(Un)Lost
4 #03. O primeiro passo
Notas iniciais
Região de Hoenn, 4 de julho de 2024.
O burburinho era quase ensurdecedor.
Conversas paralelas, originadas nas quase trinta mesas, repercutiam por todo o refeitório do Prédio Principal dos Rangers de Hoenn, tornando impossível para o garoto concentrar-se em seus próprios pensamentos e controlar sua raiva e ódio, os quais cresciam como ervas daninhas em seu peito. Caesar nunca gostara de ambientes barulhentos e tumultuados, por isso evitava ao máximo shoppings e shows de música, preferindo permanecer em casa a maior parte de seu tempo. Esse era apenas um dos diversos motivos para o rapaz de cabelos negros detestar sua nova rotina, e o incidente de seu primeiro dia de trabalho não tornara nada mais fácil.
— Você não colocou essa comida no prato apenas para ficar olhando para ela, não é? — balbuciou o jovem de cabelos castanhos sentado à frente de Caesar na mesa de madeira, obrigando-o a ignorar a poluição auditiva para concentrar-se na conversa dos outros três membros de seu grupo.
Sem nada dizer, o garoto deu de ombros, tornando sua atenção para o Zorua de incomum coloração azulada e verificando que o mesmo já finalizara sua refeição. Com certo desgosto, juntou um pouco do macarrão em seu garfo e levou-o a sua boca. A comida não era tão terrível como esperava, embora não estivesse nem perto dos refinados pratos aos quais estava acostumado.
— Eu realmente não sei o que deu no Marcus. — afirmou Mary Jane, confusa, provavelmente dando continuidade a uma conversa que Caesar antes ignorava. — Nunca o vi tratar novatos com tanta disciplina. É como se ele não desejasse mais ninguém no grupo. — as últimas palavras da loira soaram tão óbvias para o garoto de cabelos negros que ele teve de rir interiormente.
— Ser um Ranger não é um passa tempo qualquer, é uma tarefa que precisa ser exercida com responsabilidade. — disse a morena de cabelos negros presos em um clássico rabo de cavalo. — Mas concordo que Marcus não esteja agindo como o esperado.
— Ele parece mais sério desde o desaparecimento de Dakota. — analisou o mais novo, quase como se estivesse pensando alto. Ouvir o nome da amiga fez com que Caesar dedicasse toda a sua atenção à conversa; finalmente conseguira chegar ao tópico desejado.
Uma certa tensão se instaurou na mesa, enquanto os três membros de grupo dos Rangers fitavam uns aos outros, vez ou outra direcionando sua atenção também ao mais novo integrante do time. Claramente, aquele não era um assunto comumente debatido, mas o jovem de cabelos negros não estava disposto a encerrar o tópico.
— Quem é Dakota? — fez-se de desentendido, distraidamente abocanhando mais uma garfada de macarrão. Fingia certa inocência e confusão, contudo, sabia que seu pouco contato social o tornara um péssimo mentiroso e, assim, não conseguiria continuar com sua atuação pobre por muito tempo.
— Ela era a antiga integrante do nosso grupo, a qual você substituiu. — Mary Jane foi a primeira a falar, em voz baixa, quase como se decorresse sobre um assunto proibido.
— Durante uma de nossas missões, cerca de um mês atrás, ela desapareceu. Não sabemos dela desde então. — continuou Jolene, fitando seu prato vazio. Certa tristeza estava visível nos olhos dos três integrantes mais antigos, como se a garota desaparecida realmente lhes fizesse falta. — Marcus se culpou pelo ocorrido. Fora ele quem instruíra a separação do grupo para encontrar a garotinha perdida na floresta mais rapidamente, e isso comprometeu a segurança de Dakota.
— Talvez seja esse o motivo de toda a sua seriedade. Ele deve estar preocupado, procurando não cometer o mesmo erro duas vezes. — observou Archie, agora mais descontraído, dando uma mordida final em seu sanduíche de atum.
Os segundos seguintes foram tomados pelo silêncio enquanto Caesar pensava, cautelosamente tentando formular mais uma pergunta que pudesse lhe indicar algo sobre o desaparecimento da amiga. Ao abrir sua boca para libertar as palavras, no entanto, o moreno alto e musculoso apareceu, sentando-se à mesa ao lado de Jolene.
O assunto anterior fora imediatamente finalizado com a chegada do líder, podendo-se observar uma mudança na postura dos outros Rangers; certamente, aquele assunto não deveria ser discutindo em sua presença. O semblante do garoto de cabelos negros também alterou-se, tornando perceptível seu desgosto advindo da chegada do homem.
— E quanto ao homem que encontramos na floresta? — indagou a morena, rapidamente mudando o tópico da conversa. — Ele está bem?
Marcus teve de engolir a comida que estava em sua boca para poder responder a outra. Seu prato estava bem cheio – de uma maneira até mesmo desesperada, julgava Caesar – e o mais velho devorava o alimento com voracidade. Talvez os caipiras realmente tivessem um lado animal.
