Um Sonho Inesperado
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Controle...
Sempre gostei dessa palavra, ou melhor, sempre gostei do seu significado e como se aplicava a maioria dos meus dias. Era bom medir cada passo e tentar saber o que aconteceria, sem surpresas, sem problemas, mas parecia que ultimamente esse controle havia fugido das minhas mãos.
Acostumada com minha parte no trabalho, e saber que deveria apenas notificar alguma novidade, não pensei que ainda assim pudesse dar algo errado, obviamente que cada homicídio tem sua história e nunca são iguais, porém aquele estava conseguindo se complicar ainda mais do que o normal.
Isso influenciava dos meus horários até o humor de Jane, que cada vez ficava mais frustrada por não encontrar respostas. Nossas pausas para o almoço não batiam, já que ela se recusava a abandonar o que estava fazendo, nem que fosse para se alimentar. Por vezes tentei convencê-la, mas para evitar discussões, deixei com que fizesse as coisas do seu jeito, eu poderia esperar até aquele caso terminar e tudo se resolveria.
Engano...
Nunca gostei dessa palavra, e ironicamente era ela quem mais se mostrava presente nos meus dias.
Ao tentar fazer o que podia para manter minha mente ocupada enquanto esperava o resultado de alguns testes, ouvi aquele pedido de ajuda que não poderia ignorar nem se quisesse, se alguém precisava de mim eu deveria prontamente ajudar, e era o que eu faria, porém ao chegar naquele corredor não vi ninguém, percebi que poderia ter entrado no lugar errado, mas ao notar a porta trancada e como aparentemente nada era simples, eu soube que algo estava errado.
Daquele momento em diante tudo aconteceu muito rápido, desde que havia comprado aquela arma não tive necessidade de usá-la, mas depois de finalmente conseguir destravar a porta e sair, peguei-a e fui em direção a minha sala, de onde ouvia vozes, reconhecendo uma delas como a de Jane.
As poucas aulas de psicologia comportamental que frequentei me foram de grande valia ao chegar e ver aquele homem de costas, apontando a arma para Jane, Korsak demonstrava pura tensão por estar desarmado, o que aliás num primeiro momento não entendi, mas não tive tempo para analisar mais nada, eu fiz o que precisei fazer, sem jamais imaginar que aquilo influenciaria tanto no restante do meu dia.
Lembro que vários meses antes de todo o ocorrido, ao comprar uma arma e ter aulas de tiro, tudo o que eu tinha em mente era ser capaz de zelar pela minha própria segurança, ou pelo menos tentar, não pensei ser o tipo de coisa importante que acarretaria uma discussão entre Jane e eu.
Outro engano.
Eu sabia que ela não estava bem, mas também não quis acreditar que aquele assunto nos colocaria em uma situação tão desconfortável.
Tudo o que eu queria era prestar meu depoimento e ir para casa descansar.
Sempre soube que um dia estressante podia e na maioria dos casos realmente mexia com o sistema nervoso das pessoas, eu mesma durante indeterminada vezes me vi diante de momentos em que tive que me controlar para não perder a calma, porém deveria saber que nem todos possuíam esse controle em nível aproveitável.
Quero dizer, desde que havia conhecido Jane, percebi que seu temperamento era forte, mas algumas vezes até me permitia esquecer isso, ainda mais depois das últimas semanas, onde tudo entre nós aparentava estar ótimo.
Mas aquele dia veio para abalar toda aquela sensação de tranquilidade.
Uma frase atrás da outra, me cobrando, fazendo perguntas, querendo entender cada detalhe, ela queria respostas e eu sempre estive pronta a dá-las, mas não senti que aquele era o lugar certo, estávamos sobrecarregadas, então tentei ao máximo deixar o assunto mais leve, eu devia saber com quem estava lidando, se Jane Rizzoli quer descobrir algo, ela não descansará até conseguir.
