Um Toque Feminino
9 Capítulo - 9 - Ela&Ele
Notas iniciais
Capítulo Nove
Ela & Ele
– Este papo sobre amizade é legal, bem “maneiro” mesmo, mas como é que a gente pode estabelecer vínculos de amizade em uma convivência sem trocar ideias? Eu tive dois amigos de infância que foram muito importantes para mim. O primeiro foi embora do Brasil e eu o substituí por outro. Quatro anos depois eu o encontrei e verificamos que não tínhamos mais nada em comum. Foi decepcionante. O segundo era parceiro para toda hora e todos os assuntos. Convivíamos e éramos confidentes. Um dia ele botou no mundo coisas que não eram para passar dos ouvidos dele para a boca. Estas coisas, ditas na hora errada e pela pessoa errada, causaram uma mudança radical na minha vida, incluindo o fim da nossa amizade. Então o que posso dizer nesta aula, é que em minha opinião, amizade implica em convivência e confiança embasadas na troca de ideias. Vamos conviver em um ambiente de sala de aula, onde só podemos escutar. Talvez os corredores sejam mais apropriados para a amizade que aqui.
– Carmem, você há de convir que existem lugares mais convenientes para uma conversa que redunde em amizade que um corredor de escola.
– Continuo acreditando que o melhor lugar é onde aja alguém para nos ouvir...
– Não vamos polarizar, seus colegas também precisam participar. Pode falar, Lucas.
– Ae Fessora! Nóis aquê du fundão achemo que o Diretor deu uma di Al Capone, manja? O da lei seca. Essa história de lei da mordaça num tá cum nada. Nóis tá cum a gatinha, nessa. Falou?
– Falou. Acredito que eu e o restante da turma percebemos que o senhor e a gatinha em questão, estão chegando de escolas bem diferentes, não?
– Sei não, Fessora! Eu venho da escola da vida...
A turma riu e a professora consultou a ficha do Lucas.
– Silêncio, por favor. Pelo que consta na ficha do senhor Lucas, ele poderia repetir este discurso em mais uns dois ou três idiomas, mas eu prefiro o padrão da senhorita Carmem que não agride os ouvidos de ninguém. Também veio da escola da vida, Carmem?
– Sim, senhora.
Novo burburinho.
– Suponho que não seja Chicago e New York, como o senhor Lucas.
– Não senhora, nunca estive nos Estados Unidos.
– Em sua ficha não consta escola de origem, por onde andou Carmem?
– Estou a mais de um ano afastada das escolas regulares, minha mãe teve que ir à Europa...
– E lá não tem escolas?
– ... Ásia, Oriente Médio e...
– Viu, Fessora? Igual qui eu, só na vida!
– Está me parecendo bem diferente Lucas...
– Posso fazer uma pergunta, Professora?
– Pode fazer sua pergunta, Nathália.
– Você é filha de cigana, Carmem?
– Não. Minha mãe fez uma pesquisa sobre o comportamento feminino e tivemos que andar em muitos países...
– Os USA não é um país?
– Por favor, levantem a mão antes de falar, é muito desagradável sermos interpelados e não saber por quem.
– Desculpe, Professora. Meu nome é Carlos Magno. Queria saber por que a mãe dela não incluiu a mulher norte americana na pesquisa.
– Estamos desviando o assunto, o objetivo desta aula inaugural é nos conhecermos e esclarecer os tipos de relacionamento...
– Só estamos incluindo a mãe dela na turma, isto não é desvio...
– É! Professora. Para que serve o ditado, tal mãe tal filha?
– Está bem, vamos deixar a Carmem responder, mas não se esqueçam de levantar a mão antes de falar. Certo Rodrigo?
– Sim senhora.
– Pode responder Carmem?
– Optamos pela Europa porque lá tem costumes mais antigos, mais tradicionais. A América, de um modo geral, corrompeu as tradições dos povos nativos e o comportamento feminino está bastante semelhante.
