Umbra Viscerum: O terror que vem do céu.

4 Capítulo III - A verdade despedaçada.


O retorno de Valerius ao castrum foi marcado por um caos crescente. A névoa, antes um véu, agora parecia uma parede pulsante de esmeralda, e as luzes esverdeadas dançavam em seu interior com uma intensidade febril. Os gritos dos legionários enlouquecidos haviam se intensificado, e a disciplina, que Valerius tanto prezava, estava se desintegrando. Titus Corvus, com o rosto pálido e os olhos injetados de sangue, tentava em vão manter a ordem, mas sua voz era abafada pelo zumbido crescente que emanava da criatura lá fora.

“Centurião! Eles estão… eles estão vindo!” Corvus gritou, apontando para a névoa. Dezenas de formas angulares, menores que a primeira, mas igualmente aterrorizantes, emergiam da brancura. Elas não flutuavam, mas se moviam com uma velocidade assustadora, deslizando sobre o terreno irregular como insetos gigantes. Não eram guerreiros, não pareciam ter armas, mas sua mera presença causava um terror paralisante.

Valerius viu o que Lyra havia descrito. As criaturas não estavam atacando no sentido convencional. Elas estavam… colhendo. Com feixes de luz esverdeada que emanavam de seus corpos, elas começaram a desintegrar as paliçadas de madeira, transformando-as em pó. As pedras das muralhas se dissolviam em uma pasta brilhante. Os legionários, em pânico, tentavam revidar, mas suas espadas e lanças eram inúteis. Os feixes de luz passavam por eles, ou os desintegravam, deixando apenas uma nuvem de poeira e um cheiro de ozônio.

“Não ataquem! Recuem para o centro do castrum!” Valerius berrou, tentando ser ouvido acima do zumbido e dos gritos. Mas era tarde demais. As criaturas já estavam dentro das muralhas, movendo-se com uma eficiência fria e calculista. Elas não pareciam se importar com os legionários, a menos que estes se interpusessem em seu caminho. Seu foco estava nas estruturas, nos materiais. Elas estavam desmantelando o castrum, peça por peça.

Corvus, em um acesso de desespero e bravata, agarrou uma gladius e avançou contra uma das criaturas menores. “Por Roma! Morram, abominações!” Ele desferiu um golpe, que ricocheteou inofensivamente. A criatura, como se irritada por um inseto, girou. Um feixe de luz esverdeada, mais intenso que os outros, atingiu Corvus em cheio. Ele não gritou. Não houve sangue, nem corpo. Apenas um brilho intenso, e então… nada. Titus Flavius Corvus, o ambicioso optio, havia sido reduzido a pó, sua existência apagada em um instante.



Valerius sentiu um nó na garganta. A morte de Corvus, tão súbita e sem sentido, foi um golpe esmagador. Não havia glória, não havia honra. Apenas a aniquilação. A verdade era uma lâmina fria: eles não eram inimigos para essas coisas. Eram apenas recursos. Matéria-prima para um propósito incompreensível.

Enquanto o castrum se desintegrava ao seu redor, Valerius viu a criatura maior, a que havia caído do céu, flutuando sobre o que restava do pátio central. Ela não estava atacando, mas parecia estar absorvendo. Os materiais desintegrados pelas criaturas menores eram direcionados para ela, como se ela fosse um ímã gigante. Lyra estava certa. Elas estavam se reparando. E o castrum, com seus homens e suas pedras, era apenas uma fonte de energia.

Os sobreviventes, um punhado de homens aterrorizados, se aglomeravam em um canto, suas armas inúteis, seus olhos fixos no horror que se desenrolava. Valerius sabia que não podiam lutar contra aquilo. Mas podiam tentar impedir que se reparasse completamente. A ideia de Lyra, de usar a própria luz da criatura contra ela, ecoava em sua mente. Era uma loucura, uma aposta desesperada. Mas o que mais restava? Roma estava longe, e os deuses, silenciosos.




Valerius sabia que Roma não poderia vencer através da força bruta. Lyra estava certa. Ele pensou em uma história que seu pai havia compartilhado uma única vez sobre um ancestral distante, um soldado macedônio de Alexandre que havia recusado retornar à pátria após as campanhas na Índia. Em vez disso, havia escolhido permanecer em Báctria, casando-se com uma princesa local. Seus filhos cresceram falando tanto grego quanto prakrit, herdando tanto a disciplina militar quanto a sabedoria espiritual. Talvez fosse hora de Valerius honrar aquele precedente antigo: a vitória através da escolha, não da conquista. Apenas a engenhosidade e a coragem dos homens, e a sabedoria esquecida de uma sacerdotisa bárbara, poderiam oferecer alguma esperança contra o 'Ignis Caelestis'.