Uma Nova Chance Para o Amor
17 O Passado Vem à Tona
Notas iniciais
Anastásia Steele
José levanta a mão para continuar com as agressões, mas as luzes se apagam. Encolho-me e tento me arrastar para longe, mas sinto-o segurar meus tornozelos e me puxar.
—Me solta. —Imploro já sem muitas forças. Eu não tenho nem noção do quanto ele já me feriu. Minhas filhas estão sozinhas. Christian.
—Você fique. —Ele diz com a voz fria.
Eu mal posso reconhece-lo. É como se eu nunca tivesse me casado com esse homem. Como se ele fosse um completo estranho. E é isso que ele é, um estranho. Alguém que eu achava conhecer, mas a pessoa que mais me causou mal. Ele me destruiu, e está destruindo mais.
Aperto meus olhos com a claridade repentina que me assusta. Ouço José rir e percorro meus olhos pela sala. Meu coração para completamente quando vejo Maria Clara parada um pouco mais distante de nós e logo atrás Phoebe, com as mãos em seus ombros. Os olhos de ambas estão vermelhos e com lágrimas.
Posso ver o medo de Phoebe, mas quando olho para Clara, não vejo isso, e sim... raiva.
—Você não pode machucar a minha mãe. —Ela diz com o queixinho tremendo.
—Ah, Mariazinha, vem aqui com o papai. Eu estava com tantas saudades. —Ele diz rindo e me solta aos poucos, mas não se aproxima de Clara.
—Deixa a mamãe em paz! —Clara grita em um tom que assustada até mesmo José.
—Por quê? Você mentiu para mim. Você disse que deixaria eu cuidar de você. —José diz com a voz fria e eu percebo que está tentando manipulá-la.
—Não. —Clara diz chorando e balança a cabeça. —Você me usou. Me usou para se ajudar e para machucar a mamãe.
—Eu sou seu papai, Clara. Eu faço o que é melhor.
—Não, você não é meu papai. —Ela diz e nesse momento vejo Taylor e Christian, muito ferido, entrarem na sala. José pega a arma rapidamente e aponta para a minha cabeça. O fato de ele estar encostado na parede não permite ninguém se aproximar.
—Eu sou sim. Eu cuidei muito bem de você. —Retruca, José.
—Não. —Maria Clara diz e encara Christian. —Ele é meu papai.
—Ele? —José pergunta perdido.
—Sim. —Clara diz chorando. —Ele cuida de mim, e me ouve. Ele me dá chocolate a noite, e nós espantamos os monstros. Eu ainda tenho medo de escuro.
—Não. Você é uma moça. Não deveria temer. —José diz em um estado meio mórbido.
—Sim. Eu tenho. Eu tenho medo que o papai Christian não me aceite. Que a mamãe se machuque. Eu tenho medo do escuro. Tenho medo de perder minhas irmãs. Minha irmã favorita é a Phoebe.
—Não! —José grita apontando a arma para Clara. Vejo Phoebe apertar as mãos nos ombros de Clara. —Somos eu e você, filhinha, e a Elena. Nós vamos cuidar de você.
—Não. Não vão. —Clara diz soluçando. —A mamãe e o Christian vão. Eles vão cuidar de mim. Acabou.
—Não. Não acabou! —José grita chacoalhando a arma, mas Clara não recua. E o medo me invade mais.
—Eu entreguei tudo. —Ela diz me deixando confusa. Clara puxa o colar e eu vejo que o corpinho do seu urso está faltando. —Eu mandei tudo para a vovó. Ela está vindo. O FBI está vindo.
Vovó? Do que ela está falando?
—Não! Não! —José grita. Clara se solta de Phoebe a força e para a centímetros de distância de José.
—Eu não quero mais brincar. Eu não gosto mais de você, José. —Ela sussurra com a voz fria.
—Não! —José grita atordoado e bate com a arma nela.
Tudo acontece muito rápido. Sou apenas levada pelo ódio, o medo, o desespero. E quando percebo, José está caído no chão, o abridor de cartas está enfiado nas suas costas e minhas mãos estão sujas, sujas com o seu sangue. Phoebe foi rápida e tampou os olhos de Clara. E agora, agora eu estou caída.