– Meu nome é Maria Lúcia. O que você viu de chocante por lá?
– Só coisas ruins. Pés atados, burca e a poligamia unilateral. No mais é igual por aqui. Quando a coisa é boa, primeiro aos homens. Quando é ruim, primeiro às mulheres.
– Sujou, mais uma feminista...
– Pedro Henrique, não é?
– É. Sim, senhora, desculpe...
– Se ganhamos uma feminista, eu não sei, mas com certeza temos por aqui um preconceituoso.
– Qual é, Professora? Este papo de mulher ser vítima já é muito antigo...
– Certamente. Porém, é bom lembrar que milhares de anos antes do movimento feminista, a mulher já era subjugada pelo homem. Alguém mais é de opinião que a resposta da Carmem levanta a bandeira do movimento feminista? Levante a mão.
A turma se dividiu entre meninos e meninas.
– Levanta a mão aí, ô boiola, está pensando que já é mulher?
A professora teve que intervir novamente.
– Rodrigo! Respeite a opinião do seu colega...
– Eu não tenho colega boiola...
– Se você se referir a qualquer um dos componentes desta turma de forma desrespeitosa novamente, eu o ponho para fora. Antes que isto aqui vire uma guerra dos sexos, vamos às regras. Isto não é um debate, portanto quero ouvir uma opinião de cada lado, sem réplicas ou manifestações desagradáveis como foi a do Rodrigo. Quem quer responder pelo não? Renata; pode falar.
– Eu voto não, porque ela não fez discurso e nem tentou convencer as outras a se insurgirem contra os homens. Só respondeu uma pergunta.
– Lucas, quer responder?
– Não. Acho melhor o Rodrigo opinar.
– Rodrigo?
– Para mim tudo bem, só não gosto deste povo que quer mudar de lado, acho melhor passar a bola ao Pedro Henrique.
– Pedro Henrique?
– O projeto delas já é feminista, e esta coisa aí de, “só o ruim para as mulheres”, é conversa fiada, quem quebra pedra e vai à guerra é o homem. E se fosse tão ruim assim, não ia ter gente como o Marcelo, interessada em mudar de lado...
– Parou, parou, parou. Vamos deixar o Marcelo em paz. Quinze anos é uma idade muito distante da sensatez para que você possa se arvorar em julgar os outros. Carmem; quer acrescentar algo?
– O que observamos é que muitas vezes as mulheres nem têm consciência de que estão submetidas a um tratamento impróprio. Os homens usam os mais diversos argumentos para se sobreporem e minimizar a contribuição social feminina. A liberdade de escolha é o que mais se nega às mulheres. O tratamento dispensado ao Marcelo é um exemplo, por falta de argumento, usaram os pejorativos para fazer com que ele se submeta. Violência psicológica, eu diria.
– Você se alongou, mas não disse se aquela resposta...
– Qualquer alerta contra as injustiças e as desigualdades é uma bandeira. Eu gostaria muito de saber como o Marcelo está se sentindo.
– Talvez ele queira se resguardar...
– Não professora, eu prefiro falar. – disse Marcelo. – A Carmem tem razão, sei que sou diferente, por isso estes..., estes..., colegas, ficam no meu pé, mas que culpa tenho de ter nascido assim? Meu pai culpa minha mãe, minha mãe chora, meus colegas me gozam, as meninas se afastam de mim e eu não tenho com quem conversar. Faço tudo que os meninos fazem, mas gosto de brincar com bonecas e vestir as roupas da minha irmã. Meu sexo é masculino, mas meu cérebro é feminino.
– Já esteve com um psicólogo? – perguntou a professora.
– Toda vez que meu pai briga com minha mãe ela me leva a um.
– E por que ele não leva?
– Como disse a Carmem; serviço ruim..., degradante...
– E o que os psicólogos dizem? – perguntei.
