Um amor e uma sombra
6 Um teste e um hospital
Oh, não, é segunda-feira! Brittany chegou ao McKinley High, torcendo para que Mr. Schue não revolvesse fazer o Glee Club cantar alguma música de apoio para ela, e logo percebeu que a história com Josh já havia se espalhado pelos corredores sujos daquele colégio; Muitos olhavam para ela e viravam para cochichar alguma coisa no ouvido de quem estivesse do lado, uns lançavam sorrisos encorajadores para “pobre Brittany”, outros davam olhares de pena para a loira, dos quais ela já estava começando a se cansar.
Depois de desviar de alguns curiosos que tentaram pará-la para falar com ela, a loira finalmente encontrou Santana lendo seu livro numa mesa do pátio exterior do colégio. Brittany havia passado o dia anterior tão transtornada com as informações recentes vindas da visita de Ricardo Lopez e ocupada com as consequências daquilo que nem teve tempo de falar com a morena, tirando algumas mensagens ao longo do dia, que eram a única coisa que acalmavam ela, aliás.
– Oi.– Brittany disse com sorriso quando se aproximou da outra.
– Ei, Britt-Britt! – Santana respondeu com um sorriso maior ainda.
– Tudo bem? – Brittany não sabia bem como começar aquela conversa.
– Relativamente bem, eu acho. Tem alguma coisa errada? – Santana respondeu, percebendo a expressão da outra, confirmando as suspeitas da loira de que Ricardo não havia falado nada com ela.
– A gente pode conversar num lugar mais reservado?– A outra rebateu, olhando para o lado e cada vez mais irritada com todos os olhos curiosos que estavam sobre elas.
– Claro, mas onde?
– Vem comigo. — Brittany disse antes de se levantar e Santana a seguiu até o último andar, onde ela parou diante de uma porta de metal num lado mais vazio da escola que ela nunca havia reparado direito; A loira esticou a mão até o alto do portal da porta e de lá tirou uma chave, com a qual abriu a porta e entrou, com Santana logo atrás. — Existem alguns poucos pontos positivos de ter ficado com o zelador da escola, sabe... – Brittany disse com um quase sorriso, sacudindo a chave, enquanto elas subiam as escadas que a porta havia revelado.
– Onde estamos indo?
– Você vai ver. — Brittany disse, enquanto abria a segunda porta, ao final da escada. – Bem-vinda ao meu esconderijo secreto. — Ela terminou e Santana percebeu que elas estavam no telhado do colégio; O céu estava incrivelmente azul sobre elas e, apesar de o lugar ser um pouco acabado, a vista era linda.
– É um ótimo esconderijo.
– É... San, preciso falar sobre algo com você.– Brittany começou meio sem jeito — Existe uma parte da história que eu não te contei.
– O que é? Você já está me deixando preocupada, Britt!
– Okay. É que... Depois de tudo que aconteceu, quando eu cheguei no hospital... Eu descobri que estava grávida.– A outra respondeu com a cabeça baixa.
– O QUE?– Foi tudo que Santana conseguiu dizer.
– Sim, eu tinha só 12 anos, era perigoso, mas eu decidi continuar, eu tive o bebê. Nessa época, eu e meu pai estávamos morando com a minha avó, para que ele não tivesse que cuidar de mim e da minha irmã sozinho, e eu frequentava um hospital de Ohio, o mesmo hospital onde seu pai trabalhava, ele virou meu pediatra lá.– Ela contava numa voz baixa e Santana se surpreendia cada vez mais com o quanto seus pais sempre acabavam interligados no passado de Brittany — E, apesar da circunstancias, eu adorei segurar aquele garotinho por alguns minutos, eu cai de amores por ele no primeiro segundo, mas eu sabia que não podia ficar com ele, até porque eu mesma era uma criança e meu pai já estava confuso de mais só comigo e minha irmã, então, meu pai o colocou na adoção, e fez questão de ter certeza que ele fosse adotado por uma família bacana. Eu não sabia que ia me sentir tão mal com isso até que ele simplesmente tinha ido embora.
– Você tinha só 12 anos, foi melhor assim, Britt...– Santana tentou consolar a outra, mas ainda estava pasma com a última revelação da loira; Era mais uma coisa para colocar na lista do que Brittany havia passado.
– Eu sei, mas seu pai foi falar comigo no sábado. O nome dele estava na documentação da adoção de alguma forma, como médico responsável, eu acho, e o pai adotivo do... do meu filho o encontrou, tentando chegar a mim.
– E ele pode fazer isso?