—Shi... —Ouço um sussurro no meu ouvido e levanto a cabeça vendo Christian abaixar do meu lado me abraçando.
—Sawyer, leve elas daqui. —Taylor ordena e eu o vejo chutar a arma de José.
—Não! —O Grito de Clara parte meu coração. —Mamãe, por favor. Mamãe.
—Clara. —Sussurro um pouco perdida olhando em volta. Sinto apenas seu impacto contra meu peito. Aperto meus braços ao redor do seu pequeno corpo onde ela começa a chorar, e eu, depois de tanto tempo, sinto que está tudo bem.
Ouço um burburinho e vejo policiais com uniformes do FBI invadindo a nossa sala, e no meio deles, posso ver a médica do veterinário. A mesma que atendeu a cachorrinha que levamos. Maria Clara me solta e cambaleia até ela. Ela cai nos braços da médica e antes ouço chama-la de vovó. Tudo fica mais confuso. De longe posso ouvir a voz de Katherine e Ethan, e então os vejo entrar na sala. Fico mais confusa quando Katherine para em frente e médica, seus olhos enchem de lágrimas e ela diz:
—Mamãe?
Depois disso, tudo fica escuro, e eu me entrego ao cansaço.
♩ ♪ ♫ ♬
Alguns flashes da noite conturbada invadem minha cabeça. Tudo que aconteceu. Eu posso ouvir a voz de Christian e meus irmãos ao meu lado, mas não estou totalmente acordada. Tento abrir meus olhos, mas não consigo pela dor, eles parecem pesar uma tonelada, e então, eu me entrego ao sono ouvindo a voz de Christian me chamar.
Sinto uma preocupação me tomar e a imagem das minhas filhas amarradas vem, depois Clara chorando. Abro meus olhos rapidamente e os fecho por causa da luz.
—Ana. —Ouço a voz desesperada de Christian.
—Hm. —Murmuro sentindo minha garganta seca. —Aonde estão todos?
—Abra os olhos. —Christian sussurra próximo ao meu ouvido.
Vou abrindo os olhos lentamente e vejo que a luz foi regulada. Percorro meus olhos pelo quarto e vejo meus irmãos e cunhados, Grace e Carrick. Jennifer, Allyson, Cassie e Ivy, e meus sobrinhos também, mas não há sinal de Maria Clara ou Phoebe.
—Aonde estão as duas? —Pergunto preocupada.
—Elas já vão vir. —Katherine diz e eu balanço a cabeça.
—Elas estão bem, fique calma. —Mia diz me deixando mais tranquila.
—Por quanto tempo eu dormir? —Pergunto recebendo Jennifer e as irmãs em meus braços.
—Cerca de dez horas. —Christian diz me olhando.
—Droga. —Praguejo baixinho e coloco a mão sobre a barriga.
—Ei, ele está ótimo. —Elliot diz rindo. —A médica disse que o coração dele é muito forte.
—Meu pontinho. —Sussurro acariciando a barriga.
—Mamãe?
Meu coração dispara ao ouvir a voz de Clara e Phoebe ao mesmo tempo, viro meu rosto e vejo as duas paradas a porta, e bem atrás delas, a médica veterinária.
—O que ela faz aqui? —Pergunto e todos ficam em silêncio. Katherine me olha e depois encara a médica, então seus olhos enchem de lágrimas.
—Anastásia... —Ela sussurra e sua voz me traz tantas lembranças. —Eu não sei se você se lembra de...
—Carla. —Digo e todos ficam em silêncio. —Eu tinha sete anos, mas ainda lembro de você.
—Eu...
—Eu não quero lamentações. —Digo tentando não soar fria. —Eu quero saber o que está havendo. Tudo isso. E José?
—Está internado no hospital penitenciário. —Christian fala. —Assim como Elena. Eles vão sair de lá diretamente para a cadeia.
—Ei, crianças! —Katherine e Mia dizem ao mesmo tempo, com a mesma animação.
—Que tal um sorvete? —Elliot sugere. —A tia Mia e eu vamos levar.
