Uma luz na escuridão
4 Capítulo 4 (Revisado)
Notas iniciais
Pov. Melissa
Sabe quando você tem aquela sensação de que algo vai dar errado? Pois é, estou com essa sensação.
Depois que o pessoal saiu pra busca, ajudei Beth com a Judy. Carl foi ajudar Carol na cerca, arrumei minha cela e agora estou aqui na cerca.
Esses zumbis estão cada vez mais repugnantes. Já fazia horas que eu os matava. Eles sempre se juntam e começam a forçar a cerca, então temos que derrubar o máximo possível — mas sempre deixamos alguns para tentar encobrir nossos cheiros.
— Ei, Mel — chamou Anabelly. Ela era do outro bloco, a única com quem eu falava mais do que o necessário.
— Oi — respondi.
— Que cara de preocupada — comentou.
Dei de ombros.
— Está preocupada com ele — disse ela.
— O quê? Quem? — perguntei sem entender.
— Daryl — falou rindo.
— Não diga besteira — respondi.
Ela riu e apontou para a cerca.
— Minha vez.
Tirei o ferro, logo as luvas e o avental, e entreguei pra ela.
— Boa sorte — falei, e ela torceu o nariz, assim como eu odiava aquilo.
Quando comecei a andar, ouvi o barulho da moto. Meu coração acelerou. Corri para o pátio.
O portão foi aberto e, ao ver quem pilotava a moto, senti meu coração despedaçar: era Michonne. Algo estava errado. Eu sabia.
— Hershel! Chamem o Hershel! — gritou Mich.
Seus olhos encontraram os meus, e senti meu mundo desabar.
Vi a porta de trás do carro se abrir. Tyreese correu até lá. Rick e ele tiraram alguém de dentro — e então meu coração, que já estava em pedaços, se esfarelou de vez. Era Daryl.
— Daryl! — gritei indo até ele.
Michonne me segurou.
— Me solta! Preciso ver ele! — falei, já sentindo as lágrimas brotarem.
— Deixe Hershel cuidar dele, depois você vai — disse ela, me segurando firme.
Olhei desesperada para onde ele tinha sido levado.
— Vem, me ajuda a tirar as coisas do carro — pediu Michonne.
Assim que ela me soltou, murmurei um “desculpe” e corri para dentro do bloco. Eu precisava ver Daryl.
— Onde ele está? — perguntei para Beth, que chorava.
— Lá em cima — respondeu, apontando.
Subi correndo. Tyreese estava na porta da cela. Entrei às pressas, e Hershel me olhou assustado.
— Melissa, saia — falou Rick.
— Não — respondi firme.
— Você tem que sair — disse ele, vindo em minha direção e segurando meu braço.
Puxei a adaga presa à minha calça e a coloquei em sua garganta.
— Tira as mãos de mim — falei, o encarando.
Rick, talvez surpreso com minha reação, me soltou rapidamente.
— Como ele está? — perguntei a Hershel.
— Ele vai ficar bem. Preciso retirar uma das balas — respondeu.
Balas. As palavras de Hershel ecoavam na minha cabeça.
— O que aconteceu? — perguntei, olhando para Rick.
Ele respirou fundo. Eu sabia que não gostou do que eu fiz, mas não me importava.
— Encontramos um grupo de sobreviventes ao sairmos da loja. Um dos homens conhecia Daryl de antes. Ele queria levar todo o suprimento que conseguimos e, como não concordamos... — ele se calou.
Uma raiva tomou conta de mim. Espero que esse homem esteja morto. Bem morto. Se não estiver, eu mesma o matarei.
— Ele está morto? — perguntei, e ele sabia de quem eu falava.
— Sim — respondeu.
Daryl gemeu de dor, e meu coração se esfarelou mais um pouco. Ele não parecia em nada o caçador durão sem dó que diziam ser. Ali estava o homem de bom coração, o homem que salvou minha vida — e a de vários naquele lugar. Ali estava meu Daryl.
