Um amor e uma sombra
7 Um encontro e um riso
Notas iniciais
– Eu contei para ele sobre você. — Ele disse rapidamente. — Que você é a mãe biológica dele, e ele pediu para te ver. Você quer conhecê-lo antes do transplante?
– Conhecer ele? Agora? — Brittany perguntou nervosamente.
– Sim, se você quiser, ele está logo ali. — O homem respondeu, apontando para um quarto um pouco a frente deles. — Ele ficou muito animado sobre te conhecer.
– Britt, você não precisa fazer isso agora, se não estiver pronta. — Santana murmurou no ouvido da loira.
– Não, eu quero. Quero muito. — A outra disse firmemente. Brittany estava extremamente nervosa, mas algo dentro dela queria ver esse garoto mais que tudo.
– Ótimo! — Michael disse com excitação antes de começar a caminhar em direção ao quarto de numero 48. A loira olhou para Santana em busca de inventivo, pedindo que a morena a acompanhasse, que lhe devolveu um olhar solidário e pegou a mão de Brittany.
– É hora de conhecer seu filho. — A latina disse, sorrindo, e ambas seguiram o homem, de mão dadas.
Michael abriu a porta e, logo que elas entraram, a morena sentiu o aperto da loira ficar ainda mais forte em sua mão, o que Santana entendia, pois diante delas estava a versão masculina de 5 anos da própria Brittany; Ela podia dizer que o formato do rosto era quase o mesmo e os olhos eram um azul brilhante, idênticos aos da loira, ambos tinham a mesma cor de pele clara e face inocente, apesar da falta de cabelo, provavelmente devido a quimioterapia, Santana podia imaginar o garotinho com lisos cabelos loiros. Podia se perceber também alguns traços de Josh, mas, no geral, o pequeno David havia puxado quase tudo de Brittany.
– Oi! — O garoto disse com a animação típica de uma criança, sentado na cama de hospital com um caderno no colo e um giz de cera na mão, se não fosse pelo rostinho um pouco pálido, o som do monitor cardíaco e IV em seu peito, nunca se diria que ele estava doente.
– Ei, parceiro! Lembra quando eu te falei quem ia te emprestar aquele suco super potente, pra te fazer ficar bom? — Michael disse assim que entrou.
– Minha mãe? — David perguntou com os olhinhos brilhando, se ajoelhando na cama e o coração de Brittany pulou, ela só não sabia se era medo ou alegria, provavelmente os dois.
– Sim, Dave. Então, é essa moça bem aqui. — O pai respondeu sorrindo enquanto empurrava Brittany levemente para mais perto dele, conseguindo que ela arrumasse coragem e sentasse na cama, perto do menino.
– Oi, David. — Ela conseguiu dizer, após alguns segundos travada, na voz mais normal possível; Seu coração estava a mil e se esforçava contra a vontade tanto de sorrir quanto de chorar, enquanto David permanecia ajoelhado na frente dela, sorrindo e com um olhar curioso.
– Como você sabe meu nome? — O menino questionou, como se fosse algo extremamente intrigante para ele.
– Seu pai me disse. Você sabe o meu? — Ela perguntou e ele negou com a cabeça.
– É Brittany. — Ela sorriu.
– Esse é o nome da minha professora! — Ele exclamou.
– Ah, é? E você gosta dela? — Brittany continuou, até se surpreendendo com o quão fácil aquela conversa seguia.
– Sim, ela é super legal. Eu sinto falta dela, porque que eu não to podendo ir pra escola mais, só posso ficar aqui... — Ele terminou com um ar triste, que quebrou o coração da loira em mil pedaços.
– É, eu sei que é chato, mas você logo vai ficar bom e voltar pra escola, seus amigos, tudo que você quiser. — Brittany disse antes de cutucar a barriga do garoto, quase involuntariamente, como ela sempre faz com sua irmãzinha, e ele sorriu, fazendo o mesmo nela, então ela revidou e eles começaram uma "competição de cutucar" que acabou em Brittany fazendo cócegas nele, enquanto o menino gargalhava, já quase no colo da loira, deixando Santana e Michael com um sorriso bobo, até se sentindo meio excluídos.
– Papai disse que você é minha mãe de verdade porque me fez e que ele é meu pai adotivo mas que ele é meu pai de verdade também porque ele ficou comigo junto com a minha mãe adotiva, mas que não fazia muita diferença e... É meio confuso. — David disse com o rostinho contorcido.
– É verdade, bem, é complicado mesmo, mas, resumindo, o que importa são as pessoas que te criam, que te amam, que te ensinam, esses são seus pais de verdade. — Brittany disse e não pode se impedir de olhar para Santana.
– Tipo o papai! — O garoto disse apontando para Michael, perto da porta.
– Isso, isso mesmo. — A loira concordou.
