Uma luz na escuridão

2 Capítulo 2 (Revisado)


Notas iniciais
Hey, Nath Dixon, I Drunk e Moni, Obrigada por comentarem, fiquei muito feliz :) Aqui vai mais um Capítulo espero que gostem.

Pov. Daryl

A água gelada fez meus músculos relaxarem. Não me dei ao luxo de demorar debaixo daquele chuveiro; logo me vesti e saí.

— Onde você estava? — perguntou Carol, se materializando na minha frente.

— Por aí. — falei.

— Nos deixou preocupados, não pode sair assim. — resmungou.

— Não preciso de babá. — respondi, já seguindo meu caminho.

Estava chegando à escada quando ouvi Beth falar com alguém no andar de cima. Respirei fundo e subi os degraus. Assim que alcancei o último, um corpo pequeno se chocou contra o meu.

— Nunca mais faça isso de novo. — falou Beth.

Ainda um pouco atordoado, a envolvi em meus braços. Beth é a irmã caçula de todos nós, é meiga, delicada e cuida muito bem da bravinha.

— Beth. — falei, afastando-a um pouco.

Então eu a vi.

Era um verdadeiro anjo em forma de gente. Seu rosto, que não me saía da memória, agora me fazia perder na imensidão dos seus olhos verdes — um verde tão cristalino quanto o mar.

Parecia tão delicada que dava medo de tocá-la e ela se desmanchar sobre minhas mãos. Ela me olhava... era como se pudesse ver minha alma, e como se eu pudesse ver a dela, pois a dor e o medo estavam estampados naquele olhar.

— Daryl. — voltei à realidade com Beth me chamando.

Vi que Maggie prendia a risada. A garota ao seu lado estava corada, o que a deixava ainda mais encantadora.

— Oi. — foi a única coisa que consegui dizer.

Devo estar com cara de bobo. Se Merle estivesse aqui, estaria rolando de rir e me chamando de marica.

— Essa é a Melissa. — falou Beth, apontando para a garota.

Assenti para ela.

— Esse é Daryl, foi ele que te encontrou naquela casa. — falou Maggie.

— Obrigada por me ajudar. — ouvi sua voz pela primeira vez; era como ouvir um anjo.

— Não tem que agradecer. — falei, tentando não ser rude.

Ela assentiu e olhou para as meninas.

— Vamos lá, vamos descer um pouco. — disse Maggie.

Elas passaram por mim e começaram a descer as escadas devagar. Beth ia à frente das duas. Fiquei olhando até desaparecerem e seguirem para o refeitório. Fui para o meu canto, me deitei e fechei os olhos. Aqueles lindos olhos verdes invadiram minha mente.

Acordei com uma movimentação estranha. Carl corria em minha direção.

— O que foi? — perguntei, já pulando da cama, pegando a besta e descendo as escadas.

— Os errantes derrubaram uma das cercas. — falou, enquanto me seguia.

Ao chegar do lado de fora, todos estavam matando os zumbis que entraram. Olhei em volta, procurando um certo par de olhos verdes. Vi Melissa em um canto, perto do bloco C, junto de Hershel. Ela tinha uma arma nas mãos.

Sem pensar em mais nada, corri. Acertei o primeiro zumbi que vi — deixei minha flecha, depois a pegaria. Acertei mais um, e outro. Corri para mais perto da cerca, onde estava a maior concentração deles. Depois de algum tempo, conseguimos matar todos que entraram. Lincon havia sido mordido — não conseguiram ajudá-lo a tempo.

Ajudei Rick e os outros a arrumar a cerca o máximo que conseguimos. Já era noite quando voltamos para dentro da prisão. Peguei minhas coisas e logo fui tomar banho — aquele cheiro de sangue podre estava repugnante. Depois do banho, me juntei aos outros no refeitório.

Gleen estava programando uma saída para conseguir remédios. Sairíamos cedo — seria nossa última saída antes do inverno.

Estava indo pegar meus cigarros quando vi Melissa subindo as escadas lentamente, sozinha. Olhei em volta e não vi as meninas.

— Quer ajuda? — perguntei, me aproximando.

Ela se assustou, se desequilibrou e tombou para trás — a segurei.

— Não precisa, vou devagar e não quero incomodar. — falou, corando.

Se ela soubesse o quanto fica irresistível desse jeito, nunca mais deixaria de corar.

— Te ajudo. — falei, a pegando no colo e subindo as escadas.

Meu corpo reagiu ao contato. Caminhei rapidamente até a cela dela e a deixei sentada na cama.

