Um romance tardio
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Kakashi estava sentado na cama, de regata e bermuda, olhando para mim com receio. Eu, completamente atônita, parada na entrada do quarto de kimono com meus cabelos ainda molhados, não sabia como as coisas tinham escalado dessa maneira. Tudo estava indo bem até agora.
(...)
Horas antes, em meio à floresta, Kakashi e eu havíamos decidido fazer uma pausa. O céu estava escuro, e o frio era cortante. A brisa suave transformara-se em uma ventania, e cada rajada parecia arranhar meu rosto. Eu ansiava por uma cama quente. Embora já tivesse feito missões em condições piores, nunca gostei delas. Eu sempre aguentava calada, não querendo ser um incômodo para ninguém. Mas agora, com Kakashi ao meu lado, me permiti ser um pouco manhosa.
— Vamos continuar andando, Kakashi — eu disse, esfregando os braços para afastar o frio. — Estou morrendo de frio e quero muito dormir em um local quente. Sei que estamos a poucas horas. — Ele me encarou, quase curioso com minha atitude. Seus olhos brilhavam sob a luz da lua.
— Você sabe que vai ser uma caminhada difícil, né? — disse Kakashi, tentando esconder um sorriso que se formava sob a máscara. Ao longe, o canto de uma coruja ecoou, suas asas batendo suavemente, adicionando um tom quase místico à noite.
— Sim, mas prefiro uma caminhada difícil a uma noite gelada no chão.
Kakashi riu baixinho, largando os gravetos secos que tinha em mãos. Aproximou-se de mim, e juntos começamos a caminhar novamente, eu mantendo-me bem próxima dele, saboreando o calor que sua presença oferecia.
— Você se tornou mais sincera — comentou ele de repente. Levantei a sobrancelha, confusa. Eu sempre me considerei honesta, talvez até demais. Ele pareceu notar minha dúvida e rapidamente explicou:
— Em missão, mesmo quando você claramente odiava alguma situação, nunca questionava se fosse algo necessário ou que mudaria a dinâmica do grupo.
— Nunca foi falta de vontade, mas não queria atrapalhar ninguém — respondi, encolhendo os ombros. — Mas... não sei, com você eu posso expressar minhas frustrações e sei que não serei julgada como fraca por isso.
Kakashi inclinou a cabeça, como uma criança que recebe um elogio inesperado. Ele se aproximou e depositou um beijo suave em minha testa. Seus lábios frios e ásperos fizeram cócegas, e eu abri um sorriso, retribuindo o gesto com um beijo em sua bochecha.
— Que bom que faço você se sentir assim — disse ele, sua voz suave. — Significa que estou agindo certo para você. — Concordei veemente, balançando a cabeça. Seus olhos pretos me encararam com intensidade, brilhando como joias de ônix na escuridão. Eu estava prestes a me aproximar mais quando uma voz nos interrompeu.
— Ei, jovens, o que estão fazendo a essa hora perto da floresta? — Um idoso nos olhava desconfiado, mas Kakashi logo assumiu o controle da situação, sua voz calma e autoritária dissipando qualquer suspeita.
— Boa noite, somos ninjas da Aldeia da Folha. Estamos procurando a Vila da Árvore Revivida.
— Ah, Konoha então? Venham, fica bem mais na frente. Vou deixá-los na pousada e amanhã vocês fazem seus trabalhos. — Ele indicou com o ombro para segui-lo, e assim fizemos.
Enquanto caminhávamos, eu mantinha-me em silêncio, apenas observando o caminho. Kakashi, porém, parecia um estudioso, observando o idoso com interesse.
— Achei que mais jovens tinham vindo se esgueirar à noite na floresta — resmungou o velho. — A cada dia que passa, essa geração fica mais perdida. Faltam com respeito para tudo. — Evitei revirar os olhos e me forcei a manter um rosto simpático. Como Kakashi estava de máscara, ele não tinha essa preocupação. O idoso continuou falando, reclamando sobre a juventude e suas falhas, mas a única coisa que realmente chamou minha atenção foi uma árvore gigante no meio da vila.