— Apenas alguns ferimentos superficiais, nada grave. — afirmou, finalmente. — Ele disse que estava na floresta para fotografar pokémons, mas acabou sendo perseguido por um grupo de pokémons selvagens até o local onde o encontramos.
Os outros três assentiram, mantendo suas cabeças baixas, mas o rapaz franzino duvidava da veracidade da história. Embora selvagens, a maioria dos monstrinhos não enxergava humanos como presas, atacando-os apenas quando se sentissem ameaçados. Assim, parecia pouco provável que o bando de Houndours e Poochyenas o houvesse perseguido sem uma razão.
— Isso é realmente estranho. — pronunciou-se Caesar, em um tom debochado. — Pokémons não costumam atacar sem serem provocados.
— Seu Zorua não pareceu hesitar ao atacar aqueles pokémons inocentes. — retrucou Marcus, lançando um olhar feroz ao rapaz, visivelmente irritado.
Imediatamente, Dark eriçou os pelos e mostrou os dentes ao homem, rosnando baixo. Mudou sua postura, no entanto, ao notar a reação de seu treinador. Ao contrário do esperado, Caesar apenas cerrou os punhos e se levantou, carregando consigo sua bandeja. Apesar de demonstrar-se calmo, interiormente estava tão instável quanto um vulcão prestes a entrar em erupção. Comprimindo seu enorme desejo de golpear diversas vezes o rosto do líder – e reconhecendo que sua falta muscular certamente seria um empecilho para a realização de tal tarefa –, o garoto apenas deu as costas para o grupo e retirou-se, deixando seu prato em uma bancada e dirigindo-se ao elevador.
— Entendemos sua preocupação, Marcus... — apesar de distante, o garoto de cabelos negros ainda podia ouvir as palavras de Jolene. — Mas não precisa pegar tão pesado.
(***)
As cortinas verdes do quarto de paredes e piso de madeira estavam bem fechadas, impedindo a entrada dos raios do sol e tornando necessário manter as luzes artificiais acesas. Aquela atitude pouco sustentável certamente não condizia com o espírito verde dos Rangers mas, desde a última vez que checara, Caesar pouco se importava com isso.
Insistente e esperançoso, o rapaz franzino abria todas as gavetas que encontrava nos armários de seu quarto e examinava cada orifício nas tábuas de madeira. Após um refrescante banho gelado, o garoto fora capaz de livrar-se – por ora – de parte de sua raiva, tornando possível que se concentrasse no único propósito de sua vinda a Hoenn: reencontrar Dakota. A conversa com os outros membros de sua equipe durante o almoço o havia motivado a descobrir mais sobre o desaparecimento da amiga e, seguindo seu plano, ele iniciaria vasculhando todo o quarto, antes pertencente à menina, em busca de qualquer indício de seu sequestro ou fuga.
— Eu ainda não acredito que aquele idiota possa ser tão estúpido. — resmungou o jovem de cabelos negros, abrindo a última gaveta de sua mesa de cabeceira. Dark, deitado sobre a cama, deixou escapar um baixo latido. — Eu sei, é um pleonasmo, mas, sinceramente... Eu salvei aquele homem!
O raposo revirou os olhos vermelhos, cansado das reclamações do treinador e levemente irritado por sua incomum atitude submissa. Desinteressado, limpava seu colar de pelos azuis com longas lambidas, enquanto repousava sobre a cama e observava a bagunça que Caesar fazia. Àquela altura, os dois armários do quarto estavam abertos, bem como suas gavetas, e os três quadros, que antes decoravam as paredes, estavam no chão.
— É por isso que eu não gosto de ajudar os outros. — continuou o rapaz, investigando agora algumas tábuas que compunham o chão, batendo de leve sobre algumas para verificar se estavam ocas. — Nunca reconhecem boas ações. — o rapaz soltou um longo suspiro ao fim de sua frase, após terminar de examinar a última gaveta. — Não estou tendo muita sorte com isso. — ele informou, angustiado, atirando-se à cama.
Uma vez mais, o jovem viu-se perdido e imponente. Suas expectativas de encontrar qualquer pista que pudesse minimamente ajudar na buscar por sua amiga desaparecida haviam se desmoronado por completo após mais de uma hora vasculhando cada centímetro do quarto, sem que obtivesse resultado. Caesar sentiu um enorme vazio preencher seu peito, seu primeiro dia em Hoenn havia sido terrível, tanto em sua busca como em sua primeira missão como Ranger. Como ele podia ser tão inútil? O adjetivo ecoou por sua mente, fazendo-o sentir vontade de desistir.
“Ah, Dakota... Eu não consigo fazer nada direito sem você”, pensou o rapaz, passando sua mão por seus cabelos negros em um ato de puro desespero. Procurando uma maneira de se acalmar e clarear sua mente, Caesar dirigiu sua atenção à mochila cor de mostarda que repousava no chão do quarto, apanhando-a e buscando uma das cartas escritas por sua amiga, a primeira que havia recebido. Já as havia lido milhares de vezes mas, talvez, ainda pudesse encontrar algum detalhe que antes não notara. Talvez, dessa vez, conseguisse ver algo novo.
