Undead

5 Sell your soul


Notas iniciais
Me desculpem a demora para postar o capítulo! A falta de inspiração é uma vadia x-x
Enfim, sem muitos avisos, só que esse é mais ou menos um capítulo à parte no pov da Lizzy, em que o Arthur, protagonista, nem aparece.
Peço apenas que leiam os avisos finais :3
E se eu quiser resumir esse capítulo em uma palavra: DRAMA.

Acordada pelo despertador do celular, Lizzy abriu os olhos com dificuldade. Estavam pesados como se tivesse chorado uma noite inteira. Percebeu que o canto esquerdo de sua boca latejava, e que estava em um quarto da casa de Jackson. Sentiu uma respiração quente em seu pescoço. Olhou para o lado e viu Gilbert dormindo como uma pedra, agarrado a sua cintura. Tateou a mesinha de cabeceira e encontrou o que procurava: seu telefone celular.

O visor anunciava -além das dezoito chamadas perdidas de sua mãe- que era segunda-feira, e que faltavam apenas alguns minutos para as oito horas. Lizzy levantou-se de um salto, acordando o namorado. A menos que quisesse repetir o terceiro ano por faltas, a menina precisava chegar à Saint Edwiges Foundation a tempo.

–O que aconteceu, Liz? -perguntou Gilbert, a voz rouca de sono.

–É segunda-feira, Gilbert! Eu tenho aula, e com certeza minha mãe está preocupada... -ia se despir, mas lembrou-se de que não estava em casa, e não possuía roupas no momento que não as com que havia dormido. Sua calça jeans estava em bom estado. Os tênis converse estavam ao lado da cama, um pouco enlameados, mas aceitáveis. Já sua blusa... -Droga, Gil! Não me lembro de ter rasgado minha camiseta assim. -olhou para os braços arranhados. -Tem uma blusa para me emprestar? Um moletom seria bom também. E desodorante, escova de dentes... e esses vinte dólares! -pegou a nota que estava no criado-mudo.

O albino riu.

–Às vezes me esqueço que você é só uma pirralhinha de colegial, Liz. Sempre deixo umas coisas aqui, pode procurar. -apontou para um canto qualquer do quarto. -Não se lembra de nada mesmo? Nem de ter pegado a salvatrucha de jeito?

As lembranças da noite anterior inundaram a mente de Lizzy. O corpo maltratado da garota latina, soltando seus últimos gemidos de dor e finalmente se calando por golpes que Lizzy havia desferido, foi o suficiente para trazer lágrimas a seus olhos.

–Se sua preocupação é a polícia, relaxa. Kesesese! -Gilbert disse. -Os outros caras do Jackson já devem ter limpado o lugar, e lá provavelmente não tem câmeras... bom, mesmo que tivesse, agora os Vargas estão com a gente! E eles tem contatos bons o suficiente para comprar qualquer tira.

–É só com isso que você se importa? -Lizzy já soluçava.

–O que foi que eu fiz agora? -Gilbert deu um tapa na própria testa. -Vai embora... ah, esquece. Só me deixa dormir, Liz.

Lizzy pegou um moletom cinzento e uma camiseta qualquer de seu namorado, ainda chorando forte. Gilbert em poucos minutos voltava a dormir. A menina cuidou de sua higiene matinal, vestiu os artigos de roupa emprestados e, tentando disfarçar as lágrimas e os soluços o máximo que podia, foi saindo do quarto.

Encontrou-se com Jackson, que estava estirado no sofá de couro marrom da sala principal, lendo um livro muito grosso enquanto fingia ouvir as reclamações de Chun Yan.

–Eu já disse, Jackson! Isso é tudo! -insistia a chinesa em seu inglês ruim.

–Então vai ter que me dar mais de setenta por cento da próxima. -respondeu Jackson, sem tirar os olhos do livro.

Chun Yan saiu queimando em raiva, as lágrimas rolando por seu rosto. Percebeu que Lizzy estava vendo e sorriu, escondendo o choro.

'Morning, Liz.

Lizzy não lhe perguntou nada sobre a discussão com Jackson. Cumprimentou-a também, e pediu um favor.