– Muitas perguntas, fazem uma imensa ficha sobre minha mãe...
– Sobre sua mãe?!
– É! Enxoval rosa, quarto rosa. Se ela queria ter uma menina, estas besteiras aí. Antes que ela se aborreça eu levanto e saio do consultório. Parece que o tal Freud ensinou a estes babacas que as mães podem ensinar um moleque a ser menina.
– E você acredita que não?
– Quem teria me ensinado? Meu pai, que acusa minha mãe? Minha mãe, que sai chorando dos consultórios? Minha irmã, que briga comigo quando visto as roupas dela? Estes idiotas aqui, que pegam no meu pé, como se eu pudesse virar minha cabeça pelo avesso?
– Você já procurou a equipe de apoio do colégio?
– Todas as equipes que visitei me deram uma receita de como me comportar para voltar a ser macho. Todos acham que sofro de desvio de comportamento.
– E o que você acha?
– Nada. Não sei o que pensar, só me sinto ligado a coisas que normalmente despertam o interesse das meninas.
– E as meninas, não são do seu interesse. – perguntei.
– Espelho. Olho para elas e as uso como espelho. Quero ser igual a elas.
– Vamos respeitar sua opinião, Marcelo – interveio a professora – no entanto, existe um hospital nos Estados Unidos, o Hopkins, que mantém uma equipe de cirurgiões e psicólogos altamente qualificados no tratamento e transformação de indivíduos com distúrbios genéticos. Já operaram centenas de pessoas, e eles advogam a tese de que é possível orientar o paciente para que ele reformule seus pensamentos e assuma o gênero para o qual vem sendo orientado.
– Nunca ouvi falar, mas não acredito. Deve ser mais uns discípulos do Freud. Nunca fui orientado para ser menina. Minha mãe nunca me deu uma fita cor de rosa. Nunca ouvi dizer que vida de mulher é melhor que vida de homem. Mesmo que eu ganhe mais dois testículos, ainda vou continuar sonhando em estar no lugar da Kate Winslet, naquela cena do Titanic.
Ele era diferente. Cativou pela sinceridade das respostas. A coragem de enfrentar a turma foi o que mais me impressionou. Eu gostaria de estar revestida de tal coragem! Respondeu mais algumas perguntas e sempre que o assunto cheirava a invasão de privacidade a professora retomava as rédeas da situação. Eu tinha muitas perguntas para fazer a ele, mas não ali e nem naquele momento. Aparentemente sofríamos do mesmo mal, a solidão. Eu não tinha pai, mas tinha uma mãe um pouco mais prática que a dele. Acabamos por estabelecer um vínculo de simpatia que aos poucos prometia virar amizade. Eu ainda estava ressabiada com as experiências anteriores e resistia à tentação de criar vínculos mais sólidos. Como eu ficava sempre “na minha”, os outros colegas também não se aproximavam e no caso do Marcelo, por ele ter se declarado diferente, também se afastavam dele. No início eu recusava os convites dele e da irmã para um cinema ou uma visita à casa deles. À porta do colégio era cada qual para seu lado. A lei do silêncio no corredor ainda imperava. Quem quisesse conversar optava pela cantina ou o pátio, lugares impróprios para as perguntas que eu gostaria de fazer a ele. A curiosidade foi ficando irresistível e resolvi sair do casulo a que me submetia desde que eu e minha mãe começamos nossas andanças pelo mundo. Abordei-o à saída do colégio, uns dois meses depois do início das aulas.
– Marcelo, tenho umas perguntas para fazer a você.
– Estou ouvindo.
– Aqui não.
– Vamos lá para casa...
– Estaremos mais à vontade na minha, Marcelo.
– E sua mãe?
– Sem problemas, ela anda se preocupando com a minha solidão. Vai ficar feliz em deixar nós dois a sós.
– Você disse a ela que eu...
– Não. Mas, isso não é preocupação. Sua mãe vai deixar que você vá?