O Zorua de colar de pelos azulados aninhou-se ao lado do treinador e fitou-o abrindo o delicado envelope de papel. No entanto, antes mesmo que o rapaz conseguisse começar a reler as palavras de sua amiga desaparecida, um som de passos no corredor o desconcentrou.
— Caesar, você está aí? — soou uma delicada voz feminina, acompanhada por batidas insistentes na porta do cômodo.
— Essa garota não podia ser mais inconveniente. — irritou-se o rapaz, reconhecendo a voz de Mary Jane. — Rápido, guarde isso. — pediu, devolvendo a carta a seu envelope e entregando-o à Dark, que o abocanhou.
Após mais algumas batidas na porta, Caesar foi obrigado a se levantar, enquanto o vulpino colocava cautelosamente o envelope branco na mochila de seu treinador. Ao colocar a mão na maçaneta prateada, o garoto arrependeu-se do que estava prestes a fazer; detestava ter de ser sociável, porém, não possuía alternativas. Com um movimento lento, abriu a porta, revelando a imagem da jovem de rosto perfeito e cabelos loiros em corte Chanel. Para a surpresa do menino, ela não mais usava seu horrível uniforme, mas sim um curto vestido tomara-que-caia de estampa florida, que valorizava muito bem suas curvas. Em seu colo, estava sua inseparável companheira: a raposa de seis caudas de peculiar pelagem branca, enfeitada com um laço vermelho ao redor de seu pescoço.
— Olá, Caesar! — cumprimentou a garota, animada. — Achei que você estivesse dormindo. — riu, deixando sua Vulpix sobre o chão, ao lado de seus pés.
— Quem dera... — murmurou o jovem, baixo, revirando os olhos.
— Nossa, que bagunça! — exclamou, adentrando o cômodo. — Pensei que haviam pedido para alguém arrumar o quarto antes de sua chegada.
Sem ao menos pedir permissão, a menina saltitou para dentro do quarto, sentando-se na beirada da cama. Delicadamente, começou a balançar suas pernas, exibindo seus saltos prateados, fitando o rapaz como se o convidasse para sentar-se a seu lado. Caesar, no entanto, indisposto a mostrar interesse pela garota, lutou contra seu desejo de chamá-la de atrevida e apenas limpou sua garganta.
— O que quer aqui? — perguntou, curto e direto, cruzando seus braços.
— Eu só queria me desculpar... Pelo Marcus, sabe. — a jovem deu de ombros, sem deixar de exibir seus dentes perfeitamente brancos. — Imagino como deve ser difícil para você, mas garanto que tudo ficará melhor. — ela abaixou seu tom de voz, levantando-se. — Estarei aqui para você sempre que precisar.
Sem qualquer descrição, a menina de cabelos dourados apanhou uma das mãos do rapaz com ambas as suas, confortando-o. Caesar, no entanto, apenas franziu ao fitar as mãos da jovem de longas unhas pintadas em um tom vívido de vermelho, retirando a sua segundos após e limpando sua garganta uma vez mais. Diversos pensamentos atravessaram a cabeça do garoto naquele momento – nenhum deles muito agradável – mas, ao clarear sua mente, observou que poderia, eventualmente, usufruir do interesse que Mary Jane demonstrava por ele. No entanto, precisaria controlar seu temperamento e modo de falar, evitando ser grosso. Na maior parte do tempo.
— Olha só, parece que eles estão se dando bem! — comemorou a loira, apontando para as duas raposas sobre o tapete verde do quarto.
A curiosidade de Ivy por Dark podia ser facilmente percebida, embora o mesmo não pudesse ser dito por parte do raposo. Todas as tentativas da albina de se aproximar eram rapidamente rejeitadas, vez ou outra sendo possível ouvir baixos rosnados do Zorua. Embora a Vulpix apenas estivesse interessada em socializar, o temperamento sério e estranhamente maduro de Dark o impediam de perder tempo com tais futilidades. O movimento de ambos os vulpinos, ao se aproximarem e distanciarem um do outro, branco e preto juntos, porém separados, relembrava o símbolo de Yin e Yang.
— ... Claro. — fora tudo o que Caesar pôde responder diante da clara tentativa de menina de ‘forçar a barra’. Quase tão terrível quanto sua aparição no quarto do garoto sem aviso prévio ou qualquer tipo de convite.
— Enfim. — iniciou a jovem, após um longo silêncio. — Se precisar de qualquer coisa, não hesite em me chamar. — ela sorriu novamente, aconchegando Ivy em seu colo e dirigindo-se até a porta. — Ah. — parou, de súbito, surpreendendo o rapaz. — Todas as tardes, temos o horário de recreação, como costumam chamar. É a hora do dia em que podemos libertar todos os nossos pokémons para que eles possam socializar e esticar um pouco as pernas. Você deveria vir conosco.
— Pode ser. — respondeu o jovem, desinteressado, ansiando pela saída da garota.
