quarto ali perto e tranca a porta, o jogando na cama. Henry percebe que é o quarto de uma das prostitutas que ele mantinha no palácio. Claire nunca foi o tipo de mulher que gostasse da coisa. Na noite de núpcias deles em que todos assistiram, ela ficou com cara de poucos amigos enquanto ele a adentrava.

Ela amarra as mãos do marido na cabeceira da cama com algemas de plástico e senta no colo dele depois de deixá-lo apenas com roupas íntimas.

– Você vai contar, por bem ou por mal.

Claire o beija com ferocidade enquanto passeia com suas mãos pelo corpo dele. Ela começa a se despir, deixando o vestido cair suavemente pelo corpo. Ela passa seus dedos pelo corpo dele, o fazendo enlouquecer. Henry está com as mãos atadas, não pode tocá-la e isso o deixa apenas com mais vontade.

– Me diga, Henry — ela sussurra em seu ouvido enquanto a mordisca. — Onde estão seus sobrinhos?

Ele nega com a cabeça, um suspiro preso na garganta.

Claire pressiona o quadril contra Henry e arranca um gemido dele. Ela tira qualquer outra roupa que os separe e fica pronta para lhe dar o que ele quer, mas então sorri travessamente.

– Onde eles estão, Henry?

Ele não aguentava mais. Sentia todo o seu corpo latejando de desejo. Não conseguia mais se segurar. Queria estar dentro daquela mulher nesse exato momento e desejou ter suas mãos soltas para poder tocar cada canto daquele corpo que ele nunca se interessou em explorar completamente. Queria virá-la do avesso, quebrar todo aquele quarto e nunca mais sair dali.

– Em um galpão, na casa do cabo Hawthorne — ele faz força e consegue jogar as algemas de plástico para longe. Ele nem liga para a dor nos pulsos, porque assim que as teve livres, pregou seus dedos no quadril de Claire e a empurrou para baixo, adentrando. Ele sorri de alívio quando Claire continua os movimentos.

Sabia que Claire estava o usando, por isso assim que terminasse, avisaria Hawthorne e os sobrinhos, mas agora nada além dela importava.

+++

Melanie ajeita os cabelos em um rabo de cavalo. Josh a encara, curioso.

– Você realmente quer fazer isso?

– Eu não nasci para ficar presa no subterrâneo, J. Você sabe. Eu quero ir para o campo, eu quero ação. Eu quero lutar.

Ele sorri para ela e a abraça.

– É por isso que eu te amo.

Ela o beija devagar, desfrutando daquele momento, e logo termina de arrumar as malas. Quando os dois saem do alojamento, dão de cara com Valentina.

– Onde vocês pensam que vão?

– Eu já disse: vou atrás de Katerina.

– Ela não é sua irmã! — Valentina se irrita.

– Não me importa. Ela vai ganhar a guerra e eu estarei do lado dela para derrotar Vincent.

A mãe de Melanie respira fundo.

– Katerina morreu e voltou à vida. Ela precisa de acompanhamento médico, ela precisa de Carrick. Ele é o único que pode ajudá-la. Só ele sabe como curá-la desse mal.

– Mal?

– Carrick já trouxe dois homens de volta à vida: Vincent e Joffrey — a morena conta. — Você sabe o que eles tem em comum...

– São psicopatas — Melanie completa.

– Todos dizem que Joffrey era bom antes de Harriet. O casamento dela com Kurt o mudou, não o renascimento — Josh interfere. — E, se for o caso, estaremos lá para vigiar Katerina. A alertar, se preciso.

– Vincent levou um tiro durante uma rebelião e Carrick o trouxe de volta. Joffrey sofreu um acidente de carro logo após o casamento e ficou em coma e Carrick o fez acordar. Ele renasceu, de certa forma. Os dois o fizeram. E agora Katerina... ela se matou por causa do veneno e Carrick também a trouxe de volta. Ela estava louca e ele conseguiu concertar isso. Porém há um mal no renascimento. Vocês realmente acham que ela vai sair imune a essa maldição sendo que o pai dela também a adquiriu?

