Não havia explicação para certas coisas. Hermione sabia disso. Mas, apesar de entender como funcionava o mundo, não conseguia aceitar certas coisas. Não conseguia aceitar a morte de Fred. Não conseguia simplesmente partir sem saber o que havia se passado com ele. Entretanto, não estava em suas mãos resolver aquele mistério. Apesar disso, apesar de saber que não deveria, ela bisbilhotou o quarto de Fred, procurando alguma pista. Algo que lhe dissesse se havia alguém próximo dele que poderia fazer isso.

Aproveitando a ausência da senhora Weasley, que dissera precisar ir no mercado comprar molho para a macarronada e que não havia nenhum sinal de Gina pela casa, ela resolveu subir as escadas do segundo andar, com muita dificuldade. Estava se acostumando ainda com o gesso. Porém, havia adquirido certa agilidade. Subiu as escadas de madeira de carvalho, degrau por degrau, escutando-o ranger sobre seus pés. Quando chegou ao patamar, sentiu o ar faltar em seus pulmões. Continuou em frente, no corredor atapetado, sem dar atenção a decoração do local. Seu único intuito era chegar o mais depressa possível que conseguisse no quarto de Fred. Encontrou a porta dele, a segunda, a esquerda. Abriu a porta de cor laca. Viu o quarto mergulhado em breu. Usou o interruptor, ao lado da porta, para acender a luz. Observou o quarto intocado. E vazio, mesmo que houvesse objetos ali. Objetos que foram de Fred. Sentiu os olhos arderem. O vazio era a vida que havia partido. Perguntava-se se ele vivia ainda naquela casa, antes de estar naquela casa, quase fora dos limites da cidade de Mountain Black. Se ele tivesse se mudado há pouco tempo, ainda teria vestígios ali. Algo que ela não tivesse visto sobre ele.

A primeira coisa que fez foi abrir o armário dele. Havia cabides com jaquetas, blusas e calças. A baixo, no armário, havia sapatos, tênis e botas. Ele não havia deixado a casa. Talvez a casa que estava, quando morreu, era apenas um refúgio temporário. Vasculhou dentro dos bolsos de cada peça, procurando algum bilhete, algum indicio. Alguma pista. Nada. Não havia nada. Frustrada, ela fechou as portas do guarda roupa com força excessiva. Estava pronta para vasculhar as gavetas do armário, quando escutou passos. Alguém subia as escadas. Olhou para os lados. Sabia que não teria tempo de sair dali. A não ser que se escondesse. Não queria que alguém a visse bisbilhotando, por isso, tentou se esconder dentro do armário. Antes, apagou a luz rapidamente, encostando a porta. Escutou vozes próximas e tateou, procurando o armário. Abriu a porta e se colocou dentro. Sentia sua perna fadigada de tanto esforço. O músculo da sua panturrilha e da coxa doíam, tendo espasmos constantes. Sua respiração era entrecortada. Alguém perceberia que estava ali, com certeza. Escutou as vozes mais perto do quarto. Tapou a boca, se colocando mais para trás, afastando os casacos com o braço e os sapatos.

— ...Você sabe que isso não está certo...

Parecia com a voz de Gina, próxima o suficiente para escuta-la. Parecia preocupada. Escutou um baque surdo, contra uma parede. Parecia que a parede havia sido atingida. Seu coração disparou, pelo medo. O que estava acontecendo do lado de fora? Fez menção de abrir a porta do guarda roupa, mas paralisou, ao ouvir a voz de George.

— Eu não quero saber das suas preocupações. A culpa é sua. Não minha, porra!

Nunca escutara ele elevar o tom de voz com sua irmã. Sempre via isso acontecer entre ela e Rony. Ou Fred, mas George...ele era tão atencioso com ela. O que teria acontecido para estar tão contrariado?

— Você sabe que não fiz tudo sozinha! – Gina elevou o tom de voz. Estavam discutindo, a essa altura. Era muito clara suas vozes – Eu não queria ter feito aquilo.

— Agora está feito. Você deveria pensar quando está com raiva e não tentar jogar a culpa em mim! – Ele replicou, em tom ainda irado – É melhor para de fazer besteiras, Gina. Não posso acoberta-la para sempre. Não vou mais! Não suporto mais isso!

— Você vai contar para alguém então? É isso?

Escutou o suspiro audível dele.

— Apenas para de fazer besteiras. Precisamos esquecer o que houve. E você precisa se controlar.

— Assim como você se controlou com Angelina? – Acusou ela.

Mais um baque contra a parede. Com certeza, ele havia esmurrado a parede.

— Não me teste, Ginevra – ele a advertiu.

