Um segredo obscuro - Dramione
16 Capítulo 17
Era muito bom estar com ele. Parecia perfeito. Nós sempre estivéssemos juntos. Pensamentos sincronizados. Mas, Fred na verdade nunca foi fácil de ler. E era por isso que o amava. Sabia que o amava desde sempre. Mas, dessa vez era diferente. Não o via como um amigo. Não. Ele era especial para mim. Se tornara alguém importante, em cada instante. Quando ele me ajudou a fugir do meu pai, que queria me dar uma surra, por eu chegar em casa com o vestido cortado do baile, sendo que ele havia me proibido de ir, fora agora incrível. Ficamos nos limites da cidade, em um posto de gasolina. Ele bebia cerveja, direto da lata, enquanto eu estava sentada no capô, enrolando o tecido lilás entre os dedos.
— Você estava bem bonita hoje – Fred disse, em tom maroto, segurando a cerveja com a mão e sentando-se ao meu lado no capô. Me senti corar pelo que disse e pela sua proximidade – Eu acho que você é a única garota que consegue ficar bonita com um vestido como esse.
— Com um vestido picotado? – Mostrei para ele a barra do tecido, deixando minhas pernas a mostra, sem perceber – Olha isso.
Ele deu de ombros, tomando mais um gole da sua cerveja.
— Não importa. E sabe o que mais? – Neguei com a cabeça — Podemos fazer nosso baile aqui, Hermione.
Então, desceu do capô do carro. Estendeu a mão para mim em seguida. Não entendi aquele gesto. O que ele queria fazer. Olhei para o céu escuro, pontilhado de estrelas. Estava um calor insuportável.
— O que? – Perguntou, olhando para a mão estendida dele. Fred continuou ali, parado, como se quisesse que eu descesse e dançasse com ele – Não, de jeito nenhum!
— Vamos, vai ser divertido – ele insistiu, com um sorriso malicioso em seus lábios.
Eu não resisti. Desci do capô. Dançamos então, ao som dos grilos, pois não havia música alguma. E era como se estivéssemos sozinhos. Não havia mais ninguém ao redor. Só eu e ele.
**
Hermione pensou que poderia suportar aquele interrogatório. Que tudo ficaria bem. Mas, infelizmente, não. Não conseguia. Olhar para o xerife Thomas parecia algo insuportável de se fazer. Ela apenas queria se calar, pois a dor era insuportável. A dor em seu peito parecia crescer, à medida que fazia se relato, quanto ao que acontecera na casa dos Weasley. Molly estava arrasada, sentada no sofá. Chorava copiosamente. Arthur a abraçava, tentando consolar a esposa, mas era visível que ele tão pouco estava bem. Gina estava ali, ao lado dos pais, estranhamente quieta. Hermione resolveu omitir a parte da conversa que escutara entre os dois. Não sabia o que pensar sobre isso.
— Bom, por enquanto é isso – Thomas disse, se levantando do sofá – Vamos encontra-lo. Ele não deve ter ido muito longe. E...- Então, parou segurando o chapéu, dirigindo o olhar a Molly – Sinto muito por isso. Senhora.
Molly parecia não o ter escutado. Estava abatida. Perdida. Hermione olhou aquela cena, sem saber o que fazer. Como reagir. Queria sair dali o quanto antes. Foi o que fez, quando o xerife foi embora. Ela seguiu para a entrada da casa, mancando e viu as ligações perdidas de Draco. Ele mandara algumas mensagens, perguntando se ela estava bem. Isso amoleceu seu coração. Será que realmente ele estava preocupado? Será que se importava com ela? Pensando nisso, abriu a porta da frente, então, indo direto para a varanda. Fechou a porta, com cuidado, para quem ninguém a escutasse. Digitou o telefone de Draco na tela de discagem, sentindo-se boba. A boca seca. Foi quando percebeu que estava sendo vigiada. Olhou para frente. O Mustang dele estava ali, do outro lado da rua. Ao que parecia, ele continuava sua perseguição, mas isso não a assustava mais.
Resolveu descer a pequena escada da varanda, com o apoio do corrimão. Iria falar com ele. Queria entender algumas coisas. Principalmente, pelo que George dissera. Draco deveria saber de algo. E era o momento para ele lhe dizer a verdade. Não precisou andar muito, pois ele saiu do carro e seguiu para o outro lado da calçada. Se encontraram em frente ao pequeno portão de ferro. Ele a fitou com um olhar preocupado. Podia ver ainda a marca em seu olho cinzento. O tom esverdeado e arroxeado. Conseguia adivinhar agora quem fizera isso.
