Um romance tardio
11 Capítulo 11
Notas iniciais
— Doutora! Aqui, por favor!
— Doutora! Meu filho aqui, estamos aqui desde cedo!
Cada voz carregava um tom de urgência, uma dor, uma necessidade que parecia impossível de atender em meio ao caos. Eu corria de um lado para o outro, tentando ajudar cada pessoa que precisava de atendimento. A boa notícia? Ainda havia medicamentos básicos. A má notícia? Restavam poucos profissionais e apenas uma curandeira idosa; a vila estava em colapso e precisando desesperadamente de auxílio médico.
Ainda de manhã, eu e Kakashi deixamos para trás o aconchego tranquilo do amanhecer. Nossas horas juntos eram uma preciosidade recente em nossas vidas, mas o trabalho à nossa frente era imenso o que impedia a vivência dessas novas descobertas do amor. Depois de um café da manhã apressado, fomos até o ancião da vila para nos apresentar. Ele era um senhor com uma corcunda acentuada, os poucos cabelos eram grisalhos e seu olhar carregava o peso da idade e das perdas. Nos levou até a casa que era usada como posto de atendimento: um lugar simples, mas espaçoso, com cômodos que poderiam ser usados como consultórios improvisados. Apesar disso, o prédio carecia de manutenção, recursos e organização.
Comunicamos a vila sobre os atendimentos, e logo uma fila enorme se formou, cada aldeão necessitando de algo urgente ou apenas básico que tinham direito de usufruir, mas naquelas condições precárias da vila era necessário focar nos casos urgentes.
— Kakashi, anote isso, por favor — minha voz era firme, mas havia um cansaço que eu não podia ignorar por mais tempo. — Precisamos de especialistas com urgência: dentistas, pediatras e clínicos gerais. Os remédios disponíveis são de base natural, mas necessitamos de fórmulas farmacêuticas adequadas.
Antes que ele pudesse responder, uma senhora chamou minha atenção.
— Doutora, eu disse pela manhã! Preciso de ajuda! — Era uma senhoria de idade avançada, mas bem energética, lembro dela pela manhã. Na triagem não apresentou sintomas preocupantes e eu disse que não poderia atendê-la naquele momento, pelo visto ela quis insistir.
— Senhora Teruhashi, como mencionei, há casos mais urgentes. Sinto muito, mas você terá que esperar. — Ela me lançou um olhar enfurecido, o rosto vermelho de irritação, só espero que a pressão dela não suba demais e cause um problema que claramente pode ser evitado. Outras pessoas murmuraram, uns impacientes e outros me defendendo, mas minha atenção estava totalmente nas emergências à minha frente. Eu já estava acostumada às queixas, aquilo não me abalava, não tinha tempo para me abalar com uma pessoa de mau humor enquanto outro chorava de dor por falta de atendimento.
Meu corpo estava quase no limite, meu chakra controlado na mais alta precisão para realizar as técnicas de cura. Sem os medicamentos adequados, forçava meu corpo ao extremo, e o desgaste era evidente. Sei que não vou conseguir cuidar de todos os aldeãos hoje, será uma missão extensa, mas tenho que conter os danos ao máximo enquanto uma equipe médica não chega.
Kakashi se aproximou, sua mão enluvada repousando sobre meu ombro. O toque dele me deu uma onda de alívio inesperada. Estávamos no corredor, um pouco afastados da multidão, eu lavava a mão pela milésima vez na torneira, tentando esterilizá-la o mais adequado dentro das possibilidades do local.
— Sakura, que tal uma pausa? Eu cuido dos moradores por um tempo. — Seus olhos negros me observavam com preocupação, segurei um sorriso apenas pelo carinho dele se importar. Quando você só convive com médicos, todos olham um para o outro exaustos e continuam a trabalhar, pois é isso a profissão, ver alguém de fora preocupado é acolhedor.
Suspirei, reconhecendo seu cuidado por mim, mas sabia que ainda não era o momento. Com o cotovelo fecho a torneira e tento evitar que minhas mãos contaminem enquanto converso com meu querido platinado.
— Depois, Kakashi. Tenho uma criança com a perna quase gangrenando e uma mulher grávida de 28 semanas que sequer fez um pré-natal. Posso aguentar mais um pouco. — As palavras saíram rápidas, embora a pressão fosse real. — Você anotou o que pedi?
— Sim, sim. — Kakashi mostrou o pergaminho que segurava, seu tom leve como sempre, mas com um toque sério. Ele balançou a lista diante de mim, fazendo um gesto divertido, mas o tempo era curto.
— Nada de depois. Diga o que temos. — Ao fundo dele via a inquietação das pessoas e eu não queria me demorar naquela questão.
— Certo — ele respondeu, relembrando a lista com calma. — Especialistas: odontólogos, pediatras, clínicos gerais e medicamentos farmacêuticos. — A lista foi lida rápida, clareando algumas questões.
— Inclua também um obstetra — acrescentei. — Um será suficiente, por enquanto. Envie diretamente para a Tsunade e informe que essa vila está desesperadamente carente de cuidados médicos. Não posso iniciar nenhum treinamento sem profissionais suficientes aqui.