Hermione escutou passos então, se afastando. Não sabia se os dois haviam saído do corredor. Ficou ali, por um bom tempo, transpirando, devido ao guarda roupa estar fechado. Queria sair dali o quanto antes, mas, não queria que eles soubessem que ela escutara tudo. Ou nada. Não saberia dizer o que significava aquela conversa. Sentiu o celular no bolso vibrar, então. Era George.

— Merda, merda...- praguejou baixinho.

Ele deveria estar a procurando. Com certeza estava. Não poderia sair dali. Não se não quisesse ter problemas. Recusou a ligação, de propósito. Ele não poderia saber que ela estava ali. Então, mais uma vez, o telefone tocou. Ela recusou mais uma vez. Houve uma terceira vez, contudo, escutou passos apressados do lado de fora. Desligou o telefone. Porém, não adiantava mais fazer isso. A porta do quarto de Fred foi escancarada.

— Hermione, onde você está? – Escutou a voz de George.

Tapou a boca com força, recostando-se no fundo do armário, esperando, implorando, na verdade, que ele não percebesse que ela estava ali.

— Hermione? – Escutou ele chamar mais uma vez – Eu sei que está aqui.

Seu coração dessa vez batia com força. O pânico que tomara conta de sua mente a impedia de se mover. Estava paralisada. Não sabia o motivo, mas estava assustada demais para sair de dentro do armário. Poderia simplesmente ter saído. Mas, como explicar aquilo? Como explicar que estava com medo que alguém descobrisse que ela estava ali?

Uma porta se abriu. Parecia ser o banheiro. Então, parecia ter passado uma eternidade. Os passos ecoavam lentamente pelo assoalho. Escutou o som dos passos bem próximos ao armário. Então, silêncio. Pensou que ele não iria abrir o armário. E pensou, que se ele abrisse, iria dar uma desculpa tola. Apenas não sabia o quê. Infelizmente, não poderia ficar ali para sempre. O armário foi escancarado. E olhar que ele tinha em seu rosto se tornou severo. Ela engoliu a seco.

— Eu posso explicar – disse ela, segurando com força o celular, voltando a liga-lo pelo botão lateral. Precisava desesperadamente liga-lo. O olhar que ele lhe dirigia, não parecia ser de decepção, como esperava. Mas, de uma fúria que nunca vira antes.

— Hermione – ele disse seu nome, com um tom seco – O que você está fazendo?

— Eu, nada...eu...

Pensou consigo mesma que talvez, ele estivesse apenas bravo por bisbilhotar nas coisas do irmão gêmeo. Mas, seu olhar era perigoso.

— Eu só queria ver o quarto de Fred – disse, tentando acalma-lo – Fiquei com medo que Molly ficasse brava.

A expressão dele amenizou. Porém, o olhar dele ainda a espreitava, como se não acreditasse nela.

— Por isso, me escondi no armário – Então, deu uma risada forçada, que não combinava com a ocasião – Como quando éramos crianças e nos escondíamos dentro do armário, lembra?

Ele soltou o ar e puxou com força pelo braço.

— Aí. Está me machucando – ela tentou se desvencilhar dele, saindo do armário de qualquer jeito, torcendo o pé. A dor fora lancinante, deixando-a cega.

— Eu sei que você nos escutou – ele acusou, ainda segurando seu antebraço. Ela teve dificuldade para fita-lo, pois, a dor que sentia no tornozelo a deixou tonta. Ele parecia furioso – Não tente negar. O que você escutou, Hermione? Diga!

— Para! – Ela exigiu, tentando se soltar do aperto ele – Qual é seu problema?

Sua respiração parecia represada no peito. Lágrimas vieram aos seus olhos, pela dor que sentia tanto no tornozelo, quanto no antebraço.

— Você é meu problema. Eu tentei. Eu tentei – ele disse, passando a mão pelo rosto, com um misto de exasperação e raiva – Por que você simplesmente não foi embora?

— O que quer dizer? Por que está falando isso comigo? – Indagou ela, confusa, sentindo o braço dormente naquele instante. Mesmo que tentasse puxar, ele a apertava com força. Algo estava errado e ela podia sentir no ar. Era denso. Algo muito escuro. E o que escutara com certeza fazia parte de algo que ele não desejava que ninguém soubesse. Um segredo que ele parecia preocupado em manter. Como se o estivesse martirizando. A forma como a olhava naquele instante era puro terror – Seja o que for, George, eu não escutei nada. Não sei do que está falando – tentou persuadi-lo – Por favor, me solte. Está me machucando.

Ele soltou seu braço, passando as mãos pelos cabelos, bagunçando-os. Andou de um lado a outro do cômodo, enquanto Hermione se abraçava. Deveria sair, naquele instante. Era o que deveria ter feito, mas estava presa ao chão, como se estivesse sob um feitiço.

De repente, ele parou, fitando-a seriamente.