Minutos que pareceram horas se passaram até Hershel terminar de retirar o fragmento da bala.
— Ele ficará bem, querida — disse Hershel.
Assenti e me sentei no chão, ao lado da cama.
Beth apareceu poucos minutos depois, trazendo uma bolsa de soro e alguns remédios. Hershel colocou o soro e depois saiu.
Me arrastei para mais perto da cama, encostando na pequena mesinha.
— Acorda... por favor — sussurrei.
Não consegui conter a vontade de acariciar seus cabelos. Passei a mão pelos fios. Ficaria ali até ele acordar.
— Você não pode me deixar... — sussurrei. — Você não pode me deixar sozinha. — As lágrimas escorriam. — Não pode.
— Vim limpar ele — falou Beth, entrando.
Apenas assenti.
— Depois Rick e Ty vão vir trocá-lo — completou.
— Eu te ajudo — falei.
Começamos a limpar, tirando todo aquele sangue.
— Ele vai melhorar. Daryl é durão — disse firme.
— Sim — sorri, olhando pra ele.
Beth saiu e eu voltei pro meu lugar. Algum tempo depois, Rick e Ty chegaram para trocá-lo. Esperei do lado de fora até terminarem.
[...]
Dois dias se passaram, e Daryl continuava do mesmo jeito.
— Branquela? — chamou Michonne. Olhei pra ela.
— Não vou sair daqui — falei, já sabendo o que ela ia dizer.
— Eu sei. Só vim te trazer algo pra comer — respondeu, e só então percebi a bandeja em suas mãos.
Suspirei. Era assim há quase dois dias, desde que todos entenderam que eu não sairia daqui enquanto ele não estivesse bem.
Empurrei a comida goela abaixo, sem sentir o sabor.
Depois Michonne deixou a cela. Era sempre assim: ela ficava até eu terminar de comer.
Encostei a cabeça na cama e fechei os olhos por um instante...
Ouvi o primeiro tiro tarde demais. Eu esperava o sinal da Ofélia — o sinal que eu conhecia bem — mas ele não veio. Senti meu corpo ser perfurado antes que pudesse reagir. Caí e consegui me arrastar para trás da moto. O que aconteceu depois foi tudo muito confuso.
— Daryl, levanta! — ouvi a voz da Pimentinha.
O que ela estava fazendo ali? Não... ela não podia estar ali. Gregory não podia pegá-la.
— Daryl! — agora era Mich.
Michonne, você tem que proteger a Melissa. Não pode deixar o Gregory pegar ela. Eu não me importo em morrer, só quero que ela esteja a salvo.
— Fica comigo! — ouvi sua voz de novo. Estava escuro. Eu precisava achá-la.
— Pimentinha! — gritei.
— Daryl, não me deixa! — ouvi seu grito.
— Onde você está?! — gritei de volta.
— Aqui! Estou aqui! — ela respondeu.
Eu precisava encontrá-la. Não podia perdê-la.
— Continue falando! — pedi.
— Aqui, Daryl! Estou aqui! Não tá me vendo? — ouvi de novo.
— Não! Onde você tá?! — gritei, olhando em volta.
Uma dor forte me atingiu no peito. Não posso parar agora. Preciso encontrá-la.
— Tira as mãos de mim! — ouvi sua voz novamente.
Quem está tocando nela? Vou matar esse desgraçado com minhas próprias mãos. Ela é minha.
— Melissa! — chamei.
— Aqui, Daryl! Estou aqui! — respondeu.
— Onde?! — gritei, desesperado.
— Aqui! Você está perto, venha! — sua voz parecia próxima.
Não posso desistir. Preciso chegar até ela.
— Daryl! — ela me chamou de novo, a voz suave, perto.
— Pimentinha... — murmurei.
Ela precisa continuar falando.
— Aqui! Estou aqui! Você está perto! Venha, siga minha voz! — ouvi outra vez.
