Uma luz na escuridão
1 Capítulo 1 (Revisado)
Notas iniciais
Melissa caminhava mais uma vez pela floresta, que desta vez estava mais silenciosa. A única coisa que a jovem ouvia eram seus passos pisando em galhos secos.
Sentou-se por alguns instantes, encostando-se em uma árvore qualquer. Pegou uma garrafinha de água que trazia na mochila, bebeu um pouco enquanto olhava para o céu azul.
Por alguns momentos, lembrou-se de sua vida antes de tudo isso acontecer e sorriu minimamente. Estava livre — os mortos não eram um problema para ela. Afinal, os evitava e, quando não era possível fugir, os matava.
Pegou uma lata de frutas secas e começou a comer tranquilamente. Pensava que precisava de um lugar para descansar um pouco — já fazia quase três dias que não dormia.
Talvez por estar distraída pensando no que fazer, não percebeu um grupo de zumbis se aproximando.
Quando o primeiro deles entrou em seu campo de visão, a garota se levantou rapidamente, pegou a mochila, jogou-a sobre as costas e começou a correr. Foi pega de surpresa por algo que um dia fora um homem. Sua aparência era deprimente — o pescoço pendia para o lado, claramente havia levado uma mordida naquele local. As roupas rasgadas revelavam um buraco onde um dia fora seu abdômen.
A garota o empurrou com força para longe e, antes que outro zumbi que vinha em sua direção a alcançasse, conseguiu correr.
Corria o mais rápido que podia, mas parecia que todos os mortos tinham resolvido lhe fazer companhia naquela floresta.
Enquanto desviava de alguns que surgiam em seu caminho, pensava que não podia desistir, não podia morrer — não agora, não daquele jeito. Já passara por coisas piores e permanecera de pé. Não seriam simples mortos que a derrotariam.
Continuou correndo o mais rápido que conseguia. Em uma rápida olhada para trás, percebeu que precisava ser mais rápida: não eram oito como no início — agora, uma contagem rápida mostrava mais de vinte. Ao voltar a olhar para frente, percebeu tarde demais um buraco à sua frente. Pisou em falso, se desequilibrou, sentiu o corpo bater contra o chão e, em seguida, rolar barranco abaixo.
Enquanto rolava, sentia dores se espalharem por várias partes do corpo. Tentava, em vão, se segurar antes que fosse tarde demais, mas não conseguia e continuava rolando. Quando finalmente parou, sentiu algo atravessando seu abdômen. Sua perna doía igual — ou mais. Forçou o pescoço e olhou para o que havia acontecido. Um galho atravessava seu corpo.
Riu internamente. Talvez aquele tivesse sido seu último passeio pela floresta. Dominada pela dor, deixou o corpo “relaxar” e se entregou à escuridão.
[...]
Acordou algum tempo depois. Tudo o que havia acontecido voltou à sua mente. Mesmo ciente da dor que percorria seu corpo, esforçou-se e conseguiu se levantar. Precisava encontrar um lugar para ficar — talvez para tentar se curar, ou até mesmo para morrer.
Pov. Melissa
Posso sentir minhas forças se esvaindo com o sangue que escorre freneticamente para fora do meu corpo.
Há alguns dias, enquanto fugia de uma horda, escorreguei e rolei ribanceira abaixo. Terminei com um pedaço de galho atravessado no abdômen e um pedaço de ferro cravado na coxa. Consegui andar até encontrar um local onde pudesse ficar — onde eu poderia me recuperar... ou morrer, que é o que está acontecendo.
A sorte, pela primeira vez na vida, esteve ao meu lado. Quando entrei na casa, me arrastando com dificuldade, simplesmente apaguei. Dei sorte por não haver nenhum zumbi ali dentro. Não consegui fazer muita coisa em relação aos ferimentos.
Minha cabeça pesa uma tonelada. Meu corpo está todo dolorido, até respirar dói. Minha visão escurece a cada segundo. Sinto que finalmente vou descansar, que finalmente terei um pouco de paz. Não quero voltar como um deles e atacar alguém.
Alcanço minha pistola, que está próxima ao meu corpo, mas minha visão está turva... e então, a escuridão finalmente me domina.
Pov. Daryl
Antes mesmo de o dia clarear, minha mente já estava a mil. Perdi Merle há cerca de uma semana. Agora vivemos sob alerta — a qualquer momento aquele desgraçado do Governador pode aparecer.
Assim que o céu clareou, pulei da minha “cama”, peguei minha besta e segui para a cozinha. Abri uma lata de frutas secas e comecei a comer.
— Bom dia, Daryl — falou Glenn, entrando no refeitório.
— Bom dia — cumprimentei.