– Mas se eu tenho duas mães, eu tenho dois pais também? — Ele perguntou e Brittany gelou, mas, antes que ela pudesse pensar no que responder, Dr. Lopez entrou, sorrindo ao ver os dois interagindo.
– E ai, como está esse garotão? — Ricardo perguntou, afagando a cabeça do menino.
– Ele teve um pouco de enjoo mais cedo, mas já está melhor. — Michael respondeu.
– Que bom. Felizmente, o seu antigo hospital já havia começado a preparação para o transplante, antes do doador original mudar de ideia, então, acredito que o pequeno David está quase pronto. Seu oncologista e o hematologista viram aqui dar mais detalhes e conferir tudo, mas deve ocorrer amanhã mesmo, provavelmente na parte da tarde e, se tudo der certo, David logo ficará melhor.
– U huul — David gritou com os braços pra cima, fazendo todos no quarto rirem.
– Por enquanto é só isso, eu passo aqui novamente mais tarde. Britt, não se esqueça de dar entrada. — O médico terminou e saiu do recinto.
– Hey, David, Dr. Lopez não é super maneiro? — Michael atiçou.
– Sim! Ele me trouxe um chocolate quando eu cheguei aqui! — O menino respondeu animado, sentando no colo de Brittany enquanto contava sobre o médico. — E ele me prometeu que, quando eu melhorasse ia me dar uma caixa cheia!
– Ah, ele é legal mesmo e eu fiz ele me prometer também que ia te tratar muito bem. — Brittany disse ao menino.
– Você conhece ele?
– Sim, ele é meu amigo há um tempão e ele também é o pai da minha melhor amiga, daquela menina bonita ali. — A loira respondeu e apontou para Santana, antes de fazer um aceno com a cabeça para que ela chagasse mais perto.
– Oi, menininho! — Santana sorriu para ele ao se aproximar.
– Oi, qual o seu nome? — O menino perguntou, olhando curioso para a latina.
– Santana. O seu é David, né?
– Sim... Seu pai é médico, deve ser super legal!
– Super! — Santana riu.
– Você tem algum irmão? — Ele perguntou, deixando a morena sem palavras, afinal, ele próprio poderia ser seu irmão.
– Er... Que tal se eu te responder isso amanhã?
– Por que? — O garoto perguntou, confuso.
– Porque assim eu vou ter uma desculpa pra vir aqui de novo e te trazer outro chocolate, que eu posso roubar do meu pai! — Santana cochichou para o menino que demostrou muito interesse na proposta.
– Fechado! Eu sempre quis um irmão, ou uma irmã... — O menino disse, pensativo.
– Espere, que um dia você pode ter. — Santana concluiu.
Depois de mais um pouco de conversa e Brittany ter ligado para o pai, ela deu entrada no hospital, ficando internada no quarto ao lado do de David, que se preparava para o transplante.
Sr. Pierce estava num dilema entre as duas filhas, já que não queria que Brittany passasse a noite sozinha, mas não tinha ninguém com quem deixar Anne e ele não gostava de deixá-la com babás nem conhecidos (O que Santana entendia, devido ao que tinha acontecido da última vez), então, a latina tranquilizou Daniel garantindo que ela ficaria com a loira o tempo todo, o que ele agradeceu muito e ela também, pois Santana realmente queria estar com Brittany enquanto ela passava por tudo isso.
Enquanto Brittany fazia alguns exames e coisa do tipo, Santana foi, a pedido da loira, ao quarto de Trish Woods, que, depois do tiro, estava internada no mesmo hospital.
– Uau, quem precisa de TV com uma novela dessa por aqui, hein? — Trish comentou depois de a morena ter contado sobre os acontecimentos recentes.
– Pois é... Brittany não havia te contado nada disso? — Santana perguntou, surpresa.
– Não, ela até veio me ver no domingo, mas não comentou nada sobre filhos voltando do passado, mas tudo bem, estou acostumada, ela é assim mesmo.
– É, estou percebendo...
– O que foi?
– O que foi o que?
– Seu rosto mudou, como se você já tivesse pensado nisso antes. O que te incomoda, Lopez?
– Brittany está certa, você sabe ler as pessoas. — A latina comentou. — Não tem nada errado, é só que... Eu quero ajudar ela, quero que ela se abra comigo, mas eu nunca sei até onde ir com ela, se estarei ajudando ou piorando as coisas, sabe?
– Minha dica: Vá ao máximo que você achar que deve. Ela pode até se irritar no início, mas ela vai entender depois. A Brittany não está acostumada a desabafar, a demonstrar seus sentimentos, pensamentos, ela mesma, eu acho que ela nem lembra mais como, então, você tem que ajudá-la com isso, lembrá-la que ela pode se abrir, pressioná-la, se você achar necessário.