Por fim, a menina retirou-se – não sem antes murmurar um “espero você lá”. Sozinho, enfim, Caesar poderia retornar à sua incessante busca por Dakota e, possivelmente, descobrir algo sobre seu desaparecimento. Sinceramente, ele apenas desejava resolver tudo o mais rápido possível para despedir-se eternamente do abrigo de naturebas e iniciar sua faculdade de física, em Kalos. Quando estava prestes a deitar-se na cama para reler o que a amiga havia escrito, contudo, sentiu seu celular vibrar dentro do bolso de sua bermuda negra. O rapaz massageou as têmporas e pediu a Arceus que lhe fornecesse um pouco mais de paciência ao ler as mensagens enviadas por Mary Jane. Não sabia como aquele indivíduo irritante havia conseguido seu número, mas não duvidava da possibilidade de a menina ter revistado sua ficha de inscrição para tal – após, provavelmente, subordinar o encarregado de garantir a segurança das informações de todos os membros dos Rangers.
— Acho melhor deixarmos para fazer isso depois. — suspirou o garoto de cabelos negros, repousando uma de suas mãos sobre o dorso do Zorua. — Preciso de total concentração para recolher todas as informações dessa carta e, aparentemente, não conseguiremos paz até atender aos pedidos dessa maníaca. — bufou, revirando os olhos e levantando-se, preparando-se para extrapolar seu limite diário de socialização.
Após suspirar uma última vez, o rapaz tentou enxergar o ridículo evento não como um empecilho em sua busca por Dakota, mas como uma possibilidade de conseguir mais informações sobre ela, aproximando-se de seus antigos companheiros de time. Relutante, envolveu a maçaneta redonda da porta de madeira com sua mão pálida, saindo do quarto, seguido pela raposa de pelos negros. Analisando seu reflexo no enorme espelho do elevador, esforçou-se para desfazer seu cenho franzido e moldar uma expressão mais amigável – sem obter sucesso. Caesar fez seu caminho pelo saguão do primeiro andar, dirigindo-se dessa vez à porta de serviço logo ao fundo, como Mary Jane o havia instruído através de milhões de mensagens inúteis, às quais o rapaz respondera um simples e seco “Ok”.
O humor do garoto tornou-se um pouco mais agradável quando esse saiu do prédio, adentrando imediatamente a floresta que se localizava logo atrás desse. Livres e em harmonia, as mais diversas criaturas exploravam a tranquilidade da natureza, planando delicadamente pelos ares, correndo e brincando no gramado, ou até mesmo refrescando-se em um pequeno lago. Havia cerca de vinte treinadores no local e mais pokémons do que seus olhos poderiam identificar – mais de cem, matematicamente, considerando que todos os monstrinhos dos Rangers houvessem sido libertos. Apesar de ter vivenciado um ano como treinador, participando dos mais diferentes torneios e explorando todas as rotas, florestas e cavernas, Caesar jamais havia se deparado com uma concentração tão grande de monstros de bolso, tornando inevitável que sua animação transparecesse em seu rosto.
— Até que enfim você chegou! — sorriu a loira, a qual Caesar rotulara Barbie Maníaca.
Virando-se para o lado, o rapaz franzino deparou-se com três de seus companheiros de equipe, cercados de alguns pokémons – poucos demais considerando a estúpida regra sobre quantidade mínima de monstrinhos que deveria acompanhar um Ranger, mas Caesar deduziu que os outros estivessem espalhados pelo local. Ao lado de Jolene, um robusto Blaziken, inicial popular de Hoenn, meditava, ignorando insistentes cutucadas de um Sableye energético, arrancando leves sorrisos do já conhecido Absol. Archie encontrava-se sentado sobre um enorme Torkoal, mais parecido com uma grande rocha, e segurava em seus braços uma espécie de porco de corpo roxo com detalhes em um preto fosco, cor de carvão. Já Mary Jane era rodeada por um sorridente Castform, enquanto sua peculiar Vulpix albina tentava alcançar um veloz Electrike.
Estranhando a ausência do líder, o garoto de tempestuosos olhos cinzentos procurou automaticamente por este, encontrando-o logo a frente. O homem musculoso parecia instruir um majestoso falcão de penas majoritariamente alaranjadas – Talonflame, um pokémon nativo de Kalos, para a surpresa de Caesar.
— Não vai libertar seus pokémons? — indagou Archibald, após um longo silêncio do recém chegado.
— Ah, claro. — o pálido rapaz deu de ombros, tornando sua atenção novamente para o trio.
Calmamente, o jovem revistou os bolsos de sua bermuda social em busca das cinco esferas bicolores que possuía. Selecionou duas delas e, com certa relutância, pressionou o único botão central que cada uma delas apresentava. O rapaz não estava acostumado a exibir seu time para qualquer um, visto que parte de sua estratégia de batalha era o elemento surpresa e adotava a ignorância de seus oponentes como uma vantagem. No entanto, para conquistar a confiança dos índios naturebas, precisava mostrar que também confiava neles – embora essa fosse uma grande mentira.
