Um romance tardio
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Nos últimos anos eu já fiquei nervosa por muitos motivos: o exame Chuunin, a missão de resgate ao Sasuke, quando vi Naruto na forma das quatro caudas. Mas agora eu podia adicionar à lista mais um evento. Tsunade-sama chamou a mim e Kakashi para sua sala, e nós dois encaramos a loira mais velha. Meu professor estava a uma distância que eu me desacostumei a estar dele. Na sala estava apenas nós três, mesmo dentro da sala eu estava com frio, ainda que estivesse bem coberta com minhas roupas. Depois que esqueci meu casaco no passeio com Kakashi ele passou a fazer questão que eu sempre ande agasalhada, ainda mais agora que a cada dia a temperatura diminuía cada vez mais e o céu se tornava mais e mais nublado. Sei que pode nevar a qualquer momento, eu não gostava muito de neve, atrapalhava bastante, principalmente em lutas.
— Não sei se vocês sabem por que chamei os dois. Aconteceu um certo imprevisto... — Todos os meus treinamentos ninjas estavam sendo usados no meu corpo agora mesmo, meu foco era não deixar meus pensamentos transparecerem no meu rosto. Isso era muito difícil considerando que estava na frente da minha mestre, que me conhece bem. Shizune, também não estava na sala para dedurar como estava o humor de Tsunade-sama. — Vejam bem, Naruto está ocupado e Sai já foi para outra missão. Então vocês dois vão ter que ir sozinhos. O que não é problema, já que é algo simples. — Meu corpo relaxa, então era isso, uma missão.
— O que devemos fazer, Tsunade-sama? — Kakashi questiona, e eu agradeço, pois eu também estava impaciente.
— Uma vila próxima à nossa aldeia precisa de suporte médico. Eles continuam sofrendo as consequências da guerra. Mandaremos uma equipe, mas precisamos fazer primeiro o reconhecimento, e por isso você é importante, Sakura. — Levanto minhas sobrancelhas em surpresa. Eu? Importante? Missão de reconhecimento é algo básico; até gennin conseguem fazer, com supervisão, claro. Tsunade relaxa seu rosto, que antes estava fechado por conta do estresse, me encarando — Sei o que pensou, mas é diferente. Não há nem um médico por lá para mandar o relatório de que tipo de profissionais eles precisam. Faça a relação dos medicamentos em falta, que tipo de atendimento é necessário com urgência e se eles têm equipamentos suficientes ou se teremos que mandar recursos nossos. — Tsunade massageava suas têmporas, talvez imaginando quanto tudo aquilo custaria, e sinceramente, eu queria fazer careta agora, vai ser um trabalho do cão só para mim.
— Tsunade-sama, é indispensável esse suporte, mas seria interessante pensarmos no futuro. Podemos capacitar alguns cidadãos e ninjas para nossa aldeia não ficar com falta de médicos. O hospital anda tranquilo ultimamente, mas você sabe que a qualquer momento ele pode encher, e não podemos ficar com falta de equipe no hospital de Konoha. — Tsunade cruza os dedos na frente do rosto, parecendo ponderar a ideia.
— Interessante, Sakura. Adicione isso na lista, então. Tente incentivar os aldeãos a se capacitarem e depois faça esse projeto de capacitação quando voltar. — Abro minha boca, mas no fim sorrio amarelo. É óbvio que esse trabalho sobraria para mim. Não há o que fazer, darei meu melhor. — Mas não pense que esqueci sobre aqueles plantões. Ainda vou resolver esse assunto e você se prepare, ein? — Aperto meus lábios, não podia rebatê-la.
— Tsunade-sama, não seria mais adequado outro medninn para ajudar a Sakura? Não sei como posso ser útil. — Tsunade abre um sorriso diabólico quando ele termina de falar, ela se encosta em sua cadeira e ela gira levemente. Ih, coisa boa não vem.
— Eu queria também, mas não temos medninn disponíveis, entende? Sabia que foi Naruto que organizou o cronograma de missões? Pois bem, ele colocou todos os medninn ocupados, então você irá aprender muita coisa com sua antiga estudante, Kakashi. Auxilie-a direitinho e não a deixe virar noites estudando. — Tsunade cerra os olhos na minha direção. Nem me liguei em seu olhar reprovador, só fiquei imaginando o tanto que Naruto deve ter ouvido de Tsunade por ter feito besteira no cronograma de missões. Tadinho.
— Temos previsão de retorno? — Minha mestre balança a cabeça em negação, fechando os olhos e bagunçando seus cabelos.
— Só Sakura saberá quanto tempo vai demorar a missão. Vai depender das condições da vila, cujo nome é Vila da Árvore Revivida e fica a nordeste daqui. No mais, é isso, dispensados, se preparem para partir hoje. — Eu e Kakashi concordamos em uníssono, fazemos uma reverência antes de sair. Não falamos muito. Depois desse susto, acho que era bom se conter um pouco.
