Um amor e uma sombra
11 Um sorvete e um mês de lavanderia
Notas iniciais
Meses depois...
Santana tinha que rir enquanto assistia Brittany e David debruçados na vitrine da sorveteria, escolhendo seus sorvetes como uma adolescente escolhe seu par para o baile; David se recuperou bem do transplante, claro que não estava curado ainda, mas estava bem, e com as duas de férias do colégio e Dave de volta à ativa, os três tem passado bastante tempo juntos, se conhecendo, se divertindo, já tinham até piadas internas. Santana achava lindo ver Britt agindo como uma verdadeira mãe e ela mesma também estava adorando o posto de irmã mais velha, passados todos os choques e problemas, todos se acostumaram com a ideia de suas novas vidas, uma grande e complicada família feliz.
– Aqui, querida. — Brittany disse ao colocar uma generoso pote de sorvete de flocos na frente de Santana, enquanto ela e o garoto de juntavam à latina na mesa, cada um com seu sorvete. Santana sorriu calorosamente para a loira e deixou sua mão cair sobre a dela, tirando apenas quando ela viu algumas pessoas do colégio entrando na sorveteria; Os momentos que elas passavam com David eram os poucos momentos que elas agiam como “namoradas”, sem ser aqueles que passavam sozinhas, Brittany nunca teve problemas em assumir sua bissexualidade, mas Santana ainda não estava pronta, as duas já haviam conversado sobre isso e Brittany tinha concordado em manter a relação delas entre as duas por um tempo, pelo menos até quando sentisse que a morena estava preparada — Queria que ela se assumisse, claro mas também não queria insistir, afinal, ela mais que ninguém sabia como a morena era e também já havia guardado muitas coisas pra si ela mesma (Apesar destes dias terem passado, atualmente ela é um livro aberto, todos já sabem sobre seu passado, inclusive na escola, Brittany decidiu não tentar mais esconder ela mesma, e gostou da sensação; No Mckinley as pessoas costumam respeitar o espaço dela quanto a sua história, nada além de alguns olhares diferentes ou cochichos de vez em quando.).
– E aí, garotão, gostou do filme? — Santana perguntou, sobre o filme d'Os Smurfs que eles tinham acabado de ver no cinema.
– Super! — O menino gritou com os braços para cima e começou um monólogo infantil sobre o filme enquanto as duas riam e contavam internamente a quantidade de vezes que o garotinho dizia a palavra “super”; Atualmente, recuperado, David parecia mais animado ainda, principalmente depois de ter ganho uma mãe e uma irmã, seu rosto também parecia ter mais cor e o cabelo loiro claro, que já havia começado a crescer de novo, lhe dava um ar ainda mais jovial.
– Caramba, a gente devia ter deixado você em casa há 20 minutos atrás! — Brittany exclamou, olhando para o relógio do celular e lembrando da hora que elas combinaram com Michael de levar o garoto de volta.
– É mesmo, é esse menino que não para de falar! — Santana brincou, cutucando a barriga do garoto, que revidou bravamente, enquanto Brittany ria do outro lado da mesa.
– Okay, continuem aí, crianças, vou pagar a conta. — Brittany disse enquanto levantava da mesa, ganhando um par de línguas para ela.
...
– Obrigada. — A loira disse para o atendente após o pagamento e se virou, conferindo a nota fiscal e sem prestar atenção na frente, no seu jeito Brittany de ser, então, acabou trombando com um dos garotos que havia entrado mais cedo (Bob, ou algo assim, Brittany reconheceu, um babaca estilo Karofsky do time de futebol) e ele acabou com café em cima de sua camisa inteira.
– Oh, meu Deus, me desculpe! — Brittany disse rapidamente, assim que olhou para cima e viu o estrago que tinha feito.
– Merda! Olha o que você fez, sua louca! — O garoto praticamente gritou.
– Ei, calma, amigo, foi um incidente... -O atendente tentou intervir, gentilmente.
– Ah, cala a boca, seu bichinha! — O outro interrompeu. — Você não conhece essa aqui, todo mundo lá no colégio sabe que ela é uma idiota louca querendo se aparecer! Não é a toa que todo mundo te chama de fifty shades.
– O que? Olha aqui, seu ogro,... — Brittany começava a se irritar e eles já estavam chamando atenção das poucas pessoas em volta, inclusive de Santana, que já ia na direção deles.
– Oh, por favor, volte pro seu filhinho bastardo e pra mim você sempre vai ser a Brittany burra, não me venha de conversinha de passado trágico não, essa palhaçada não cola comigo, e se você foi estuprada deve ter merecido! — Ele estourou, antes do punho fechado de Santana também estourar na cara dele, o que, num cara daquele tamanho, não fez muito estrago, mas fez ele cambalear para trás com a surpresa.