– Está pensando o quê? Eu sou homem. – disse rindo. – Onde você mora?
A mãe dele nos deixou em casa e eu liguei para a minha.
– Ah, não senhora! Isso merece uma comemoração. Vamos almoçar fora! Diga ao seu amigo que em dez minutos estarei aí. Podem escolher o restaurante enquanto me esperam.
– Mas mamãe! Temos que estudar.
– Prefiro um zero acompanhado que um dez solitário! Estou indo!
Assim é minha mãe, nada de meias medidas. Em menos de dez minutos ela chegou. Desceu do carro e abraçou o Marcelo.
– Antes que a senhora pense bobagens...
– Eu sei, eu sei. Um amigo é tão importante quanto um amor. Estou feliz por vocês.
Almoçamos e ela nos trouxe de volta, abraçou o Marcelo novamente e retornou ao serviço.
– Ela é sempre assim?
– Dia e noite. Sempre que você quiser um abraço...
– Eu ganharia um seu?
– Seria um prazer, mas não trouxe você aqui para isso.
– Eu sei, as perguntas... Posso ir ao banheiro primeiro?
Indiquei o banheiro da minha mãe e fui ao meu. Quando voltei, ele já estava na sala. Sentei ao lado dele e tentei entrar no assunto.
– Carmem, você poderia começar perguntando se eu fiz xixi sentado ou em pé.
– Isso é importante?
– É o que todos perguntam.
– Nunca pensei nisso. Acho que você faz em pé. Acertei?
– Acertou. Fazer sentado não faz parte dos meus anseios. Eu só falei nisso para que você fique à vontade.
– Como você se sente entre a porta do banheiro masculino e do feminino?
– O feminino é um sonho e o masculino é um pesadelo.
– Pesadelo?
– Sempre me senti mal lá dentro, e quanto mais meus seios crescem, pior fica. Alguns meninos se sentem constrangidos com minha presença. Uns acham que estou lá para olhar para eles e outros não têm coragem para olhar-me.
– E como você está contornando isso?
– Não indo ao banheiro. Aliás, não me lembro de vê-la indo ou vindo do banheiro.
– Andamos por muitos lugares de banheiros sujos, condicionei meu organismo a não fazer exigências nas horas erradas.
– Estou fazendo o mesmo, mas é frustrante saber que existe um lugar proibido.
– Você foi muito corajoso ao enfrentar a turma aquele dia. Como tem se saído, fora da sala de aula?
– Não muito bem. Na sala eu tive a chance de me fazer ouvir, mas no pátio não tem como, tenho que engolir e esquecer. Alguns são cruéis. As meninas eram mais amigas até que comecei a trabalhar meus seios, agora, além de se afastarem ainda tem umas que gostam de achincalhar.
– Mas são em menor número.
– São, mas também são mais ferinas, magoam mais.
– Não entendi. O que elas dizem que os homens...
– Não é o que elas dizem, é a quem dizem. Atacam quem estiver comigo. Muitos olhos viram você entrar no carro da minha mãe. Amanhã você será taxada de “sapatão” ou qualquer outro destes adjetivos que inventam, até que se afaste de mim.
– Não estou preocupada com isso. O que você chama de trabalhar os seios?
– Estive pesquisando e descobri que tenho que dar uma força, sem ajuda, ficarão atrofiados. Exercícios e remédios.
– Que remédio você usa?
– Preciso de hormônios, mas por hora estou só com as pílulas.
– Anticoncepcional? E serve?
– Até que eu convença a minha mãe, vai ter que servir. É só o que eu consigo comprar.
– E por que ela não ajuda?
– Porque seria a capitulação. Junto com os hormônios viria o batom. Porque você não usa batom?
– Não gosto. Mas às vezes tenho que usar. Quando sua mãe liberar te dou uns que compramos em Paris. Você acha que o batom vai fazer diferença na sua vida?