— Obrigada. — disse, corada.

— Por nada. — falei, saindo rapidamente.

Pov. Melissa

Aqueles olhos azuis não saíam da minha cabeça. Maggie e Beth me ajudaram a descer, me mostraram um pouco da prisão e me apresentaram a algumas pessoas. Até o momento eu só conhecia elas duas, Hershel, Judy e Carl.

Chegamos ao lado de fora. Maggie me ajudou a sentar em um banco que havia ali.

— Hey, o que está fazendo aqui, mocinha? — perguntou Hershel, chegando ao meu lado.

— Estava entediada. — respondi.

Ele riu e logo começou a me mostrar algumas coisas, contando como chegaram ali, quem perderam, quem receberam. Hershel é um bom homem.

— Olá. — disse um homem se aproximando.

— Melissa, esse é Rick. — apresentou Hershel.

— Olá. — falei.

— Não tive a oportunidade de falar com você antes. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas. — foi direto.

Hershel o olhou torto.

— Pode perguntar. — falei.

— Bem, aqui temos regras, e para ficar aqui preciso saber algumas coisas. — disse.

— Já disse que pode perguntar. — repeti.

— Quantos zumbis você matou? — perguntou.

Oi? É sério isso? Esse cara acha que eu anotei quantos deles matei?

— Não muitos, mas também não contei. — respondi.

— Quantas pessoas você matou? — perguntou.

— Uma. — falei seca.

— Por quê? — questionou.

— Me machucou. — respondi, sem entrar em detalhes.

— Estava sozinha naquela casa? — fez mais uma pergunta.

— Sim. — respondi.

Ele assentiu.

— Bem, seja bem-vinda. — disse por fim.

— Obrigada. — respondi, encerrando a conversa.

Rick foi em direção à horta.

— Ele é meio paranoico? — perguntei, e saiu mais como uma afirmação. Hershel riu.

— Quem, nesse mundo, não é? — perguntou.

Tentei sorrir, mas acho que só consegui uma careta.

— Não o entenda mal, os acontecimentos o levaram a ficar assim. — disse novamente.

Dei de ombros e voltei a olhar em volta, então vi uma cerca caindo aos poucos.

Levantei rapidamente, fazendo com que Hershel se assustasse. Apontei para a cerca.

— Rick! — Hershel gritou, apontando a direção.

Várias pessoas correram até os zumbis. Dei um passo para frente, mas Hershel segurou meu braço.

— Você não vai a lugar nenhum. — falou.

— Preciso ajudar. — insisti.

— Não precisa. Eles vão ficar bem, e você não está totalmente recuperada. — respondeu, ainda me segurando.

Carl veio correndo em nossa direção. Me deu uma arma e entregou outra a Hershel, depois correu de volta para o bloco. Pouco depois, vi Daryl sair correndo com sua besta, e Carl logo atrás.

Ele olhou em volta — nossos olhares se cruzaram por um instante — e então saiu correndo em direção aos zumbis, matando-os.

Eu estava atenta a tudo. Eles realmente eram fortes; mataram todos que invadiram. Hershel me fez entrar junto com ele.

Já era noite quando os outros voltaram. Daryl passou direto — o vi subir as escadas e pegar algumas coisas onde dormia. Me perguntei por que não dormia em uma cela como os outros.

Gleen estava planejando uma saída amanhã. Suspirei — não podia fazer nada até estar cem por cento. Me retirei sem chamar a atenção deles e segui para a escada.

— Droga. — resmunguei quando uma dor atingiu minha perna.

Respirei fundo e continuei a subir.

— Quer ajuda? — alguém perguntou.

Me assustei, me desequilibrei e tombei para trás. A pessoa me segurou. Era Daryl. Meu coração acelerou ao sentir seu toque.

— Não precisa, vou devagar e não quero incomodar. — falei, sentindo meu rosto esquentar.

Ele me olhou intensamente.

— Te ajudo. — disse, me pegando no colo e subindo as escadas.

Meu corpo reagiu totalmente ao contrário do que eu esperava.

— Obrigada. — agradeci quando ele me colocou sentada na cama.

— Por nada. — respondeu e saiu rapidamente.

Fiquei olhando para a porta por alguns minutos e depois me deitei.

Estava sentada no banco do lado de fora do bloco. Já estava bem melhor e podia até fazer algumas coisas. Fiquei com a função de matar aquelas coisas pela cerca. Ajudava em outras tarefas também, mas o que mais fazia era eliminar os errantes.

