Um Sonho Inesperado
19 Capítulo 19
Notas iniciais
– Ah não... – reclamei quando vi as luzes se apagarem – Não, não, não... – corri em direção às portas, deixando Maura se olhando no espelho.
Esbarrei em algumas prateleiras fazendo barulho, xinguei mentalmente e verbalmente, até ter certeza que havia chegado em frente a imensa porta de vidro, que agora estava trancada.
Vi uma pequena luz verde piscando, era o alarme ativado.
Droga!
Tentei respirar fundo, juro que tentei, precisava manter a calma, aquilo era só um probleminha passageiro, eu daria um jeito, então me assustei ao sentir um leve toque no meu ombro.
– O que aconteceu? – Maura perguntou ao parar do meu lado, era difícil enxergar direito por causa da falta de luz, mas seu cabelo loiro me guiou para ver onde seu rosto estava.
– O que parece? Estamos trancadas!
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Mais cedo naquele dia...
A luz incomodou meus olhos, pra variar.
Pisquei algumas vezes e lembrei onde estava, ainda fazendo careta passei a mão pelo lençol esperando encontrar Maura deitada, mas tudo o que senti foi o tecido frio, sinal de que ela já tinha levantado fazia tempo.
Levantei meio grogue, ainda estava com sono, não havia dormido muito e o motivo não poderia ser melhor, as noites que passávamos juntas não paravam de me impressionar.
Olhei para o chão a procura das minhas roupas, mas não as vi, e ao olhar para o lado lá estavam elas, dobradas em cima da cômoda, peguei-as e vesti.
Meu cabelo estava uma bagunça, mas isso não era novidade.
Calcei meus sapatos e saí do quarto, senti um cheiro forte de café vindo da cozinha, ao chegar lá avistei Maura de costas, mexendo em algo perto da pia.
– Por que você sempre levanta antes de mim?
Ela virou rapidamente e sorriu.
– Porque eu estou acostumada a acordar bem cedo, e a propósito, bom dia.
– Ah é, bom dia. – bocejei e vi o café pronto pelo vidro da máquina – Você deve estar acordada a bastante tempo.
– O que te faz pensar assim?
– O café já está pronto. – apontei para a máquina – Sendo que demora no mínimo duas horas pra isso, então... – sorri.
– Você e seus exageros... – virou de costas novamente, aparentemente a procura de pratos – Eu levantei tem no máximo trinta minutos.
– Sei... – vi quando ela pegou dois pratos – Eu não quero comer. – avisei e ela parou e olhou pra mim, enquanto colocava as coisas no balcão suavemente.
– Mas precisa, o café da manhã é a refeição mais importante do dia, Jane.
– E eu como todos os dias, mas hoje não, tá? Só quero café.
– Isso não faz bem ao seu estômago, a cafeína é muito forte para ser ingerida sozinha, coma algo primeiro. – colocou uma panqueca num prato e o empurrou na minha direção.
– Não, obrigada. – empurrei de volta.
– Você é tão...
Mas ela não teve tempo pra terminar, como logo minha mãe entrou pela porta, nada discreta como sempre, e eu agradeci mentalmente por estar com minhas roupas normais e Maura... Bem, ela estava de camisola, mas a casa era dela, não fazia diferença.
Eu só não queria minha mãe com seu olhar curioso em cima de mim.
– Bom dia! — cumprimentou.
– Bom dia, Angela. – Maura respondeu.
– Hey, Ma.
– Isso é jeito de falar? Por que não pode ser gentil como a Maura?
– Porque eu ainda não bebi meu café. – dei a volta e fui atrás de uma xícara, que logo encontrei e despejei um pouco de café.
– Ela já comeu? – ouvi minha mãe perguntar.
– Não, está se recusando.
– Não tem jeito mesmo.
– Eu sei, eu disse o quanto é prejudicial...
Virei rápido, aquilo parecia um complô contra mim.
– Eu ainda estou aqui, perceberam? Posso ouvir vocês.
– Então por que continua teimando comigo? – Maura perguntou cruzando os braços e por um breve momento me permiti achar aquilo adorável.
– Porque eu acho que tenho o direito de escolher o que vou e o que não... – eu terminaria, mas ao dar alguns passos tropecei em algo duro, e olhando pra baixo vi Bass – Ai, mas essa tartaruga também! Ele não estava aqui antes.
– Cágado. – as duas me corrigiram juntas, e tive a certeza de que estava realmente em desvantagem – E sim, ele estava, você que não o viu. – Maura terminou.
– Só falta dizer que é porque eu não comi nada.
– Bem...
– Sério? – interrompi e coloquei a xícara no balcão, mas ao me distrair notei minha mãe olhando para mim com um sorriso – O que foi? – perguntei.
– O que foi o quê?
