Uma Nova Versão
4 Azul
Alec Haster
O cheiro de papel, madeira e tinta a óleo pairava no ar. As telas, grafites e livros velhos completavam aquele cenário. Tudo um lembrete de onde eu estava.
Dobrei cada peça de roupa à minha frente cuidadosamente, lutando contra a vontade de apenas enfiar tudo na mala e correr até meus pulmões implorarem para parar.
Mas não consigo.
Mesmo que queira muito, minhas mãos não obedecem ao meu desespero, minha mente comanda tudo com uma precisão que aquela situação não pedia. Era mecânico. Doloroso.
A voz chorosa ainda ecoava na minha cabeça, uma pontada no peito aparecia a cada vez que lembrava do meu nome sendo chamado através do celular.
— Alec? — Uma mão pousou sobre meu ombro, me trazendo de volta ao presente. — O que está fazendo? Para onde você vai?
— Eliott… — O nó que se formou em minha garganta me impedia de falar qualquer outra coisa. Uma luta sendo travada em meu peito.
Eu já não deveria estar acostumado com isso?
Quantas vezes isso já se repetiu?
— Cara, você não tá bem! — exclamou, me virando para si. — O que aconteceu? Está pálido!
Respirei fundo, uma tentativa de encontrar qualquer equilíbrio restante dentro de mim.
— A minha mãe… ela… — sussurrei, quase desabando ali mesmo.
— Alec?
— Ela se foi, Eliott… para sempre. — Olhei para a velha foto presa na parede ao lado da cama. Dois rostos sorridentes em um zoológico, exaustos pela longa caminhada em um dia de sol, mas felizes…
— O quê? E-espera aí, como… quando?
“— Alec? — O chamado, seguido de um soluço, fez com que um calafrio percorresse o meu corpo.”
Aquela voz pequena, guardada no fundo da minha memória, agora voltando para me assombrar.
— Acabei de receber a notícia… — contei, minhas mãos voltando à tarefa de antes. — Estou voltando para Brighton — anunciei por fim, fechando o zíper da mala.
— Ah, cara! Sinto muito, amigo. — exclamou, me abraçando.
Desde que ouvi a voz de Tessa, minha mente tem feito um esforço sobre-humano para não me deixar desabar, mesmo agora com o gesto de Eliott. Não podia.
Não agora.
Em algum momento, o cenário de jovens eufóricos foi substituído pelo movimento mecânico das pessoas em fila no aeroporto. As nuvens e o céu azul, infinito, cederam espaço para o velho trem de ferro da estação. Era um caminho conhecido, repleto de lembranças.
A lanchonete de bancos altos e vermelhos, onde outrora comemos antes da despedida, o último lugar que visitamos antes de Paris me abrigar. A sorveteria próxima ao parque, onde comemoramos cada pequena conquista de criança. E por fim, o parque a que Adeline me levou quando assinou os papéis de adoção, onde confiei que, dessa vez, aquilo duraria para sempre.
Não durou.
A casa de varanda, cercada por flores e uma cerca branca, era a confirmação disso. Mesmo sem entrar, conseguia perceber o que havia de errado. Diferente.
“— Essa é a sua casa agora, Alec! — exclamou, a voz quase um grito de empolgação. — Vamos ser uma família muito feliz aqui!
Os cabelos loiros virando uma bagunça enquanto ela rodopiava pela sala. O vestido branco com pequenas flores amarelas seguindo cada passo daquela dança improvisada.”
Não há mais coreografia…
A cada passo na pequena escada, conseguia ouvir meu coração bater mais alto. Porém, antes que pudesse sequer colocar a mão na maçaneta, a porta se abriu e um mar de mechas castanhas surgiu em minha visão. Os olhos, outrora azuis profundos, agora tinham contornos vermelhos e uma tristeza palpável.
Foi a confirmação mais rápida e dolorosa da minha vida.
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