– Claro que vai! Significa que meu pai teve que assumir que tem duas filhas. Vou parar de me vestir como homem. Vou poder usar saia, vestido, salto, o banheiro feminino...
– Já pensou como as meninas vão te receber por lá?
– É, vai ser outra barra, mas eu aprendo a fazer xixi sentado. Ou continuo fazendo em casa.
– E se com tantas meninas em volta, pintar uma ereção?
– As minhas ereções dependem de contato, carícias..., entende?
– Entendo. A visão de um corpo feminino nu não te excita?
– Não. Preciso do toque. Como não estou pensando em dançar no banheiro, não corro este risco.
Não foi no dia seguinte, mas também não passou muito tempo. Meu corpo aos quatorze, já gritava ao mundo, “cheguei!”, e mesmo eu me vestindo com discrição não evitava os olhares maliciosos.
– Que desperdício meu! Tão gostosa e andando com boiola.
– Gostosa deste jeito e sapatão! É o fim.
– Aê beleza! Por você eu encaro o veadinho aí!
– Neste roça-roça aí, tem vaga para homem?
– Quem é quem aí?
– Lá vai o ataque do Flamengo, muito jogo de corpo e nada de bola para dentro.
– Como é que fica o sabão?
– Vocês frequentam o mesmo banheiro?
Era torturante. Ele se irritava e eu procurava acalmá-lo. A irmã já tinha se afastado também. Raramente andava com ele. Aceitei o convite da mãe dele para um almoço.
– Venha cá, minha filha, preciso ter uma conversa de mulher para mulher com você.
Puxou-me para dentro do quarto dela, enquanto o Marcelo e a irmã se livravam das mochilas.
– Estou tão feliz de você estar se entendendo com meu filho, ele é uma gracinha, tão inteligente, tão sensível, vocês formam um casal tão lindo! Como você se sente ao lado dele? Como é que...
– Calma, dona Cassandra! Nós somos apenas amigas.
– Amigas?! Como amigas?
– Amigas, dona Cassandra, só amigas. O seu filho é uma menina maravilhosa, daí ficamos amigas. Se a senhora e seu marido insistirem em tratá-la como filho, só vão piorar as coisas. Ajudar nos sonhos dela; é o melhor a fazer.
– Você... eu tinha tanta esperança... não é possível...
Deixei que chorasse no meu ombro e quando se acalmou voltou a me olhar, ainda não convencida.
– Você é tão criança, ele é tão criança, como podem ter certeza?
– A senhora também tem certeza! Tente pensar nos sonhos dela.
– Dela?
– É. Dela. Esqueça a parte externa, pense na alma, no interior, nos anseios. A senhora tem duas filhas.
Chorou mais um pouco e depois levantou a cabeça resoluta. Voltamos à copa, onde os dois já nos esperavam.
– Vamos almoçar e depois vamos ao shopping. – anunciou.
– Ao shopping, mamãe?
– É. Preciso comprar umas roupas para minha filha mais velha, está andando parecendo homem, não estou gostando disso.
– A senhora vai mandar “ele”, à escola, vestido de mulher!?
– Vou mandar as minhas duas filhas bem elegantes àquela escola.
– E o papai?
– Eu fiz minha escolha, ele que faça a dele.
Iniciamos uma nova fase de gozações. Mas nossa amizade se manteve firme. Quanto mais discriminavam mais ficávamos juntas. Quando ela ia lá para casa, minha mãe dava a maior força. Saias, blusas, vestidos, maquilagem e os saltos. Eu detestava as pinturas e o batom e ela adorava. Dona Karine se realizava.