– Esse sorrisinho...
– Não posso mais sorrir? – mas não me deu tempo pra responder – Ok, eu vou indo, só passei pra ver vocês duas antes de ir trabalhar.
Nós duas?
Então ela já esperava me encontrar ali.
Eu não soube se ficava aliviada ou constrangida, e na duvida, me calei.
– Está entrando mais cedo? – Maura perguntou.
– Sim, mas só hoje. Preciso adiantar umas coisas. – disse enquanto caminhava para a porta da frente – Vejo vocês mais tarde, tchau! – acenou e saiu.
Maura acenou de volta e eu só balancei a cabeça em acordo, com um leve sorriso.
– Como isso é possível? – ela perguntou assim que estávamos sozinhas.
– O que?
– Que eu seja mais gentil com a sua mãe, do que você mesma.
– Isso porque você não passou a adolescência na minha casa. – respondi enquanto bebia o café.
– Não deve ter sido tão ruim, você tem tendência a dramatizar os fatos. – disse ao se servir de uma panqueca.
– Não esse, eu falo sério, era sempre uma guerra com as coisas mais bobas que você pode imaginar, precisava ver o que ela fazia pra tentar me convencer a agir e me vestir como uma boneca.
Fiz cara de nojo, mas por dentro me lembrava muito bem dessa parte da minha vida, e embora a criticasse sempre que podia, foi a melhor delas, na qual minhas únicas preocupações eram a escola e manter minha mãe fora do meu quarto.
Sorri ao lembrar disso, bons tempos, as brigas eram tão simples...
– Você não pode culpá-la por isso. – a voz de Maura me “despertou” – É do gosto de muitas mães de meninas, que suas filhas usem roupas femininas.
– Está insinuando algo? – perguntei, ainda que quase deixando um sorriso escapar.
– Sabe que eu nunca insinuo, estou apenas dizendo que não pode culpá-la por seguir um estereótipo.
– Claro, mas eu aposto que a sua mãe nunca precisou te obrigar a andar toda arrumadinha, você devia implorar por vestidos, sapatos e bolsas o tempo todo.
– Nós não estamos falando de mim. – começou a comer.
– Viu com é bom quando o jogo vira?
– Que jogo?
Eu responderia, mas ao observá-la melhor, notei algo diferente, não conseguia dizer exatamente o que era, mas parecia pensativa, distante...
– O que você tem?
– Nada, por quê?
– Tem algo errado, eu sinto.
– Eu já disse Jane, instintos não são...
– Fontes confiáveis. – completei – Sim, eu sei o que você disse, mas não tente mudar de assunto.
– Eu não...
– Maura...
Suspirou e largou o garfo.
– Eu não dormi muito bem, só isso.
– Devo me sentir culpada? – perguntei me aproximando.
– Você? Não, por que acha... – ela começou, mas ao ver meu sorriso malicioso acho que entendeu – Oh... – sorriu – Eu não me referia a isso, até porque, somando o tempo que levamos para nos...
Ai não, ela ia começar a explicar cientificamente e cronologicamente nossa noite, pra variar acabando com a “magia” sem ao menos perceber, eu tinha que fazer alguma coisa, e em menos de dois segundos já estava parada ao lado dela, segurei no seu rosto e beijei-a, assim fazendo com que ficasse quieta.
Era pra ser rápido, mas quando dei por mim eu já havia puxado-a do banco e estávamos de pé, andando atrapalhadas e sem direção pela cozinha, sem nos soltarmos.
O beijo foi ficando mais intenso e eu não poderia ficar mais feliz com isso, senti as mãos de Maura passarem pela minha cintura, apertando cada lugar possível, sorri contra seus lábios e puxei levemente seu cabelo, e ela gemeu em resposta.
Enfim, o ar se tornou necessário, e nos separamos.
– O que foi isso? – ela perguntou, ainda com o rosto avermelhado e respiração ofegante.
– É o meu jeito de te fazer calar a boca, lembra?
Ela só sorriu.
Então como num flash me lembrei de que tinha que ir pra casa, eu havia saído na noite anterior, deixando Jo Friday com comida e água ao deu dispor, mas ela provavelmente precisava sair antes que não se controlasse e sujasse meu apartamento.
Era como um balde de água fria naquele momento, mas eu também devia tomar um banho e trocar de roupa, era sorte ainda não ter sido chamada pra algum caso, e não podia correr o risco disso acontecer e não ter tempo de me arrumar.
– Eu devo ir.
– Por quê?
– Porque preciso ver como a Jo está, tenho que tomar um banho e trocar essa roupa, antes que alguém me ligue e eu fique sem tempo, você sabe.
– Não tem mais nenhuma roupa reserva no seu carro? Poderia tomar banho aqui mesmo.