Continuei comendo e logo depois tomei um pouco de água.
— Bom dia, Daryl — disse Maggie, entrando no refeitório junto com Sasha, Bob e Tyreese.
— Bom dia — repeti.
Levantei-me e saí. Precisava dar uma olhada na moto antes de sairmos. O inverno estava próximo. Havíamos intensificado as saídas — precisávamos de muitas coisas e não queríamos nos arriscar por aí quando o frio chegasse.
— Tudo pronto? — perguntou Rick, chegando onde eu estava.
— Sim, só estou esperando os outros — respondi.
Ele assentiu. Olhei para a cerca — os zumbis estavam se amontoando novamente.
— Precisamos dar um jeito nisso — falei, apontando.
— Daremos — respondeu Rick.
— Daryl, já estamos prontos — avisou Glenn, se aproximando.
Assenti, subi na moto e segui para o portão. Bob e Lincoln o abriram para que passássemos. Iríamos a uma cidadezinha que ficava a duas horas da prisão — depois de algumas estradas de terra, por isso ainda não tínhamos ido até lá. Michonne a encontrara em uma de suas rondas.
Duas horas de estrada vazia depois, finalmente chegamos. A cidade parecia em melhor estado do que as outras por onde passamos.
Paramos em frente à maior loja dali. Desci da moto e fui até a entrada. Glenn, Maggie, Sasha e Tyreese estavam atentos a qualquer movimentação ao redor. Bati no vidro da frente e esperei. Poucos minutos depois, quatro zumbis apareceram. Esperamos mais um pouco — nada de outros. Entramos em formação e demos cabo deles. O lugar parecia ter caído logo no início — havia muitas coisas ali.
Recolhemos tudo o que conseguimos, o suficiente para encher toda a carroceria da caminhonete. Isso nos deixaria fora das ruas por alguns dias. Depois de guardar tudo, seguimos novamente pela estrada. Aquela rotina era cansativa, mas necessária.
— Mas que droga — resmunguei, parando a moto.
— Daryl? — Glenn parou ao meu lado.
— Temos que voltar antes que nos vejam — falei, me referindo à pequena horda mais à frente.
Voltamos um pouco e pegamos uma estrada secundária. O que me chamou a atenção ali foi uma casinha quase escondida no meio do mato.
— Algum problema? — perguntou Glenn, parando ao meu lado.
— Vou dar uma olhada — respondi, apontando para a casa.
— Já temos bastante coisa, Daryl — ponderou Maggie.
— Vou olhar assim mesmo. Se quiserem, podem seguir — falei.
— Daryl, pode ser arriscado — alertou Glenn.
— Sei me cuidar — dei de ombros e segui em direção à casa.
— Vou com você — disse Tyreese, vindo ao meu lado.
Assenti e seguimos. Um rastro de sangue quase invisível levava até a porta.
— Está seco — disse Tyreese.
— Dois ou três dias — murmurei.
Empurrei a porta, que estava entreaberta. Aparentemente, não havia ninguém. Com a besta em punho, verifiquei a sala.
— Daryl — Ty tocou meu ombro e apontou para um canto afastado da sala.
Nos aproximamos lentamente. Era uma garota.
— Será que está viva? — perguntou Ty.
Abaixei-me ao lado dela e chequei o pulso. Estava fraco, muito fraco. Observei atentamente e percebi algo atravessado em seu abdômen — e também na perna.
— Ela está sozinha — disse Ty, que havia verificado os outros cômodos.
— Está fraca — falei.
— O que faremos com ela? — perguntou ele.
— Vamos levá-la — respondi, ajeitando a besta nas costas e pegando a garota no colo.
Tyreese pegou a mochila que estava ao lado dela e a pistola próxima ao corpo.
Ele seguiu na frente. Ao abrir a porta, demos de cara com Maggie, que olhou assustada para a garota em meus braços.
Sasha abriu a porta de trás, dando espaço para colocá-la dentro do carro.
— Vou com ela atrás — disse Maggie, já entrando.
Sasha assentiu e tomou o lugar no banco da frente. Tyreese pulou na carroceria e fez sinal de positivo. Corri até a moto e logo estávamos rodando de volta para casa.
Assim que chegamos, o portão foi aberto e entramos. Larguei a moto de qualquer jeito e fui até o carro, que acabava de estacionar.
— O que aconteceu? — perguntou Rick, se aproximando.
— Encontramos uma garota — respondeu Tyreese.
— Onde? Ela estava sozinha? — perguntou Rick novamente.
— Sim, estava — confirmou Ty.
Com a garota nos braços, segui para dentro do bloco. Hershel, que estava no refeitório, veio até mim assim que me viu. Coloquei a garota sobre a cama, e ele se aproximou para tratá-la.