Do interior da primeira esfera fora liberto um canídeo de curtos pelos, negros como a mais escura das noites. Sua mandíbula, bem como seu musculoso peito e barriga, apresentavam-se em um tom laranja vívido, puxado para o vermelho. No topo de sua cabeça encontravam-se dois chifres e suas costas, assim como suas quatro patas, eram adornadas por uma espécie de esqueleto. Sua longa cauda possuía uma seta em sua ponta, uma das características responsáveis pelo apelido de sua espécie: “cão dos infernos”. Apesar de sua aparência feroz, o pokémon transmitia tranquilidade através de um sorriso abobado estampado em seu rosto, deixando que sua língua avermelhada balançasse ao vento.
A segunda criatura, no entanto, adotava uma postura semelhante à de Dark; seu semblante era sério e seus olhos dourados semicerrados intimidariam até mesmo o mais poderoso ser. Seu enorme corpo era coberto por penas, em sua maioria de um tom azul marinho, exceto pela penugem localizada no interior de suas asas, vermelha, e um colar branco que adornava seu pescoço. Sem transparecer nenhum sentimento além de desconfiança, o corvo examinava os humanos e pokémons ao seu redor.
— Estes são Kaiser e Malchior. — apresentou o rapaz pálido, estendendo suas mãos em direção ao Houndoom e ao Honchkrow.
Alguns dos monstrinhos de bolso libertos aproximaram-se dos recém chegados, muitos deles cumprimentando-os com sons únicos e gestos amigáveis. Malchior, por vezes, afastava algumas das criaturinhas menores com suas patas negras, soltando baixas grasnadas e estendendo suas longas asas para impedir a aproximação de maiores. Esses acabavam optando por relacionar-se com o canídeo, que rolava na grama verde e balançava agitadamente sua cauda pontuda, enquanto latia de forma animada em meio à recepção calorosa dos outros pokémons.
— Pensei que cinco pokémons te acompanhassem. — estranhou Jolene, apoiando os cotovelos sobre seus joelhos. — Só vejo três deles.
— Os outros não são muito... Sociáveis. — balbuciou o garoto, tentando esconder a leve irritação com o tom intrometido da morena. Ora, não seria ela quem comandaria quais de seus pokémons lhe seria permitido libertar.
— Como o treinador. — completou a morena alta, com um leve sorriso. Ela claramente testava a paciência do mais novo e, embora esse estivesse dando o melhor de si para manter a calma, não demoraria muito para que perdesse o controle.
— Gente, não vamos começar com isso de novo! — interrompeu Mary Jane, levantando-se. — Todos sabemos como é difícil ser um Ranger novato, longe de casa e sem seus amigos.
Pela primeira vez desde a chegada de Caesar, este e a morena de longos cabelos presos em um rabo de cavalo pareceram concordar. Ambos reviraram os olhos imediatamente após o comentário da loira, entediados com sua desesperada tentativa de conquistar o mais novo. Na verdade, sua insistente tentativa de defender o rapaz franzino em qualquer ocasião começavam a irritá-lo; ele era mais do que capaz de se proteger sozinho. Certamente, não levaria mais do que algumas horas de convivência para que Caesar perdesse a cabeça e lhe desse um “fora”.
— King. — a voz grossa do líder foi ouvida, chamando a atenção dos outros quatro Rangers. — Venha até aqui.
— Não. — a resposta curta foi dada quase imediatamente.
Caesar realmente não tivera intenções de pronunciar aquela palavra; fora mais como um pensamento alto. Não estava acostumado a receber ordens de ninguém – na verdade, era ele quem as dava, na maioria das vezes. O garoto somente notara o efeito de sua negação ao perceber os rostos surpresos de seus companheiros de equipe, bem como o de Marcus. Havia certa confusão estampada em seu rosto, como se ninguém jamais houvesse desrespeitado um de seus comandos.
Após começar seu dia da pior maneira, no entanto, Caesar decidiu deixar de lado a vontade que sentia de desfigurar o rosto do mais velho e limpou a garganta, endireitando o colarinho de sua camisa social e dirigindo-se até Tarzan, o rei macaco.
— O que quer falar comigo? — questionou o jovem, olhando para trás rapidamente, apenas para analisar as expressões preocupadas dos outros Rangers. Ele certamente estava encrencado.
— Olha só, garoto... — iniciou o líder em voz baixa, certificando-se de que nenhum dos curiosos ao seu redor os estaria ouvindo. — Nós dois começamos com o pé esquerdo. O que acha de endireitarmos a situação? — propôs.
Caesar precisou piscar algumas vezes para assimilar o que lhe havia sido dito. Marcus, o insuportável-babaca-arrogante estava tentando se redimir? Inacreditável.
— Somos um time e, se não mantivermos boas relações, nada dará certo. — explicou. — Peço desculpas por meu comportamento mas, como um líder, tenho de garantir a segurança de todos e, para isso, preciso que você, assim como todos os outros, respeite meus comandos. Estou disposto a começar de novo, se você estiver.
