Um romance tardio
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— Bom dia, Sakura-san.
— Haruno! Que bom vê-la!
— Sakura-san? Nossa, você cresceu tanto, está linda.
Andava pelas ruas de Konoha pela manhã, eu sorria amarelo para todos que se direcionavam a mim. Na verdade, eu não sabia muito bem o que fazer além de acenar e sorrir, todos pareciam surpresos em me ver na rua, muitos falavam comigo como se fossem amigos de longa data, mas seus rostos eram desconhecidos para mim. Acho que Ino tinha razão quando disse que eu era tão conhecida quanto Naruto, porém ainda era estranho esse sentimento, olhares agradecidos, sorrisos sinceros e o carinho de todos por mim.
Continuei caminhando até chegar à floricultura Yamanaka, o cheiro de flores invade meu olfato antes mesmo de eu encostar na maçaneta. Abro a porta com delicadeza, mas o sino sempre denuncia a passagem de quem quer que fosse passar por ele. A cabeça loira da mãe da minha colega se move em direção a porta e ao me ver seu sorriso se abre.
— Sakura, que bom vê-la! Está descansando eu imagino. — Ela sai de trás do balcão e vem me dar um abraço apertado, que retribuo na mesma intensidade.
— É tão óbvio que estou de folga? — Sorrio sem graça, ajeitando um fio de cabelo atrás da minha orelha.
— Bom, não posso negar que lhe vejo andando por Konoha apenas de noite quando seu turno acaba. — A loira responde com sinceridade.
— Acho que a vila toda sabe que sou viciada em trabalho. — Ela gargalha e volta a trabalhar, borrifando água nas flores.
— Veio atrás do que, minha filha? — Mordo o lábio, não estava interessada em dizer meus motivos, mas era a tia Yamanaka, então não havia problema.
— Crisântemos. — A mão ágil da mulher mais velha se torna mais lenta e ela sorri entristecida. Ela deixa o borrifador na mesa e vai até as crisântemos, embalando-as com maior cuidado.
— Aqui, meu bem, mande lembranças minhas a eles também. — Sorrio para minha tia, agradecendo a empatia. Pago ela devidamente e saio da loja, com o buquê em mãos os comprimentos diminuem gradativamente, restando apenas sorrisos e olhares compadecidos.
Caminho calmamente, sinto a brisa fria do final de outono que anunciava com delicadeza que o inverno chegava. O cheiro dos crisântemos estava bem forte, era agradável de sentir, quando chego no meu destino as deixo delicadamente no chão, não querendo que nem uma pétala caísse.
— Oi, mãe, oi pai. — Falo encarando a pedra com o nome da família Haruno entalhado. Me ajoelho, acendo os incensos e faço uma reza para meus pais conforme os costumes da vila. — Tia Yamanaka mandou lembranças, espero que vocês estejam se divertindo com o pai da Ino, como faziam antigamente. — Não havia ninguém no cemitério, permitindo que eu falasse honestamente com a lápide dos meus pais. — Estou indo bem por aqui, mas sinto falta de vocês, a casa não é mais a mesma e para falar a verdade nem gosto de ficar muito lá. Sempre imagino como seria se vocês ainda estivessem aqui, porém tenho certeza que muitas coisas deixariam de acontecer… — Quando digo isso um rosto conhecido aparece em minha mente. — Sei que vocês não concordariam com o que seja lá que está acontecendo comigo e com ele, mas só peço que torçam pela minha felicidade. Estou cansada de sempre estar de luto por alguém, seja um amigo que escolheu um caminho ruim na vida ou de familiares que perdi na guerra… — Ao falar isso sinto uma brisa fria arranhar meu rosto, fecho os olhos sentindo essa sensação. O sol estava escondido pelas nuvens, o que me aquecia de fato eram minhas roupas, mas elas não eram grossas o suficiente, pois sentia um arrepio frio por todo meu corpo. — Fazia tempo que não vinha aqui, não brigue comigo por causa disso mamãe, mas tenho uma boa notícia, desistir de Uchiha Sasuke. Sempre sonhei em me tornar uma Uchiha quando pequena, ajudá-lo em seu legado e ter uma casa cheia de crianças com cabelos escuros. Fico feliz que mudei de ideia, gosto da minha vida como ninja médica. —
Não falo mais nada, apenas encaro aquele pedaço de pedra que continha as cinzas dos meus familiares. Um sentimento de solidão me preenchia, em vez de me afastar, eu aceitei aquele vazio e o fato que meus pais nunca mais me responderiam de volta. Não sei dizer se estou vivendo uma vida que daria orgulho a eles, mas não faria muita diferença, pois a história é feita pelos vivos. Meus pais não estão mais ao meu lado para apontar o que era certo e errado, cabia a mim descobrir isso e decidir o que fazer conforme meus próprios pensamentos e morais.