Fechei os olhos, tentando me concentrar.
— Vem, Daryl... estou aqui. — segui o doce som.
Quando abri os olhos, lá estava ela. O rosto lindo da minha Pimentinha.
— Graças a Deus — ela falou, se jogando em mim.
— Ai... — resmunguei, sem querer.
— Desculpa — falou, se afastando.
A puxei de volta. Era ali, nos meus braços, que ela devia estar.
Sem esperar, ela pressionou os lábios contra os meus. Sentir aquele toque foi a melhor sensação do mundo. Então ela se afastou, mas eu queria mais... queria me perder naquele beijo.
— Mal abriu os olhos e já tá agarrando a menina — ouvi uma voz brincalhona.
Segui o som e vi Hershel. Hershel? Olhei em volta — estava numa cela. Como vim parar aqui?
— Te trouxeram de volta — falou Melissa, notando minha confusão.
Assenti.
— Vamos ver como você está, garoto — disse Hershel.
Melissa se afastou um pouco.
— Estou bem — garanti.
— Sei que está — disse ele, sorrindo. — Mas nos deu um susto e tanto.
Enquanto o bom velhinho me examinava, eu mantinha os olhos em Melissa.
Ela tinha um sorriso lindo. Deixava ela ainda mais perfeita.
— Querida, pegue algo pra ele comer — pediu Hershel.
— Não precisa — falei, não querendo que ela saísse.
— Claro que precisa — respondeu ela.
Se aproximou e me deu um selinho rápido, ficando vermelha, antes de sair da cela.
Hershel gargalhou.
— Acho que ela tomou a decisão que você já devia ter tomado — brincou.
Fiquei sem palavras.
— Ela quase não saiu desta cela — disse ele.
Aquilo realmente me pegou de surpresa.
Não demorou muito e ela voltou com uma bandeja de comida. Beth veio junto, trazendo a pequena Judy. Assim que me viu, a garotinha se esticou toda pra vir pros meus braços. Peguei ela, enchendo de beijos, e ela gargalhou, mostrando o sorrisinho banguela.
— Vem, Judy, Daryl tem que comer — disse Beth, pegando a pequena de volta.
Melissa me entregou a bandeja e se sentou na cama.
Depois que comi, algumas pessoas vieram me ver. Rick garantiu que Melissa não estava lá durante o confronto. Michonne me contou que a garota surtou quando me viu sendo carregado — ri imaginando ela largando Michonne falando sozinha.
Hershel contou que Melissa chegou a ameaçar Rick com uma adaga na garganta quando ele tentou tirá-la da cela enquanto cuidava de mim.
Isso me surpreendeu — não só por ela ameaçar alguém, mas por ser o Rick. Se o próprio não tivesse confirmado, eu acharia que o velho Hershel tinha bebido umas com o Bob.
Maggie e Glenn também vieram me ver. O coreano sortudo do apocalipse tinha levado um tiro de raspão, mas estava bem. Maggie quase rolou de rir quando contou que Melissa ajudou Beth a me limpar.
Já era noite quando Melissa voltou à minha cela.
— Está bem? — perguntou.
— Estou — respondi.
Ela se sentou na cama. Parecia nervosa, torcendo as mãos. Ali estava a menininha que eu queria proteger pra sempre — até com a minha vida, se fosse preciso.
— Vim te dar boa noite. Deixar você descansar — disse, me olhando.
Seu rosto corou, o que a deixou ainda mais irresistível.
— Não vai ficar aqui? — perguntei antes mesmo de pensar.
— Você quer que eu fique? — perguntou.
Isso é pergunta que se faça? Claro que quero. Mas não quero que ela se sinta obrigada.
— Boa noite, Daryl — disse, se levantando.
Rapidamente a puxei, e ela caiu direto nos meus braços. Seu corpo se chocou contra o meu, e ignorei a dor no peito.
Seu rosto ficou a centímetros do meu. Olhei para seus lábios — ela mordia o inferior. Me aproximei... e a beijei.
