Uma seleção mágica
15 Capítulo 15 - Fogo
Notas iniciais
Ren
"... senhor, vamos depressa, acorde."
Ser acordado durante a noite era muito desagradável. Eu tinha acabado de pegar no sono. Olhei o relógio. Onze e vinte. Quarenta minutos de sono.
– O que há, Vince? Onde é o incêndio?
– No estábulo norte, senhor.
Essa resposta me acordou. Peguei um casaco e saí as pressas. Eu tava brincando. Não imaginei um incêndio de verdade.
Pelo caminho fui pegando pedaços da notícia. O fogo estava contido em um único estábulo. Os guardas estavam atentos a atualizações, para acordar os selecionados e selecionadas e levá-los ao abrigo. Mas por enquanto a tarefa era conter o fogo e não criar pânico.
Quando cheguei ao local, Lyn tinha acabado de chegar.
– O que houve?
– Não sei ainda, maninho. Papai estava aqui e já sumiu no meio dos conselheiros ali, — disse apontando um grupo reunido — mamãe foi levar alguns feridos na ala hospitalar.
– Tem alguma ideia de quantos se feriram? — ao que ela negou, balançando a cabeça.
– Meninos. — saudou Aspen ao surgir perto de nós.
– Aspen, o que está havendo? — perguntei já inquieto, baixei a voz e expressei algo que me atormentava há semanas — São eles?
Ele me olhou profundamente e olhou pra Lyn enquanto a ficha dela caia. Ele nunca mentiria pra nós. Não nos "protegeria" da verdade.
– São. Entraram pelo bosque, renderam os guardas desse lado, roubaram os cavalos, atiraram os guardas dentro do estábulo e tocaram fogo. — Lyn levou a mão a boca. Eu mesmo mal me aguentava em pé.
– Como eles estão?
Aspen me olhou um pouco admirado e respondeu que bem. Minha mãe já os havia levado para o tratamento. Ele pediu licença e se juntou aos conselheiros.
– Ren, como podem fazer isso? Atirar fogo em alguém? E pra que roubar os cavalos?
Eu lembrava o fato de sermos gêmeos em momentos como esse. Ela estava dando voz aos meus pensamentos. Eu também não entedia essas questões. Os conselheiros se afastaram e papai veio até nós.
– Então? O que está havendo? Como e porque eles entraram? — Lyn parecia se agarrar a essas questões racionais para não desabar. Entraram na nossa casa. Depois de dezenove anos, entraram aqui e destruíram, roubaram, machucaram. Tínhamos que pensar em outra coisa.
– Já está tarde, Lyn. O fogo foi contido. Ninguém saiu gravemente ferido. Como insisti por meia hora com os conselheiros, temos que deixar os guardas fazerem seu trabalho e amanhã, com todos os dados recolhidos, debatemos os comos e porques.
Lyn não parecia feliz, mas eu entendia meu pai. Falar sobre isso enquanto não tínhamos dados, levava a especulação. E pela manhã todos saberiam por fontes seguras que um ovni derrubou o castelo. Melhor saber o que houve de verdade para depois divulgar a todos. Especular hoje a noite só levaria a fofocas e mentiras.
Eu e Eadlyn fomos caminhando para o castelo.
Lily
A resposta do papai chegou rápido.
"Oi minha pequena. Que bom saber da fauna daí. Você deve ter se surpreendido com a semelhança aqui de casa. Tome cuidado no castelo. Seja educada com todos e orgulhe sua mãe. Nem pense em sair da linha. Sua mãe consegue lhe castigar do outro lado do oceano. Espero te ver em breve. Coma direito.
VC, Papai."
VC. vigilância constante.
"Espero te ver em breve" foi também interessante. Papai resolver vir.
Porque estava acordada, ouvi uma movimentação no corredor, fiquei de pé e olhei pela brecha da porta. Mais guardas. Segurança reforçada. Logo depois vi o porquê. Só notei porque a janela tava aberta e dava pro lado norte do jardim. Um brilho dourado. Fogo num estábulo. Vi três pessoas fugindo com os cavalos e duas pessoas amarradas no meio do fogo.
Agi rápido e com cautela. Lancei um feitiço de desilusão em mim e protegi as pessoas do fogo. Vi os guardas chegarem e agirem pra conter o fogo. Quando se aproximaram deles, suspendi a proteção, mas mantive a desilusão enquanto observava.
Vi o casal real chegar. Cercado por guardas e conselheiros. O rei Maxon foi se envolver com o resgate e a rainha América com os preparativos do socorro. Ela saiu junto com os médicos e enfermeiros assim que puseram os feridos nas macas. Pouco depois chegaram Ahren e Eadlyn. Meu coração se alegrou ao ver ele tão preocupado e atento. Ele se importava com seu povo. E era competente. Logo conseguiu se atualizar. A princesa também era sempre competente e compassiva. Mas parecia em choque com o ataque.
As chamas foram contidas logo e tenho certeza de que ninguém notou. Eu era a única na varanda. Quando a adrenalina baixou, o sono veio. Conferi meus atos. Não fui vista e nem dei margem para me descobrirem. Só ajudei algumas pessoas. Tudo estava bem.
Eu tava quase dormindo quando ouvi um movimento suave na cortina e olhei na direção. Quase caí da cama. Reflexo ao viver com trouxas. Só pode. A surpresa não foi a visita. Foi o fato de estar em Illéa.
Ren
– Não sei porque nos chamaram, se não podemos fazer nada. — Lyn reclamou depois de muito tempo.
– Calma, maninha. Eles tem que chamar. Podíamos estar em perigo. Os selecionados podiam estar em perigo. E você tem que aprender a lidar com o conselho. Como papai fez hoje.
– Odeio lidar com o conselho. Eles me tratam como uma princesa mimada e intrometida. Como se eu devesse apenas sentar e ser bonita. As vezes queria que eles me tratassem como tratam a mamãe.
– Você sabe o que ela diz. Até a ouvirem foi uma grande jornada. Eles são tradicionalistas.
– E machistas. — completou ela.
– Não deixa de ser verdade. Mas tenha paciência e siga os passos do papai. Docilidade, firmeza e humildade.
– Ainda bem que tenho você. Vou precisar de sua ajuda quando assumir.
– Pra isso você vai ter um marido. — fingi indignação.
– Mas ele vai ter que aprender com um mestre. — disse ela rindo.
– Bota casaco... — imitei já rindo.
Rimos corredor a fora. Nem reparamos a sombra prateada que passou pela janela. Pode ter sido uma ilusão óptica. Já passava das duas. Tínhamos que dormir. Amanhã seria um dia cheio.
Fale com o autor