— Você parece péssima – ele comentou.
— Você também – ela provocou.
— Tentei te ligar. Estava...bom...- ele passou a mão pela nuca, parecendo com dificuldade para falar sobre o que queria – Queria saber como estava. Por que Hardy estava aqui?
— Ele...bom...foi George – respondeu, em tom baixo. Um lampejo de reconhecimento veio aos seus olhos – Você sabe, não sabe?
— Não tinha certeza. Mas, sim – ele soltou um suspiro.
— Essa marca em seu rosto, foi um belo soco. Foi ele não foi?
Draco anuiu com a cabeça.
— Foi quando eu resolvi colocar a limpo, depois da morte de Roy.
Hermione engoliu a seco. Cada vez mais aquela história se tornava sombria e escura.
— Foi ele?
— Eu não sei – Draco negou com a cabeça – Eu tenho minhas suspeitas. O que ele fez, dessa vez? Ele fez mal a você? – Ela não respondeu. Não conseguia dizer. Ainda não conseguia acreditar no que vivenciara – Por Deus, Hermione – ele disse, um tom elevado, exasperado – Eu disse a você. Eu disse. Mas, você não me escuta. É tão teimosa!
Ela o fitou, boquiaberta. Ele parecia tão preocupado. Genuinamente preocupado. Queria estar ofendida com suas palavras, contudo, incrivelmente não estava.
— Venha, vamos embora daqui. Eu posso leva-la aonde quiser. Mas, você não vai ficar aqui – ele exigiu.
Hermione não soube recusar. Na verdade, não podia ficar ali, naquela casa. Não quando desconfiava de Gina e temia que George voltasse. Também, não sabia como encarar a família Weasley.
**
Dentro do Mustang, tocava música Blues. Hermione não prestava atenção a isso. Apenas olhava pela janela, apática. Os acontecimentos que se sucederem a deixaram anestesia. A adrenalina havia ido embora. Apenas saiu da sua apatia, quando o carro parou em frente aos portões da mansão Malfoy. O céu escurecia rapidamente. O tom cinzento era um tanto melancólico. Hermione olhou para Malfoy, que a fitava, silenciosamente, como se uma ideia passasse por sua mente. Então, ele voltou a olhar pelo para-brisa, abrindo por portões.
Draco estacionou o carro em frente as escadarias, como fizera da última vez. Sentiu-se bem-vinda ali, apesar de ter saído, desconfiada dele. Precisavam conversar sobre tudo. Tudo que havia ocorrido. Ele era única pessoa que poderia lhe der algumas respostas. Ele deveria saber o que acontecera com Fred. Ele deveria saber de tudo. E apenas precisava saber. Apenas precisava entender o que houve com Fred.
— Precisamos conversar – ela disse.
Ele tirou a chave da ignição e suspirou.
— Podemos fazer isso lá dentro.
Ela negou com a cabeça. Não queria falar lá dentro. Preferia estar ali, dentro do carro. Sentia que se entrassem, não falariam nada. Sentia que ele iria procurar uma maneira de fugir dela. De fugir da verdade.
— Não. Eu quero falar aqui. Precisa ser agora.
Ele anuiu com a cabeça, a fitando com um olhar sardônico.
— Então, diga.
Não sabia por onde começar. Não sabia o que perguntar. Começaria pelo mais fácil.
— George o acusou de saber de algo. E temia que você tivesse contado alguma coisa para mim – ela começou.
Draco anuiu com a cabeça. Seu olhar não escondia nada. Parecia transparente e sincero.
— O que seria isso? O que ele fez? Você sabia que ele matou Harry e Fred?
— Não tinha certeza. Eu apenas suponha que sim – ele respondeu, sem parecer estar mentindo.
— O que o fez supor isso? Como poderia estar tão certo disso?
Afinal, se ele não tivesse presenciado algo, ele não teria suposto isso.
— É uma longa história. E prefiro contar isso, com uma dose se whisky. Bom, não para você, é claro – ele parecia querer usar o humor, para esfriar a situação, mas não funcionara. Ela não riu. Não achava graça naquela situação. Então, ele aquiesceu – Pois bem, Hermione. Eu vou contar a você algo. E espero que entenda. Não existe pessoas certas ou erradas nessa história. Apenas pessoas desesperadas, consumidos pela culpa e remorso.