— Essa é a árvore da vida. A vila foi construída ao redor dela, e temos orgulho dela. Foi com a ajuda de um jovem de Konoha que conseguimos recuperar seu poder total. Não lembro seu nome, mas era um loiro escandaloso. Sua voz machucava meus ouvidos. — Eu e Kakashi trocamos olhares e sorrimos discretamente, sabendo exatamente quem passara por ali. Naruto sempre deixava sua marca por onde passava.
— É impressionante de fato — respondi simplesmente. Ao caminhar pelas ruas vazias da vila, senti uma calma se instalando. O senhorzinho parou abruptamente e se virou para nós, me deixando um tanto desconfiada.
— É aqui. Falem com a Saiko, ela vai atendê-los bem. Ah, vendo bem, você deixou de ser jovem tem um tempo, né rapaz? — O velho disse, encarando Kakashi e começando a rir, ele tinha alguns dentes faltando na boca. — Quando a gente chega nessa idade, é sempre bom ter uma mulher jovem e bonita do nosso lado, haha.
Tentei controlar minhas expressões, mas era difícil com esse tipo de conversa. Kakashi, com sua máscara, permaneceu impassível.
— Pois bem, aproveitem o restante da noite. Até. — Sem muita demora, ele foi embora, deixando eu e Kakashi ligeiramente constrangidos. Trocamos olhares, mas no fim entramos na pousada sem dizer nada.
— Sejam bem-vindos à Pousada da Vida. — A atendente, uma senhora já com marcas de expressão, nos cumprimentou com um sorriso caloroso. — Escutei vozes lá fora e imagino que quem os trouxe foi o senhor Onoda. Não levem nada do que ele disse a sério.
— Vocês ainda têm quartos disponíveis? — Kakashi perguntou, sua voz soando um pouco mais relaxada.
— Claro que sim. Os quartos são aquecidos para o inverno e temos fontes termais disponíveis a qualquer hora do dia. — Termal? Meu Deus, era disso que eu precisava. O frio ainda parecia grudado em meus ossos.
— Kakashi, finalize nosso check-in. Eu realmente preciso de um banho agora — disse para ele, impaciente para sentir o calor da água.
— Claro, deixe suas coisas comigo. — Eu entreguei minha mochila a ele. — Vai querer comer o quê?
— Depois eu decido, mas provavelmente peixe.
— Ok, pegue a chave do quarto na recepção depois.
Concordei com um aceno e segui para as fontes termais. Algumas atendentes me guiaram até lá. Desfiz-me das roupas sujas e entrei em uma ducha para lavar o odor da floresta. O local estava vazio e confortável, com banquinhos para o banho e uma banheira enorme, onde uma bela imagem da árvore da aldeia adornava a parede. Mergulhei na água quente, relaxando até sentir que o frio havia se dissipado completamente.
Na água quente, enquanto meus músculos relaxavam, minha mente começou a refletir sobre tudo o que estava acontecendo entre mim e Kakashi. Era uma situação estranha, mas não de forma negativa. Era estranho pensar em Kakashi de maneira tão íntima, vê-lo não apenas como um colega ou mentor, mas como alguém com quem eu poderia compartilhar uma vida. Havia algo profundamente confortante na presença dele, algo que eu nunca havia experimentado antes. Talvez fosse a segurança que ele transmitia ou a forma como ele me compreendia sem julgamentos.
Eu sempre admirei Kakashi, sua força, inteligência e até mesmo seu jeito despreocupado. Mas agora, sentia algo mais, uma atração que ia além da admiração, algo que aquecia meu coração de uma forma que eu não esperava. Era assustador e emocionante ao mesmo tempo.