(...)
Novamente em casa, eu aproveitava o tempo sozinha e lia alguns livros de medicina que me interessavam, o escritório, que antes era meu pai, tinha apostilas jogadas por mim em todos os cantos. A bagunça não me incomodava, o escritório era meu parque de diversões, aqui eu podia deixar a zona que quisesse sem ninguém me incomodar. Essa era a regra quando meus pais estavam vivos e desde então esse espaço virou meu local seguro.
Depois da ida ao cemitério, não tive mais vontade de fazer nada, me tranquei em casa com apenas a companhia de obras didáticas feitas por renomados autores. Eu gostava disso, a medicina era algo que exigia concentração total e muita capacidade de decoração. Sempre fui boa nesses dois requisitos.
click, click
Movo minha cabeça rápido em direção a fonte do som, vinha da janela, quando minhas pupilas focam na imagem, vejo meu sensei jogando pedrinhas na minha janela. Um sorriso se forma automaticamente nos meus lábios, largo meu livro e vou até a janela.
— Yo! Sakura. — Kakashi estava acocorado no tronco de uma árvore, acenando com a maior naturalidade possível.
— O que você faz aqui? — Falo sorrindo, estava feliz pela surpresa. Percebo que ele também sorri.
— Não encontrei você pelas ruas como de costume então vim até sua casa. Proponho dermos uma volta, está anoitecendo, mas podemos fazer uma caminhada. — Sorrio mais ainda.
— Ok, mas espere um pouco, vou me trocar. -
— Fique à vontade cerejeira, te espero perto do campo de treinamento. — Com isso ele some em uma nuvem de fumaça, eu me apresso em me arrumar. Não tinha nada realmente bonito para usar, nesse clima frio eu deveria focar em me agasalhar, mas acho que não tem problema eu usar uma roupa mais leve na parte de cima. Passo uma maquiagem bem leve em meu rosto e saio em seguida.
— Cheguei. — Meu sensei estava encostado em uma árvore, olhando para o sol que se despedia de todos e dava lugar a escuridão da noite. Seu rosto se vira com delicadeza, me encarando em silêncio.
— Não precisava se apressar, vejo que esqueceu até do casaco. — Cruzo os braços. Minha roupa não era reveladora nem nada do tipo, mas eu usava apenas uma camisa de manga comprida. Era a única que marcava as curvas do meu corpo.
— Não se preocupe comigo, não vou ficar com frio, conheço meu corpo. — Respondo confiante.
Hum, vamos indo então. — Começamos a caminhada em silêncio, não me importei de perguntar o destino, não era o mais interessante para mim. — Ficou lendo na sua folga? — Ele inicia a conversa.
— Peguei esse costume de você. — O platinado riu baixinho, andávamos próximos um do outro, não havia problema, pois caminhávamos pelos locais menos movimentados de Konoha.
— Quando você começar a dar uma chance aos livros de romance, eu digo ser um costume que você copiou de mim.
— Veremos se esse dia vai chegar, o copiador é você, não eu.
