Uma Noite no Campo
2 Capítulo 2 - Aquela coisa louca que me deixa louco
Mas essa noite tudo mudou. Eu não sei exatamente o que aconteceu, mas hoje ele estava bem mais cordial comigo. Ou melhor, ele estava cordial, o que não costuma acontecer. E de uma certa forma isso acendeu em minha uma fagulha de esperança. Eu não sei o que aconteceu essa noite, mas sei exatamente o que eu quero que aconteça na próxima.
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A casa silenciosa parecia amplificar meus sentidos na busca de algum ruído que indicasse o caminho onde Ikki estava. Respirei fundo antes de sair do banheiro, um nervosismo crescente se alastrava por todo o meu corpo, arrepiando os pêlos da minha nuca. Minhas mãos praticamente congeladas uma na outra não me deixavam negar: eu estava muito ansioso pelo que estava por vir. Só de imaginar que encontraria Ikki logo depois de sonhar com ele no chuveiro — e não era qualquer sonho, mas aquele sonho em particular — já me deixava corado por antecipação. Mas eu teria que enfrentar ou ficaria naquele banheiro trancado com medo de vê-lo e não conseguir explicar a razão de estar parecendo um tomate de tão vermelho. Não, definitivamente não me prestaria a esse papel ridículo.
Caminhei lentamente pelo corredor, descalço, tomando coragem e espantando a tensão, reunindo todo meu autocontrole, minha frieza característica e assim poder ir à cozinha e encontrá-lo como a pessoa normal que eu sou. Porém, o fato dele não estar na cozinha conseguiu me deixar ansioso de novo. Droga! Onde será que ele estava? Disse que faria o café e, bem... o café está lá na bancada, cheiroso, lançando aquela fumacinha quente pela janela, mas e ele? Será que foi embora? Suspirou resignado. Talvez fosse melhor mesmo, afinal aquela situação toda era muito complicada e misteriosa.
Aproximei- me e peguei uma xícara para o café que estava em cima da mesa, tentando lembrar como cheguei até aquela casa. A última coisa que me lembrava, porém, era de estar no Santuário conversando com Shiryu na arena de treinamento, observando alguns aspirantes a cavaleiros treinando. A lembrança era bem vivida e me faz crer que tenha ocorrido ontem. Sim, não sei exatamente que dia é hoje. Na verdade, nem sei se o hoje existe de fato ou se estou apenas sonhando. Porque por mais real que seja, ainda é muito surreal para ser verdade e isso é difícil de acreditar, por mais que eu saiba que é.
Bufei contrariado ao constatar que eu estava mais perdido do que imaginava, tomando meu primeiro gole do café e voltei a pensar... Arght! Que café amargo!! Pensei quase cuspindo fora a bebida. Eu não devia estar com a boca doce hoje, já que eu também gosto do café mais forte, mas isso é exagero. Só o fênix mesmo para fazer um café tão forte assim! Será que ele quer acordar uma manada com esse café??
Adocei um pouco mais e verificando que a bebida ficou tragável, sentei-me na mesa de centro, retomando meus pensamentos. Estava no Santuário com Shiryu, observando além dos garotos, também a Shun que conversava com algum garoto em especial. Ficou olhando para eles até que Shun notou meu olhar e me encarou, sorrindo. Ele tinha alguma coisa diferente no olhar que me intrigou. Aproveitei que Kiki tinha puxado Shiryu para ir a algum lugar e fui até ele.
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Flash Back
- Oi Hyoga! – Shun me cumprimentou animadamente.
- Oi Shun. Oi rapazinho. – Cumprimentei bagunçando os cabelos castanhos do menino.
- Bom dia cavaleiro de bronze de cisne! – O garoto praticamente recitou as palavras muito formalmente o que me levou a rir um pouco.
- Ora... me chame apenas de Hyoga está bem? – Pedi rindo e sendo acompanhado por Shun.
- Bom, agora que já conversamos você já pode ir. – Shun disse e o garoto assentiu, correndo para a outra direção.
- Você leva jeito com crianças... – Comentei observando como o garoto o obedecia. Ele sorriu.
- Deve ser porque eu gosto muito de crianças. – Ele disse corando um pouco. Não entendi o porquê, então resolvi ignorar. – Você gosta?
- Gosto, mas não levo muito jeito para cuidar delas. – Ele riu mais.