Hermione anuiu com a cabeça, esperando.
— Tudo aconteceu em uma noite, mais ou menos cinco anos atrás. Eu ainda não havia assumido a prefeitura. Esbanjava o dinheiro da herança, sem me importar. Ás vezes, eu trabalhava nas empresas do meu pai, outras vezes, eu apenas me drogava – Escutar sua sinceridade brutal era algo que Hermione não estava esperando – Um dia, resolvi dar uma festa. Uma festa que incluía muitos conhecidos meus. Um deles era Angelina Johnson. Ela era modelo na época – Ele falava dela no passado. O que a fez supor algo ruim – Angelina era a pessoa mais interessante da festa. Na verdade, muitos dos meus amigos tinham interesse nela. Contudo, ela trouxe seus amigos. Os quais eu não tinha convidado. Os Weasley, sendo eles George, Fred e Gina. Com eles veio Harry Potter. Naquele momento, eu estava muito bêbado para me importar com a presença deles na minha casa. Deixei que eles fizessem o que queriam.
“A situação se tornou insustentável, depois de um tempo. Eu não sei que horas aconteceu isso. Por volta das três da manhã, acredito. Eu estava deitado no divã, na minha sala, que dá visão para a piscina. Vi uma comoção ali. Estava tão cansado, que não entendia o que era. Acordei pela manhã, por Pansy. Ela parecia desesperada. Algo estava errada, pela forma como gritava. No entanto, eu não dei atenção. Sabe como é? Pansy é muito escandalosa. Mas, daquela vez, ela não estava apenas tendo um dos seus ataques insuportáveis. Eu tive que levantar, pela sua insistência. Ela me levou a piscina, chorando tanto. Eu não entendia até o momento. Foi quando vi Angelina boiando. Seu corpo submerso dentro d’água”.
Então, naquele instante, ele parou de falar. Não a olhava. Parecia que podia ver claramente o que acontecera. Hermione o escutava estarrecida, sem compreender a sequência de eventos. O que isso teria relação com George?
— É...isso foi algo muito estranho. Era a primeira vez que me vi em uma situação como essa. O que eu poderia fazer? – ele a fitou, com um olhar assombrado – Eu poderia abafar o caso...mas, não tinha estomago para isso. Eu não conseguia simplesmente virar as costas para Angelina. Eu gostava dela. Era uma boa amiga. Então, fiz a única coisa que poderia fazer. Liguei para a polícia, não sem antes fazer uma limpa na casa. Pode me julgar se quiser, mas eu não queria ser preso por usar drogas dentro de casa. Havia até seringas de heroína dentro do banheiro. Não sei quem foi o imbecil que trouxe. Mas, faço uma ideia de quem poderia ser – Nesse momento, Hermione estava grata por Draco não a olhar. Ela sabia que se tratava de Fred – A polícia, claro, não fez muita coisa. Hardy supôs o pior, sabendo como eu era. Mas, não me prendeu. Eu apenas fui interrogado. Como todas as pessoas que conhecia haviam ido embora, sobrando apenas eu e Pansy, eles se livraram do interrogatório e preferi não dizer quem estava ali. Meu advogado nesse momento foi eficiente. Já no caso de Pansy...bom, ela estava com porte ilegal de cocaína na bolsa. O que piorou muito a situação para ela – Hermione se lembrou dela trabalhando no Lower’s em seguida. Naquele momento tudo fazia sentido. Com certeza, seu pai cansado de banca-la, a colocou para trabalhar – Ela pegou pena por 6 meses, por isso. Mas, saiu em dois meses. Meu pai quis abafar o caso, pois ela era minha noiva naquela época – Hermione o fitou, boquiaberta. Mas, nem deveria estar, afinal, os dois combinavam – Não me olhe assim. Não é como se eu pudesse ter evitado. Agradeço o dia em que consegui me livrar dela.
— E isso mostra como você é um homem incrível, Malfoy – ironizou Hermione.
Ele deu de ombros.
— Eu não sou. Nunca disse que era alguém bom, Hermione.
— Isso eu já sei – ela replicou – Mas, o que George tem relação com isso?