Como disse, eu estava cansada, não queria brigar, tentei mostrar minha visão das coisas da melhor maneira possível, mas estava difícil, pensei em conversarmos na minha casa, mas ela parecia estar se afastando, o que ao meu ver não era novidade, apenas me lembrou dos meus tempos de escola, alguém sempre se afastava de Maura Isles, que não entendia os limites e cobranças de uma amizade, que nunca sabia o que contar, e o que guardar pra si.
Amizade...
Jane e eu não éramos apenas amigas, não mais, mas nossa intimidade deveria ajudar nesses casos, só que estava tornando tudo ainda mais complicado.
Depois daquele terrível momento no departamento, fui para casa com a esperança de que logo Jane viria ao meu encontro e pudéssemos enfim resolver tudo.
Sim, esperança.
Nunca fui muito conhecida por ter expectativas sobre nada, sempre racional e realista, mas naquele momento me peguei desejando que tudo terminasse bem, em todos os sentidos.
O trânsito em Boston estava como de costume, não demorei muito para chegar em casa, coloquei meu carro na garagem e logo que entrei, vi Angela limpando algo no balcão da cozinha.
– Angela, eu já disse que você não tem que fazer isso.
Ao ouvir minha voz, se virou para mim.
– E eu já disse que não me importo, além do mais, é uma boa distração.
– Pensei que o trabalho ocupasse bem a sua mente. – coloquei minha bolsa e casaco em cima do sofá.
– Eu também Maura, mas parece que quanto mais velha se fica, mais você precisa se manter ocupada. – sorriu e voltou sua atenção ao que estava fazendo.
– Você não está velha! – afirmei, e era verdade, Angela aparentava muitos poucos sinais de idade.
– É uma pena o espelho não concordar com você, querida. – me preparei para argumentar, mas ela me interrompeu – Mas mudando de assunto... Por que você... – olhou para o relógio na parede e depois para mim – Você voltou mais cedo do que o normal, ou estou enganada?
– Está certa. – me aproximei – O dia não foi muito bom, mas eu fiz tudo o que pude e vim pra casa.
– E por que Jane não veio com você? – mudou a postura – Ela está bem?
– Sim está, não se preocupe. – relaxou – Ela apenas vai ficar até mais tarde, relatório eu suponho.
– Supõe? – afirmei com a cabeça – Mas você detesta supor.
Ótimo, até Angela notou minha mudança.
– Angela, eu... – o que eu deveria dizer? Não queria incomodá-la, mas também não poderia mentir. – Estou com um pouco de dor de cabeça.
Bem, não era uma mentira, eu realmente estava.
– Eu não nasci ontem Maura, o que aconteceu?
– Por que tem que ter acontecido alguma coisa? – perguntei com um leve sorriso.
– Porque hoje de manhã você saiu daqui bem, como sempre, e agora volta com essa cara de quem teve o pior dia possível, e tudo bem, essa parte eu não acho difícil tendo em vista o seu trabalho, mas ainda assim algo não se encaixa.
– Como o que?
– Jane não estar aqui, você almoçando sozinha hoje... – ela reparou? – E caso esteja se perguntando, sim, eu reparei.
Foi estranho.
– Ok, eu devo dizer que não foi um dos meus melhores dias, nem pra Jane, mas foram problemas com o caso e enfim...
– Está resolvido agora?
– O que? O caso? – ela assentiu – Sim.
– Não deve ter sido do melhor jeito, eu suponho.
– Não mesmo.
– Aposto que mexeu com vocês duas, quero dizer...
– Angela, eu não posso...
– Eu sei! – ergueu os braços em sinal de rendição – Jane te mataria se você me contasse.
– Não literalmente, mas sim.
– Tudo bem, eu entendo, embora esteja morrendo de curiosidade, eu entendo.
– Eu vou tomar um banho e descansar um pouco. – fui pegar minhas coisas do sofá.
– Certo... E Maura?
Voltei do meio do corredor.
– Sim?
– Tome algo pra essa dor de cabeça.
– Eu vou, obrigada. – sorri.
Ao deixar a água cair sobre meu corpo procurei esquecer o que havia dado errado naquele dia, e funcionou por alguns minutos, até de repente tudo voltar.