Ouvi o barulho da moto e olhei para o portão. Daryl passava, com uma mulher que eu não conhecia na garupa.

— Olhem só quem encontrei perdida. — ele falou, e a mulher lhe deu um soco no braço.

— Bem-vinda de volta. — Rick a cumprimentou.

Vi Carl correr até a mulher, que o abraçou. Ela tinha nas costas uma espada estilo samurai. Sorri — sempre tive vontade de aprender a usar uma. Na verdade, tinha vontade de aprender a usar qualquer coisa que me ajudasse a me proteger.

— Ei, você é nova aqui. — disse a mulher, se sentando ao meu lado.

— Sou. — respondi.

— Ouvi falar de você, que é durona. — falou sorrindo.

— Acho que você se enganou. — respondi, a olhando.

Seu sorriso se abriu ainda mais.

— Bem, foi você quem foi encontrada com um galho no abdômen e um ferro na coxa, então você é durona sim. — disse.

Dei de ombros.

— Não te vi por aqui. — comentei.

— Eu estava fora, saio bastante em rondas. — respondeu.

Então ela devia ser a Michonne, de quem as meninas haviam falado.

— Sou Melissa. — me apresentei, estendendo a mão.

Aquilo não era do meu feitio, mas eu tinha gostado dela logo de cara. Até o momento, todos na prisão me tratavam bem, e eu sentia que podia confiar neles — pelo menos nos que viviam no mesmo bloco que eu.

— Michonne. — disse, apertando minha mão.

— Arma legal. — apontei para a espada ao seu lado.

— Obrigada. E o que você usa? — perguntou.

— As pernas! — falei, e ela me encarou. — E uma pistola, quando não consigo correr.

— Correr é bom. — disse, rindo.

Olhei em direção à moto, onde vi uma movimentação. Daryl estava com Judy no colo.

— Ele leva muito jeito com a Judy. — disse Michonne, percebendo para onde eu olhava.

— É, tem sim. — concordei.


[...]

Pov. Daryl

Desde que Mich voltou, Melissa está sempre com ela. Percebi que as duas se deram bem, o que é bom. Também notei que ela mantém distância das pessoas dos outros blocos — só fala com eles se for extremamente necessário. Já vi alguns olhares de homens de lá sobre ela, e não gostei nem um pouco. Ela também não gostou; fica desconfortável e sempre busca ficar perto de um de nós. Não fui o único a perceber isso.

— Vai, levanta essa bunda branca daí. — ouvi a voz de Michonne.

Segui a voz e vi que ela falava com Melissa, que a olhava sem entender.

— Levanta. — incentivou, puxando-a.

— O que você tá fazendo? — ela perguntou, meio perdida.

— Vou te ensinar a lutar. — respondeu Mich.

— O quê? Não, eu não sei... — foi interrompida.

— Por isso mesmo, vai, vamos lá, mova essa bunda branca. — disse, dando um tapa na bunda da garota. Melissa arregalou os olhos; Maggie e Glenn riram.

Mich ensinou algumas coisas para ela. Ela não levava muito jeito, o que rendeu várias risadas de Maggie e Glenn — até eu deixei escapar algumas. Carl quase rolava no chão de tanto rir.

Carl era outro com quem ela andava sempre. Eles se davam bem; Carl até agia mais como uma criança do que como um adulto, como devia ser.

— Ela é muito bonita. — falou Carol, chegando ao meu lado.

Olhei para ela sem acreditar no que tinha ouvido.

— Não faça essa cara. Todos notaram que essa garota é linda, e eu te conheço o suficiente pra saber que você está sentindo algo por ela. Você deveria investir. — piscou pra mim e logo saiu, me deixando com cara de paspalho.

[...]

Já era noite. Eu estava de vigia e fumava meu último cigarro — na próxima saída teria que encontrar mais alguns.

— Oi. — ouvi uma voz suave atrás de mim.

— Oi. — respondi, virando-me.

Era incrível como aqueles olhos tinham a capacidade de me fazer perder a noção das coisas ao redor.

— Será que ele está por aí? — ela perguntou.

— Quem? — repliquei, sem entender.

— O tal Governador. — falou quase em sussurro.

— Não sei, mas se estiver, estamos preparados para ele. — afirmei.

Vi-a encolher um pouco; ela usava apenas uma blusa de manga longa, mas não parecia aquecida.

— Você deveria entrar, está frio aqui. — falei, verbalizando meu pensamento.

— Vou sim. — respondeu. — Boa noite. — completou, saindo.

