Uma vez Sonserina

2 Capítulo 2: Ninguém te contou


Rose Weasley estava presa num pesadelo sofisticado.

Não do tipo em que você é perseguida por Trasgos ou aparece pelada no Salão Principal. Esse era pior: do tipo que parece real. Cada detalhe ao seu redor gritava normalidade, exceto pelo fato de que não era a sua normalidade.

— Você tá com febre? — perguntou Scorpius pela terceira vez, já a acompanhando pelos corredores da Sonserina em direção à aula de Poções. — De verdade, Rosie, você tá me assustando.

Ela apertou os olhos para ele, como se isso o obrigasse a mudar de forma, entregar a mentira, se revelar um impostor.

— O que você quer dizer com “eu sou da Sonserina”?

— Quero dizer que você foi selecionada na frente de todo mundo, inclusive de mim, que tremia feito um elfo doméstico. O chapéu nem pensou muito. Lembra? Ele disse que você era ambiciosa, determinada, estrategista... Ele basicamente gritou “SONSERINA” antes de encostar na sua cabeça.

Ela parou.

— Scorpius. Isso nunca aconteceu.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Aconteceu sim. Há sete anos. E você ficou furiosa com a Hermione por dias, lembra? Disse que ela tinha “plantado valores errados” em você.

Rose ficou pálida.

Não. Isso não fazia sentido.

Ela sempre foi da Grifinória. Tinha orgulho disso — ou pelo menos era o que achava. Não que fosse a mais corajosa, ou a mais destemida, ou a mais qualquer-coisa. Mas era seu lugar. O lugar dos Weasley. O lugar de seus amigos, de sua história.

— Não... isso não é real. Eu fiz um feitiço. Eu... eu queria mudar de vida, mas não... não assim.

Scorpius parou também, o rosto agora visivelmente preocupado. Ele segurou seu braço com delicadeza.

— Rose... do que você tá falando?

Ela puxou o braço, se afastando.

— De um feitiço que eu achei na biblioteca. Não sei se eu... terminei. Não lembro de ter dito todas as palavras, mas... — ela parou, tentando recuperar a sequência. Mas sua mente era um novelo embaraçado.

Scorpius esfregou a testa.

— Ok. Vamos organizar. Você fez um feitiço ontem à noite. Sozinha?

Ela assentiu.

— E hoje acordou achando que algo está errado com a realidade?

Outro aceno.

Ele suspirou. Olhou ao redor, depois a encarou.

— Rose, isso me parece um tanto... paranoico. Dorme comigo há anos e só agora tá achando estranho?

O quê?

Ela recuou um passo. Scorpius arregalou os olhos, percebendo o que acabara de dizer.

— Eu... não foi isso que eu quis dizer! Quer dizer, a gente não dorme junto-junto, tipo... não do jeito... Ai Merlim. Só quis dizer que dividimos o mesmo dormitório há anos. Você mora com a gente. É da Sonserina, lembra?

Rose olhou em volta.

As paredes frias, os tapetes verde-escuros, os sorrisos contidos dos alunos que passavam por eles. Era tudo... coerente. Mas era como um quadro pendurado torto: só ela percebia o desalinhamento.

— Onde fica o retrato da Mulher Gorda?

— O quê?

— A entrada da Grifinória. Quero saber onde fica.

Scorpius franziu o cenho.

— No terceiro andar. Mas por quê?

— E o que tem atrás do quadro?

Ele hesitou.

— Não faço ideia. Nunca consegui entrar lá, óbvio. É protegido por senha.

Rose engoliu em seco.

— Eu sabia a senha ontem.

— Ontem você... dormiu aqui. Com a gente. Depois do jogo de Quadribol.

— Que jogo?

— Grifinória contra Corvinal. A gente assistiu. E você reclamou o tempo todo do estilo de jogo da sua prima.

— Da Lily?

— Não, da Dominique.

Rose arregalou os olhos.

Dominique não joga Quadribol.

— Claro que joga. Capitã da Grifinória. Uma das melhores artilheiras da escola. Você vive dizendo que teria sido tão boa quanto ela se tivesse nascido “menos descoordenada”, lembra?

Rose não lembrava. Em nenhum universo.

Ela passou a manhã inteira observando tudo com olhos de estrangeira. Na sala de Poções, sentou-se ao lado de Scorpius sem ser questionada. Entregou um frasco etiquetado com sua caligrafia para o professor Slughorn, que a parabenizou com um sorriso cheio de dente.

— Ainda a melhor da turma — murmurou ele, quase com carinho.

Na saída, Clarisse Nott a puxou para o lado.

— Tô animada pra amanhã. Ensaiou o suficiente?

— Ensaiar o quê?

Clarisse riu.

— O dueto, ué. No Baile das Casas.

— O quê?!

Clarisse a olhou como se Rose tivesse dito que era um hipogrifo.

— Você... tá bem?

— Tô. Só... tenho dormido mal.

Mentira, mas era melhor do que “acho que estou presa em uma realidade paralela e todo mundo parece perfeitamente confortável com isso”.

À noite, ela voltou para o dormitório da Sonserina. Suas coisas estavam lá — baú com as iniciais R.M.W., livros com anotações feitas por ela, uma foto mágica com Scorpius e Albus (ambos fazendo careta) colada na cabeceira da cama.

Tudo era dela.

E nada era seu.

Sentou-se, segurando a cabeça entre as mãos, tentando lembrar cada detalhe do feitiço. Lembrava de ter pensado em fuga. Em anonimato. Em uma vida diferente. Mas não em apagar a própria história. Isso não era o que queria.

A porta rangeu.

Scorpius entrou devagar, carregando dois chocolates embrulhados.

— Roubei da mesa da comunal. Furtos de baixo nível sempre ajudam, aparentemente.

Ela olhou para ele, grata. Aceitou o chocolate sem falar nada.

— Ainda não se lembra?

Ela negou com a cabeça.

— Nada disso faz sentido, Scorpius. Eu não sou essa versão de mim. Não sei cantar. Nunca participei de baile nenhum. E definitivamente não sou da Sonserina.

Ele se sentou ao lado dela.

— Você pode não se lembrar, mas... você é. Sempre foi.

Ela mordeu o chocolate com raiva.

— E você?

— Eu o quê?

— Sempre foi meu amigo?

Ele sorriu, hesitante.

— Acha que algum universo me livraria da convivência diária com você?

Rose deixou escapar uma risada fraca, surpresa com a própria reação. Mas logo voltou ao silêncio.

— E se eu não conseguir voltar?

Scorpius a olhou com mais seriedade agora.

— Talvez... você não tenha vindo de outro lugar.

— Como assim?

— E se o feitiço não alterou o mundo... só revelou uma versão que sempre existiu? Um outro lado seu. Um outro possível “você”.

Ela não respondeu. Porque, no fundo, aquela possibilidade era ainda mais assustadora.

Notas finais
Se você leu isso, não deixa de comentar o que achou <3