— Justo, mas ainda, sim, é algo que você deve experimentar.
— Bom, eu ando gostando de experimentar novas sensações, não custa nada — Ele me olha de canto de olho, eu mordo meu lábio internamente. Avancei demais.
— Então vou ter que separar meus melhores exemplares, apenas desejo que você tenha as melhores sensações. — Meu rosto esquenta na mesma hora, vou fingir que nós ainda estávamos falando de livros. Conforme caminhávamos, cada vez menos pessoas apareciam, era algo bom.
— Fui ao cemitério hoje. — Kakashi vira seu rosto para mim. — Não estou tão abalada, aproveitei minha folga para prestar meus respeitos. Apesar de ser apenas pedras com o nome da minha família, mas foi bom ter ido. — O homem que caminhava ao meu lado segura minha mão, fico surpresa e olho ao redor no mesmo momento.
— Não se preocupe, foque em me dizer seu dia. — Meus grandes olhos verdes encaram os olhos escuros do meu sensei, não havia mais sol, mas ainda, sim, a escuridão das suas íris ocular eram visíveis e lindas de se observar.
— Sinto saudades, ir ao cemitério foi encarar a ausência que a morte deles me faz. Foi um passo importante. — Em resposta, o platinado se aproxima devagar e me dá um beijo na testa, ainda com sua máscara. Abro um sorriso.
— Você não acredita que eles possam te escutar? — Sua voz não era de julgamento e sim de escuta, ele sempre foi bom nisso, ouvir sem criticar.
— Não muito, ninguém pesquisou o suficiente para o que acontece no pós-vida. E na quarta guerra, os shinobis que voltaram após mortos, pelo jutsu de Orochimaru, falaram que suas últimas lembranças foram justamente aquilo que causaram suas mortes. Então para mim é apenas isso, morte. — Ainda segurava sua mão, chuto uma pedrinha e a vejo rolar pelo chão. Eu e Kakashi estávamos em um terreno inclinado agora, o esforço fazia meu corpo esquentar, mas o vento ficava cada vez mais frio e isso começou a incomodar. — Além disso, não sou a criança prometida ou reencarnação de alguém super importante. Sou só a Sakura, não vejo motivos para meus pais voltarem e me contarem algo de relevante. — O terreno já estava bem mais elevado, a brisa da noite fez meu corpo estremecer, mas não ia deixar Kakashi perceber. Minha roupa estava bonita, nesse momento era isso que importava.
— Gosto de pensar que todos eles me escutam, assim posso pedir desculpa sempre que achar que errei. Seja agora ou no passado. Sou um sentimentalista por natureza. — Ele me dá uma piscadinha com o olho que tinha a cicatriz, em resposta dou um empurrão bem de leve em seu ombro. Compartilhando um momento de leveza.
Continuamos caminhando de mãos dadas, o calor da sua mão ajudava um pouco e evitava que eu ficasse tremendo pelo frio. Quando chegamos ao nosso destino, sorri nostálgica, pela rota que fizemos eu já tinha uma noção aonde iríamos, porém, foi uma surpresa agradável. Estávamos vendo toda Konohagakure, em cima dos rostos dos Hogakes que lideraram a aldeia oculta da folha. Um ar era bem mais frio aqui de cima, minha estrutura estremecia no automático, mas não liguei, era a vista mais linda da aldeia.
— Você é teimosa cerejeira — Não percebi, mas Kakashi ficou atrás de mim e, assim, pôs seu casaco em mim. — Você está tremendo desde a hora que começamos a subir o morro. — Dou de ombros.
— Meus casacos estavam sujos, não ia deixar de sair por causa disso. — Era mentira, mas ele não precisa saber que priorizei a beleza.
— Vou passar a trazer um casaco a mais então. — Ele cerrou os olhos, não dei bola e aproveitei o quentinho do casaco. O cheiro da colônia do Kakashi estava por toda parte, um cheiro cítrico marcante, era bom de sentir.