— Boa noite. — falei, acompanhando-a com o olhar.

Voltei minha atenção para as cercas ao redor.

Algum tempo depois, meu pensamento vagava — ou não tão longe assim; estava na garota que vivia naquela prisão. Ouvi um grito de socorro abafado.

Corri em direção de onde vinha o grito. Vi Michonne e Rick correndo ao mesmo tempo. Quando viramos para a parte de trás da prisão, presenciei a cena que nunca quis ver na vida: Melissa estava deitada no chão, se debatendo, enquanto dois filhos da puta a seguravam — um tentava calar sua boca e o outro rasgava suas roupas.

— Hey! — gritei, correndo em direção a eles.

Um levantou e tentou fugir, mas bateu de cara com Michonne, que já tinha a katana apontada para seu pescoço.

Voei em cima do desgraçado que tentava fechar a calça; derrubei-o no chão e comecei a socá-lo. Minha raiva era tanta que desferi socos com fúria — como ele ousava fazer aquilo com ela?

— Chega, Daryl. — alguém me puxava de cima do homem.

Empurrei quem fosse e continuei a bater; aquele filho da puta não ia ficar vivo — eu ia matá-lo com as minhas próprias mãos.

— Daryl! — ouviram me chamar, e consegui ser contido.

— Me solta, eu vou matá-lo! — gritei, tentando me soltar.

— Chega, cara, você está assustando a Melissa. — alguém falou. Pela primeira vez olhei ao redor.

Ela estava nos braços de Hershel e Michonne. Perguntei-me como alguém tinha coragem de tentar fazer aquilo com aquela garota. Ela chorava; o rosto tinha alguns machucados. Vi Maggie correr até ela e envolvê-la num poncho para cobrir as roupas rasgadas.

Tyreese, que me segurava, me soltou. Olhei para o outro canalha — ele também não estava em boa condição.

— Vamos, querida. Vamos lá pra dentro, cuidar de você. — falou Hershel, com carinho.

Ela se agarrou mais forte em Michonne, que a guiou para dentro junto com Maggie.

Com muito custo consegui me acalmar. Rick estava furioso; mandou Tyreese e Glenn trancarem os dois desgraçados em uma cela. Na manhã seguinte decidiríamos o que fazer com eles.

Entrei no nosso bloco de celas. Minha vontade era ir até ela, puxá-la para os meus braços e nunca mais deixá-la sair.

— Ela vai ficar bem. Vocês a ouviram a tempo. — disse Hershel.

— Onde ela está? — Rick perguntou.

— Maggie e Mich estão com ela; ela está no banheiro. — respondeu Hershel.

Assentimos — estava segura.

— O que faremos com eles? — Hershel quis saber.

— Amanhã decidimos. — falou Rick.

— Não quero eles aqui. — explodiu Hershel; o velho estava vermelho.

— Não podemos tomar essa decisão sozinhos. Amanhã reunimos o conselho. — ponderou Rick.

— Que porra de conselho, Rick? Você viu o que eles fizeram com ela. Poderia ter sido uma das outras meninas — a Beth, Maggie, Sasha — ou até uma das crianças, Lizzie, Mika. — falei.

— Daryl, se acalme. — me mandou Rick. Deixei-o falando sozinho e saí; precisava respirar.

Sasha estava na grade junto com Bob; quando me viram, acenaram. Retribuí, sentei num banco qualquer e fiquei olhando o céu. Já estava bem tarde quando entrei pra tentar dormir um pouco.

Depois de um tempo na cama, olhei para a cela dela — estava trancada. Suspirei; queria saber como ela estava, mas tinha medo de assustá-la.

Ouvi seu choro durante a madrugada. Levantei e fui até a cela; Mich estava na cela ao lado, ia saindo quando me viu, assentiu e voltou para dentro.

Cheguei à frente da cela dela; ela estava sentada. Ao me perceber, olhou para a porta. O que me chamou atenção não foi apenas o rosto e os olhos vermelhos pelo choro, mas o líquido que escorria do punho dela enquanto passava a faca.

— Droga — exclamei, abrindo a cela e entrando. — O que você tá fazendo? — reclamei, arrancando a faca da mão dela.

— Me deixa, por favor. Me deixa morrer. — falou, entre soluços.

— Daryl. — ouvi Mich chamar a porta; quando olhei, ela percebeu o que ocorria, arregalou os olhos e correu escada abaixo, chamando por Hershel.

— Me deixa morrer, Daryl. — ouvi meu nome dito daquele jeito; partiu meu coração.