– Tecnicamente, eu acho que não, mas ele está desesperado. David, é nome que ele colocou no bebê, ele está com leucemia e precisa de um transplante de medula óssea. Parece que eles não sabem quanto tempo mais ele pode esperar por um doador e é bem mais fácil encontrar um doador compatível na família.
– E por isso que ele queria te encontrar, para pedir que você doasse doar?
– Sim, mas eu acho que ele estava mais com esperança de que os pais biológicos do menino tivessem tido outro filho porque é mais fácil achar compatibilidade com um irmão, foi o que seu pai disse. Mãe e pai só consegue ser 50% compatível ou algo assim, mas na falta de opção, já serve de muita coisa.
– Então, você vai doar?
– Seu pai ainda está tentando resolver sobre a autorização, porque ainda falta alguns meses para eu completar 18 anos, mas, se tudo der certo, sim. Eu fiz o teste de compatibilidade ontem, está tudo certo.
– Britt... – Santana começou, com um pensamento que havia acabado de surgir em sua mente. — Digo, se o aquele homem for mesmo meu pai, isso significaria que esse menino é meu irmão, não é?
– Sim, ele seria seu meio irmão.– Brittany respondeu; Com tudo aquilo, ela não tinha pensado nisso ainda, percebendo naquele momento o quão estranho era o cenário onde ela era a mãe biológica do irmão de Santana.
– Uau... Mas, se eu fosse irmã dele, eu não teria chance de ser compatível?
– Acho que sim, mas não muito, porque você seria apenas meia irmã.
– Acho que saberemos logo...
– Como assim?
– É, eu ia te contar hoje também... No sábado, depois que a gente saiu do parque, eu passei numa clínica e fiz o teste de DNA. Eu tinha pego alguns fios de cabelo do meu pai sem ele saber e paguei com um dinheiro que eu tinha guardado.
– Nossa, como você conseguiu furtar cabelo do seu pai sem ele saber, Nikita? — Brittany não conseguiu segurar um pequeno riso.
– Ah, sou eu, você sabe que eu consigo tudo que eu quero, no estilo Lima Heights Adjacent. — Santana respondeu rindo e Brittany não pode se impedir de rir ainda mais vendo a outra orgulhosa de seu feito. — Enfim, eu pedi urgência, então eu devo receber o resultado amanhã ou depois.
– Veremos, então... — Brittany disse calmamente, ela respeitava o direito de Santana querer saber a verdade, mas mentiria se dissesse que não estava um pouco nervosa com o teste; Uma coisa é saber da possibilidade, outra é ter certeza, mas, de qualquer forma, ela sabia que isso não interferiria nos sentimentos dela pela morena.
– Você viu o menino?
– Não, nem ele, nem o pai adotivo, mas seu pai me disse que o cara estava de acordo se eu quisesse conhecer o David, que ele até gostaria disso. Parece que ele é super liberal e tal e conta tudo para o garoto, ele sabe que é adotado e tudo.
– E você quer conhecê-lo?
– Eu não sei. Eu sempre pensei, sempre quis conhecer ele, mas agora que eu estou tão perto, sei lá, acho que eu estou pouco assustada.
– Tudo bem, é normal ter medo de coisas novas, do que você não sabe o que esperar, mas você não precisa ter, eu tenho certeza que ele vai adorar você. E você também não precisa fazer isso logo, só quando você estiver preparada.
– Eu sei... — Britany disse um pouco desanimada.
– Com tudo isso, você está bem? — Santana perguntou, com um olhar preocupado, enquanto colocava um braço sobre os ombros da loira, que estava sentada ao lado dela.
– Acho que estou melhor do que eu achei que estaria, é tudo muito confuso e um pouco difícil enfrentar tudo assim, dando a cara a tapa, mas não tão difícil como eu pensava, acho que fiz a coisa certa. Sinto que vou ficar bem...– Brittany respondeu sinceramente, então olhou nos olhos da outra, sorrindo. – Principalmente porque eu tenho você.
– Sempre. — Assegurou Santana antes de beijar gentilmente os lábios da loira.
…
Depois de quase um dia inteiro sob os olhos do povo e um discurso do Mr. Schue sobre como o todos do New Directions estariam sempre ali para ela, Brittany deixou o colégio para ir até o hospital, onde verificaria a situação da doação. Santana estava indo com ela para fazer companhia. Elas chegaram no hospital onde Dr. Lopez trabalhava e o encontraram na pediatria, que era sua área de especialização, anotando alguma coisa num prontuário.
– Pai?– A latina o chamou.
–Ei, hija! – O homem respondeu, beijando a testa da filha. — Oi, Brittany. — Ele cumprimentou a loira também e, antes que ela pudesse responder, ouviu uma voz por trás de seus ombros.