— Que bom que vão ter mais vezes então. — Mostro a língua e o homem atrás de mim apenas me encara. Fico quieta esperando uma reação, mas seu olhar era sem foco. Acho que muito se passava pela sua cabeça, não quis forçá-lo a falar. — A vista aqui é linda né? Também é um local reservado, bom para gente. — Viro meu corpo e ponho meus braços em seus ombros, acho que ainda era estranho para ele essa intimidade física, pois seu corpo enrijeceu por inteiro. Devo estar indo muito rápido, decidi me afastar, mas Kakashi me segura pela cintura. Me surpreendo na mesma hora, acho que meus olhos ficaram tão arregalados que Kakashi não conseguiu esconder a risada.
— Você começa as coisas e depois não aguenta minha reação. — Abro a boca, mas nada sai, meu rosto devia estar vermelho. O platinado aproxima seu rosto do meu e sussurra no meu ouvido. — Tire minha máscara, Sakura. — Os arrepios que meu corpo sentiu dessa vez não eram de frio, isso tinha a certeza. Quando ele se afasta, direcionei minhas mãos bem devagar até sua máscara. Ele fechou os olhos assim que sentiu o toque dos meus dedos, eles devem estar gelados, ainda assim, ele permitiu o toque, suspirei em antecipação ao momento. No instante que seu rosto se viu livre do tecido, eu não me contive, o beijei na mesma hora e ele correspondia na mesma intensidade.
Minhas mãos vagavam em suas costas, ao mesmo tempo que Kakashi apertava minha cintura e puxava meu corpo mais ao dele. Meu íntimo se arrepiava e meu quadril se mexia automaticamente, minha boca, ainda junto a dele, fazia sons que eu não era acostumada a ouvir. Aquilo era tão bom, não queria parar nunca de sentir essas sensações, mais… Quero bem mais.
— Mais Kakashi. — Meu professor, se é que ainda posso usar esse título, se afastou brevemente para nós dois respirassem.
— Meu lugar no inferno está garantido… — Disse baixinho e ofegante. Seu rosto era impressionante de observar como sempre, mas agora, com seus cabelos brancos bagunçados, a voz rouca e sua respiração ofegante. Era bem melhor de se ver.
— O inferno são os outros, preste atenção em mim agora. — Acho que isso soltou alguma rédea que estava o segurando, porque na mesma hora ele me apertou contra seu corpo e o senti bem rígido. Meus olhos se arregalaram, é diferente da outra vez, ele está muito rígido, esse tamanho… Com certeza isso vai me machucar, quando eu abri a boca para falar, nós dois escutamos um barulho. Pessoas, duas, subindo o morro, nos escondemos automaticamente no pequeno bosque.
— Olha amor, eu queria te mostrar essa vista. —
— Um… Ah… Instante, eu… Preciso de ar… —
Um jovem casal conversava, eu e Kakashi nos olhamos, eu e ele tensos. Kakashi faz sinal com os dedos, dizendo para a gente esperar e foi isso que fizemos. Ficamos escondidos até aqueles civis irem embora, eu mordia o lábio, triste por ser interrompida, sabia que Kakashi devia esta… Bem, com dor, por assim dizer. Meus pensamentos deveriam ser óbvios, pois recebo um cafuné na cabeça na mesma hora.
— As estrelas estão lindas, Sakura. Vamos aproveitar esse momento. — Ele olha para mim, sorrindo, a máscara ainda abaixada. Eu o encaro e depois a coloco no lugar, rapidamente. O homem fica nitidamente confuso.
— Só eu posso te ver assim, que isso fique bem claro. — Cerro os olhos, não ia dividir essa visão com mais ninguém. Não ligava se isso era infantil, eu quero ser infantil agora.
— Ficou claro… — Kakashi respondeu enquanto olhava para mim, hipnotizado, não sei o que se passava na cabeça dele. Contudo, foco em apenas ficar abraçada com ele, encarando as estrelas.
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