Olhei para ela mais uma vez e logo saí, procurando algo para fazer. Precisava ocupar a mente.
Pov. Melissa
Abri os olhos rapidamente, mas a claridade que vinha de algum lugar me fez fechá-los novamente.
Com cuidado, abri os olhos mais uma vez, desta vez com calma, tentando me adaptar ao ambiente. Eu não estava mais naquela casa — definitivamente, não.
Estava deitada na parte de baixo de um beliche. Vi que a claridade vinha de algum lugar atrás da minha cabeça. Tentei me sentar, mas meu abdômen reclamou. Levei a mão até o local da dor e, ao olhar, percebi que estava enfaixado — assim como minha coxa esquerda, onde antes havia um pedaço de ferro.
Enquanto analisava melhor o local, uma moça entrou no ambiente.
— Ei, que bom que acordou — falou, sorrindo.
Tentei me encolher, mas as dores pelo corpo não deixaram.
— Calma, não vou te machucar — disse, ao perceber minha reação.
Ela me sorriu tranquilamente. Sério... acho que essa garota só sabe sorrir.
— Sou Maggie — apresentou-se, estendendo a mão. Recusei.
— Como se chama? — perguntou.
— Onde estou? — perguntei, ignorando a pergunta dela.
— Está segura. Aqui é uma prisão, estamos há algum tempo aqui — explicou.
Olhei em volta mais uma vez e vi uma garrafinha de água em cima de uma mesinha. Então senti minha garganta arranhar de sede.
— Tome, deve estar com sede — disse a garota, me entregando a garrafa.
Peguei e comecei a beber rapidamente.
— Vai com calma, assim vai se engasgar — disse tranquila.
Bebi quase toda a garrafa.
— Quanto tempo estou aqui? — perguntei.
— Há quatro dias — respondeu, sentando-se na ponta da cama.
Quatro dias...
— Meu pai cuidou de você. Você teve sorte de termos te encontrado — disse, com um tom de angústia. — Mais um pouco e seria tarde demais.
— Melissa — falei.
— O quê? — perguntou confusa.
— Meu nome é Melissa — repeti.
— Ah, sim — sorriu. — Muito bonito.
— Obrigada — respondi, sentindo meu rosto esquentar.
— Maggie! — um senhor de cabelos e barba brancos a chamou, entrando no ambiente.
Ele me olhou e sorriu. Sério, esse povo só sabe sorrir?
— Que bom que acordou — disse.
— Já ia chamá-lo, papai — informou Maggie.
— Como se sente, querida? — ele perguntou.
— Viva — forcei as palavras a saírem.
Os dois riram novamente.
— Isso é bom — disse o senhor.
O analisei pela primeira vez e percebi que lhe faltava uma parte da perna, substituída por uma prótese improvisada. Ao notar meu olhar, ele sorriu.
— A propósito, sou Hershel — apresentou-se.
— Meu nome é Melissa — respondi.
— Lindo nome — comentou.
— Obrigada — tentei sorrir, mas o máximo que consegui foi fazer uma careta.
— Está com dor? — perguntou, e eu assenti.
— Vou buscar um remédio — disse.
— E eu vou pegar algo para comer, você deve estar faminta — falou Maggie, saindo da cela.
Algum tempo depois, Maggie voltou com uma bandeja com comida e os remédios. Depois de alimentada e medicada, ela me fez deitar novamente para descansar — segundo ela, eram ordens do Hershel.
Pov. Daryl
Faz quatro dias que trouxemos a garota, e até agora nada dela acordar. Hershel diz que ela vai acordar quando estiver pronta — que o corpo dela ainda não está pronto pra isso.
— Ei, ela acordou — avisou Maggie, chegando ao meu lado.
Meu coração deu um pulo de alívio ao ouvir isso. Assenti para Maggie e continuei limpando minhas flechas.
— Vou levar alguma coisa pra ela comer — disse, já saindo.
Mas que droga está acontecendo comigo? Desde que trouxe essa garota pra cá, não consigo me concentrar em mais nada. Ontem, quase um maldito zumbi me pegou.
O rosto delicado dela me vem à cabeça. Balanço rapidamente — não posso ficar pensando nisso. Tenho outras coisas com que me preocupar. Aquele maldito caolho está por aí e pode aparecer na nossa porta a qualquer momento.
— Que se dane — resmunguei, jogando o pano longe.
Caminhei até a moto, dei partida e segui para o portão.
— Vai sair? — perguntou Lincoln.
— Vou dar uma volta — respondi.
— Vai longe? — insistiu.
— Não é da sua conta. Abre logo isso aí — reclamei.
Ele se afastou e abriu o portão. Passei por ele sem olhar pra trás.