Terminei meu banho e sai enrolada na toalha, sequei meu cabelo e procurei por uma roupa confortável, mas de boa aparência, afinal, Jane poderia aparecer a qualquer momento, e minha vaidade falou mais alto.
Desci e ao chegar à cozinha não avistei Angela, que já deveria ter ido para casa de hóspedes, deixando o balcão impecável.
Sorri ao notar isso, por mais que eu tentasse afastá-la dos serviços domésticos, ela insistia em continuar, pois bem, a teimosia era realmente um marco na família Rizzoli.
Me servi de uma taça de vinho, sempre me ajudava a pensar, e sentei no sofá, com apenas o silêncio me fazendo companhia, sem me preocupar em ligar a televisão, era melhor assim.
Não foi difícil chegar à conclusão de que eu deveria ter contado sobre minha arma para Jane, não havia feito por mal, mas ainda assim isso a tinha deixado aborrecida, não me custaria nada pedir desculpas.
Não faria isso por muitas pessoas, admitir algo que julgava tão banal, mas por ela, sem duvidas eu faria.
E mais pensamentos otimistas, não estava reconhecendo a mim mesma.
Mas...
Detestava hipóteses e pronunciá-las então era meu pior pesadelo, mas naquela noite não pude deixar de pensar o que aconteceria caso mesmo após um pedido de desculpas, outra discussão surgisse, e com isso, minha dor de cabeça que aparentava estar desaparecendo, voltou, e com força total.
Levantei e fui em busca de um remédio no armário, enchi um copo com água e com a ajuda do líquido, engoli o comprimido.
Fechei os olhos e respirei fundo, então ouvi meu celular tocar.
Ainda bem que o havia trazido comigo, e o peguei de cima do sofá.
Olhei no visor ainda com a leve porém persistente esperança de que fosse Jane, mas não, o nome era outro.
– Sargento Korsak?
– Hey Dra. Isles, eu atrapalho?
– Oh não, eu estava só... – era pessoal – Só pensando.
Foi o melhor que consegui.
– Certo, então... Frost e eu estamos aqui no Dirty e pensamos, por que não te chamar?
Eu não entendi.
Certo, eles também eram meus amigos, mas nunca me convidaram para um lugar com apenas os dois, Jane sempre estava presente.
– Eu não...
– Jane está aqui também! – essa parte pelo menos estava explicada – Sabe, se vocês quiserem conversar, pode ser um bom momento.
Então me lembrei, será que Jane havia contado a ele sobre nós?
Da última vez que eu perguntei ela disse que não teve oportunidade, bem, isso foi no dia anterior, as coisas podiam...
– Ainda está aí? – perguntou, ao notar meu repentino silêncio.
– Sim, estou.
– Então, o que me diz?
– Bem, eu não sei, ela sabe que está me ligando?
Demorou um pouco, mas a resposta veio.
– Na verdade não, mas creio que isso não importa.
– Olha, eu não quero deixá-la desconfortável...
E era verdade, eu queria que conversássemos, queria muito, mas não daquele jeito, não sem saber se ela também queria, e por meio de alguma armação, ainda que repleta de boas intenções.
– Só venha, ok? O resto se ajeita, Jane pode ser cabeça dura, mas ela não é louca de estragar o que vocês têm por bobagem.
O que nós temos?
Certo, ele sabia de algo, e eu tinha que tomar uma decisão.
– Está bem, estou indo.
– Bom, até logo.
– Até. – e desliguei o celular.
Naquele momento agradeci mentalmente por ter colocado uma roupa apropriada, assim economizei meu tempo, sem precisar escolher outra.
Como de costume subi até meu quarto e olhei meu cabelo, estava tudo certo, peguei minha bolsa com a chave do carro e coloquei o celular dentro.
Desci e rapidamente escrevi um bilhete para Angela, avisando que havia saído, caso ela voltasse não se preocuparia comigo, e o fixei na porta para que assim que entrasse, o visse.
Apaguei as luzes e saí, tirei meu carro da garagem, verifiquei se o portão estava realmente fechado, e segui rumo ao Dirty Robber, com o trânsito um pouco mais agitado do que quando voltava do departamento, mas isso devido ao horário.