Quando terminamos a oitava série, eu estava com dezesseis anos, minha mãe teve que voltar para a casa do pai dela, que tinha tido um aneurisma e requeria assistência integral. Como ele não ia muito com minha cara, preferi ficar sozinha no apartamento. Comecei a sentir o peso da solidão e resolvi trabalhar. Aceitei um meio expediente em uma loja de sapatos onde a Marcela já trabalhava. O dinheiro era pouco, mas eu não trabalhava por ele. Era mais uma terapia ocupacional. Colégio pela manhã, deveres à tarde e a terapia dos sapatos à noite. Uma vez ou outra a Marcela dormia lá em casa, no quarto da minha mãe, abandonado há meses. Não havia intimidades entre nós duas, apesar da crença geral, inclusive dos porteiros do prédio, que às vezes lançavam sobre nós aqueles olhares de, “que desperdício”. O respeito gerado pelas confidências, funcionava como barreira. Estava cristalizado o relacionamento em nível de pura amizade. Em uma destas noites, após os sapatos, revíamos o Titanic no videocassete. Eu de pijama longo e ela em um curtíssimo baby-doll transparente que desencavara no closet da minha mãe. Usava um batom suave na cor e no passar, herança da dona Karine. Os seios à mostra e o restante abrigado em uma minúscula calcinha branca. Ela desenvolvera uma forma de abrigar a genitália que sem o conhecimento antecipado, pouco poderia se notar de diferente por ali. Para qualquer um que chegasse naquele momento, eu era o lado masculino do casal. Tocaram o interfone. Fui atender.
– Marcela! Seu pai. Disse que é importante, ponha um roupão que ele está subindo.
Deixei-os na sala e fui para minha cama. Visita estranha, inusitada, fora de hora, mas certamente tinha um propósito. Os dois pouco se falavam, ele, como todo homem, deixou a cargo da esposa, a parte mais difícil da vida. Ajudar o filho/filha a se encaminhar no mundo.
Acordei com as batidas na porta e a voz dela me chamando para o café da manhã. Todas as vezes que ela dormia lá em casa eu era acordada para uma panqueca de presunto e um café amargo, que eu enchia de açúcar e ela de adoçante.
– O que seu pai queria?
– Trazer um elogio às suas formas e me encher o saco.
– Ele ainda se lembra que você tem isso?
– Ontem ele fez questão de esquecer. Fez um pedido e foi embora.
– Pedido?
– É. Coisas que eu não tenho o menor talento para fazer e ele precisa que eu faça.
– Você se superou na panqueca hoje, está uma delícia.
– E você é um amor! Agradeço, por mudar de assunto.
À noite, pouco antes de encerrar o expediente, ela foi expulsa da sala do estoquista aos berros. Voltou aos clientes, enquanto o estoquista procurava o gerente.
– O que houve, Marcela?
– Eu disse a ele que não tinha talento para isso.
– Isso o quê?
– Pediu para que eu copiasse um arquivo chamado Isis, que tem no computador do estoque.
– Você foi flagrada?
– Bem na hora que consegui localizar o tal arquivo. Está camuflado no meio das músicas do som ambiente.
– E agora?
– Agora? Tô ferrada, e o gerente está me chamando, fui...
Enquanto ela se explicava com o gerente e o estoquista, voltei ao tal computador e copiei o arquivo. Pouco depois o gerente a acompanhava até a porta de serviço. Quando encerrei o expediente não a encontrei mais. Ao chegar em casa o pai dela esperava por mim na portaria. Eu não tinha muita simpatia por ele, mas o convidei a subir. Indiquei o bar.
– Escolha algo que vou pegar o gelo e um refrigerante.
– Esqueça o gelo, vou tomar “uma quente”. Obrigado.
Peguei o refrigerante e me sentei no sofá, de frente a ele.
– É sobre a Marcela?
– Marcela? A sim, desculpe, já faz tanto tempo e não consigo me adaptar. De certa forma é.
– Como ela está?
– Está bem, ligou-me da rua e disse que ia tomar um sorvete com um amigo, pensei que depois viria para cá.
– Então não é certo que ela esteja bem, não é?
– Não, não é certo. Mas tem mais uma coisa.