Kakashi balançou a cabeça, sempre diligente. Observá-lo trabalhando assim me trazia uma sensação nostálgica, como se estivéssemos de volta aos dias de missão e não do velho time 7 como Naruto sempre lembra, apenas o time 7 verdadeira para mim. Apenas nós três, Naruto, eu e Kakashi. Ele sempre fora eficiente e decidido, mas agora parecia diferente. Havia uma admiração silenciosa em seus olhos, quase um orgulho.
— Vou enviar agora mesmo. — Diz enquanto anota rapidamente, seu cabelos grisalhos balançando com o movimento apressado.
— Obrigada — murmurei antes de voltar ao trabalho. — Ah, e avise aos outros que não conseguiremos atender todos hoje. Sinto muito.
(...)
Eu nunca tinha visto Sakura assim, completamente imersa no seu papel como médica. Diferente das missões que fizemos juntos, aqui não havia tempo para planejar nem esperar por reforços. Cada decisão dela era rápida, cada ação, precisa. Ela estava no controle total. E era impossível não notar o quanto ela brilhava ao se doar para cada paciente, incansável, decidida, linda em sua essência.
Não pude evitar o pensamento. Sakura estava ainda mais bela em meio a toda aquela intensidade. Seu rosto estava cansado, os cabelos um pouco bagunçados, as mãos enluvadas manchadas, mas cada detalhe só fazia meu coração bater mais rápido. Ver aquela garota que um dia treinei agora como uma mulher forte, destemida... Aquilo mexia comigo de uma forma inesperada.
— Concentre-se, Kakashi — pensei, tentando me controlar. Mas era inútil. Cada comando dela despertava em mim uma mistura de orgulho e fascinação. Estava agindo como um adolescente de novo, completamente enfeitiçado.
Enquanto eu anotava, disfarçava o quanto estava impressionado, mas a verdade era que poderia fazer isso para sempre: ser seu assistente, seguir suas ordens, só para continuar vendo essa versão dela. A jovem que eu conhecia tinha crescido, e agora... ela era uma mulher poderosa. E essa visão mexia comigo mais do que eu queria admitir.
(...)
Ao final do dia, finalmente atendi o último paciente. Meu corpo implorava por descanso, mas minha mente ainda estava a mil. Respirei fundo, tentando aliviar a tensão. Sabia que tinha feito o possível, mas a sensação de que ainda havia mais me perseguia.
Caminhei até Kakashi, que organizava os papéis que estavam em cima da mesa com cuidado. Quando nossos olhos se encontraram, ele me lançou aquele olhar sereno que sempre me acalmava. Mas havia algo mais, algo que fez meu coração acelerar.
— Você foi incrível hoje, Sakura — sua voz saiu baixa, quase um sussurro. Um calor subiu pelo meu rosto.
— Obrigada... mas ainda há muito a ser feito — murmurei, olhando ao redor. A sala estava vazia, mas o ambiente parecia ecoar com a presença dos pacientes e das dores que presenciei o dia inteiro.
— É verdade, mas você não precisa fazer tudo sozinha. — Kakashi colocou as mãos nos meus ombros, aplicando uma leve massagem. Seu toque era firme, tranquilizador. Suspirei, permitindo-me relaxar, mesmo que por apenas alguns segundos.
— Já falei que preciso de você por perto? — A pergunta escapou antes que eu pudesse pensar. Era uma verdade tão óbvia, mas pronunciá-la em voz alta me fez sentir vulnerável e, ao mesmo tempo, mais forte.
Ele sorriu, aquele sorriso oculto pela máscara, mas que era visível em seu olhar, suave e cúmplice. — É para isso que estou aqui, Sakura.
O alívio que seu toque me proporcionava se transformou em um calor diferente, uma centelha que pulsava entre nós. Ainda com suas mãos em meus ombros, inclinei-me levemente para frente, até nossos rostos estarem a centímetros de distância. O mundo ao nosso redor parecia ter desaparecido, e por um instante, não havia mais responsabilidades, apenas o silêncio compartilhado.
Respirei fundo, tentando manter a compostura, mas o cansaço e o desejo estavam entrelaçados, impossíveis de ignorar. Passei meus braços ao redor do pescoço dele e, com um leve sorriso, inclinei-me e depositei um beijo suave sobre sua máscara. Era um toque sutil, mas suficiente para sentir a leve tensão em seus ombros relaxando sob minhas mãos.
— Sakura... — Ele sussurrou, surpreso, o timbre de sua voz baixo, reverberando como um segredo.
— Kakashi, foque só em mim… Por favor. — Minhas palavras saíram carregadas de emoção, e, ao perceber que ele apenas assentiu, fechei os olhos por um momento, sentindo a conexão entre nós se aprofundar.
Com delicadeza, deixei que minhas mãos descessem de sua nuca até seus ombros, passando pelo peitoral firme. Sentia seu coração acelerado, a batida forte sob a pele. Cada toque meu parecia trazer um novo significado, uma descoberta.
Acariciei seu rosto, sorrindo ao perceber que, mesmo através da máscara, seus olhos transmitiam um carinho que me confortava. Finalmente, envolta em um silêncio cúmplice e íntimo, eu soube que estávamos exatamente onde deveríamos estar: juntos, compartilhando algo que só nós poderíamos entender.
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