– Ninguém merece ser estuprado, agora colocar animais iguais a você numa jaula ou algo assim eu já sou a favor. — Santana disparou enquanto fingia que sua mão não estava estalando de dor, precisava dizer algo pois sabia que Brittany não o faria, ela via no rosto da loira que ela estava perplexa demais para agir: suor e olhar frios, punho fechado, rosto ganhando mais e mais cor, a mandíbula fechada fortemente, ela poderia estar prestes de começar a chorar ou atacar o garoto, Santana não tinha certeza.
– Pronto, chegou a namoradinha! Que tal colocar é anomalias do seu tipo numa jaula, hein? — Ele praguejou, parecendo meio psicótico enquanto apontava para as duas garotas e o atendente, que estava murmurando algo do tipo “Homofóbicos estúpidos”; — Vocês me dão nojo e ainda querem se passar por gente normal, deviam é jogar esse e boiola ai no fogo, agora vocês duas eu ainda dava um jeito, só precisam de um macho de verdade para te ensinarem... — Ele continuou e foi a vez de Santana ficar sem palavras, uma vez que ele tinha atingido seu ponto fraco, e agora Brittany quem quase pulou no pescoço dele, porém foi segurada por algumas pessoas das outras mesas que tinham vindo intervir, eles pediram que ela se acalmasse e empurraram Bob mandando-o cair fora, a loira apenas pegou o braço de uma Santana calada e foi na direção oposta.
– Vamos. — Brittany disse friamente, enquanto guiava Santana de volta para a mesa onde David olhava curioso, mas felizmente estava longe demais para ter escutado alguma coisa da discussão.
…
– Oi, mi hija, como foi a tarde? — A mãe de Santana perguntou, interrompendo sua leitura na escrivaninha da sala de estar, assim que a latina mais nova entrou no cômodo.
– Foi bem... — A morena respondeu automaticamente, mas logo se corrigiu. — Quer dizer... Não, na verdade, estava indo bem, mas não terminou assim.
– Como assim, querida? O que houve? — Sr. Lopez indagou enquanto pausava o documentário que estava assistindo na TV, com um olhar preocupado, principalmente ao ver a hesitação e o rosto pálido da filha. — Você está bem?
– Não, eu to bem, é só que... Bem, hoje alguém tentou me humilhar, me diminuir por causa de algo sobre mim e eu quis me defender, mas, sabe, eu não consegui. — A latina começou, os olhares de seus pais sobre ela, sua mãe tentou dizer algo, mas Santana pediu que a deixasse continuar. — Eu não consegui porque eu fiquei envergonhada, porque eu acabei acreditando naquilo, porque era algo pelo que eu mesma me diminuía... Mas depois a Brittany me lembrou que eu não tinha que me sentir menor, e ela me abraçou, e eu acho que eu me dei conta que minha vergonha não era maior do que o meu medo... Medo dos olhares, das conversas, das pessoas, mas principalmente, medo de vocês.
– Medo da gente? San... — Ricardo tentou falar também, mas foi ignorado pela filha, que continuou falando, com o olhar fixo na janela que ficava entre seu pai e sua mãe na sala, sua postura rígida, voz tremula e ambas mãos segurando a barra de sua camiseta tão fortemente que os nós de seus dedos já estavam brancos.
– Mas, então, me lembrei de outra coisa. — Ela continuou. — Me lembrei que vocês sempre me ensinaram a ser uma mulher latina forte, que eu nunca deixasse nada me abater, e eu sei, como sei, que, enquanto eu guardar isso pra mim, não vou conseguir ser essa pessoa forte completamente, não vou conseguir sentir orgulho de mim mesma, foi por isso que eu decidi contar para vocês.
– ¡Dios mío! Santana, fala logo! — Maribel disse, mostrando de onde Santana havia herdado sua impaciência.
– Mãe, pai... E-Eu sou g-gay. Eu sou gay. — A morena continuou, tentando deixar sua voz tão firme quanto possível. — Eu gosto de meninas da forma que eu deveria gostar de meninos. É quem eu sou e só quero que vocês saibam.
– É isso? Jesus, Maria, José, eu achei que você estava grávida, usando crack, ou algo assim. — A mãe disse com um suspiro de alívio e a mão no peito.
– Brittany! Você namora a Brittany, não é?! — O homem perguntou dando um pulinho, como se estivesse esperando o resultado da loteria.
– Ou a Quinn! — A mulher ao lado colocou, pensativa, mas Santana continuou parada olhando de um para o outro, ainda esperando pelos tapas e gritos...
– Responde, menina, tem uma mês de lavanderia em jogo aqui! — Ricardo parecia animado.
– Perdão? — A garota conseguiu finalmente falar.
– Er... É, a gente talvez tenha apostado se você está namorando a Brittany ou não... — Dessa vez o médico parecia quase envergonhado.