– A encomenda.
– Você está sabendo?
– Por alto. Sei que ela tentou...
– Não conseguiu, foi apanhada e despedida.
– Aquele emprego era importante, para nós duas, o senhor já pensou nisso?
– Sim, já pensei, mas para meus propósitos não serve mais. Podemos resolver isso arrumando coisa melhor, que dê mais dinheiro e satisfação pessoal.
– Propósito!? Furtar arquivos...?
– Isto era algo que achei que poderia ser feito por um amador, mas me enganei. Não sei até que ponto ele comprometeu...
– Ela! Estamos falando da minha amiga Marcela.
– Sua amiga. Meu filho. Minha filha. Isto está me deixando maluco. Mas não tem problema. Ela. – concluiu, um tanto macambuzio.
– O que há de tão importante naquele arquivo?
– Não sei, mas para mim vale alguns milhares de dólares, para outros vale milhões.
– Milhões!? Em uma loja de sapatos?
– Não é experto? Esconderam em um PC, a chave de um arquivo de grande importância para o mundo dos negócios e enfiaram a máquina em um depósito de terceira, completamente isolado do mundo virtual. Sem chance para qualquer hacker. Estamos rastreando há tempos. Fiquei devendo favores para arrumar aquele emprego. Preciso falar com ela.
– O que o preocupa mais...?
– Não me julgue, Carmem. Eu também amo aquela pessoa, apesar de tudo. O arquivo me interessa, mas não é tudo.
– O senhor acredita que ela vem para cá?
– Este é o refúgio dela. A sua amizade é onde ela se esconde do mundo.
– O que vai fazer sem o arquivo? Ela não vai mais poder entrar lá.
– Nem todas as missões são cumpridas a contento. Este meio é muito concorrido. Às vezes ficamos, horas e horas, em uma escuta e a concorrência ouve o que você quer em um “papo” de banheiro.
– O senhor está falando de espionagem, tipo 007?
– Estou falando de horas e horas de vigilância, trabalho monótono e cansativo. Noites sem dormir e de repente, um cochilo..., e seu alvo some. Não sei nada de 007 e aquele bando de deusas que o cerca.
– Minha amiga cochilou?
– Preciso saber se aquele gerente tem conhecimento do arquivo ou não. Se ele foi deletado minha missão acabou, falhou.
– E como saber?
– Entrando na loja. Mas não quero ir “no escuro”, preciso das informações que...
– Sua filha possa ter.
– Isso.
– Depois vai invadir a loja?
– Antes que o gerente possa se comunicar com a matriz. A matriz sabe que os códigos estão naquele computador. Vai ligar a invasão ao arquivo.
– Se era tão importante, porque envolver sua filha?
– Porque era perfeito. Quando se dessem conta, o programa já seria de domínio público. A invasão dá a eles a chance de tomar conhecimento, mais cedo, de que foram copiados.
Fomos interrompidos pelo interfone. A Marcela chegou e nos tranquilizou. Estava tudo bem.
– Você tem certeza, minha filha?
Abraçou-se a ele sorrindo, e olhando para mim repetiu em silêncio, “minha filha”.
– Tenho sim, pai. Aleguei que estava só querendo trocar a música.
– Então porque te dispensaram?
– Alguém descobriu meu sexo de registro e ameaçou fazer um escândalo. Se não for verdade, paciência, mas foi o argumento que usaram. Lamento não ter conseguido. Porque o senhor não pede à Carmem? Ela tem mais talento que eu.
– Estou encerrando o caso. Não quero mais envolver vocês. Vamos para casa? Sua mãe está preocupada com você.
– Eu ligo para ela. Preciso conversar com a Carmem.
Quando ele saiu, levava a cópia do arquivo que queria e eu entrei para o mundo das escutas. Segredos industriais, comerciais e políticos. Mais tarde, por conta própria, entrei no ramo da investigação de família, focada na paternidade.
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