Com um aceno, me despeço do meu sensei e vou preparar meus materiais em casa. Na minha casa eu tinha um armário na cozinha só para os remédios, organizando em ordem alfabética, sempre os deixo organizados no caso de ter que sair com urgência para alguma missão, me poupa tempo. Pego vários desses remédios, mesmo sabendo que o foco da minha missão não é cuidar da população, não iria apenas os deixar desamparados. No meu quarto as coisas eram diferentes, minhas roupas estavam espalhadas e socadas dentro das minhas gavetas, pego casacos e várias vestimentas para o frio. Dentro do meu armário em si, tudo estava organizado para ir em missão, desde kunais até bandanas extras, mamãe sempre me chamava atenção por isso. Dizia que quando o assunto era trabalho eu conseguia ser super organizada, mas quando era algo para mim e da minha vida eu deixava tudo um caos. Acho que ela não estava errada.
Enquanto verificava se faltava algo, meus olhos se deparam com o livro que Ino me emprestou. Meu rosto ficou vermelho no mesmo instante. Eu estava na metade dele, tive que parar porque não aguentava tantas cenas explícitas, porém era muito interessante. Só lendo, tive sensações muito diferentes do que usualmente sinto, e minha curiosidade aumentou bem mais. Nessa missão… apenas eu e Kakashi, será que pode acontecer algo? Balanço minha cabeça para afastar esses pensamentos. Com tanto trabalho que vou ter, não conseguirei ter tempo nem de imaginar tocar nos lábios do meu platinado, quanto mais outras coisas. Apesar que… Nós vamos sair sozinhos, para uma aldeia que ninguém nos conhece… Me pergunto se isso mudará alguma coisa, olho para minha janela e suspiro olhando para o céu nublado.
(...)
Eu estava no portão da aldeia, observando Sakura enquanto checava sua lista de materiais pela terceira vez. Ela sempre foi uma ninja dedicada, mas vê-la assim, tão concentrada e profissional, fazia meu peito inchar de orgulho.
— Você realmente pensa em tudo, não é, Sakura? — Comentei, com um sorriso leve, mas sincero.
Sakura levantou a cabeça, parecia surpresa com o comentário. Em resposta, ela sorriu quase agradecida. Seu nariz estava vermelho, assim como suas bochechas, a cada respiração uma leve fumaça saia de sua boca. Ela conseguia ser linda em qualquer estação — Eu tento estar preparada para tudo, sensei. — Ela respondeu, tentando esconder o nervosismo.
Dou alguns passos em sua direção, a distância entre nós diminui significativamente. Os guardas do portão estavam longe o suficiente para não suspeitar de nós dois.
— Fora da vila, você não precisa mais me chamar de sensei, sabe? Você cresceu e se tornou uma incrível ninja médica, o vilarejo vai notar isso na mesma hora e te admirará da mesma forma que eu admiro. — Minha voz era baixa por precaução, mas eu era sincero.
Sakura não me respondeu, apenas me encarou com seus grandes olhos verdes. Que tortura era estar tão perto dela e não poder beijar seus lindos lábios rosados pelo frio. Contudo, recebi um tapa leve em meu ombro, sem entender, a encarei.
— Não cante vitória antes da hora, você ainda não me viu trabalhando em campo. Vamos, vou te mostrar que tipo de médica eu sou, vou te surpreender mais ainda. — ela me deu uma piscadinha e caminhou na minha frente. Fiquei encarando-a por alguns segundos. Sakura sabe mesmo o que está fazendo, consegue ser incrível em todos os sentidos. Não me demoro e acompanho seu passo.
— Kakashi-dono, Sakura-san, em missão, né? Bom trabalho — um dos guardas falou assim que chegamos perto.
— Obrigada, bom trabalho para vocês também — a Haruno sorriu e eu dei um leve aceno. O outro guarda mais atrás focou seus olhos apenas em Sakura, o que me incomodou um pouco. Eu sei que tipo de olhar era aquele, seu desejo pela garota era óbvio, para todos no local, menos para Sakura. Ela tem essa mania, não percebe o quanto a desejam. Acho que os anos em que ficou presa atrás de Sasuke a fizeram não notar mais ninguém, inclusive ela própria e o quão cativante era.
— Kakashi-sensei? Vamos? — Tiro minha atenção dos guardas. Eles pareciam desconfortáveis. Sakura me chamou com aquele sufixo insistente que precisava usar. Apenas balancei a cabeça e iniciamos a caminhada até a aldeia. Se fossemos correndo, chegaríamos pela noite, exaustos, mas chegaríamos. Não precisávamos dessa urgência.