Em menos de dez minutos já havia chegado, estacionei o carro na entrada e notei o movimento lá dentro, bem, estava cheio, e era uma noite comum.
Ao entrar procurei por rostos conhecidos, e logo avistei Frost, e me aproximando vi Korsak sentado em frente a ele.
– Boa noite. – cumprimentei ao parar do lado da mesa deles.
– Boa noite. – responderam em uníssono.
Olhei para os lados procurando por Jane.
– Ela está ali, no bar. – Korsak apontou com a cabeça.
Me virei e logo a vi, sentada em um dos bancos, com uma roupa diferente, o que significava que não tinha vindo do trabalho, o cabelo mais desgrenhado que o de costume, o que só acontecia quando o lavava e deixava que secasse naturalmente.
Comecei a pensar no que dizer, em chamá-la para sairmos dali para que pudéssemos conversar civilizadamente, esperando que daquela vez ela me desse uma resposta concreta.
Então ao me desconcentrar por um instante de tudo isso, notei uma mulher ao lado dela, rosto e corpo muito bonitos, pele e cabelos bem cuidados, postura descontraída e sorria sem parar.
Sorria para Jane.
Eu sabia o que era aquilo, ela estava flertando.
O que eu senti?
Gostaria de poder explicar com certeza.
Era como se algo esquentasse dentro de mim, mesmo sabendo que isso era fisicamente impossível no momento.
Minha respiração se tornou irregular e mudei o peso de perna, recorrendo aquele meu velho hábito de girar meu anel, assim como fazia quando estava nervosa.
Respire Maura, quem sabe não é uma velha amiga?
Disse para mim mesma, um claro sinal de que eu realmente não estava bem.
Aquilo era completamente irracional, e de acordo com os indícios eu estava diante de um sentimento de reação complexa a uma ameaça perceptível, conhecido popularmente como ciúmes.
– Dra. Isles? Está tudo bem? – Frost perguntou, e eu me virei para dar atenção a ele.
– Claro, só preciso de um momento.
E voltei a encará-las.
Bem, eu precisava fazer alguma coisa, não tinha ido até lá à toa, Jane sorria vez ou outra em resposta, mas sua expressão corporal indicava desconforto.
Não fazia sentido.
Com uma coragem que sinceramente ainda não sei de onde tirei, fui em direção as duas, sem ter a menor ideia do que fazer a seguir, o que para mim era um claro sinal de perigo.
Eu não era muito boa em agir por impulso.
Chamei por Jane com certo cuidado, mas quando percebi, meu tom saiu mais irritado do que eu pretendia, e depois das apresentações feitas, me permiti pensar que havia julgado a tal mulher — chamada Sophia — mal, e que todas aquelas sensações de alguns minutos atrás eram apenas resultado do dia estressante que tive.
Outro engano, pois assim que Jane anunciou que precisava ir embora, ela se preparou para retirar algo do bolso de trás da calça, e eu logo soube o que era.
Ao ter um vislumbre do cartão branco, senti aquela queimação novamente, mas não dei tempo para que piorasse e saí, parando rapidamente para falar com Frost e Korsak.
– Estou indo, tenham uma boa noite, nos vemos amanhã.
– Mas já? – perguntou Korsak, e ao me ver assentir, continuou – Tudo bem, boa noite.
– É, boa noite. – Frost desejou.
Passei por eles e saí, sentindo o vento frio das ruas, o que me fez pensar que eu deveria ter levado um casaco, e a única coisa boa naquilo tudo era que mesmo depois de ser exposta aquela situação, minha dor de cabeça havia passado.
Então ouvi Jane chamar meu nome, e tudo aconteceu rápido outra vez, evitamos uma discussão na calçada, eu estava cansada demais pra isso, e sabia que ela também, mas ao ver Sophia se preparando para ir embora não pude controlar a mim mesma, era como se as palavras simplesmente saíssem da minha boca, sem que eu ao menos pudesse pensar sobre elas antes.