– Você está certa. Eu só fico pensando as vezes em como eu descubro algo novo sobre ela a cada dia, parece que ao mesmo tempo que eu conheço ela melhor que ninguém, eu também não sei quase nada.
– Você ama ela?
– Sim, muito.
– Pois bem, para amá-la você precisa ter paciência. Britt precisa aprender que guardar demais para ela mesma essas coisas, os sentimentos, o passado não ajuda em nada, que ela pode e precisa contar com aquelas pessoas que estão ali para ela e você quem precisa ensiná-la isso. Ela vai melhorar e, se você a ama mesmo, vai valer a pena.
– Eu amo ela de verdade. — Santana frisou. — E eu sei que vale pois eu a amo apesar disso tudo, eu a amo por completo, junto com todas as sombras e problemas.
– Fico feliz em ouvir isso. Ela significa muito pra mim, é quase uma irmã e eu ouvi ela falando de você, vi como ela te ama de verdade e confesso que fiquei um pouco preocupada porque ela já passou por coisa de mais, ela já teve o coração partido demais, ela já está machucada demais, eu não quero que ela se fira mais. Mas você parece uma pessoa bacana e que gosta dela, eu fico feliz.
– Eu nunca machucaria ela intencionalmente. Mas eu entendo sua preocupação, acho legal como vocês se protegem, como vocês conhecem bem uma a outra. — Santana disse, sorrindo, ela estava até gostando dessa menina, apesar do leve ciúmes que sentia de vez em quando. — Acho que você conhece ela melhor do que eu até...
– Passamos pela mesma coisa, isso torna nossas mentes parecidas em certos aspectos, mas não acho que conheço ela melhor do que você... Eu sei coisas sobre ela, sobre o passado dela, vivi algumas dessas com ela, isso me deixa entendê-la bem, mas não é da mesma forma que você, você conhece a Brittany do presente, apesar do passado, pois, mesmo que ela tenha escondido algumas coisas, a essência dela você conhece, até porque com você eu sei que ela nunca teve que fingir estar alegre ou se esforçar para esquecer essas coisas, você a faz verdadeiramente feliz. — Trish sorriu para a outra.
– Isso é porque ela me faz feliz também. Mas, enfim, você está melhor? — Santana perguntou, querendo mudar de assunto antes que ela começasse a chorar.
– Ah, forte com um cavalo, se eu desconsiderar como tudo tá parecendo meio fora do lugar aqui dentro... Mas já não doí tanto, eu tive sorte que a bala não pegou em nada demais e eles fizeram um bom trabalho também, me disseram. De qualquer forma, eu devo dar o fora daqui logo. — Ela respondeu. — Então, você disse que o transplante já vai ser amanhã?
– Isso. Parece que, milagrosamente, eles tinham achado um doador compatível, mas o desgraçado andou para trás de última hora, foi então que o pai do moleque resolveu ir atrás da Britt, como último recurso, já que não sabiam o quanto tempo ia demorar para aparecer outro doador, aí, como eles já tinham começado aquelas preparações lá, ele chegou aqui quase pronto.
– Entendi, tomara que eles fiquem bem.
– Sim, mas esse hospital é tipo o melhor em transplante de medula e coisa assim, segundo meu pai.
– Isso é bom. — Ela respondeu, quando uma mulher gorda e ruiva entrou no quarto, se apresentando como Martha Woods, a mãe de Trish, então Santana deixou-as sozinhas e foi em direção ao quarto de Brittany.
– Oi, amor. — Brittany disse, sentada na cama do hospital, quando a morena entrou, que, instantaneamente, abriu um sorriso enorme, que não escondeu tão bem seu rosto ficando vermelho, sorte dela pela pela pele morena das latinas, mas Brittany percebeu. — O que foi?
– Nada... É que você nunca tinha me chamado de “amor” antes. — Santana respondeu e seu sentiu meio boba por tamanha pieguice, só Brittany mesmo para fazer isso com ela. — Mas acho que eu podia me acostumar. — Ela disse mais de volta no tom provocante da velha Santana Lopez, enquanto se sentava ao lado da loira.
– Pois é bom se acostumar mesmo, adoro apelidos... O que você acha de “Sandbags”? — Brittany perguntou, já rindo da outra, que revidou com um tapa leve em seu ombro.
– Não tem graça, você sabe como eu odeio quando a Sue me assim. — Santana disse, tentando segurar o riso. — Isso é bullying e eu não vou aceitar!
– Ei, não roube meu bordão, Sandbags! — Brittany disse, se fingindo de ofendida e as duas se acabaram de rir repetindo os vários apelidos que elas já ganharam da treinadora, no fim, elas acabaram dormiram abraçadas entre os risos, beijos e piadas, que quase fizeram ambas esquecerem de tudo que teriam que enfrentar no dia seguinte.
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