— Não, você não vai morrer. Eu não vou deixar. Olhe pra mim. — falei, forçando-a a me encarar.

Pude ver ali a dor estampada em seus olhos — não só pelo que aconteceu há algumas horas, mas também pelo que aconteceu antes. Conhecia aquele olhar; era o meu olhar.

Pov. Melissa

Saí um pouco no pátio pra respirar. Sorri ao ver Daryl de costas, onde eu ia.

— Oi. — falei, aproximando-me.

— Oi. — respondeu, virando-se.

Aqueles olhos azuis me encantavam.

— Eu não consegui te agradecer antes. — falei, tímida. — Então, obrigada. — completei.

— Não tem que agradecer. — disse, meio rude.

Sorri por dentro; Daryl Dixon realmente não levava muito jeito com palavras.

— Mesmo assim, obrigada. — insisti.

Ele assentiu e eu ri internamente outra vez.

— Será que ele está por aí? — mudei de assunto; queria apenas ouvir sua voz mais um pouco.

— Quem? — perguntou.

— O tal Governador. — falei quase em sussurro.

— Não sei, mas se estiver, estamos preparados pra ele. — afirmou com convicção.

Uma brisa forte passou e me encolhi um pouco.

— Você deveria entrar, está frio aqui. — falou, olhando-me nos olhos.

— Vou sim. — respondi. — Boa noite. — completei, saindo.

— Boa noite. — disse ele.

Comecei a caminhar para dentro; podia sentir seus olhos sobre mim. Isso não me incomodava — me fazia sentir segura.

Sentei no banco da esquina, querendo pensar e tomar um ar.

— Boa noite, coisa linda. — ouvi uma voz que me fez estremecer.

— Boa noite. — respondi, levantando-me pra sair.

— Não vai não, gracinha, fica aqui. — falou outro se aproximando, bloqueando minha passagem.

— Com licença. — falei, tentando passar.

Então o primeiro me tampou a boca e começou a me arrastar para trás. Tentei me soltar, mas não consegui. Eu sabia que não conseguiria me soltar — já passei por isso muitas e muitas vezes.

Me debati quando fui jogada no chão; tentei me soltar, mas o outro já estava em cima, rasgando minha blusa.

— Fica quieta, vadia. — o que estava sobre mim disse, me dando um tapa no rosto.

— Ela se acha boa demais pra gente. — falou o que tampava minha boca.

— Vamos mostrar que ela é uma vadia como outra qualquer. — sorriu enquanto tentava tirar minha calça.

Consegui mover o rosto e soltar um pouco a boca; gritei, o mais alto que pude.

Fechei os olhos e implorei a Deus que desta vez alguém me ouvisse.

— Hey! — ouvi alguém gritar.

O homem foi tirado de cima de mim; senti alguém me puxando.

— Calma, querida. — ouvi a voz de Michonne e percebi que estava agarrada a ela.

Outras pessoas chegaram, mas só consegui prestar atenção nele: Daryl estava em cima do homem que antes estava sobre mim, socando-o violentamente. Alguém o fez parar; então ele olhou pra mim. Senti-me suja, enojada — mais uma vez um lixo.

Dei-me conta de onde estava quando Maggie me sacudiu. Estava no banheiro; Maggie e Beth me ajudaram a tomar banho; Michonne permaneceu ao nosso lado.

Algum tempo depois, as meninas me deixaram sozinha — apesar de eu ter quase certeza de que Michonne estava na cela ao lado. Hershel me deu um remédio e disse que ajudaria a dormir. Com muito custo consegui descansar.


Sonho on

Chegamos em casa. Ele me tirou da caminhonete com violência, abriu a porta e me jogou para dentro. Consegui atravessar para o outro lado da sala antes que ele me batesse.

Mas logo ele estava ao meu lado. Antes mesmo de eu pensar em correr, ele estava ali, e meu rosto ardia devido ao tapa recebido; meu corpo foi em direção ao chão.

Sem dizer uma só palavra, ele começou a me chutar. Se antes eu tinha dúvida, agora eu tinha certeza: ele iria me matar. Mas não fiquei triste com esse pensamento — fiquei aliviada. Finalmente eu teria paz.

Ele continuou me chutando. Senti minha pele se rasgando na altura do quadril, mordi os lábios para não gritar. Eu sabia que, se gritasse, seria pior.

