Um Toque Feminino

10 Capítulo- 10 - O Zero.


Notas iniciais
Bom domingo!

Capítulo Dez

O Zero

Brasília é a terra de muitos povos. Entenda que não estou me referindo à população flutuante que vive por aqui, tipo diplomatas, embaixadores e fiscais do FMI. Estou me referindo ao povo mineiro, tipo o JK, que foi o primeiro a invadir estas terras goianas, ao povo nortista, nordestino, sulista e até aos pantaneiros, que largaram seus montes, os tambaquis, as seringueiras, os pampas, seus alagados abundantes em dourados, os sertões; e vieram provar o arroz com pequi do Planalto Central. É claro que não vieram de mãos vazias. Ninguém é de ferro para comer arroz com pequi todas as semanas. No país todo você encontra restaurantes de comidas regionais, mas não é à cozinha profissional que estou me referindo, estou falando do dia-a-dia, da cozinha nossa do cotidiano. É você subir em um prédio residencial e sentir o aroma de todos estes pratos distintamente e depois todos misturados. A carne de sol, a buchada de bode, o alho do feijão mineiro, a caldeirada de jaraqui ou de piraputanga, a carne churrasqueada com queijo do sertão, mussarela, farinha de mandioca e de milho. Não estranhe, caso veja ombreando o chimarrão e o tererê. O açaí, o umbu, a manga e a mangaba. O dendê, o coentro, a salsa, a rúcula e o jambú aromatizando o mesmo ambiente. Trouxeram também a cultura regional sobre aquele bicho quase pré-histórico que antigamente valia um reino, o tal do cavalo. Cercam o bicho de mimos, mas os colocam nas rinhas. Adestramento, salto, vaquejada, laço, bezerro, enduro, corridas, baliza... Cada um na sua, mas você pode escolher.

É claro que tudo isso faz parte do meu viver, é a minha cultura e a dos meus concidadãos. Gosto e sou feliz por morar aqui. A mistura de costumes, sotaques e as variações regionais a que é submetida a língua única deste país, fazem deste povo algo bem integrado à globalização do mundo. Isto não quer dizer que não haja o tal do preconceito, que por vezes ganha um colorido todo especial em função do linguajar múltiplo.

No meu caso, só porque não conheci meu pai, tenho muitos adjetivos à escolha. Ontem um colega do colégio me chamou de “Filha de cuia”. Novidade para mim; corri ao dicionário. Está cheio de outros filhos com os quais já me nomearam, mas este não está lá. Fui atrás do usuário.

– Qual é? Explica aí!

– Uma coisa imprestável que só garante a sobrevivência da espécie porque envolve a semente em puro amargor, e só tem serventia quando está arreganhada e oca. Quem quer ter uma mãe amarga ou vazia e com as bandas abertas a qualquer um?

– Valeu, “cara”!

Fui andando. Nunca fiz debate com ninguém, neste ponto sou bem egoísta. Guardo minhas conclusões só para mim. A mãe, no caso, não era tão ruim assim, pelo menos ela esteve presente. Ruim era quando eu não conseguia chegar a conclusão alguma, tipo:

Filho de quenga. O meu “Aurélio” diz que quenga é o feminino de quengo, cabeça, mas também pode ser um guisado de galinha com quiabo ou uma banda de coco. No caso da banda de coco, eu voltaria à história da cuia. Se bem que coco é uma delícia. Na cabeça, tem espertezas e burrices, é, pode ser que eu seja o fruto de um engano. Mas não me sinto assim. E aquela coisa de mineiro, guisado de galinha com quiabo!? Deve dar um mingau que desce fácil garganta abaixo. Será que minha mãe era assim? Fácil de ser comida? É coisa inconclusa.

Passo por todas as definições das mais chulas até as jurídicas, mas de tudo que consta no “Aurélio”, tem uma que sempre me incomodou.

Filho das ervas.

Fiquei com aquilo na cabeça. Nunca ninguém a usara comigo. Filhote de godero, filhote de chupim, filho de chocadeira e filho de moça, filho de prima, filho de esquina, já tinham usado, mesmo não estando lá no dicionário. Talvez, filho das ervas seja uma expressão oriunda do Amazonas, mas não tenho certeza. Meus amigos de Manaus e do Xapuri, que fazem um fantástico tambaqui na brasa, nunca a usaram. Mas a expressão retumba aqui no meu quengo, cabeça, cachola, cuca, coco, cuia, ideia, grimpa, caixa de ressonância, poupança, sinagoga...