Diversos pensamentos sobrevoaram a cabeça do rapaz de cabelos negros. Ah, como ele gostaria de dizer todas aquelas palavras de baixo calão. No fundo, porém, sabia que Marcus estava certo; no entanto, não estaria fazendo aquilo pelo time, mas por Dakota. Por mais difícil que fosse, precisava conquistar a confiança de todos – somente assim conseguiria mais informações sobre a amiga.
Sem nada dizer, o garoto apenas estendeu sua frágil mão em direção ao homem que, ao perceber o gesto, logo o retribuiu. Tentou forçar um meio sorriso, mas desistiu ao notar o quão falso ele provavelmente parecia.
A rápida conversa entre os dois Rangers fora interrompida por agudos grasnidos. Caesar e Marcus rapidamente tornaram sua atenção para as duas aves à sua frente, as quais pareciam estar se desentendendo. Ambos o Honchkrow e o Talonflame voavam baixo, circulando um ao outro e, por vezes, tentavam se bicar ou arranhar.
— Ha, a competitividade dos pokémons! — gargalhou o moreno musculoso, aproximando-se da águia de penas alaranjadas e pedindo que essa descesse e pousasse a seu lado. — Estão sempre testando suas habilidades. — comentou, observando o corvo negro cessar seu voo e colocar-se ao lado de seu treinador.
Por um segundo, Caesar jurou ver um sorriso leve se formar no rosto do líder. Seu semblante era divertido, embora de uma forma sinistra, como se alguma ideia tivesse acabado de flutuar por sua mente. E, a julgar pelo comentário do mesmo e o comportamento dos dois pokémons, o rapaz de cabelos negros acreditava já saber sobre o que se tratava.
— O que acha de uma corrida amistosa entre meu Talonflame e seu Honchkrow? — sugeriu, por fim, Marcus, confirmando a suposição do garoto. — Talvez eles se entendam melhor depois de uma pequena competição. — ele tentou justificar, embora Caesar estivesse certo de que o mais velho estivesse apenas tentando humilhá-lo publicamente, caso ele perdesse.
— É uma ótima ideia. — respondeu o jovem, após uma rápida troca de olhares com o robusto corvo de penas negras. A julgar pelo comportamento de Malchior, ele tinha tanta vontade de derrotar o Talonflame como Caesar tinha de derrotar Marcus. E aquela era uma oportunidade perfeita de fazê-lo.
— Excelente! — murmurou o homem. — Por favor, abram espaço! — elevou seu tom de voz para que todos o pudessem ouvir, gesticulando e indicando para onde os outros presentes deveriam ir.
Prontamente, todos os Rangers presentes começaram a se movimentar, alguns deles até mesmo recolhendo seus pokémons mais energéticos para que os mesmos não atrapalhassem. Em alguns segundos, treinadores e monstros de bolso estavam organizados formando duas fileiras, uma de frente para a outra, deixando um largo vão no meio para que as aves pudessem passar sem problemas. Mary Jane se voluntariou para permanecer no final da “linha de chegada”, onde dois outros Rangers seguravam uma corda para indicar o fim da pista, recebendo a tarefa de fotografar o exato momento da vitória de um dos pássaros. Após certificar-se de tudo estar pronto para que a corrida amistosa fosse o mais justa possível, o líder do grupo e o rapaz franzino se distanciaram da multidão para dar mais espaço para seus pokémons.
— Não fique chateado se você não vencer. — balbuciou Marcus, fazendo o mais novo segurar uma risada em sua mente. — Fianton é muito bem treinado e tem anos de prática. Além disso, essa é apenas uma competição por diversão, certo?
— Claro. — respondeu Caesar, simplesmente. Não tinha intenções de se vangloriar por uma vitória a qual ainda não alcançara; não por medo de perder, mas por isso estragar completamente a surpresa que seu oponente teria ao ser derrotado. Se Marcus houvesse visto Malchior em um de seus voos anteriormente, certamente não teria proposto uma corrida.
Com o fim da conversa entre os dois, a loira de vestido florido perguntou aos treinadores se ambos estavam prontos. Assim, os mesmos comandaram que seus companheiros se posicionassem atrás da linha que haviam marcado para ser o início da pista, aguardando que Mary Jane desse o sinal para a largada. Com um gesto de mão e um grito animado, a menina deu início à corrida.
Ambas as aves se prepararam e, não sem antes trocarem olhares furiosos uma vez mais, alçaram voo ao receberem o comando. Logo ao início, o Talonflame fora ultrapassado, surpreendendo-se com a agilidade inesperada de seu oponente. Percebendo que precisaria se esforçar mais, a magnífica águia de penas alaranjadas agitou ainda mais rapidamente suas asas, fechando-as logo em seguida e colando-as junto de seu corpo para alcançar mais velocidade. Malchior, ao notar a aproximação de seu oponente, esticou suas longas asas para planar mais facilmente. O corvo não tinha uma anatomia tão aerodinâmica quanto Fianton, contudo, seus treinamentos de velocidade muito o haviam ensinado sobre sua capacidade.