–Pode me emprestar uma bolsa ou qualquer coisa, Yuan? Quero evitar minha casa pelo máximo de tempo o possível. Minha mãe deve estar louca, eu nem liguei avisando que dormiria fora! -sua voz ainda estava embargada, e a chinesa não deixou de perceber isso.

–Brigou com o Gilbert? Se não quiser falar sobre isso, não precisa.

–É, algo assim. -mentiu Lizzy.

–Eu vou pegar para você, Liz! Só espere um minutinho.

Lizzy ficou aguardando na porta da casa. A residência -ou "ninho", como os garotos preferiam chamá-la- de Jackson, onde Mathias e Gilbert frequentemente ficavam, era grande para os padrões de Westwood. A fachada era totalmente feita de tijolos expostos e janelas baixas, e o gramado, apesar de definitivamente precisar de aparamento, havia sido bem projetado. Lizzy sabia que Jackson jamais mandaria construir um lugar assim, o que a levava a pensar que havia o comprado pronto. Ou recebido dos pais, loucos para tirá-lo de casa.

–Aqui, Liz! -Chun Yan retornava após alguns minutos.

Lizzy olhou duvidosa para a bolsa, no formato de Hello Kitty mas, por fim, agradeceu e guardou sua blusa gasta nela. Foi correndo para o ponto de ônibus mais próximo, a dois quarteirões e meio da casa de Jackson. Havia uma loja Starbucks bem perto. Pediu um copo gigante de capuccino comum e ficou aguardando juntamente com outras pessoas pelo ônibus. Olhou o relógio de seu celular — oito e vinte e cinco. Em aproximadamente cinco minutos o transporte público chegaria.

De qualquer maneira, Lizzy se atrasaria. Pensou se não seria melhor o metrô — mas não, não se arriscaria em perder ainda mais tempo chegando na estação.

A todo momento olhava para os lados. Sentia em si os olhos das pessoas a seu redor, como se emanasse a aura de culpada. Se assustou quando um guarda de trânsito passou por perto, e bebericava o capuccino tensa, tentando focalizar seus pensamentos em algo além do que havia feito na noite anterior.

Cogitou até usar o ônibus não para ir à escola, mas para voltar para casa e se trancar no quarto, isolar-se do mundo. Descartou imediatamente esta possibilidade ao pensar que, além de correr o risco de repetir o ano por faltas, se distrair -mesmo com as matérias que mais detestava- era o melhor remédio para sua mente.

O ônibus parou e a porta foi aberta. Lizzy e os outros passageiros entraram, a garota tendo que pagar sete dólares na falta de seu vale para estudantes, e se acomodaram nos assentos, tendo a sorte de encontrar o ônibus quase vazio.

Lizzy sentou-se do lado de uma janela e ficou contemplando a paisagem urbana de Los Angeles. Procurou pelos bolsos da calça e encontrou os fones de ouvido sem os quais não vivia. Conectou-os ao celular. Uma senhora, que muito provavelmente passava dos setenta anos, tomou o assento a seu lado.

A garota colocou o player no modo aleatório. Um rap metal que já conhecia de cor e salteado surgiu.

I'm holding on so tightly now

My insides scream so loud

They keep watching

Watching me drown

How did it come to this?

How did it come to this? Lizzy não conseguiu conter as lágrimas. Como chegara a esse ponto? Como conviveria com o fato de ter tirado a vida de uma pessoa? Uma garota tão perdida quanto eu, julgou Lizzy pelas marcas típicas dos maras que possuía em seu corpo.

How did it come to this?

How did I know it was you?

It was a bad dream

Mas quem sabe uma garota perdida com uma família, com um namorado e, pensando alto demais talvez, um futuro? Como Lizzy, que já chorava sem controle e sem consciência de todos os olhares que se voltavam para ela, saberia? Havia tirado da garota até mesmo o direito de uma despedida digna. Como é que Gilbert havia dito? "Os outros caras do Jackson já devem ter limpado o lugar."

I can't keep going,

Can't keep going on like this

They make me sick

And I get so sick of it

Cause they won't let me

They won't let me breathe

Why can't they let me be?

Why don't I know what I am?

Já era ruim o bastante toda a situação, e o fato de que Lizzy não o fizera por sua causa própria -assuntos da Undead, não os seus- só piorava.

A gota d'água, porém, para a menina, era a naturalidade com que Gilbert e os outros levavam o acontecido. Continuariam suas vidas sem dar a mínima para isso.