– Maldição — Melanie sussurra. — Você fala como se ganhar uma segunda chance fosse algo ruim...

– Nenhum deles ganhou uma segunda chance — Valentina rosna. — Não foi natural, foi induzido. Carrick não é Deus, mas usa o poder dos Antigos.

– Como é que é? — Melanie indaga.

– Você lembra de Veronica Herzog e do seu bando de seguidores fanáticos? Então... eles acreditam em deuses, como você já sabe, e Carrick tem pacto com esses deuses.

Melanie solta uma risada estridente.

– Deuses? Mãe, isso é ridículo! Carrick, pacto com deuses? Ele sempre foi ateu.

– Ele faz oferendas, Melanie. Eu já vi! Ele pede dádivas aos Cinco e eles dão a ele o poder de trazer pessoas de volta à vida em troca de sacrifícios.

Melanie não fala nada e Josh se sente inquieto. Sabia que ela estava nervosa por dentro, mas por fora ela aparentava apenas desprezo. Isso o preocupava às vezes. A morena guardava tudo para si durante muito tempo e sempre explodia nas horas erradas.

– Uma vida é importante demais para ser trocada por qualquer outra coisa. Se alguém quer trazer outra pessoa de volta, os deuses só atendem se for uma vida que fará algo de diferente no futuro, se terá um papel nisso tudo — Valentina abre o jogo. — Porém há consequências.

– Você parece saber muito sobre esses tais deuses — a morena resmunga.

– Que tipo de sacrifícios são esses?

Valentina está com os olhos arregalados. Não de medo, mas de ansiedade. Ela está tensa, tanto que suas mãos tremem quando ela o puxa para mais perto, para sussurrar:

– Não é óbvio? Uma vida deve ser trocada por outras. Para um renascer, outros cem tem que morrer — ela olha para Melanie quando revela. — Carrick faz sacrifícios humanos.

+++

– Quando ele vai acordar? — Alison questiona.

Francis suspira.

– Vamos ter que esperar.

– Joffrey se comunicou — ela conta. — Ele mandou Hugh, então sei que é realmente ele. Ivna está voltando para a Rússia, então teremos que ficar aqui por algum tempo, mas ele falou que Andrew está aprendendo a liderar.

– Como alguém aprende isso? — a loira questiona. — É algo com que você nasce.

– Joffrey Archiberz acha que pode ensinar todo mundo a fazer o que lhe traz vantagens.

Katerina sente uma pontada no peito seguida pela vontade de defender o pai. Certa vez ela tentou ficar com raiva de Joffrey, mas não conseguia, por mais que se esforçasse. E naquela época ela ainda pensava que ele era seu tio. O sangue sempre acaba falando mais alto.

Ela sai de fininho enquanto Francis e Alison conversam sobre Altulle. Não sabia se conseguiria suportar essa vida por muito tempo.

+++

Fleur encara Heron.

– Isso é ridículo. Ela é uma criada qualquer. Ela não merece ser rainha de Hahle.

– E quem merece? Você? — ele dá risada. — Você é uma sociopata, Fleur. Frömming vai resistir aos seus ataques, todos sabemos disso.

Ela rosna algo e ele ignora.

– O casamento será no fim do mês antes que a barriga de Anne comece a crescer.

– Nossa mãe sabe dessa insanidade?

– Sabe e não só concordou, como aprovou.

Fleur sente a pressão abaixar.

– Ela concordou? — indaga, horrorizada. — Então você pode casar com uma das criadas mais rodadas do país inimigo e eu não posso sequer namorar um nobre que eu amava?

– Amava? — o irmão mais velho questiona. — E você lá sabe amar?

Fleur retira a arma do cinto e pressiona o cano contra a testa do irmão, que ergue as mãos em sinal de rendição e recua até a parede.