A liberdade da estrada me trazia boas e más lembranças. Rodei por algum tempo, até parar e esconder a moto entre alguns galhos.
Com a besta nas costas, comecei a caminhar pela floresta. Caçar era uma boa forma de esvaziar a mente.
Entrei mais fundo entre as árvores. Algumas folhas secas estavam mexidas, arrastadas em zigue-zague. Zumbis... será que eles nunca vão acabar?
Fui para o lado contrário do rastro. Peguei dois esquilos e os prendi na corda que trazia. Um pouco mais à frente, encontrei um riacho. Bebi um pouco de água, lavei o rosto e os braços.
[...]
O caçador andava atento a tudo ao redor. Já havia pego mais alguns esquilos e também alguns coelhos. A noite, que chegara há algumas horas, estava calma. Muitas vezes ele sentia falta de estar ali, no meio da floresta, sozinho. Acendeu uma fogueira baixa, só o suficiente para aquecer, e ali passou a noite.
Quando o dia clareou, resolveu voltar pra casa. Sorriu internamente ao pensar nessa palavra — casa. Aqueles lá eram sua família. A família que nunca teve. Aquelas pessoas se importavam com ele, e ele com elas.
Caminhava distraído quando um barulho chamou sua atenção. Um cervo adulto.
— Maravilha — murmurou o caçador, satisfeito.
Empunhou a besta rapidamente e mirou no animal, que comia alheio à sua presença. Disparou — a flecha perfurou o cervo, que logo caiu. Com sua habilidade habitual, Daryl o recolheu sem dificuldade e o levou até onde deixara a moto. Prendeu o animal na garupa e logo estava rodando de volta para a prisão.
[...]
— Que bom que chegou — disse Rick, parando ao seu lado assim que ele estacionou a moto.
— Fui dar uma volta — respondeu Daryl.
Rick assentiu, mesmo desaprovando a saída sem aviso. Bob e Glenn, que estavam por perto, logo retiraram o cervo da moto. Daryl lhes entregou os outros animais.
— Michonne ainda não voltou — comentou Rick.
— Ela está bem. Sabe se cuidar — respondeu o caçador.
— O inverno está se aproximando cada vez mais — disse o xerife, olhando para o céu nublado.
— Mais uma ou duas semanas — comentou Daryl.
— Talvez menos — disse Hershel, se aproximando.
— Talvez — respondeu Daryl.
Respirou fundo e seguiu para dentro da prisão. Agradeceu mentalmente por não encontrar mais ninguém no caminho até chegar onde estavam suas coisas.
Ao pegar uma muda de roupa, não pôde deixar de olhar para a cela quase em frente à sua “cama”, do outro lado do corredor. Pegou a roupa e desceu as escadas, indo em direção ao banheiro.
Na cela para onde ele havia olhado, a jovem Melissa estava deitada, encarando a cama de cima.
— Oi, vim ver como está — disse Maggie, entrando na cela.
— Entediada — respondeu Melissa, fazendo a outra rir.
— Se quiser, pode dar uma volta. Só não pode se esforçar muito — avisou Maggie.
— Que ótimo — respondeu, jogando as pernas para fora da cama.
— Vem, eu te ajudo — disse Maggie, se aproximando e ajudando-a a levantar.
Melissa quis recusar a ajuda, mas não conseguiu. Maggie era tão gentil que ela temia magoá-la. Na verdade, todos ali haviam sido gentis até o momento.
— Ei, já está andando! — exclamou a loirinha Beth, subindo as escadas.
Melissa assentiu, ainda tímida demais para interagir.
— Ele voltou — disse Beth para Maggie.
— Sim, Glenn me contou — respondeu Maggie, sorrindo para a irmã.
Melissa olhava para a própria perna, mas ouvia tudo atentamente. Ela vira a preocupação de todos na noite anterior, quando o tal caçador, Daryl, não voltou. Todos estavam prontos para sair à procura dele naquela manhã. Maggie lhe dissera que Daryl sabia se cuidar, mas a tensão era evidente — principalmente por causa de um tal caolho maldito que se autointitulava Governador.
— Nunca mais faça isso de novo! — a voz de Beth a fez levantar a cabeça.
Olhou para a loirinha, que se jogava contra um rapaz que acabara de subir as escadas. Ele, meio surpreso, a envolveu nos braços. Melissa viu Maggie ao lado dar risada, balançando a cabeça em reprovação divertida.
— Beth — disse o rapaz, a afastando.
Aquela voz fez o corpo dela inteiro arrepiar. Quando ele a olhou, tudo ao redor pareceu sumir. Ela ficou presa naqueles olhos azuis tão intensos que a encaravam atentamente.
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