— Pensei que tinha te ensinado melhor! Não te ensinei a ser uma prostituta pra sair dando pra qualquer um por aí! Você é minha, entendeu? — ele proferiu as palavras enquanto começava a tirar a roupa e vir para cima de mim.

“Sim, pai, você não me ensinou a ser uma prostituta. Você me ensinou a ser um lixo, a ter zero autoestima, a me odiar a cada respiro. Me ensinou a aguentar tudo calada. Obrigada por tudo.”

Gostaria de ter a coragem de lhe dizer isso e muito mais. Queria ter a coragem de reagir e acabar com aquilo tudo, mas eu tinha medo — não por mim, mas pela minha mãe, que estava na cama, no quarto no andar de cima. Eu aguentava tudo aquilo por ela.

Ele tinha um sorriso assustador no rosto e uma ferocidade no olhar que assustaria qualquer pessoa. Ele estava fora de si, mais do que o habitual.

Ele voltou a me bater mais uma vez — eram socos, joelhadas e chutes. Sentia cada osso do meu corpo sendo quebrado. A dor era insuportável, e eu sentia a inconsciência chegando. Então tudo parou. “Ele desistiu.” Doce ilusão. Despertei com algo muito gelado sendo jogado sobre mim.

— Acorda, sua vagabunda! Abra os olhos! — falou, me batendo mais uma vez.

Então ele me invadiu, com tamanha força que podia sentir meu corpo sendo rasgado internamente.

— Abra os olhos! — ele gritou, me batendo mais uma vez.

Mas eu não tinha mais forças nem mesmo para manter os olhos abertos. A escuridão estava se aproximando cada vez mais, mas eu não tinha medo. Sabia o que aquilo significava. Finalmente eu ficaria em paz.

Sonho off.

Acordei assustada. Foi só mais um pesadelo. Tentei me acalmar.

Olhei em volta e vi que estava na minha cela. Estava segura. Lembrei que ele estava morto, mas as lembranças ainda estavam vivas em minha memória.

Me sentei na cama e então vi, ali em cima da mesinha no canto, uma faca — a faca de caça que eu tinha ganhado de Glenn. Mas, para mim, não era apenas uma faca: era a minha fuga, a maneira de fazer aquelas lembranças desaparecerem de uma vez.

Senti o metal gelado passando pelo meu pulso enquanto o pressionava contra a pele. Então ouvi passos se aproximando da minha cela. Pressionei a faca mais uma vez, aumentando o corte. As lágrimas rolavam pelo meu rosto. Olhei para a porta ao perceber a presença de alguém.

— O que você tá fazendo? — Daryl falou, tirando a faca da minha mão e segurando meu pulso.

— Me deixa, por favor. Me deixa morrer. — falei, sentindo soluços escaparem por meus lábios.

Ele olhou para trás, talvez procurando alguém.

— Me deixa morrer, Daryl. — pedi.

— Não. Você não vai morrer. Olhe pra mim. — falou, me fazendo olhar em seus olhos.

Aqueles lindos olhos me traziam calma, e eu sabia que, de algum modo, ele me entendia. Entendia tudo o que eu sentia, entendia tudo o que eu passei.

— Não vou deixar você morrer. — falou firme. — Nunca. — completou, me puxando para seu peito.

Pov. Daryl

Sentir ela contra meu peito é a melhor sensação que já tive em minha vida.

— Daryl. — ouvi a voz de Hershel.

Virei ela de modo que ele pudesse vê-la.

— Minha querida, o que aconteceu? — ele perguntou, mas não obteve resposta.

Tentei me afastar para que ele pudesse cuidar direito dela, mas ela segurou firme em meu colete, me impedindo de sair.

Algum tempo depois, Hershel finalizou a atadura em seu pulso.

— Ela vai ficar bem. — ele garantiu, mas pude ver o aviso em seus olhos.

— Eu fico aqui com ela. — falei.

Ele assentiu, deu um beijo na testa dela e saiu da cela. Vi Michonne olhando do lado de fora; assenti para ela, e ela foi para sua cela.

— Você tem que deitar. — falei.

— Não me deixa. — falou, quase como um sussurro, ainda segurando meu colete.

— Não vou. Vou ficar aqui com você. — falei, a deitando.

Ela me puxou junto. Acabei, por fim, me deitando ao lado dela. Ela se aconchegou em meu peito, me deixando sem reação.

Vendo que ela não se moveria dali, meio sem jeito comecei a fazer carinho em seus cabelos. Logo sua respiração estava calma, então percebi que dormia.

Notas finais
E então? O que acharam? Aguardo a opinião de vocês... Bjs