Ivy me olha e suspira, ela balança a cabeça e desce da cama pegando Jennifer no colo, dou um beijo nas duas, e depois em Allyson e Cassie, e elas saem do quarto com Elliot. João Miguel e Ava me dão um beijo e saem com Mia. Encaro meus irmãos e Christian e tento entender pelo menos algo, mas nada sai.
Phoebe se aproxima e senta ao meu lado, deitando a cabeça no meu ombro. Clara vai para o colo de Christian que a abraça enquanto eu continuo encarando meus irmãos.
—Ana... eu. —Carla começa a dizer. —Eu sei que você pensa que eu morri.
—Penso? —Digo com escarnio. —Acho que estou começando a me acostumar com as pessoas morrendo e revivendo. Eu só não entendo o porquê de tudo isso. Você me deixou.
—Eu sei. —Ela diz abaixando o olhar.
—Não fica brava com a vovó, mamãe. —Clara pede e eu a encaro.
—Você sabia que ela estava viva?
—Sim.
—Você também me deve muitas explicações, mocinha. —Digo fuzilando Clara que encolhe os ombros. —Eu só quero entender tudo isso.
—Eu vou tentar explicar. —Carla diz se aproximando. —Eu sei que vai parecer muito absurdo, mas apenas ouça. Eu sou uma agente infiltrada da CIA.
—Você o que? —Grito e Carla me dá o mesmo olhar de desaprovação de quando eu tinha cinco anos. —Desculpe. Pode falar.
—Eu fui designada para pegar um cara. Um homem envolvido com tráfico de mulheres, crianças, drogas... entre outras coisas. Ele era um dos homens mais procurados da CIA, FBI, ONU, e por caras ruins também. Eu deveria encontra-lo, e acabar com ele. Eu passei seis anos o procurando. Seis anos seguindo pistas. Me infiltrando. Buscando por qualquer chance de encontra-lo, mas eu cometi um erro.
—Erro? —Pergunto confusa, tentando digerir tudo que acabei de ouvir.
—Sim. No seu aniversário de seis anos eu fui fazer uma viagem.
—Sim, você disse que tinha que ia cuidar das crianças, na África.
—Exato. Ser médica era apenas um disfarce, me ajuda bastante. —Carla diz sentando na pontinha da cama. —Naquela missão, na África, eu deveria pegar esse homem, e matá-lo. Eu fui levada pelos homens da CIA há uma região quase abandonada pela população. Era uma parte nobre da África, esquecida pela população.
—O que tinha nesse lugar? —Pergunto secando algumas lágrimas.
—Crianças. Crianças de todas as partes do mundo. —Carla diz enxugando algumas lágrimas. —Cada uma delas foi tirada da família, e vendida para servirem como escravas sexuais. Algumas delas eram cortadas. Como bonecas humanas.
—Meu Deus. —Sussurro colocando a mão na boca.
—Eu tentei ajudar algumas crianças, era parte da missão, mas eu perdi o colar que você tinha me dado antes de ir viajar. Ele caiu quando eu fugia para um lugar seguro com aquelas crianças. E... aquele homem, aquele homem que eu deveria matar, ele achou o colar. Eu não consegui pegá-lo naquela missão, eu falhei e ele quase me matou. Então a CIA me dispensou, eles me mandaram para um lugar seguro.
—A casa de campo. —Digo me lembrando.
—Sim. Eu tinha a proteção da CIA, então tinha como proteger vocês, mas ele me achou. Naquele Natal quando eu saí correndo para te levar ao pronto-socorro porque você teve uma reação alérgica. Ele me achou naquele momento.
—Então ele tentou te matar.
—Sim. E eu não poderia deixa-lo chegar até você e o seus irmãos. Então com a ajuda da CIA eu forjei a minha morte, para proteger vocês e pegar eles. Ah, Ana. Minha princesinha. Eu cuidei tanto de você. Eu queria tanto me aproximar, e dizer que eu estava viva. Quando o Christian se foi. Quando você ficou grávida. Você estava tão linda.
—Você me viu? —Pergunto sorrindo entre as lágrimas.