– Aí está outra coisa que eu tenho que fazer, meu estoque de roupas móveis acabou, tenho que reabastecer. – sorri – E além do mais, minha cachorra não vai abrir a porta e passear sozinha, então...
– Está bem, nos falamos depois?
– Claro, até porque eu duvido que não nos chamem em menos de uma hora. – falei e ela concordou com a cabeça – Tchau. – disse com uma suavidade quem nem eu sabia possuir, enquanto me aproximava.
– Tchau. – respondeu e se inclinou para depositar um leve beijo nos meus lábios.
Nós duas sorrimos e ela me acompanhou até a porta, eu saí, entrei no meu carro, acenei e fui embora.
O caminho todo pensando em como as coisas haviam mudado na minha vida em tão pouco tempo, quem diria que eu estaria saindo da casa de Maura pela manhã, após uma noite de amor?
Era tudo não novo e ainda assim tão familiar, obviamente que nosso grau de intimidade tinha se alterado, mas eu simplesmente não conseguia me importar com isso, era tão natural aos meus olhos, e eu esperava que nunca mudasse.
Logo cheguei em casa, abri a porta e Jo Friday veio agitada, latindo e pulando nas minhas pernas.
– Hey menina, desculpe te deixar sozinha tanto tempo, nem eu sabia que ia demorar assim. – falei enquanto afagava suas orelhas.
Olhei em volta e tudo parecia em ordem, ainda bem.
Peguei sua coleira, coloquei nela e saí.
Retornamos em menos de cinco minutos, tudo igual, assim que a soltei da coleira e a perdi de vista na direção do meu quarto.
Fechei a porta, guardei as coisas e fui para o banheiro, tirei as roupas, liguei o chuveiro e entrei debaixo d’água, procurando relaxar um pouco.
Assim que terminei meu banho, tentei dar um jeito no meu cabelo, e antes de ter um acesso de raiva, consegui deixá-lo como queria, vesti uma roupa e fui pra cozinha, abri a geladeira e então me lembrei de que não podia tomar cerveja, sendo que ainda iria trabalhar.
Suspirei e então ouvi meu celular tocar, mas o som parecia distante, corri em direção ao quarto e o encontrei no chão, no bolso da minha calça, eu estava mais desligada do que nunca, se é que isso era possível.
– Rizzoli... Ok, estou indo.
E como eu disse, o dever nunca me deixava descansar por muito tempo.
Assim que desliguei o celular tratei de colocar um terninho por cima da blusa, pegar minha arma e distintivo, dar uma verificada em Jo, que continuava na sua caminha, mordendo um ursinho, e saí.
Logo cheguei ao meu destino, que era uma garagem abandonada, que abrigava apenas um caminhão velho, e quando digo velho, quero dizer caindo aos pedaços, literalmente.
As viaturas paradas na frente da entrada e os policiais discutindo entre si eram os únicos sinais de vida naquele lugar, geralmente há curiosos em cenas de crimes, sempre alguém que estava passando e viu o tumulto e quer saber o que aconteceu, mas daquela vez foi diferente, não tinha ninguém.
Passei pela linha amarela e a primeira coisa que avistei foi Maura e seu vestido vermelho sangue, abaixada ao lado do corpo. Levantei o olhar e vi Frost e Korsak um pouco atrás dela, me aproximei.
– Bom dia.
– Hey, Jane. – responderam ao mesmo tempo.
– O que temos?
– Homem, aproximadamente trinta anos, sem identificação.
– Não acharam nada com ele? – Frost negou com a cabeça – Quem o encontrou?
– O novo dono do terreno contratou um serviço pra retirar o caminhão, mas aí quando o pessoal chegou e foi abrir o compartimento pra ver se tinha algo dentro, acharam ele.
– O caminhão é do novo dono? – ele negou novamente – Então de quem é?
– Ainda não verifiquei, parece que tem um problema com a placa.
– Ok, deixa isso pra quando voltarmos. – ele assentiu e eu fui em direção a Maura – Hey, Maura.
– Olá, Jane.
– Me diz por favor que esse buraco na testa dele é uma marca de bala. – apontei para o corpo.
– Você sabe que eu não posso fazer isso até realizar a autópsia.
– Nem sei por que eu ainda tento. – sorri fracamente.
– Tudo o que eu posso afirmar é que a temperatura do fígado indica que ele está morto há pelo menos 16 horas.
– Bom, já é alguma coisa, obrigada. – ela sorriu em resposta e eu me afastei.
O dia só estava começando...
Pouco antes do almoço, conseguimos uma identificação através do banco de dados dos desaparecidos, ao menos a vítima não era mais um corpo sem nome.
A família foi chamada e enquanto esperávamos que chegassem, meu celular tocou.
Encontrei algo.