- Hyoga... eu... bem, sabe... eu queria falar com você... – Ele gaguejava e sua tez ficava cada vez mais vermelha. Eu não posso me considerar um exímio entendedor no assunto, mas arrisco dizer que ele está tentando se declarar de novo. Acho que todo mundo sempre soube dos sentimentos dele, mas nunca pensei que ele teria coragem para falar sobre isso reiteradamente, e confesso que isso me assusta. Não é todo dia que alguém se declara para mim, principalmente quando esse alguém é um homem e um dos meus melhores amigos. Ele sabe que não correspondo, mas ele nutre uma esperança que me desconcerta. Será que sou responsável?
- Shun... – Eu tento intervir tentando mostrar meu desconforto, mas ele me interrompe.
- Não é segredo para ninguém o quanto eu... que eu gosto muito de você. – Ele diz olhando para o chão. Ele está constrangido por saber que não o correspondo e eu também, afinal ele é meu amigo e não quero que ele sofra. Droga, Shun! Porque você tem essa mania de falar tudo o que sente?
- Shun... eu também gosto de você, mas eu realmente não... não quero que sofra... – Eu sei que dizer para ele que somos apenas amigos o frustra ainda mais, mas o que posso fazer? O que se deve dizer numa hora dessas?
- Eu sei, não estou falando isso para que se sinta mal, não me entenda errado. – Ele diz e não consigo evitar um suspiro. – Eu só... é que eu... bom, eu estava pensando e... você está solteiro e eu também e, que eu saiba você não está gostando de ninguém. Eu acho que agente combina, sabe? – Ah, por Athena! Diz que ele não está fazendo esse tipo de proposta!? – Acho que não seria ruim se agente tentasse. – Arrisco dizer alguma coisa, mas ele interrompe. – É claro que eu sei que você não... não gosta de mim tanto quanto eu gosto de você, mas acho que você pode aprender a gostar de mim. Nós estamos sozinhos e carentes, nos damos bem, somos parecidos. – Ele me sorri docemente. – Eu acredito que, se você me der essa oportunidade, tenho certeza que posso conquistá-lo.
- Olha eu... – Tento dizer massageando a minha nuca.Mas eu não sei exatamente o que dizer e acabo me calando por uns segundos. Quer dizer, não é que o que ele está falando seja uma total mentira. Não teria nada de mal em tentar, afinal somos homens solteiros, estamos carentes, nos damos muito bem, ele é uma ótima pessoa, divertida e tem todas as qualidades para ser um excelente namorado. É claro que tem o fato de não ser legal ele entrar com o amor e eu com o interesse nessa relação, mas eu estaria sendo sincero com ele, e não o enganando com falsas juras de amor. – Você sabe como eu me sinto... – Digo e acho que fica claro minha dúvida.Acho que isso acendeu alguma coisa nele, pois sorriu abertamente.
- Sim, eu sei. Eu não estou iludido Hyoga. É só que eu acredito mesmo que pode dar certo. Nós dois sempre nos demos muito bem, sempre houve muito carinho entre nós, e eu tenho certeza que aos poucos você vai se apaixonar por mim. – Ele diz e põe as mãos em meus braços, acariciando de leve. Eu não posso negar que sinto falta de um carinho como esse. Só Athena sabe há quanto tempo não sinto um afago como esse, eu sei bem que isso não é um toque inocente, de amigo, sinto o aperto me mostrar que aquilo não é um simples carinho de amigo. Acho que desde a minha separação de Isaac — e isso já tem um bom tempo — que eu não sinto algo parecido. Involuntariamente lambo meus lábios e encaro seus olhos novamente.
- A última coisa que quero é magoá-lo. – Digo com a voz tão fraca que tento repetir, mas ele coloca um dedo em minha boca, se aproximando de mim tão perto que sinto seu corpo roçando levemente o meu.