Após alguns segundos, os majestosos pássaros encontravam-se lado a lado e já haviam percorrido mais da metade da pista. Com a intenção de desempatar o jogo, o Talonflame soltou um breve crocitar e, em um ato de desespero, tentou desestabilizar seu oponente bicando-o. Malchior, porém, rapidamente desviou o bico da águia com suas longas garras e, agitando suas asas uma vez mais e erguendo seu corpo para a frente, conseguiu mais velocidade, disparando à frente de seu adversário. A corrida durara apenas alguns segundos até que ambas as aves houvessem cruzado a linha de chegada, mas fora o suficiente para animar o público presente. Treinadores e pokémons se agitavam com a dança dos pássaros no céu.
— Malchior é o vencedor! — anunciou Mary Jane com um sorriso, no momento em que abriu seu celular para analisar a foto tirada.
Após passar pela linha de chegada, o majestoso Honchkrow retornou à seu treinador, pousando ao seu lado para receber as casuais carícias do mesmo. Tornando a fitar o Talonflame, o qual encontrava-se ainda no final da pista – provavelmente, tentando evitar encarar seu adversário vitorioso –, o pássaro negro soltou um longo corvejo, provocando Fianton, que apenas o ignorou e virou-se de costas.
Caesar murmurou alguns elogios para o robusto corvo e tocou levemente seu bico, parabenizando-o por mais uma vitória. Em seguida, virou-se para Marcus, o qual tinha as sobrancelhas arqueadas e a boca aberta – era aquela expressão de surpresa que o rapaz pálido se deliciava ao ver toda vez que lhe subestimavam. Ao notar o olhar do mais novo, o líder prontamente limpou a garganta e endireitou sua expressão, embora precisasse de mais alguns segundos para assimilar o que ocorrera. Como o pokémon de um garoto tão novo e inexperiente havia vencido um de seus mais bem treinados pokémons? Certamente, a corrida não se equiparava a uma batalha mas, ainda assim, a vitória do outro o surpreendera.
— É, parece que seu companheiro venceu, novato. — exclamou o homem após mais alguns segundos em silêncio. — Fianton costuma pegar leve com os mais inexperientes, mas seu Honchkrow se saiu muito bem. — continuou, tentando esboçar um sorriso mas falhando em esconder a confusão estampada em seu rosto.
O rapaz de cabelos negros apenas assentiu, deixando um leve sorriso estampar seu rosto antes de retornar ao grupo de Rangers, os quais o parabenizavam e conversavam animadamente sobre a corrida, deixando um confuso Marcus para trás.
(***)
Às cinco horas da tarde em ponto, todos os Rangers que participavam do horário de recreação recolheram seus pokémons e retornaram a realizar suas tarefas diárias. A disciplina e pontualidade dos guardas florestais era certamente impressionante, Caesar jamais esperaria tamanha organização dos mesmos. Ao retornar ao prédio, Marcus chamou seu grupo ao Quartel General, onde lhes explicou sobre a missão do dia seguinte; iriam até Verdanturf procurar um grupo de pokémons selvagens que estavam ferindo moradores e seus monstrinhos de bolso. Calmamente, o líder pediu para que o mais novo ficasse em Mauville para descansar e treinar um pouco, sem receber objeções do garoto franzino. Em situações normais, Caesar certamente não se deixaria dispensar tão facilmente, contudo, um tempo livre na cidade onde Dakota passava a maior parte de seus dias com certeza lhe renderia alguma informação sobre o sumiço da menina – e, no momento, a amiga desaparecida era sua prioridade.
Após o jantar, o qual era realizado todos os dias às seis e meia, o jovem de cabelos negros retornou a seu quarto, acompanhado de seu Zorua, para retomar o que fazia no momento em que fora interrompido pela Barbie Maníaca. Agora mais calmo, retirou sua camiseta suada e vestiu-se com uma bermuda mais confortável para, enfim, deitar-se sobre a cama.
— Enfim, paz. — suspirou o jovem, aliviado.
Sem ao menos receber um comando, a raposa negra abocanhou cautelosamente o envelope alvo e entregou-o à seu treinador, o qual murmurou um “obrigado”, e logo deitou-se ao seu lado, fitando o pedaço de papel como se fosse capaz de lê-lo. Enquanto Caesar analisava cada linha delicadamente escrita pela menina loira, sua doce voz ecoava na mente do rapaz, apenas para assombrá-lo e relembrá-lo de que ela não mais estava lá.
Na carta, Dakota discorria sobre sua primeira semana em Hoenn, seus primeiros trabalhos como Ranger e, até mesmo, citava o nome de alguns de seus companheiros de time. Agora que o rapaz de cabelos negros encontrava-se no mesmo lugar que a amiga desaparecida, ele conseguia compreender melhor certas informações, mas nada parecia significantemente novo ou relevante. Contudo, uma frase utilizada pela garota em especial chamou sua atenção. “Eu sei que você costuma sempre olhar para cima”, a menina escrevera, referindo-se ao modo como Caesar sempre enxergava-se superior aos outros, “mas tente olhar para baixo também, ás vezes. No chão há várias coisas interessantes, as quais, para muitos, passam despercebidas.”