Pov. Melissa
Daryl me puxou quando levantei pra sair da cela, e meu corpo se chocou contra o dele. A vontade de beijá-lo era imensa, mas não seria eu a fazer isso. Não quero que ele ache que sou oferecida ou qualquer coisa do tipo.
Quando senti seus lábios nos meus, meu coração disparou e quase saiu pela boca. Desta vez, não foi um selinho — sua língua invadiu minha boca, me fazendo sentir sensações nunca antes sentidas. Eu esperava um beijo voraz, mas não foi; foi um beijo calmo, que me fez não querer parar nunca. Ele mantinha uma das mãos em minha nuca e a outra em minha cintura, me apertando mais contra seu corpo.
Aos poucos, o beijo foi chegando ao fim com alguns selinhos. Não consegui encará-lo e escondi meu rosto em seu peito.
Quando acordei, ainda estava sobre o peito de Daryl. Ele tinha um braço envolto em minha cintura e parecia relaxado. Olhei para seu rosto — estava tão suave, tão calmo — e me permiti deitar a cabeça sobre seu peito novamente.
Algum tempo depois, senti ele se mexer. Permaneci quietinha e o senti fazer carinho em meus cabelos.
— Bom dia. — saudei, e ele parou de fazer o carinho.
— Bom dia. — respondeu de volta.
Saí de cima do seu peito e me sentei na cama. Ele também se sentou, me olhou por alguns minutos e me puxou, me dando um beijo que começou com um selinho, foi se aprofundando e terminou com outro selinho.
Ele ficou me olhando. Eu sabia que ele não era muito bom com as palavras, mas se quisesse demonstrar através de seus beijos, eu nem ia ligar, sabe?
— Você é linda. — falou, tocando meu rosto, que senti ficar vermelho.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Rick chegou na porta da cela.
— Desculpem. — falou, percebendo nossa situação.
Só então percebi que estava no colo de Daryl, que mantinha as mãos em minha cintura.
Saí do colo dele, calcei minhas botas, prendi o cabelo de qualquer jeito e saí rapidamente da cela.
Rick prendia a risada — isso era extremamente constrangedor.
Fui até minha cela, peguei uma roupa qualquer e fui para o chuveiro. Depois de um banho rápido, me troquei e tentei me aquecer o máximo que pude.
Cheguei ao refeitório. Daryl estava lá. Ao entrar, todos olharam pra minha cara. Sentei-me ao lado de Carl, o abraçando.
— Ei, branquela, já que Daryl está melhor, podemos começar a treinar hoje. — falou Michonne.
— Está bem. — respondi, sorrindo.
Peguei um pacote de bolacha que estava sobre a mesa e comi algumas. Depois, um pouco de frutas secas. Engoli um pouco de água e logo fui até minha cela pegar minhas coisas.
Cheguei ao pátio, Michonne já estava posicionada, e logo começamos a treinar.
Mich me ensinou a me posicionar corretamente, a segurar as espadas menores — as Sais, como ela disse ser o nome —, me ensinou também algumas coisas com a katana e alguns truques com adagas.
— Olha só, logo vamos ter uma samurai ruiva. — brincou Tyreese.
— Quem sabe. — falei, dando de ombros.
Ele deu risada e logo saiu. Ty era um homem de bom coração, eu o admirava.
— Está indo muito bem. — falou Daryl, chegando perto.
— Obrigada. — falei, envergonhada.
— Você fica ainda mais bonita assim. — disse, passando a mão no meu rosto.
Oi? Daryl Dixon demonstrando carinho na frente de outras pessoas? Hershel, venha aqui, acho que tem algo errado com esse homem.
Daryl se aproximou, seus olhos firmes nos meus. Ao se aproximar mais, ele olhou diretamente para meus lábios, e então os beijou. Foi apenas um selinho, mas o suficiente para que eu perdesse todo o controle que tinha sobre meu corpo.
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