– Brittany? A mãe Brittany?– Ela virou para ver quem estava falando e deu de cara com um homem não muito mais alto que ela com cabelos e olhos castanhos, que olhava para ela com um misto de espanto e animação.
– Britt, esse é Michael Connor, que eu te falei. Ele é o pai do David. — O médico disse logo e Brittany ficou um pouco sem reação, ela não estava esperando encontrá-lo aqui. — Sr. Connor pediu a transferência de David para esse hospital, para que eu pudesse acompanhar o caso. – Ele adicionou e Michael logo se aproximou da garota, cumprimentando-a com um aperto de mão um pouco mais forte e animado que o normal.
– Senhorita Pierce, é um grande prazer te conhecer e você não faz ideia do quanto significa para mim você se dispor a ajudar.– O homem disse.
– C-Claro. Er... Como está o David? — Ela perguntou a ambos, pai e médico, a pergunta mais óbvia pois era a única que conseguia pensar no momento.
– Ele está na mesma, sem melhoras mas pelo menos nenhuma piora também, não é, doutor?– Michael disse.
– Sim, o estado dele não é um dos melhores, mas ele está estável e esperamos que, assim que receber o transplante, ele melhore quase 90%. Ainda vai precisar de tratamento, mas ficará bem mais fácil. – Ricardo complementou. — E Brittany, eu consegui que você pudesse doar mesmo com menos de 18 anos se você não tiver mudado de ideia, claro. — Ele terminou; Algo na expressão do médico fez Brittany achar que talvez ele estivesse burlando alguma regra com isso e ela se sentia grata, de qualquer forma, ele estava sempre tentando ajudar a ela ou a qualquer um que precisasse, era algo que ela gostava muito em Sr. Lopez, talvez fosse por isso que ele resolveu ser médico.
– Não mudei de ideia, vou doar. — Ela respondeu de imediato.
– Isso é ótimo! Não é o ideal por você só combinar 50% e tem algumas complicações a mais, mas já salvará a vida dele. — Lopez disse, sorrindo para a loira — O quanto antes você doar é melhor, eu posso mexer uns pauzinhos e tentar te encaixar para amanhã de manhã mesmo, contanto que você passe essa noite no hospital, você acha que pode?
– Sim, acho que sim. Só preciso avisar meu pai.– Brittany não estava esperando que já tivesse que ficar no hospital, mas queria fazer isso logo.
– Ótimo, eu vou te agendar logo, depois, você precisa preencher a ficha de internação e mostrar seus documentos na recepção, mas você tem que chamar o seu pai aqui, pois você é de menor, ok? — Ele perguntou e a loira concordou com a cabeça. — Eu tenho que checar alguns pacientes também, mas volto logo.– Ele sorriu e se foi.
– Ei, vai dar tudo certo. E eu vou ficar com você o tempo todo, está bem? — Santana disse, pegando no rosto de Brittany e olhando nos olhos dela.
– Eu, sei. Obrigada, San. — Brittany agradeceu e elas se abraçaram.
– Oi... Com licença, senhorita Pierce? — Sr. Connor interrompeu, fazendo com que as duas garotas olhassem para ele. — Eu... Eu só queria te agradecer. Eu e minha esposa adotamos David juntos, mas ela faleceu dois anos depois e eu tive que dar duro para criar, digo, aprender a criar ele sozinho. Eu sei que quando você o colocou na adoção, talvez quisesse cortar relações e que eu não deveria te procurar desse jeito é que... Mesmo um pai de criação sendo nada menos que um pai biológico, as vezes, a gente não consegue proteger nossas crianças de tudo sozinhos, algumas vezes, precisamos de ajuda. Acho que a ligação dos pais biológicos com seus filhos não pode ser quebrada fácil, mesmo afastados. Enfim, obrigado. Por salvar a vida do meu filho.
– Tudo bem, eu nunca quis cortar relações... Só precisei. Ele merecia uma família de verdade, ele merecia a melhor chance para ele e eu fico muito feliz em poder ajudar, em poder fazer alguma coisa por ele, mesmo que de longe.
– Você deu a ele a vida, você deu vida para a melhor coisa que eu já tive, isso é muito, acredite. — Ele disse com um sorriso de como quem dissesse “obrigado” , Brittany devolveu o sorriso e estava se afastando de Michael quando ele chamou a atenção dela de novo.
– Eu contei para ele sobre você. — Ele disse rapidamente. — Que você é a mãe biológica dele, e ele pediu para te ver. Você quer conhecê-lo antes do transplante?
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