– Você sabe que eu amei apenas duas pessoas em toda a minha vida, Hen — ela sussurra, lágrimas ameaçando a cair. — Um deles morreu porque eu fui estúpida demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse meu desejo e o outro morreu porque uma maluca, que por acaso era a mulher com quem ele dividia a cama, atirou nele na frente de todo mundo, inclusive na minha.

– John — ele murmura, surpreso. — Eu... eu não sabia. Mas... quem é o outro?

Ela se lembra de como tudo era fácil na infância. Dela e de John fazendo bonecos de neve durante os nove meses do ano que nevava em Hahle e nadando em piscina térmicas do palácio no verão, que ainda assim era frio. Ela se lembra dele ter sido seu primeiro amigo, o mais verdadeiro, o único. Seu primeiro amor.

E depois veio Erik. Ele estava lá depois que John foi prometido à Rebekah e quebrou o coração de Fleur, dizendo que iria para Frömming. Erik nunca pediu nada em troca, se tornou seu amigo facilmente e foi tão carinhoso como nenhum outro homem além de John havia sido. Ele se encantou e eles viveram algo intenso e ela pensou que duraria, mesmo depois dele casar. Mas então de repente ele começou a esnobá-la, a tratá-la mal por causa de Katerina, por quem ele dizia estar apaixonado. Depois a humilhou, dizendo que só esteve com ela por causa do sexo e que nem isso ele queria mais. Sua raiva só aumentou quando flagrou os dois observando o pôr do sol no casamento de Hana, depois dela ter jurado para Erik que a mataria para ficar com ele e com o trono.

Ela se juntou com Vincent, com quem seu país tinha uma parceria regada à dinheiro e troca de favores. Sabia que havia rebeldes nortistas em Frömming e havia boatos que ele era apaixonado por uma prostituta que ele havia levado para casa e que fugiu com um dos seus Comandantes para se juntar à causa rebelde. Sabia que ele estaria interessado. A prostituta retornou para ele após saber do irmão doente na mansão Fieldmann. Porém ele ainda queria matar o Comandante que fugiu com ela, e ele sabia que ele estaria no casamento. Eles planejaram tudo minuciosamente. O incêndio, para depois os homens entrarem e matarem quem quer que estivesse no caminho até o Comandante e Katerina. Seu pai descobriu e ela pensou que ele iria se zangar, mas depois que ela contou que Erik a humilhou por causa de Katerina, ele se ofereceu para matar os dois pro ela. Fleur disse que queria Katerina morta, mas que Erik teria que sobreviver.

– Eu o amo, pai — ela se lembra de ter falado na ocasião. — Eu quero ser a rainha dele.

Mas Jacques Hallaya não suportou que sua preciosa filha fosse humilhada daquela forma e decidiu fazer as coisas da sua maneira. Um dos seus espiões roubou o vídeo de filmagens da noite, que chegou junto com a notícia da morte de seu pai. Ela viu em meio a fumaça que o primeiro tiro em Erik havia sido de raspão, perto das costelas. Ele iria sobreviver, ela percebeu. Jacques só queria o ver agonizar um pouco. Seu pai era um excelente atirador e se realmente quisesse Erik morto, ele estaria. Jacques estava com a arma apontada para a cabeça de Katerina, mas Erik viu e a empurrou, se jogando na frente, levando um tiro no peito e morrendo por ela.

Fleur chorou dias de tristeza pela morte do amado e as lágrimas de dor logo se tornaram de ódio regados à juramentos de vingança. Então Vincent a contou sobre Andrew, ela o seduziu, o fez se apaixonar por ela e se casar com ela. Assim que Rebekah fosse deposta, ela seria rainha. Mas Vincent armou uma emboscada para ela e a loira teve que assistir a morte do seu primeiro amor de camarote.

– Você me levou à minha destruição — ele sibilou na época. — Perdi muito dinheiro nesse negócio tolo e o Comandante ainda continua vivo. Eu a culpei por muito tempo antes de arquitetar isso. Agora estamos quites.