– Sim, quem perder lava a roupa toda sozinho por um mês inteiro. — Maribel respondeu, parecendo entediada, mas estava mesmo é tentando segurar o riso olhando para a cara de choque da filha; Ambos desconfiavam sobre a sexualidade da garota, e depois sobre Brittany, mas nunca quiseram pressioná-la, sabiam que a filha não funcionava bem sobre pressão, e haviam decidido levar o assunto com naturalidade, sabiam que essa era o melhor jeito de levar um assunto com a garota, do jeito dela.
– Então...? — Perguntou ele, com expectativa, o sorriso grande e sapeca de Ricardo ainda ainda o melhor da noite.
– Gente... Sério? Eu acabei de fazer um discurso sobre aceitação e disse que eu sou gay!
– A gente sabe. — Respondeu a mãe.
– E a gente te ama, não importa quem você ame. — O pai respondeu, agora sério, chegando perto da garota e pegando uma de suas mãos, enquanto Maribel pegava a outra.
– Isso ainda não muda nada. Nem pais biológicos, nem sexualidade, nem raça, nada muda, nada disso interfere no caráter de uma pessoa. Eu sei quem você é. Você é minha filha. E eu te amo. — Completou a mulher.
– Ah, gente... Vocês me fizeram chorar! — Santana disse, tentando manter seu humor Lopez típico, mesmo enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto, e, assim, caiu nos braços de seus pais, num longo, choroso e demorado abraço. — Oh, e, sim, eu e Britt estamos juntas. — Ela completou, um tempo depois.
– GANHEI! — Ricardo exclamou, apontando para a esposa, que praguejou algo em espanhol.
– Eu amo vocês. — A garota disse aos dois depois que conseguiu parar de rir. Ela não falava muito isso. Começou a pensar que deveria. Era verdade. E ela estava começando a gostar da verdade, era bom não ter nada que esconder, ela decidiu continuar com a verdade, deixar que todos saibam sobre ela, ela não se importava muito com os outros mesmo, apenas com três pessoas. Seus pais já estavam riscados da lista, só faltava uma pessoa entrar no trem da verdade da noite. Sua avó.
…
Brittany deixou Santana em casa, teve um silencioso jantar em família, ajudou sua irmã com o dever de matemática e, então, foi para seu quarto, deitou na cama e encarou o teto, queria ligar para Santana, mas desistiu, sabia que a morena ia ter uma conversa delicada com seus pais hoje e não queria atrapalhar, Santana iria ligar quando terminasse, ela prometera; Teria, então, que deixar o humor depressivo passar sozinho, sem ajuda da outra. “Humor depressivo” era um termo criado por Trish, como as duas garotas chamavam aqueles momentos específicos que elas tinham de vez em quando, em que todas as lembranças ruins vinham de uma vez e assombravam ela por um tempo, mais de que o normal, geralmente passam rápido, ela logo conseguindo empurrá-los de volta para o canto obscuro de sua mente e deixando os outros pensamentos fluírem, mas ela ainda os odiava, aconteciam principalmente quando algo (ou alguém) a lembrava de alguma coisa daquele tempo, ou algo assim, a menor besteira que fosse era capaz de fazer tudo vir a tona, como se todas aquelas sombras fossem pólvora, apenas armazenado em seu cérebro, e essas besteiras eram faísca, não importava o tamanho, acediam a pólvora, um turbilhão de sentimentos. Ela estava assim desde a discussão com Bob mais cedo, apenas lembrando tudo aquilo, sem escolha, deixando a tristeza preenchê-la para que pudesse a mandar embora logo. Logo melhora, ela pensou enquanto continuava a encarar o teto, até que percebeu uma protuberância estranha num determinado ponto próximo ao seu guarda-roupas, quase impercetível, logo ela lembrou o que era.
Levantou da cama, subiu pelo guarda-roupa até conseguir alcançar o saquinho que estava escondido ali em cima. Desceu, abriu o saco e encarou o frasco de remédios que um dia ela decidira que iriam tirar sua vida. Encarou-os por muito tempo. E riu. Parecia uma boa saída há alguns anos atrás. Mas não mais. Ela queria conhecer mais o David, levá-lo à vários passeios ainda, ajudá-lo com sua primeira paixonite, ir na sua formatura, ver seus filhos talvez, também não conseguia pensar em deixar Santana, queria ver o que o universo destinava para elas, queria dar à ela o infinito, queria construir uma família um dia, com Santana quem sabe, e quem sabe um estúdio de dança ou até uma vida de turnês com artistas famosos, queria ver Trish virar uma psicóloga, queria ver seu filho e irmã virando melhores amigos, queria ver seu pai e Michael se atrapalhando juntos enquanto tentassem acender uma churrasqueira, queria tudo que o destino à ela destinasse, queria o futuro, queria o novo, queria a vida.
Então ela abriu o frasco.
Jogou suas pílulas de suicídio no vaso sanitário.
Deu a descarga.
Deitou novamente na cama, encarou o teto.
Mas não pensava mais no passado, mas no futuro.
O “humor depressivo” passou, assim, de repente.
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