— É isso! — o rapaz exclamou em voz alta, como se acabasse de ter uma epifania, saltando para fora da cama e assustando seu Zorua no processo.
Prontamente, Caesar pôs-se a analisar o chão composto por tábuas de madeira, afastando móveis e removendo o tapete para facilitar sua busca. Passando os dedos cuidadosamente pela madeira, o garoto tentava encontrar alguma tábua solta ou um espaço oco onde algo pudesse ter sido guardado. Dark auxiliou seu treinador, farejando odores que lhe parecessem incomuns e, por vezes, raspando as garras nas tábuas de madeira, testando sua resistência. Por fim, o raposo emitiu uma espécie de latido baixo, chamando a atenção do jovem que, rapidamente, foi a seu encontro.
— Obrigado, Dark. — agradeceu o rapaz pálido ao notar que seu companheiro encontrara uma tábua cujo uma das extremidades estava um pouco mais elevada.
Com certa dificuldade, Caesar conseguiu mover a tábua de madeira o suficiente para que pudesse visualizar o que havia abaixo dela. Surpreendeu-se ao encontrar uma pequena caixa de papelão, um pouco maior do que aquelas que guardavam brincos ou anéis, a qual rapidamente apanhou. Com cuidado, removeu sua tampa e desdobrou o pequeno pedaço de papel contido em seu interior e, para sua felicidade, deparou-se com a delicada escrita da garota.
“É, garoto das sombras. Se você está lendo isso, eu provavelmente não cheguei tão longe como eu gostaria.” As palavras da jovem o fizeram estremecer. “Provavelmente, alguma coisa aconteceu comigo e você veio investigar. Se for o caso, a história é longa demais para eu te explicar tudo aqui. Em Slateport, uma amiga minha, que trabalhava junto a mim tentando desvendar os mistérios que assombram a região de Hoenn, poderá te contar tudo. Seu nome é Giovanna, mas ela atende pelo codinome ‘Iris’. Ela trabalha no Museu Oceânico. Pergunte sobre a organização Ghost. Apenas fale isso e meu nome, será o suficiente para ela compreender quem você é. Boa sorte, e não faça nada idiota.”
Era... Só aquilo? Caesar buscava por pistas para compreender mais sobre o sumiço de sua melhor amiga mas, após achar o bilhete, ele apenas tinha mais dúvidas. Então, Dakota não era mais uma vítima inocente, ela provavelmente havia sido descoberta por quem estivesse por trás dos desaparecimentos que ocorriam em Hoenn. Havia algo mais sombrio sobre essa história do que ele esperava. O que a jovem descobrira? Até que ponto os mistérios da região poderiam ser explicados? Quem era essa tal de Ghost e o que eles pretendiam? As perguntas que surgiram na cabeça do garoto após ler o bilhete eram tantas, e ele precisava das respostas imediatamente. Se havia alguma chance de Dakota ainda estar viva, sua vida poderia depender de o quão rápido ele seria capaz de encontrá-la.
Com as novas informações e dúvidas, o jovem pálido se transformara em uma enorme bagunça de sentimentos. Medo, raiva, determinação percorriam cada centímetro de seu corpo, preenchendo cada uma de suas células e desesperando-o mais a cada segundo. Inconscientemente, o rapaz andava de um lado para o outro dentro de seu quarto, sua mente turva e suas aflições consumindo-o.
Apenas após alguns latidos de Dark seu treinador fora capaz de perceber suas tentativas de chamar sua atenção. Fitando o vulpino, tentou clarear sua mente e afastar seus pensamentos para que pudesse organizar com astúcia seus próximos passos.
— Tudo bem. — o jovem exclamou puxando uma grande quantidade de ar para dentro de seus pulmões em uma tentativa de acalmar-se, embora seus olhos ainda estivessem arregalados, transparecendo sua aflição. — Nós temos que ir para Slateport. Amanhã.
O Zorua shiny assentiu, embora soubesse que seu treinador não falava com ele, mas sim consigo mesmo.
Sentando-se sobre a cama, Caesar repreendeu o turbilhão de perguntas que insistia em retornar a sua mente. Cautelosamente, avaliou sua situação, decidindo-se por viajar para a cidade de Slateport logo pela manhã, assim que Marcus e sua equipe houvessem partido – assim, não haveria ninguém para lhe fazer perguntas ou impedi-lo. Deitou-se e tentou forçar seus olhos a se fecharem, em uma tentativa de dormir cedo para acordar mais disposto e atento no dia seguinte.
Após certo tempo, um único pensamento fora capaz de acalmá-lo o suficiente para que conseguisse dormir: apesar de ter mais dúvidas, encontrava-se um passo mais perto de encontrar sua amiga.
Ele só esperava que fosse rápido o suficiente para encontrá-la viva.
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