Uma vez Sonserina
1 Capítulo 1: Deslocada
Notas iniciais
Rose Weasley acordou com uma única certeza: havia algo profundamente errado.
Não foi apenas a dor de cabeça ou a estranha sensação de peso no corpo. Foi o cheiro. E o silêncio. E... o verde.
Sentou-se de súbito, piscando contra a luz incômoda que invadia o quarto. As paredes à sua volta estavam decoradas em tons de verde escuro e prata. Cortinas pesadas escondiam os vitrais góticos. Travesseiros bordados com cobras. Tudo era luxuoso, frio e... completamente fora de lugar.
Seu coração disparou.
— Que droga... — murmurou, empurrando as cobertas. Estava usando um pijama que não reconhecia. Também não estava no dormitório da Grifinória. E definitivamente não estava sonhando.
Levantou-se, cambaleando um pouco, e atravessou o quarto em direção à porta. Foi então que ouviu vozes no corredor.
— Ela já acordou? — perguntou uma menina.
— A essa hora? Rose só acorda cedo em dia de prova — respondeu outra, entre risos abafados.
Rose recuou. Elas me chamaram de Rose. Não Rosie, como Al e Lily fazem. Nem Weasley, como os sonserinos costumam dizer com desdém. Só... Rose.
Ela abriu a porta.
Dois rostos se viraram para ela: Amber Parkinson e Clarisse Nott. As duas usavam o uniforme da Sonserina, impecável até nos detalhes. Quando viram Rose, sorriram como se nada fosse estranho.
— Bom dia, dorminhoca — disse Amber, casualmente.
— Dormi aqui? — foi a única coisa que Rose conseguiu perguntar, a voz mais aguda do que gostaria.
As garotas se entreolharam, confusas.
— É o que você costuma fazer no seu dormitório — respondeu Clarisse com um sorrisinho debochado. — Tá tudo bem com você?
Rose paralisou. Meu dormitório?
Voltou para dentro como se flutuasse, fechando a porta devagar. Encostou-se nela e inspirou fundo. Havia um espelho sobre a cômoda — o tipo grande, oval, com moldura de ferro batido. Aproximou-se devagar, quase temendo o reflexo.
E lá estava ela. Mesma Rose. Mesmo cabelo ruivo meio armado. Mesmas sardas. Mas ao seu lado, sobre a mesa, repousava uma gravata com as cores da Sonserina.
Sentiu a náusea subir. Tudo isso só podia ser um sonho. Um pesadelo causado por um feitiço malfeito. E então, como um estalo, ela lembrou.
O livro. A biblioteca. A página rasgada. Um feitiço antigo com a promessa vaga de “libertar o verdadeiro eu”. Não lembrava de ter terminado o encantamento — talvez tivesse adormecido no meio? Mas e agora?
Antes que pudesse organizar o pensamento, a porta se abriu de novo — sem nem um bater.
— Você está atrasada. — Era a voz de Scorpius Malfoy.
Rose girou nos calcanhares.
— O quê?
Ele estava ali, parado com naturalidade. Usava o uniforme da Sonserina com a gravata meio frouxa e o cabelo bagunçado de sempre, mas o jeito com que olhava para ela era diferente. Sem estranhamento, sem surpresa. Como se eles fossem...
— Você tá bem? — perguntou, dando um passo à frente. — Parece meio pálida.
Ela não respondeu. Ele franziu a testa e chegou mais perto.
— Foi a insônia de novo? — disse, num tom tão familiar que doeu. — Eu avisei que não adiantava ficar relendo aqueles livros antes de dormir. Seu cérebro não desliga.
Meu cérebro não desliga? Era o tipo de coisa que alguém muito próximo diria. Alguém que a conhecesse melhor do que deveria.
— Scorpius, o que tá acontecendo?
Ele piscou, confuso.
— A aula de Poções é em quinze minutos. E você tem que apresentar o projeto comigo, lembra?
Ela engoliu em seco.
— Desde quando eu faço Poções com a Sonserina?
Scorpius a encarou, agora com mais atenção. Seus olhos ficaram mais sérios.
— Rose... você é da Sonserina.
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