— Bom, Pansy jura que ele empurrou Angelina na piscina. Apesar disso, não dei atenção. Na verdade, pedi para que ela ficasse calada. Quanto menos pessoas fossem fazer um depoimento sobre o caso, melhor. Eu não sabia que tinha cometido um grave erro. Só percebi isso quando Harry apareceu morto, nas redondezas. Na noite em que isso aconteceu, eu estava com insônia. Não conseguia dormir. Simplesmente não conseguia. Era como se Angelina estivesse no quarto. Isso é loucura, mas eu conseguia vê-la nitidamente – Então, ele passou a mão pelo rosto. Hermione nesse momento se identificou com ele. Constantemente via Fred. Talvez, fosse pelo choque de tê-lo visto morto – Peguei meu carro e pude ver uma caminhonete parada na beira da estrada, perto da floresta. Eu parei para checar se a pessoa estava bem. Sai do carro e vi George vindo da mata. Eu interroguei ele, claro. Contudo, parece que George não é muito de conversa. Meu maxilar sabia muito bem disso – ele passou a mão pelo rosto, com um sorriso irônico.
“Eu achei tudo aquilo esquisito. Ele entrou dentro do carro, apressado, depois que me derrubou no chão. Automaticamente, eu deveria ir até a delegacia fazer uma queixa contra ele. E foi o que fiz. Mas, eu deveria ter voltado lá. Deveria ter percebido que algo estava errado. Um grupo que fazia trilha pelo local encontrou o corpo de Harry, uma semana depois. E eu liguei os pontos. Quando tentei questionar George, ele não estava na cidade e relatei a situação à Hardy, não havia provas suficientes contra ele. O maldito conseguiu um álibi, dizendo que estava fora do país. Não sei como fez isso. Eu não entendo – Ele passou a mão pelo rosto, confuso – E agora, eu lhe contei o que sabia. Me conte o que você sabe, Hermione”.
E ela disse. Contou a ele sobre o que ouvira, entre os irmãos Weasley, sem acreditar ainda no que escutara. Enquanto falava, parecia estar fora de si, vendo a si mesma, como se estivesse fora do corpo. Quase acreditou estar sonhando, pois tudo que aconteceu não parecia real. George não poderia ter causado a morte do irmão. Muito menos de Harry. Não poderia ser.
— Hardy vai investiga-lo. Não sei, sinceramente, se George será preso – alertou Draco, fitando-a com um ar sério – Você precisa ir embora. Se realmente ele é capaz de matar um amigo e um irmão, não sei o que faria com você.
— Eu sei, mas...- ela passou a mão pela nuca. Devia ficar. Precisava testemunhar contra ele, mas ao mesmo tempo sentia que deveria se eximir disso. Mas, seria como se estivesse manchando a memória de Fred. Como se não se importasse com o que aconteceu com ele – Não posso simplesmente ir embora agora. Preciso testemunhar contra George. Se ele realmente foi capaz de fazer isso, ele precisa ser preso – Falar isso em voz alta parecia tão errado. Não parecia realmente que estava falando de uma pessoa que conhecia há anos. Que nunca imaginou que pudesse ter atos hediondos.
— Eu não a aconselharia a isso – Draco tentou dissuadi-la – Mas, se quer ficar, pode usar minha casa. Eu não me importo de ajuda-la.
Seu tom era indiferente, mas ela se sentiu estranhamente acolhida por ele.
— Obrigada, de verdade – ela disse, tocando sua mão, que estava sobre o volante. Ele a fitou, com um olhar surpreso. Então sorriu de forma maliciosa, o que a fez afastar a mão. Deveria se lembrar com quem estava lidando. Ele ainda era o mesmo Malfoy que conhecera e um homem imoral, sem escrúpulos.
O silêncio então, se tornou insuportável. Ele a fitava, longamente, sem sorrir mais. Parecia tentar decifrar algo. E isso parecia demais para ela. Desviou o olhar para janela e quebrou o silêncio.
— Acho que agora aceito aquela bebida – ela disse, tentando fazer uma piada.
— Eu acho que um chá seria melhor para você – ele disse, no mesmo tom – Não sabemos o que você pode fazer alcoolizada e eu não respondo por mim, se eu estiver também.
Sentiu seu corpo queimar por inteiro, ao ouvir aquela confissão. Não teve tempo de pensar sobre isso, pois ele abrira a porta do motorista, com certeza, para encerrar aquele assunto. Ela fez o mesmo, abrindo a porta, sem esperar por sua ajuda. De fato, seria uma longa noite, mais uma vez, naquela casa.
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