— Você está mentindo! – Ele acusou, apontando o dedo para ela – Eu a conheci muito bem. Muito mais do que você imagina, Hermione. E posso dizer quando está mentindo.

— Eu não estou! Não sei do que está falando! – Insistiu.

Ele negou com a cabeça, trincando o maxilar. Olhou para a porta. Avançou em três passos, fechando-a e passando a chave. Naquele instante, Hermione, sem conseguir reagir, sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Sirenes ligavam em sua mente, pedindo que ela fugisse. Simplesmente se fosse. Mas, não havia mais nada a ser feito. Ele segurava a chave na mão, mostrando-a a ela. E tinha um olhar estranho.

— Eu não queria ter que fazer isso com você – ele lamentou, passando a mão livre pelo maxilar – Fred contou a você, não foi?

Ela não teve tempo de pensar sobre suas palavras. Mas, ecoavam de forma insistente em sua mente.

“Eu não queria ter que fazer isso com você”.

“Eu não queria ter que fazer isso com você”.

— Do que...do que está falando? – Gaguejou.

— Não se faça de idiota! – Ele não elevou o tom de voz, porém, era ofensivo, de uma forma que nunca vira. Era brutal – Acha que sou imbecil? Acha que não sei que você foi até Malfoy, para investigar as coisas? Ele acha que sabe de algo. Aquele imbecil. Mas, ele não sabe. E agora, ele conta exatamente onde Harry morreu. E você resolve ir atrás. Você sabe de algo. Você sabe! Agora, me diga! Me diga o que Fred disse a você?

Hermione negou com a cabeça. George parecia desequilibrado, andando de um lado a outro. Um animal acuado e perdido. Os olhos injetados. Foi até a janela, abrindo a cortina, olhando para fora, depois voltou a fita-la esperando que ela dissesse algo. Mas, o que poderia dizer, com ele naquele estado? Não queria inflamar mais sua raiva. Não poderia. Porém, em sua mente se desenhava exatamente o que havia acontecido. Ele era responsável pelo que aconteceu com Harry. Não conseguia acreditar. Não. Deveria estar cogitando algo errado. Não poderia ser George. Se não...Se não ele teria feito o mesmo com Fred e Roy. Não poderia ser! Era mortificante pensar nisso.

— George, se acalme. Eu não estou entendendo o que você está falando – ela tentou falar de forma pacifica, mas sabia que sua voz saiu tremulada, estrangulada.

De repente, ele riu. Não era um riso alegre. Era frio. Ele negou com a cabeça, negando o que ela havia dito.

— Hermione, você sabe que eu não acredito em você. Infelizmente, isso vai precisar acabar aqui. Eu não queria isso. Não mesmo. Não suporto mais isso. Não suporto mais...

Foi quando escutou o telefone vibrar mais uma vez. Ela olhou rapidamente para a tela. Era Draco Malfoy. Parecia uma ótima hora para ele ligar. George voou sobre ela, agarrando o celular de sua mão com força, machucando seus dedos. Ela gritou, de raiva e surpresa. O que inflamou a ira dele contra ela. Ele acertou um bofetão em seu rosto, fazendo-a cair sentada. A dor a fez ver estrelas.

— Eu sabia! – Ele gritou – Você queria acabar comigo! Eu sabia! Eu vou acabar com você, como acabei com Fred!

Ela levou a mão a boca, atônita. Não poderia ser. Não poderia ser. Era como se estivesse em alguma espécie de pesadelo. Precisava acordar. Apenas precisava acordar. De repente um estrondo veio da porta. Hermione olhou para o lado. A porta havia sido arrombada, pelo senhor Weasley. Ela o fitou, sem entender. Sentia-se fora do ar. Fora do seu próprio corpo.

— O que você fez? – Gritou Arthur com o filho.

— Isso não é da sua conta! Não é! – George parecia descontrolado. Tentou passar pelo pai, mas ele o segurou. Não por muito tempo, pois foi jogado para o lado com violência pelo próprio filho.

George saiu do quarto, de forma intempestiva. Arthur, que não era um homem jovem, se levantou do chão, atordoado. Fitou Hermione, com um olhar horrorizado.

— Eu sinto muito – Hermione disse – Eu não sabia...

Arthur negou com a cabeça. Deu a mão a ela, em um gesto fraterno. Ela se colocou de pé, mas ainda sentia as pernas tremulas.

— O que vamos...fazer? – Indagou ela.

— Eu não sei. Ele é meu filho. Não entendo o que está acontecendo.

Nesse momento Arthur parecia atordoado. Perdido. Parecia dividido entre acreditar no que escutara e fazer algo a respeito do que George fez. Nem ela tinha as respostas certas para isso. Foi quando viu celular no chão. O telefone ainda tocava. Draco não havia desisto. Porém, Hermione não queria falar com ele. Não sabia o que dizer. Nem ao menos, o que pensar.