- Não vai. – Ele sussurra encarando meus olhos fixamente. Ele aproxima a boca da minha e quando fica bem perto, fecha os olhos, talvez esperando que eu tomasse a iniciativa. Parece ridículo, mas me pego pensando se devo beijá-lo ou não. Talvez a pergunta mais acertada fosse se eu queria beijá-lo ou não e a resposta não é muito clara. Eu já não beijo a tanto tempo que sim, eu gostaria muito de beijar de novo, mas não o Shun. Não é que eu não goste dele, mas não acho que role aquela química, aquela vontade louca. Não, eu não sou assim tão romântico, mas aquela coisa quente, de pele, é bem legal de acontecer. Está bem, o tempo está passando e é hora de decidir. Aproximo meus lábios abraçando-o timidamente, quem sabe provando o seu sabor a coisa não mude? Dou um selinho demorado nele e ele rapidamente envolve meu pescoço com seus braços, abrindo mais a boca e tentando aprofundar o beijo. Deixo-me levar pelo beijo que como eu já esperava não foi grande coisa. Não posso dizer que não gostei, ele beija bem. Mas faltou aquela coisa de pele, aquela coisa louca que é bem legal e me atrevo a dizer, essencial.
- Você não precisa responder nada agora. – Ele sussurra ainda bem perto do meu rosto com um sorriso radiante que até me faz sentir que valeu à pena. Se eu soubesse que ele ficaria tão feliz com apenas um beijo, o teria beijado antes. Afinal um beijo não é nenhum sacrifício. – Eu te dou o tempo que você quiser.
- Eu vou aceitar, preciso de tempo mesmo. – Digo, mas no fundo eu já sei a resposta. Porque não dizer logo? Ahh, eu não quero desfazer esse sorriso tão bonito. Não sei se é certo ou não, talvez eu esteja dando falsas esperanças, mas também seria horrível beijar e logo depois dizer que não foi um beijo bom. Ele mantém o sorriso que o salvou de uma verdade cruel e se afasta lentamente, todo bobo indo em direção ao alojamento dos aspirantes. Céus, o que eu estou fazendo?
- O que você está fazendo? – Assusto-me e viro-me na direção da voz que, coincidência ou não, faz a mesma pergunta que eu estava me fazendo. Era só o que faltava! Ikki estava de braços cruzados sobre o peito e com uma expressão nada amigável no rosto. Até ai nenhuma novidade, o problema é a cena que ele acabou de presenciar.
- Ikki, não sabia que estava ai... – Desconversei mostrando uma indiferença que eu não sentia, mas que se dependesse de mim ele jamais saberia.
- Não foi isso o que eu perguntei. – Ele diz seriamente. Eu o encaro friamente e decido responder.
- Estava beijando o seu irmão. – Digo calmamente o desafiando.
- Escuta aqui seu pato metido a garanhão. – Ele vem com aquele tom ameaçador de sempre apontando o dedo para mim. – Você sabe muito bem os sentimentos dele! Eu não vou deixar que se aproveite disso.
- Eii, pode parar fênix! – Me irrito, porque ele sempre pensa mal de mim? – Para começo de conversa, foi ele que me beijou. – Está bem, isso é uma meia verdade, mas a iniciativa de maior peso foi dele realmente. – E depois, ele já é bem grandinho. Sabe se defender sozinho...
- Não, ele não sabe e não me venha com essa porque você sabe tão bem quanto eu o quanto ele pode ser inocente! Eu te juro pato, te juro que eu te mato se você o machucar. – Ele diz calmamente, apesar do tom ameaçador. É impressionante como ele fala todas essas palavras agressivas com tamanha naturalidade... Bom, mas não deixo de dar razão a ele. Suspiro.
- Não se preocupe, a última coisa que quero é magoá-lo. – Digo tentando mostrar com meus olhos o quanto estou sendo sincero. Ele estreita os olhos em minha direção e percebo que se acalmou, ou um pouco, ou o que era possível para ele.
- Vem comigo... – Ouço-o resmungar sem entender muito até que ele se aproxima e literalmente me puxa pelo braço, me guiando para algum lugar.
- Para onde você está me levando? – Eu estranho o comportamento dele, mas me deixo levar. A curiosidade é maior do que a indignação dele me tratar dessa forma, como se eu fosse uma criança. Chegamos num ponto mais afastado do local de treinamento, onde tem algumas pedras. Ele finalmente me solta soltando um suspiro e fechando os olhos, leva as mãos à cintura e faz um gesto de negação com a cabeça, provavelmente reprovando a minha atitude de beijar Shun.
- Eu sei que você é um chato, arrogante e narcisista, mas sei também que não é um canalha. – Pisco algumas vezes incrédulo com o que ele acabara de dizer.
- Nossa... muito obrigado. – Digo irônico e cruzo os braços.
- Eu sei também que você não gosta do Shun, o que me leva a pergunta: Porque você o beijou? Por acaso quer dar esperanças a ele? – Arqueio uma sobrancelha.