Fleur rompeu o acordo entre eles, mas logo que a primeira bomba atingiu Frömming, Vincent se interessou e ofereceu muitas coisas a ela, que fingiu perdoar só porque queria um aliado lá de dentro. O norte de Frömming contra o sul. Poderia virar uma Guerra Civil, se tantos outros países não estivessem envolvidos. Era tudo o que ela queria: matar Katerina, Rebekah e Vincent. Queria destruir aquele país maldito, que só fez os homens da sua vida morrerem. Ela perdeu seu pai, Erik e John para aquele lugar desgraçado e agora aquela terra estava vermelha com o sangue deles. Ela queria vê-la sangrar novamente, agora por seus conterrâneos. Fleur não queria mais ser rainha, só queria se vingar.

Fleur fraqueja e a arma cai no chão.

– Sim, John... eu prometi vingá-lo, Hen. Eu prometi vingar o nosso pai.

– Katerina matou o nosso pai e ela já está morta. Ele foi vingado. Você tem que matar Rebekah, não acabar com o país dela.

– Você não entende? Vingança é muito mais do que apenas morte. A morte é fácil demais, rápida demais, indolor demais. Eu quero vê-la ver sofrer, agonizar. Quero vê-la observar enquanto eu destruo seu país pouco a pouco, quero vê-la deposta e depois quero matá-la enquanto outros observam, exatamente como ela observava quando Katerina matou o meu pai e não fez nada.

Heron está horrorizado.

– No princípio eu queria aquele trono, mas agora Andrew não me quer mais e então eu percebi que não precisava daquilo. Queria ser rainha pro causa de Erik, queria ser a rainha dele, não de outro homem qualquer. Eu percebi que posso muito bem ser poderosa sem ter alguém do sexo masculino do meu lado. Eu posso acabar com todos eles daqui.

– Por que Andrew foi embora?

Ela dá de ombros.

– Ele descobriu que eu sabia que ele era o irmão perdido de Caine, que eu e Vincent organizamos meu casamento com ele, que foi tudo planejado, inclusive a morte de Katerina e o ataque no dia do casamento de Rebekah que poderia ter matado os amiguinhos rebeldes dele.

– Você o quê?

Fleur havia esquecido que o irmão não sabia. Burra, ela se xinga. Otária, idiota, babaca. Burra, burra! BURRA!

– Hen...

– Eu fiquei em coma por mais de um ano por causa dos seus caprichos! Mais de um ano da minha vida foi desperdiçado por sua causa!

– Você conheceu Anne...

– Não importa. Você vai pagar por isso.

– Heron, eu sou sua irmã. Claire nunca esteve com nós, por isso posso ser considerada sua única irmã.

– Cala a boca.

– Heron? — a voz de Anne o desperta. Ela então o vê apontando uma arma para Fleur. — O que você está fazendo?

– Por causa dela eu fiquei em coma, Anne — ele rosna.

– Heron...

– Ela ameaçou você e ao nosso filho. Disse que mataria ambos na minha frente...

– Heron — a voz se aproxima. — Você não é como ela, eu sei disso. Vamos deixá-la presa para sempre, mas, por favor, não se suje com o sangue dela.

Ele virou-se para ela, indignado.

– Você sequer se importa com a vida do nosso filho?

– É claro que eu me importo! Acontece que matar a sua irmã, por pior que ela seja, vai te destruir. Eu não quero que isso aconteça.

– Não me importa, eu vou acabar com ela de qualquer jeito.

De repente o rosto de Fleur se transforma e se torna uma máscara de raiva e deboche.

– Você não teria coragem...

Heron sorri como um psicopata.

– Você não faz ideia de quanto tempo eu estou esperando por isso.

O gatilho é pressionado, a bala é disparada. Fleur, de olhos fechados, não sente nada em momento algum. Está surda pelo barulho da bala voando até ela, mas em um momento ouve um grito abafado de Anne. Passos. Um barulho diferente, como se algo tivesse caído no chão ou sido arremessado contra a parede.

Ela não consegue deixar de pensar se a morte era assim: esse eterno vazio.

Notas finais
O que acharam?