Percebi que havia um relógio na parede. Esforcei a vista para enxergar em meio ao vapor e me assustei ao ver que já era quase meia-noite. Saí da banheira rapidamente. Amanhã seria o primeiro dia da missão, e eu precisava estar bem descansada. Vesti o kimono da pousada, coloquei minhas roupas sujas em uma mochila pequena e segui para a recepção.
— Desculpe pelo horário, vim só pegar minhas chaves — disse, encontrando a mesma recepcionista de antes.
— Não se preocupe. Aqui, quarto 107. Você pode deixar suas roupas sujas no serviço de lavanderia. Abre amanhã às 8h e funciona até as 18h.
Agradeci e, quando estava prestes a ir para o quarto, ela mencionou:
— Seu parceiro já pediu seu jantar: cozido de peixe acompanhado por arroz e chá verde. — Sorri sem graça. Parceiro? Ela provavelmente quis dizer companheiro de equipe, mas não podia culpar uma civil por não seguir as denominações corretas. Caminhei até meu quarto e, ao abrir a porta, fiquei surpresa ao vê-la aberta. Pensei que poderia ser uma cortesia. Tranquei-a por dentro por segurança e entrei. A luz suave iluminava Kakashi, que estava apenas de bermuda enquanto colocava uma regata. Seus músculos definidos brilhavam sob a luz.
A visão de Kakashi de maneira tão casual e íntima me pegou de surpresa. Meu coração acelerou, e a mochila com minhas roupas sujas caiu no chão. Ele estava tão à vontade, tão natural, que me fez perceber como estávamos próximos agora, de uma maneira que nunca havíamos estado antes.
(...)
— Então ela deduziu que nós éramos um casal e arranjou o mesmo quarto para nós — conclui, sentando na cama ao lado de Kakashi. Ambos estávamos nervosos com a situação, já que não planejávamos dormir no mesmo quarto. Acampamos juntos em missão? Sim, mas essa era uma situação bem diferente.
Kakashi coçou a cabeça, parecendo um pouco inseguro.
— Se você não se sente à vontade, posso arranjar outro lugar para dormir — ofereceu, já se levantando. — Eu segurei sua mão antes que ele pudesse ir, sentindo o calor reconfortante de seu toque. Ele me encarou surpreso, suas sobrancelhas se erguendo ligeiramente.
— Ela não está errada, né? — Os olhos de Kakashi se arregalaram, e vi sua respiração ficar mais pesada, sem a máscara consegui ver as nuances da sua expressão, o lábio cerrado e o sinal próximo a boca se mexendo a cada respiração que saia da sua boca entre aberta. Ele se sentou novamente, agora pegando minhas duas mãos nas dele. Um silêncio caiu sobre nós, apenas o som suave de nossas respirações preenchendo o espaço.
— Da outra vez… você não respondeu, mas vou perguntar de novo. Sakura, o que nós somos? — Seus olhos negros brilhavam com expectativa, quase como os de um garoto adolescente, cheios de esperança e incerteza.
Aproximei-me dele, sentindo um calor se espalhar pelo meu peito. Dei um longo e demorado beijo em seus lábios, que tinham o gosto da sopa que ele comeu. Foi um gesto carregado de tudo o que eu sentia, todos os sentimentos que haviam se acumulado dentro de mim.
— Nós somos um casal, Kakashi.
Ao ouvir minhas palavras, um misto de surpresa e alívio passou por seu rosto. Ele piscou algumas vezes, como se estivesse processando o que eu havia dito, antes de um sorriso lento e genuíno se formar em seus lábios, Seu dentes eram tão brancos, ele parecia tão mais jovem. Seus olhos tinham um brilho especial, uma felicidade que parecia iluminar todo o quarto.
Então, de repente, ele se jogou em mim, me abraçando com força, quase me derrubando na cama. A risada escapou de meus lábios antes que eu pudesse contê-la, e não pude deixar de gargalhar enquanto sentia seu calor ao meu redor.
Naquela noite, enquanto estávamos juntos, o frio da floresta parecia um mundo distante. Ali, no conforto do nosso quarto compartilhado, senti-me finalmente em casa.
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