–Mocinha? Mocinha, você está bem?

Lizzy foi acordada de seus pesadelos diurnos pela voz da idosa que se sentava a seu lado. Retirou os fones de ouvido e tentou secar as lágrimas.

–Não foi nada. Só drama adolescente. -forçou um sorriso.

–--------

Lizzy se apressava entre os corredores vazios, procurando pelo armário de número 305. Quando o encontrou, rodou a senha o mais rápido que pode e retirou cadernos, livros e uma caneta que sempre deixava como reserva para guardar na bolsa.

Saiu correndo para a classe A do terceiro ano. Chegara em tempo do encerramento da primeira aula, e provavelmente a chamada estava sendo feita.

–Elena Mitchells. -chamou o professor.

–Presente.

–Elizaveta Héderváry.

–Presente! -Lizzy praticamente gritou, abrindo a porta da classe. O professor lhe olhou em desaprovação, e ela se desculpou baixinho.

Miss Héderváry, tem alguma justificativa para o atraso?

–Não, senhor. -respondeu a menina, de cabeça baixa.

O professor suspirou.

–Vou te perdoar outra vez, porque não quero ver alguém inteligente como você repetindo um ano por faltas. Mas apenas mais esta vez, Héderváry.

Lizzy o garantiu de que não aconteceria novamente, e foi se sentar no lugar de sempre: na fileira do meio, na segunda carteira, atrás de um garoto asiático e tendo a seu lado esquerdo um loiro cujos cabelos lisos iam até os ombros.

O professor foi continuando a chamada e, finalmente, o sinal tocou. Lizzy aproveitou esta oportunidade para perguntar algo ao garoto a sua frente.

–Kiku, tinha algum dever para hoje?

–Só aquelas páginas de equações para entregar.

Lizzy deu um tapa na própria testa.

–Droga, não acredito que me esqueci! Pode colocar o meu nome no seu dever? Por favor? -pediu.

–Colocarei. O que deu em você, Liz?

–Do que está falando? -Lizzy se fez de desentendida.

Kiku pensou bem antes de responder, e finalmente soltou.

–Você não era assim. Era completamente responsável e estudiosa. E, me desculpe dizer isso, acho que mudou tanto por culpa de seu namorado.

A garota não sabia o que responder. Se Kiku Honda havia dito algo, era porque tinha um motivo sério. O Marylander, nascido de uma família japonesa em Baltimore que há alguns anos se mudara para a Califórnia, media bem suas palavras e não gostava de entrar em assuntos de outros. Mas, como amigo de Lizzy, se vira na obrigação de destacar não só o comportamento alterado da menina, como também sua desaprovação quanto a Gilbert.

Decidiu-se por não responder nada, e foi ajudada por Mrs. Stevens, professora de biologia, estar entrando na sala.

Não voltaria a conversar com Kiku naquele dia.

–-------

Lizzy não se sentaria na mesma mesa que Kiku durante o almoço, e este também nem a convidara. Sentou-se em um canto isolado da cantina, comendo pizza e ouvindo música. Já conseguia não chorar, e imaginou que talvez chegaria um dia em que não pensaria mais no acontecido. Esquecer-se por completo seria impossível, e ela sabia disso.

Foi surpreendida pelo garoto loiro que se sentava perto dela na sala tomando o lugar a seu lado.

–Olá, Lizzy.

–Vash! Ah, oi. -disse, tirando os fones. -Não vai comer nada?

–Vash é tão pão duro que prefere chegar com fome em casa a gastar dinheiro na cantina. -falou uma garotinha de cabelos castanhos que segurava uma enorme bandeja com salada, nuggets, batata frita e Coca-Cola. Tinha um forte sotaque australiano em sua voz cínica.

Era perceptível que o loiro não gostava nem um pouco da menina.

A morena sentou-se de frente para Lizzy, mostrando a língua para Vash e começando a comer. Uma outra garotinha, mais baixa e de cabelos quase amarelados de tão loiros, chegou com uma bandeja igualmente grande e dois sucos de laranja. Sentou-se defronte Vash.

–Irmão, eu trouxe para você. -a loirinha tinha uma voz doce, muito diferente de sua amiga.

–N-não precisava, Lilith! -Vash corou.