—A vovó fez seu parto, mamãe. —Clara diz sorrindo. —Ela me trouxe ao mundo.
—É verdade?
—Sim. —Carla diz sorrindo. —Eu estive com você a cada momento, mas não poderia ficar muito a ponto de você me reconhecer. Então eu fazia pequenas aparições.
—Vocês sabiam? —Pergunto olhando Ethan e Kate.
—Não. Era o mesmo conosco. —Ethan diz.
—Por que você nunca me contou? —Pergunto chorando. —Eu iria entender. Manter distância. Eu sofri tanto.
—Eu sei, eu também sofri, mas do que todos, mas eu não pude.
—Por que não?
—Porque quando eu finalmente consegui pegá-lo, ele colocou os filhos dele atrás de você.
—Ana... —Katherine diz nervosa. —O Michael e o José são irmãos.
—O que? —Pergunto agora totalmente confusa.
—Eles são filhos do cara que a mamãe matou, eles vieram atrás de nós, não só por odiarem os Grey, como eles diziam. E a Elena estava envolvida com eles. Ela é casada com o José, eles armaram tudo, para nos manterem em posse.
—Eles descobriram que eu estava viva. —Mamãe diz. —Mas não sabiam onde eu estava. Nós tínhamos um trato.
—Que trato?
—Eles não machucarem vocês até eu me entregar, e depois vocês ficariam bem.
—E quando seria isso?
—No meu aniversário de três anos. —Clara diz se manifestando. —Mas eles mudaram de ideia. O José mudou.
—Por quê?
—Aninha. —Ethan diz sentando ao meu lado. —Você lembra como a Clarinha era esperta? Desde muito novinha, com um aninho, ela conseguiu gravar números diferentes, em sequências diferentes.
—Sim. —Sussurro sorrindo. —Ela falava como um papagaio. Vivia repetindo números gigantes.
—Sim. —Clara diz dando um sorrisinho sapeca. —Quando... quando você me deixava sozinha com o José, ele me dava anagramas.
—Anagramas? —Pergunto confusa.
—Sim. —Carla diz. —Ele descobriu, que os anagramas deixados pelo pai, eram chaves, para retomar muitas coisas. E ele descobriu que a Clara conseguia decifrar aqueles anagramas.
—Ele me levou embora, porque eu tinha que decifrar os números para ele. —Clara diz encolhendo os ombros. —Se eu não fizesse, ele ia te machucar, mas ele me enganou. Ele foi atrás de você e do Christian. Quando ele descobriu que vocês estavam vivos, ele quis matar ele. O José planejou tudo. E eu tive que fazer alguma coisa.
—O que você fez? —Pergunto encarando-a.
—Em um encontro secreto, e muito rápido com a vovó, ela conseguiu me dar o pen drive, que parecia o colar de ursinho. No dia que o José planejou machucar vocês, eu copiei todos os anagramas, codificados, os endereços dos pontos de tráficos e outros lugares. E então eu encontrei a sala secreta, na casa de Aspen. Eu comecei a enviar os códigos paras as policiais locais, para eles poderem ajudar as pessoas, mas o José sabia que era eu que estava entregando tudo. E ele rastreou o endereço, por isso ele nos achou. Então, eu decidi entregar tudo para a CIA, a ONU e o FBI. Eu sabia que a vovó estava perto, com os homens dela. Eu a vi no veterinário, mas não poderia dizer que era ela. Mas quando ele quis machucar vocês, a minha família. Eu não poderia mais poupá-lo.
—A Clarinha me enviou tudo que estava no pen drive, e eu acionei uma segurança maior. Eles já estavam disfarçados, então nós conseguimos chegar rápido na sua casa.
—Entendeu? —Clara pergunta.
—Entendi. —Falo colocando a mão na boca. —Eu preciso vomitar.
—Uh! —Phoebe grita rindo e saio do meu lado. Christian ri e me dá uma bacia.
—Eu posso ter cinco minutos sozinha? Acho que preciso vomitar tudo que ouvi. —Falo e todos dão risada.
Acho que eu estava errada. As coisas vão sim melhorar.
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