Logo estávamos indo rumo a minha casa, cada uma em seu próprio carro, assim tive tempo para pensar no que diria quando chegássemos, mas não resolveu muita coisa, já que enquanto guardava meu carro de volta na garagem, me vi diante da mesma falta de palavras.
Isso não era bom, eu não gostava de não saber o que dizer.
Entrei em casa, esperei Jane sair de seu carro e deixei que fechasse a porta pra mim.
Coloquei minha bolsa em cima do sofá e fui em direção à cozinha, parando rapidamente para ver o bilhete fixado a porta, que agora continha um “Ok” no final, indicando que Angela o havia lido.
Somente então reparei em Jane parada ao lado do balcão, passando os dedos pela borda e com olhar perdido na madeira.
Me preparei para começar, mas ela foi mais rápida.
– Você vai falar alguma coisa ou a gente vai continuar nesse silêncio pra sempre?
Olhou pra mim.
– Eu pretendia, mas você se adiantou.
– Devo pedir desculpas? – eu ri e ela percebeu – O que foi?
– Você não consegue parar?
– Parar com o que?
– Essa postura de defesa, eu não quero brigar Jane, só conversar, então seria útil você parar de tentar me provocar.
– Eu não estava fazendo isso.
– Tem certeza? – perguntei enquanto pegava uma garrafa de vinho.
Ela não respondeu, então me virei para olhá-la.
– Não... – disse com um meio sorriso.
– Foi o que eu pensei. – peguei duas taças – Me acompanha? – perguntei com elas nas mãos, e Jane assentiu.
– Você está brava? – perguntou.
– Não. – respondi naturalmente.
– Sério? – assenti – Está o que então?
– Cansada. – notei quando abaixou o olhar – Não do jeito que você pensa, eu me refiro ao dia que tivemos.
– E desde quando você sabe o que eu penso? Agora pode ler mentes também?
– Não, até porque eu não acredito que algum ser humano realmente possua essa capacidade. – enchi uma taça.
– Sei... Pensei que ia me acusar da tal postura de defesa de novo.
– Não precisei, dessa vez você só estava sendo... Você. – enchi a outra taça e a entreguei pra ela.
– Não sei se isso é uma ofensa ou um elogio. – bebeu um pouco.
– Elogio Jane, elogio. – sorri.
Ficamos alguns segundos em silêncio, era minha segunda taça naquela noite, quando geralmente só tomava uma, esse tipo de mudança andava ocorrendo muito ultimamente, mas não dei importância.
– Então... – Jane começou e eu me preparei para ouvi-la me cobrar um pedido de desculpas – Acho que eu te devo desculpas. – falou enquanto olhava o vinho dentro da taça, e depois mudou sua atenção para mim.
O que?
Eu tinha ouvido corretamente?
– Você acha? – coloquei minha taça no balcão.
– Vamos Maura, também não precisa tripudiar.
– Eu não estou fazendo isso, só estou... Surpresa. – dei de ombros.
– Mesmo? – assenti – Você realmente não acreditava que eu ia pedir desculpas?
– Eu não esperava, essa é a palavra certa.
– Eu poderia ficar ofendida com isso, mas não, vou te dar algum crédito dessa vez, nem eu mesma pensei que ia.
– Bem, nesse caso... – sorri – Desculpas aceitas, e eu entendo, o dia de hoje não foi fácil, pra nenhuma de nós.
– É, mas mesmo assim eu não devia ter descontado em você, e sei que eu disse que não era isso que eu estava fazendo, mas você sabe que era, eu também sei, então vamos nos poupar um tempo aqui. – gesticulou entre nós duas e sorriu.
– Tudo bem. – bebi mais um gole de vinho – E eu também preciso me desculpar.
– Precisa?
– Agora é você quem está tripudiando.
– O que? Não, eu... – começou – Ok, talvez um pouco. – sorriu e bebeu mais vinho.
– De qualquer maneira, agora eu sei que devia ter contado sobre a minha arma e as aulas de tiro, sinto muito.
– Não é grande coisa. – estranhei o comentário e ela percebeu – Quero dizer, é bom você poder cuidar de si mesma.
– Sério? Então isso não mexeu nem um pouco com o seu ego?
