Tessa Roberth

Esses últimos dias têm sido estranhos.


O funeral aconteceu sem que eu consiga lembrar exatamente como foi. Também não sei em que momento minha família chegou até aqui. Mas devo agradecer aos deuses por isso.


Não teria conseguido passar pela parte burocrática de deixar alguém que amo partir.


Agora é tudo tão distante, como se estivesse vendo as coisas de um lugar muito longe.


— Água… — sussurrei, a garganta raspando com o esforço mínimo. Caminhei lentamente pela casa, o peso de cada passo me esmagando.


Em algum momento, micropartículas começaram a dançar em uma fresta de sol que entrava pela janela. Meus olhos vagaram para o mundo lá fora, o céu azul, nuvens perfeitamente brancas… até que aquela cena surgiu, rápida, dolorida.


As papoulas tombadas, as rosas ganhando tons marrons, tão distintas do habitual vermelho vivo. As gérberas e calêndulas seguindo o mesmo padrão. Todas sentindo a falta daquela que tanto lhes cuidava.


— O que eu fiz… — Finalmente enxergava todo o caos ao meu redor, cada ponto de desordem que havia surgido após a partida de Adeline. Tudo me atingiu com força, finalmente devolvendo-me à realidade. Me senti tonta por um momento, o peito apertado até quase me sufocar. — Ela odiaria toda essa bagunça… odiaria o que deixei o seu jardim virar.


Pouco me importava o incômodo da falta de alimentação ou hidratação, minha mente começou a enviar ordens e logo estava catando a velha mangueira verde do suporte.


Cada planta recebeu o cuidado necessário, as instruções gravadas com carinho em minha memória. Retirei folhas secas e alguns galhos soltos, enchendo e separando os sacos de lixo.


Só depois me dei ao direito de comer alguma coisa, mesmo que no fundo apenas quisesse voltar a colocar as coisas em seu devido lugar.





Ao fim daquele dia, a casa já estava parcialmente organizada. Havia apenas um cômodo faltando, um que se manteve fechado o tempo todo. O lugar onde o cheiro de lavanda ainda se mantinha vivo.


— Vamos apenas entrar… — O estalar da maçaneta me fez prender o fôlego, tudo naquele quarto carregava resquícios de uma vida inteira.


Caminhei lentamente, o chão de madeira rangendo sob meus pés. Os livros continuavam na estante, a cama perfeitamente organizada e um jarro com flores ainda belas sobre a mesinha lateral. Sua escrivaninha era o único ponto onde havia um pouco de desordem, o livro em que trabalhava tão arduamente ainda jazia aberto, cheio de anotações e progressos.


Levei minha mão até os papéis que estavam soltos ao lado, um em especial me chamando a atenção.


— Essa caligrafia… — As mesmas letras compridas, espaçadas. Iguais as que repousam nos desenhos na geladeira. — Alec… você ainda não sabe!


Me lembrava perfeitamente de cada vez que o mesmo pedido surgia dos lábios de Adeline, o mesmo desejo de preservar Alec acima de qualquer coisa, mesmo que ela estivesse doente ou com dificuldades.


“— Tia, precisamos avisar! Você sabe como essa cirurgia é perigosa! — Exclamei, em prantos, o medo se enraizando mais a cada bip do monitor na cabeceira da cama.


— Tess — Senti suas mãos sobre as minhas, calorosas apesar de tudo. — Alec já perdeu muito, já sofreu o suficiente… vai ficar tudo bem, você está aqui comigo! Não deve, de forma alguma, incomodá-lo com isso, tá bem?”


— A senhora me disse para não preocupá-lo…