Um dia, durante o futebol, muitas caneladas e palavrões, alguém desabafou para cima de mim.

– Também! Criada guaxo, como tu! Esperar o quê, tchê!?

Desenrosquei minhas pernas das dele, ajeitei o sutiã, que deixara à mostra mais do que eu queria quando caí, e saí mancando da quadra. Longe dos olhos do professor, esqueci a manqueira e corri para o “pai de todos nós”. E lá estava. É claro que não fui procurar a “tchê”, isso por aqui é normal, assim como o “uái”, o “vixi” e o “óxente”. O que achei foi o tal guaxo.

Guaxo. – A grafia está corrompida, deveria ser guacho, com ch, que tem muita força na matriz, mas ao aportuguesamento é dado estas permissividades. Enquadra plantas, animais, crianças e passarinhos – acredito que sirva para toda espécie de vida – criada longe dos cuidados da mãe ou do pai ou deixada ao léu. Ao deus-dará.

Eu nunca fui ou me senti uma criança abandonada. Pai eu não conheço, meu sobrenome é emprestado do pai da minha mãe. Mas ninguém naquele colégio poderia dizer que era mais presente que minha mãe. Portanto, aquele, “barriga verde”, não sabia o que estava falando. É claro que, os seios da minha mãe nunca produziram uma gota de leite, mas isso não é coisa que se fala com qualquer um. E se eu quisesse, ela não me negaria nenhum dos dois, mesmo na idade em que eu me encontro hoje. Ela é uma pessoa bem resolvida. Tem um bom status social, tem seus namorados, é charmosa, bonita, e elegante. É solteira por opção e não por falta de candidatos. Os namorados aparecem lá em casa para festas e recepções, nunca para dormir. O mundo tem outras camas além da dela. Qualquer hora ou dia eu posso entrar embaixo dos lençóis dela sem problema algum. Chamá-la de prostituta seria maledicência infundada. O pai dela sempre teve posses e ela desde jovem fixou seus objetivos no estudo e pesquisa do comportamento humano, não só o sexual. Ali na cama que ela tem até hoje, na casa do pai dela, nunca dormiu ninguém, além de mim, que não pudesse ser chamado de minha mãe. Estou explicando isso, para que vocês possam entender que eu posso ser “filha das ervas” e criada “guaxo”, mas tive uma mãe que só não me deu leite, o restante, se não tive foi porque não pedi. Quando alguém critica meus atos e pensamentos, dizendo que são consequências da orientação que tive, eu acho justo isentar minha mãe. A filosofia dela, talvez esteja muito adiantada para nosso tempo, mas sempre foi o do, “viva e deixe viver”, nunca disse para que eu vivesse como ela, mas ela vive como quer. Se a maré não está para peixe ela se vira com moluscos ou com um bife, na falta de “picanha” encara uma “maminha”. Os meus problemas, eu exponho e ela indica as possíveis saídas, os caminhos da solução, eu é que escolho. Ela nunca mandou que eu chutasse a canela de ninguém, quando eu chuto é por que foi uma decisão minha.

Voltando ao “Aurélio”, vou riscar um tanto de filhos que tem lá que não me definem. Vai sobreviver, o adotado, o filho das ervas, e vou incluir o guaxo, que não está lá, mas eu acho que é um tipo de filho. Mesmo assim vai ficar só porque faltou-me o leite da minha mãe genética, e não por eu ter sido criada sem mãe. Se todos tivessem uma mãe, como a mulher que me criou e a quem tenho o maior orgulho de chamar de mãe, não haveria criança ou adolescente infeliz neste mundo. Posso dizer que ela não usa o norte para se orientar, usa o amor. Em sua rosa dos ventos, os pontos cardeais gravados é o amor, o carinho, a tolerância e o perdão.

Não me importa que nesta hora você se lembre do Raul Seixas, “eu me pergunto, e daí?”. Bem, daí é que teve um experto que disse que ser sábio é separar o que deve ser aceito do que deve ser mudado. Nestas definições, que eu aceito – rejeito todas as outras que me imputaram – tem uma que acho que posso mudar. Se filho das ervas, é a definição de alguém que não conhece o pai, vou mostrar que esta não é uma definição definitiva, vou conhecer meu pai. Vou fazer esta última prova do PAS, (vestibular seriado) e vou me dedicar a isto. Quero meu pai na minha colação de grau da faculdade. Só estará dispensado se estiver morto ou se for um zero.