–Larga essa boiolagem e come, Zwingli. -a garota morena revirou os olhos. Liz tentou, sem sucesso, segurar o riso.

–Acho, irmãzinha, que você deveria ensinar boas maneiras para a Wendy. Vocês duas estão no primeiro ano e tem níveis de maturidade completamente distintos. -atacou Vash.

Lilith e Lizzy apenas conseguiam rir. Por um momento que seja, a discussão entre Vash Zwingli e Wendy apagou quaisquer pensamentos da salvatrucha.

–---------

No portão do colégio, Lizzy contou o dinheiro restante. Gastando na cantina, não tinha certeza se teria dinheiro o suficiente para a passagem de ônibus para a volta.

–Liz? -chamou uma voz inconfundível.

–Gilbert? O que está fazendo aqui? -perguntou Lizzy em um misto de raiva e surpresa.

Gilbert estava com o Maybach vinho de Jackson. Respirou fundo e abraçou a garota.

–Me desculpa, Liz? Me desculpa por ter te tratado mal hoje cedo?

Lizzy acertou o punho com força no rosto do namorado, que gemeu de dor e levou a mão no lugar atingido.

–Desculpado, Gil. -Lizzy o abraçou bem forte.

Os dois entraram no carro e, durante o caminho para a casa de Lizzy, conversaram como se nada houvesse acontecido.

–----

Gilbert deixou Lizzy na portaria do edifício em que vivia. A garota mal tocou o interfone e o portão já foi aberto.

Morava no primeiro andar, e logo sua mãe foi a abraçando.

–Elizaveta! Hála az égnek!Mrs. Hédarváry disse em húngaro, como sempre fazia quando em desespero.

–Oi, mãe. -Lizzy a abraçou de volta.

–Ah, Elza, seu pai está tão preocupado, mas não podia sair do escritório! -de repente, a preocupação da mãe de Lizzy foi substituída por desaprovação completa. -Por onde andou, Elza? Por que não atendeu minhas ligações? E por que Gilbert te deixou em casa sendo que você sabe muito bem que não gosto nada dele? Ele é má influência, Elizaveta!

–Dormi na casa da Lilith, mãe. Sabe, aquela loirinha do primeiro ano, e a bateria do meu celular tinha acabado. -mentiu Lizzy, não deixando a mãe muito convencida. -O Gilbert me buscou na escola porque eu não tinha dinheiro para pagar o ônibus, só isso.

–Elza...

–Sabe que eu não gosto desse apelido, mãe. Vou tomar um banho.

Lizzy deixou a bolsa de Chun Yan na mesinha de centro vítrea da sala, e foi para o banheiro sem dar mais explicações à mãe. Trancou a porta e despiu-se, jogando a calça, as meias e roupas íntimas no cesto de roupa suja e os tênis atrás da porta. Dobrou o moletom e a blusa com cuidado e os deixou, por enquanto, em um canto da pia em que não se molhariam.

Ligou o chuveiro e entrou no boxe, deixando a água quente correr seu corpo. As imagens voltaram a invadir seus pensamentos, juntamente com a letra da música que ouvia no ônibus. Desta vez, chorava mais alto do que nunca, as lágrimas misturadas à água do banho.

Throw it all away, throw it all away

I keep on screaming but

There's really nothing left to say

So get away, just get away

I keep on fighting but

I can't keep going on this

–Vai embora! -Lizzy gritou, para ninguém que não as lembranças que a atormentavam.

–Elza, o que foi isso? Você está bem? -a mãe perguntou, batendo na porta do banheiro.

–Nada... não foi nada...

I keep on running,

But I can't keep on this way

Notas finais
Minhas queridas antigas e novas leitoras, seria pedir reviews um pedido grande demais? Realmente desanima postar com um número tão reduzido de reviews quanto do último capítulo. Eu preciso saber o que acham da história, o que mais gostam, o que está ruim, enfim, reviews me animam!
Desculpem-me por ser chata ç.ç
Oh, sim, e eu mesma chamo a Elizaveta (que na fic prefiro chamar de Lizzy por causa da americanização xD) de Elza, mas imagino que ela não goste muito :x
E, não sei se ficou claro, mas essa vai principalmente para os não-tão familiarizados com Hetalia: a Wendy é a Wy ^-^