O caminho não era nada de novo, seguimos a trilha pela floresta. Como era praticamente inverno, o céu estava coberto de nuvens e deixava o local ainda mais escuro, mesmo ainda sendo de tarde. Sakura caminhava ao meu lado, dessa vez bem agasalhada, o que era bom. Da outra vez ela estava apenas usando um tecido fino. Claro que estava linda e suas curvas ficaram bem destacadas, mas não era agradável ver seus ombros tremendo por conta do frio. Ela tinha esses momentos, quando estava em missão, era uma profissional em organização, mas consigo mesma não parecia ter o mesmo cuidado.
— Então, Naruto deve ter ouvido bastante de Tsunade-sama — a rosada disse.
— Nem quero imaginar o tanto que ele escutou. Tsunade-sama parecia até mesmo rouca — ela riu, abaixando levemente a cabeça, mas isso fez com que sua bandana com o símbolo da aldeia da folha caísse levemente. — Pare um pouquinho — Sakura obedeceu na mesma hora, atenta aos arredores e com o punho já fechado. Pronta para uma possível luta, ela sempre é demasiada atenta para batalha, menos para eventos do cotidiano. Aproximei-me atrás dela e desatei o nó da sua bandana para posteriormente amarrá-lo mais forte. — Pronto, parecia frouxo. Se ficou muito apertado, posso refazer — tocando sua nuca, ela confirmou o nó. Depois olhou para trás, sorrindo radiante.
— Se você continuar me ajudando desse jeito, vou acabar ficando mal-acostumada — disse Sakura, com um sorriso brincalhão
. – Talvez seja esse o meu plano — respondi, piscando um olho. Ela riu, e o som aqueceu meu coração mais do que qualquer fogueira poderia.
— Está perfeito, obrigada — Agradece por fim, seu rosto parecia ainda mais vermelho. A floresta estava fria mesmo. Ando mais próximo dela para compartilhar mais do calor. Continuamos caminhando em silêncio por algum tempo. Os sons da floresta nos cercavam, o farfalhar das folhas secas sob nossos pés, o canto distante de pássaros e o ocasional crepitar de galhos. O frio era cortante, mas o calor do corpo de Sakura ao meu lado tornava tudo mais suportável.
— Sabe, Kakashi, lembro-me de quando você nos deu aquele primeiro teste, com os sinos — Sakura quebrou o silêncio, sua voz suave e nostálgica, era quase como se eu conseguisse ver flashbacks do passado em seus olhos. — Eu era tão ingênua naquela época, pensando que poderia fazer tudo sozinha.
— E você cresceu muito desde então — respondi, olhando para ela com carinho. — Passou de uma menina insegura para uma mulher forte e confiante. A quem Tsunade-sama confiou uma missão com enfoque médico para auxiliar a população e você ainda deu sugestões que beneficiam ambas vilas. — Ela sorriu, mas seus olhos mostravam uma pontinha de tristeza.
— Ainda sinto que há tanto a melhorar. Especialmente quando penso em tudo que aconteceu com Sasuke e Naruto. Eu sei que tudo está resolvido e eles estão bem, mas penso que poderia ter ajudado de alguma forma de maneira que nem um dos dois perdessem seus braços. — Ela diz e não havia o que eu pudesse responder, não é culpa dela, foram escolhas deles, mas isso apenas Sakura pode resolver dentro de si. Um silêncio confortável se instalou entre nós enquanto continuávamos a caminhar. O caminho se tornou menos terroso e o som de um riacho próximo encheu o ar. Decidi que era um bom momento para uma breve pausa.
— Vamos descansar um pouco — sugeri, apontando para uma clareira próxima ao riacho.
Sakura concordou e nós nos dirigimos para lá. Sentamo-nos em uma rocha grande, compartilhando um momento de silêncio enquanto bebíamos água e aproveitamos a tranquilidade do lugar. Era tudo tão bonito e o melhor era poder vê-la junto à paisagem, seus cabelos rosas, agora mais longos, balançavam com o vento e me trazia um brisa leve com cheiro de rosas. A distância que existia entre nós diminuiu tanto nesses últimos tempos, e percebi o quanto ela significava para mim. Não apenas como uma companheira de equipe, mas como alguém por quem eu estava profundamente apaixonado. Me pergunto quando isso começou…
— Vamos continuar — disse, relutante em interromper o momento, mas sabendo que tínhamos uma missão a cumprir.
Sakura levantou-se, e enquanto nos preparávamos para retomar a caminhada, senti sua mão tocar a minha, como em um pedido, eu a atendo na mesma hora. Entrelaço meus dedos nos seus e seguro sua mão com carinho, mas firme. Voltamos a caminhar, agora ainda mais próximos, como se a cada passo longe da Aldeia da Folha fosse uma distância a menos entre nós. Isso era tão bom de se sentir, esse toque caloroso entre nós dois, espero poder continuar sentindo isso por mais tempo.
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