– Claro que não.
– Sabe, em momentos como esse eu gostaria que você não pudesse mentir, como eu.
– Que tipo de detetive eu seria se não pudesse mentir?
– Um tipo inusitado, eu suponho.
– É... Espera, você não gosta de supor.
Eu ri.
– Você combinou com a sua mãe de me dizer isso também?
– Não, por quê?
– Não importa. – eu sorri e ela viu que não importava mesmo.
– Certo, e só pra você saber, suas desculpas foram aceitas também, pode respirar com tranquilidade agora.
– Mas eu estava respirando...
– É só modo de falar, Maura.
– Claro... – tentei disfarçar, eu nunca melhorava nesse quesito.
Mais algum silêncio...
– Estou com fome. – Jane disse.
– Eu posso preparar algo...
– Ou eu posso chamar minha mãe, já que você demora séculos pra fazer aqueles pratos naturebas.
Me virei e fui em direção a pia, mas deixei cair a rolha do vinho e abaixei para pegá-la, enquanto falava.
– Você não vai chamá-la, já é tarde, ela deve estar dormindo.
– Bom, mesmo assim eu... – e parou, fazendo com que eu me intrigasse e virasse para olhá-la, que estava parada a poucos metros de mim, com o olhar fixo em algum ponto perdido na minha direção – Quer saber? Você está certa, deixa minha mãe em paz, é melhor.
Eu podia jurar que a ouvi murmurar algo sobre privacidade depois disso, mas deixei passar.
– Sábia decisão.
– É, mas não pensa que você vai cozinhar não.
– Por quê?
– Porque eu estou com fome, preciso de comida rápida, não posso esperar até meus cabelos ficarem brancos pra você terminar o jantar.
Ela era tão impaciente.
– Você é muito exagerada, eu não demoraria tanto.
– Prefiro não pagar pra ver. – pegou o celular do bolso e pediu uma pizza.
– Pizza?
– Sim.
– Mas está tarde, nossos organismos não conseguem digerir massa tão rápido.
– Meu organismo não liga pra isso, contanto que eu coma algo.
Desisti, sabia que não ia conseguir convencê-la, e pra quem tinha acabado de se livrar da tensão de um dia inteiro, eu não quis arriscar começar tudo de novo.
Logo a pizza chegou, nos servimos e comemos, conversamos um pouco, coisas banais, tudo menos os acontecimentos daquele dia, não precisávamos mais nos obrigar a pensar nisso.
Enquanto eu arrumava a mesa, acabei deixando um pouco de suco cair na toalha, e tratei de trocá-la por outra, mas ao fazer isso pude notar Jane me observando, até que se tornou impossível não comentar.
– O que está olhando?
– É só que é engraçada essa sua nova habilidade pra derramar as coisas.
– Não é uma habilidade, e eu não faço de propósito.
– Não, eu sei disso, mas sabe o que está faltando você fazer? Não de propósito, é claro...
– O que?
– Molhar sua blusa, que nem naquela noite.
– Pra assim você poder ver meus seios? – perguntei com um sorriso.
– Sim, você pode dizer isso.
Eu ri.
– Aquilo também não foi por querer... – ela sorriu – E eu entendo que como essa blusa é branca, assim como a que eu estava usando naquela noite, te faz lembrar disso, mas... – resolvi arriscar – Você não precisa que ela fique transparente pra poder ver meus seios, não mais, pelo menos.
– Maura...
– Jane...
Sorri novamente, dessa vez com certa malícia, eu confesso.
Em menos de dois segundos ela estava com o corpo junto ao meu, nos beijamos alternando entre sutileza e pressa, o desejo aumentando cada vez mais. Por fim, ao vermos onde aquilo acabaria, e em meio a passos instáveis e sem sequer nos separarmos, fomos em direção ao andar de cima.
E uma hora depois estávamos nós duas, deitadas na minha cama, exaustas, ofegantes e com sorrisos em nossos lábios.
Respirei o cheiro dela agora impregnado na minha pele, ali abraçadas, era tão bom.
– Nós devíamos brigar mais vezes. – ela disse.