- E por acaso é muito improvável que eu queira dar uma chance a ele? – Digo naturalmente e ele me encara com aqueles olhos. Engoli em seco, ele tem um olhar muito penetrante e tão intenso que é impossível alguém não ficar no mínimo intimidado com esse olhar. Apesar de parecer ameaçador, ele não me ameaça, pelo contrário. Eu sinto como se aqueles olhos quisessem me invadir, percorrer minha alma e descobrir meus segredos. Não é muito difícil acontecer de me sentir praticamente nu diante de seus olhos, de tão intenso que eles são, me forçando invariavelmente a desviar os olhos.
- Você acredita nisso? – Ele me pergunta se aproximando. Bem, pelo menos eu tenho que confessar para mim mesmo que Ikki de fênix é um homem que tem alguma coisa de muito sexy que eu não consigo resistir.Não é a primeira vez que me arrepio só de ouvir a sua voz e provavelmente essa não será a última.
- E porque não? – Pergunto mostrando indiferença. Mesmo já estremecendo ao vê-lo se aproximar cada vez mais.
- Você quer? – Ele está tão perto que acabo andando para trás involuntariamente, nossos olhos se cruzando o tempo todo e eu tenho certeza que posso ver luxúria em seus olhos. O que será que ele está pensando? Acabo encostando-me na pedra, sem ter mais para onde ir. Ele está muito próximo, mais um pouco e nossos corpos se colam. Minha respiração se altera sem conseguir desviar de seus olhos.
- Não... – Eu sei que não foi a melhor resposta, mas como alguém pode pensar em alguma coisa com aquele homem te olhando daquele jeito?
- Foi o que eu imaginei... – Ele apoiou uma das mãos na pedra ao lado da minha cabeça e aproxima a boca de meu ouvido e só de sentir seus lábios na minha orelha eu já me sinto derreter. Céus, que diferença! Não tem como não pensar no beijo de Shun. Bom, nunca foi novidade para mim que Ikki era um sonho distante, algo como um sonho de consumo que agente acha que nunca vai alcançar, mas definitivamente não esperava que fosse assim. Mas que poder mágico é esse que esse homem tem sobre meu corpo que sem nem me tocar e eu já estou todo mole? – Então porque o beijou? – Minha respiração está muito ofegante. Ele devia ser proibido de fazer algo assim! Tentando me manter inerte e frio pelo menos por fora, tento responder.
- Eu... bem, ele me beijou e... – Eu não vou dar o gostinho a ele de dizer que estou carente e que estou louco por um beijo. Vai parecer que estou pedindo um beijo para ele, e não é o que eu quero. Não? Ele se afasta da minha orelha e volta a olhar nos meus olhos. Estamos tão pertos que seu corpo começa a roçar no meu, me arrepiando completamente. Meu coração acelera e perco o raciocínio.
- E o que? – Ele pergunta olhando para minha boca. É impressão minha ou ele está querendo me beijar?
- E eu aceitei... não há nada de errado num beijo. – Eu digo. Não há nada de errado num beijo do Shun... e também nada de errado num beijo do Ikki... não é?
- Você tem razão. Não há nada de errado num beijo. – Ele diz e para minha surpresa logo depois ele cola sua boca na minha, exigindo um beijo profundo, nossas bocas se uniram num beijo molhado, lento e excitante, e eu, apesar de surpreso, me vi corresponder avidamente aquele beijo, me agarrando as suas costas e trazendo-o para mais junto de mim enquanto ele me amassa todo com seus braços, ele me aperta e acaricia com tanto desejo que eu nem consigo acreditar. Era disso o que eu estava falando, essa coisa louca, de pele, de desejo que faz um beijo ser aquele beijo. E confirmando as minhas suspeitas, Ikki tem aquela química, aquela coisa louca que me deixa perdido querendo mais e mais.
Fim do Flash Back
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Pisco os olhos algumas vezes, com o coração acelerado e a respiração ofegante. Então pelo menos um beijo eu tive e lembrar-se disso foi tão gostoso, mas ao mesmo tempo tão... estranho. Quer dizer, então será que eu vim para essa casa por livre e espontânea vontade? Mas então porque não consigo me lembrar? Agora, mais do que nunca, preciso encontrar Ikki e saber o que aconteceu.
Continua...
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