Umbra Viscerum: O terror que vem do céu.
3 Capítulo II - O contato e a Loucura.
A tensão no castrum atingiu um ponto de ruptura. A névoa, que havia se tornado uma presença constante e sufocante, parecia agora pulsar em sincronia com as luzes esverdeadas que dançavam em seu interior. A disciplina romana, outrora inabalável, começava a se esfacelar sob o peso do medo e da privação de sono. Os sussurros na névoa haviam se transformado em vozes claras para alguns, promessas de poder e conhecimento para outros, e ameaças indizíveis para a maioria. Valerius sabia que o tempo estava se esgotando. Eles não podiam mais se dar ao luxo de esperar. Foi então que aconteceu. Um som. Não um grito, nem um rugido, mas um zumbido profundo e ressonante que parecia vibrar nos ossos. A névoa, como se fosse um véu rasgado, abriu-se lentamente, revelando uma figura. Não era um bárbaro, nem uma fera, nem mesmo um demônio das lendas romanas. Era algo que desafiava toda a compreensão. Uma construção geométrica, com arestas afiadas e superfícies que parecem absorver a luz. Era feita de um metal escuro e iridescente, que mudava de cor conforme a luz pulsante em seu interior. Não tinha olhos, nem boca, nem membros discerníveis, mas movia-se com uma graça antinatural, flutuando a poucos palmos do chão.
Os legionários nas muralhas, antes paralisados pelo terror, reagiram com o instinto de treinamento. Flechas voaram, pila foram lançados, mas as armas simplesmente ricochetearam na superfície da criatura, sem deixar um arranhão. O som metálico do impacto era o único som em meio ao silêncio atônito. Titus Corvus, vendo a ineficácia dos projéteis, gritou: “Formação! Ataquem! Por Roma!” Ele liderou um pequeno grupo de legionários corajosos, que desceram das muralhas e avançaram com suas gladii desembainhadas. Valerius observou com um pavor crescente. Ele sabia que era inútil. Aquilo não era um inimigo que pudesse ser ferido por aço. A criatura, como se percebesse a ameaça, parou. Uma abertura se formou em sua superfície, revelando uma luz ainda mais intensa, de um verde doentio. Um pulso de energia, silencioso e invisível, emanou da criatura. Os legionários que avançavam com Corvus caíram. Não estavam mortos, mas contorciam-se no chão, gritando, seus olhos revirados, suas mentes quebradas. Eles se levantaram, mas não eram mais os mesmos. Seus olhos estavam vazios, suas bocas abertas em um grito silencioso, e eles começaram a atacar uns aos outros, com uma fúria cega e insana. Corvus, que estava um pouco mais atrás, foi atingido de raspão pelo pulso. Ele caiu de joelhos, as mãos na cabeça, gritando. Valerius correu até ele, arrastando-o para trás das muralhas, enquanto os outros legionários tentavam conter os companheiros enlouquecidos. “O que… o que foi aquilo?” Corvus balbuciou, seus olhos arregalados, mas ainda com um lampejo de sanidade. “Não é um monstro, Valerius. É… é algo mais.” Valerius olhou para a criatura, que agora flutuava mais perto das muralhas, suas luzes pulsando com uma intensidade hipnotizante. Ela não atacava; parecia… observar. Como um predador que estuda sua presa. O cheiro metálico e acre se intensificou, e Valerius sentiu uma pontada de dor em sua própria mente, uma sensação de desorientação. Ele sabia que não podia lutar contra aquilo com espadas e escudos. Ele precisava de respostas. E havia apenas uma pessoa no castrum que poderia ter alguma ideia do que eles estavam enfrentando. “Preparem as defesas!” Valerius gritou, sua voz rouca. “Não ataquem a criatura! Apenas se defendam dos que foram afetados!” Ele olhou para Corvus, que ainda tremia. “Fique aqui. Mantenha a ordem. Eu preciso ir.” Corvus assentiu, ainda em choque. Valerius sabia que estava deixando o castrum em mãos incertas, mas não havia escolha. Ele precisava encontrar Lyra. A sacerdotisa bárbara, com suas lendas e seu conhecimento da floresta, era a única esperança de compreender o terror que havia chegado do céu. Enquanto ele se afastava, o zumbido da criatura parecia se intensificar, e as luzes esverdeadas dançavam em sua visão periférica, prometendo loucura e esquecimento.

Valerius moveu-se pelas ruas do castrum com uma urgência silenciosa. A névoa havia se infiltrado até mesmo nos recantos mais protegidos, e as luzes esverdeadas pulsavam através das frestas das construções, lançando sombras dançantes e distorcidas. Os gritos dos legionários enlouquecidos, contidos no valetudinarium, eram um lembrete constante da ameaça que pairava sobre eles.