Levantei a cabeça.
– O que? Por quê?
– Porque se toda vezes que brigarmos, a gente terminar o dia assim, vale a pena, certo? – sorriu.
– Eu vejo aonde quer chegar... – pensei por um momento – Por mim tudo bem, desde que termine sempre desse jeito.
– Sua mente suja...
– Você começou.
Sorrimos e nos beijamos por mais algum tempo, até ficarmos apenas envolvidas nos braços uma da outra.
Não sei por que motivo comecei a pensar no tiro disparado por mim, e até hoje não consigo encontrar razão para trazer aquilo de volta a memória, mas quando vi já estava lá.
Revivi cada segundo na minha mente, meus passos pelos corredores do necrotério e o barulho que meus saltos produziam em contato com o chão.
Quase pude sentir a arma na minha mão.
Lembrei do que senti ao ver aquele homem apontando a arma para Jane, e finalmente, em como mais do que imediatamente atirei nele.
Sem pensar, automaticamente.
Não senti nada, não pensei em nada, apenas no que eu precisava fazer.
Tentei profundamente ignorar a ideia que estava formando e me concentrar somente em ter feito aquilo para o bem, mas logo tudo voltou e aquela apreensão me dominou mais uma vez, agora com mais força.
Eu não devia ter começado a pensar naquilo, seria melhor, pelo menos não teria me confrontado com todas aquelas perguntas na minha cabeça, para as quais as respostas estavam numa vida que eu não tive, mas que em outras circunstâncias poderia ter tido, fazendo de mim uma pessoa diferente, e não de um jeito bom.
Não que eu quisesse ter essa vida, mas depois de disparar aquele tiro, comecei a me questionar se aquilo não fazia parte de mim.
Eu era...
Então senti Jane se mexer embaixo de mim e mudar de posição.
– O que foi? – perguntou ao se sentar, e eu me arrumar em uma posição confortável ao seu lado, nós duas encostadas na cabeceira da cama.
– Por que a pergunta?
– Você ficou séria do nada.
Eu não podia mentir, mas não queria incomodá-la com isso, era passageiro, não importava, certo?
Precisava ganhar tempo.
– Que horas são? Meu relógio está quebrado.
Olhou-me desconfiada por alguns instantes, mas enfim cedeu.
– Bom, meu celular está no bolso da minha calça e... – acompanhei seu olhar e vi algo branco saindo do bolso da calça, reconhecendo como o cartão de Sophia – Deixa que eu pego.
Fez menção de levantar, mas eu segurei seu pulso.
– Eu posso pegar.
– Não, eu...
Levantei antes que ela pudesse, me abaixei e peguei o cartão.
– E o celular Maura? Você não queria saber as horas?
– Ah isso é muito mais interessante... – entrei no banheiro e com o pé empurrei a lata de lixo até onde Jane pudesse ver da cama – Sophia Rodgers? Bonito nome...
E com isso lentamente despedacei o cartão, desfrutando de cada segundo, ao final, olhei para Jane enquanto mantinha o pedal da lata pressionado e, portanto a mantendo aberta, e fui aos poucos me desfazendo do restante do papel em mãos, agora picotado.
Soltei o pedal, devolvi a lata ao seu lugar, e voltei para a cama.
– Você fez mesmo o que eu acabei de te ver fazendo? – assenti com um sorriso – Não é como se eu pretendesse ligar pra ela, você sabe.
– É claro, mas você me conhece, gosto de ter certeza e eliminar todos os futuros riscos, antes que se torne um problema real.
Notei quando seu olhos mudaram, escureceram para ser mais exata.
Se aproximou de mim e me beijou.
Mesmo que não propositalmente, aquele ato fez com que ela esquecesse qualquer pergunta para a qual eu não poderia dar uma resposta, durante a madrugada inteira.
Enfim depois de algum tempo fechei meus olhos desejando poder acordar sem aqueles pensamentos, eu só precisava de tempo e tudo ficaria bem, eu podia controlar isso.
Controle...
Não foi pela ausência dessa palavra na minha vida, que todo esse problema começou?
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