Ele precisava de Lyra. A sacerdotisa germânica, prisioneira de guerra e curandeira relutante, era a única que parecia possuir um conhecimento que ia além das táticas militares e da fé nos deuses romanos. Ele a encontrou em sua pequena cabana nos arredores do castrum, um lugar que os legionários evitavam, temendo as “magias bárbaras”.
Lyra estava sentada em frente a uma fogueira bruxuleante, seus olhos profundos e antigos fixos nas chamas. Ela não se surpreendeu com a chegada de Valerius. “A escuridão que veio do céu… ela fala com você também, centurião?” Sua voz era um sussurro rouco, mas carregado de uma sabedoria ancestral. “Não fala, Lyra. Ela… destrói a mente.”
Valerius sentou-se em um banco de madeira, o peso dos eventos recentes curvando seus ombros.
“O que é aquilo? Os deuses de Roma nunca criaram tal abominação.”
Lyra sorriu tristemente. “Os deuses de Roma são jovens, centurião. Os deuses da floresta são antigos. E o que veio do céu é mais antigo que todos eles.” Ela se levantou, pegando um cajado de madeira entalhada. “Venha. Há um lugar onde as histórias são gravadas na pedra. Histórias que seus deuses esqueceram, ou nunca souberam.”
Ela o guiou para fora do castrum, através da névoa que agora parecia menos ameaçadora sob sua presença. Valerius, um homem de lógica e ordem, sentiu uma estranha confiança na mulher. Eles se aventuraram na floresta, onde a névoa era ainda mais densa, e as luzes esverdeadas pulsavam com mais intensidade. Lyra parecia se mover com facilidade, como se a floresta fosse uma extensão de seu próprio corpo. Valerius, por outro lado, sentia-se um intruso, um cego em um mundo de sombras. Eles chegaram a uma clareira escondida, onde um círculo de pedras antigas se erguia, cobertas de musgo e gravuras desgastadas pelo tempo. No centro, havia uma pedra maior, como um altar. Lyra acendeu uma tocha, e a luz bruxuleante revelou as gravuras nas pedras. Eram figuras primitivas, mas inconfundíveis. Carros de fogo descendo do céu, seres com formas angulares e luminosas, e homens caindo de joelhos, suas mentes em desespero.

"Os antigos chamavam-nos de 'Funis Himinakundaz,' ou se seus ouvidos romanos preferirem; 'Ignis Caelestis'”. Lyra sussurrou, traçando uma das gravuras com o dedo. “Fogo Celestial. Eles vêm de tempos em tempos, quando as estrelas se alinham de uma certa forma. Eles não são deuses, nem demônios. São… coletores. Eles buscam algo. E quando não encontram, ou quando são perturbados, eles consomem. Luz, pedra, e a mente dos homens.” Valerius estudou as gravuras, uma sensação de vertigem o atingindo. Aquilo não era mitologia; era um registro. Um registro de um terror que se repetia através das eras. “Eles estão coletando o quê?” ele perguntou, sua voz rouca. Lyra apontou para uma gravura que mostrava os seres angulares absorvendo a luz de uma estrela. “Energia. Eles se alimentam da essência do mundo. E quando estão feridos, eles buscam reparar-se, usando o que estiver disponível. Metal, pedra… e a energia vital dos seres vivos.” Ela olhou para Valerius, seus olhos cheios de uma tristeza profunda. “Eles não nos veem como seres vivos, centurião. Apenas como recursos. Como formigas em um formigueiro que eles podem saquear.”
O centurião sentiu um frio que não vinha da névoa. A insignificância de Roma, de toda a humanidade, diante de tal poder. Não era uma batalha que pudesse ser vencida com legiões. Era uma luta pela própria existência, contra algo que nem sequer reconhecia sua existência. “Há alguma forma de detê-los?” ele perguntou, a esperança uma chama fraca em seu peito. Lyra balançou a cabeça. “Os antigos tentaram. Com fogo, com rituais, com sacrifícios. Nada funcionou. Eles apenas… se foram, quando terminaram o que vieram fazer. Ou quando foram reparados.” Ela tocou a pedra do altar. “Mas há uma lenda. Uma lenda de que a luz pode ser usada contra a própria luz. Que o fogo celestial pode ser refletido, e que o coletor pode ser sobrecarregado por sua própria essência.” Valerius olhou para o aquila da legião, a águia de prata que representava a honra e a glória de Roma. Um símbolo de luz e poder. Uma ideia insana começou a se formar em sua mente, uma aposta desesperada contra o fim. Ele não sabia se funcionaria, mas era a única chance que tinham. A única forma de lutar contra o Ignis Caelestis era com sua própria luz. E ele sabia exatamente onde encontrar a luz mais brilhante de Roma.
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