Maura
– Maura achou alguma coisa, eu vou descer, quando os pais dele chegarem você me liga? – perguntei para Korsak e ele assentiu.
Entrei no elevador e logo estava no andar certo, abri a porta e dei de cara com Maura mexendo em algo dentro do corpo.
Às vezes eu ainda me impressionava com a naturalidade com que ela fazia aquilo.
– Você chamou?
Ela olhou para mim.
– Sim... – pegou algo numa das tigelas de alumínio e me mostrou – Vê isso? – eu assenti e olhei melhor o que parecia um pedaço minúsculo de pano branco – Eu encontrei nas vias nasais, e está coberto com algum tipo de química.
– Então, sufocaram ele com um pedaço de pano molhado no álcool?
– Eu não disse isso.
– Claro que não, mas o que mais pode fazer um cara desmaiar que não deixe pelo menos um galo na cabeça? Alguma droga, talvez?
– Não tenho como saber ainda, o resultado do exame toxicológico não está pronto.
– Ou seja, esse pedaço de pano é tudo o que temos? – ela assentiu e eu sorri – Viu?
– Desculpe, eu não sabia que estávamos competindo. – continuou olhando o pano branco – Na verdade, eu analisei o líquido e encontrei traços de etanol...
– Ou seja, álcool. – completei e ela me olhou – Que é? Eu não faltei em todas as aulas de química.
– Eu não posso afirmar o que é ainda, Jane.
– Ok, não precisa. Mais alguma coisa?
– Bem, sim. – segurou o braço direito da vítima e com a outra mão pediu que eu me aproximasse – Vê isso?
– Uma tatuagem?
– Eu diria que é uma insígnia. O padrão é muito simétrico, e eu pesquisei pela imagem, é de uma condecoração pela iniciação em um culto.
– Culto? Está dizendo que ele mexia com magia negra?
– Não exatamente, essa é uma área muito vasta, não tenho como saber com certeza o que ele praticava.
– Talvez os pais saibam.
– Conseguiu identificá-lo?
– Sim, Michael Fraizz, 31 anos, solteiro, morava sozinho num bairro não muito agradável, e como se não fosse o bastante, estava desempregado.
– Não era um bom período. – ela disse.
– Não mesmo, talvez seja por isso esse negócio de culto, vai ver estava tentando dar uma guinada na vida, e escolheu o caminho mais fácil... E, mais esquisito também. – completei.
– Você e seus palpites. – retirou as luvas.
Enquanto Maura lavava as mãos, seu celular tocou, ela logo tratou de secá-las e pegou-o, olhou no visor, mas não atendeu.
– Não vai atender?
– Agora não.
– Quem é?
– Hope.
– Eu pensei que as coisas estivessem bem entre vocês duas.
– E estão, é que eu estou focada nesse caso e não quero me desconcentrar, então... – suspirou.
– O que há com você, Maur? – ela me olhou – Sim, porque eu de todas as pessoas sou a prova viva de que você já teve motivos ótimos pra ignorá-la e nunca conseguiu, e agora do nada começa com isso. Tem algo que eu não saiba?
– Eu...
– Você não pode mentir. – relembrei.
– E você adora me lembrar disso.
Eu sorri.
– Não é nada importante, acredite.
– Tem certeza?
– Claro.
Mas eu não acreditei.
Não, meu instinto era bom demais pra acreditar, anos como detetive, treinada pra identificar qualquer sinal de nervosismo, mentiras ou o que quer que fosse.
Havia algo errado, e eu ia descobrir o que era.
E então como sempre, pra me trazer de volta a realidade, meu celular tocou.
– Rizzoli... Chegaram? Tá, eu estou indo. – desliguei – Tenho que ir.
Ela assentiu e me deu um sorriso, fraco, mas ainda um sorriso.
Virei e fui embora.
Comunicar sobre a morte de um parente ou amigo não era tarefa fácil, e não importava quantas vezes eu fizesse isso, nunca melhorava.
Explicar o que tinha acontecido e ainda ter que fazer perguntas, muitas das quais não eram nenhum um pouco delicadas, era difícil, mas também era meu trabalho.
Frost e eu reunimos o máximo de informações possíveis com os pais da vítima, e em uma das poucas frases que a mãe dele conseguiu pronunciar em meio ao choro, disse algo sobre o filho ter feitos novas amizades, com uma mulher mais especificamente, já que ele geralmente falava mais sobre ela. Nada muito detalhado, nenhuma pista de como haviam se conhecido, então quando mencionei sobre a insígnia, eles alegaram não saber do que se tratava, e eu não duvidei.
Assim que tudo foi posto em ordem, e nós já tínhamos o nome da tal mulher, ela foi chamada, ao traçarmos seu perfil, vimos que se tratava de uma psicóloga formada e com PHD, o que complicava um pouco as coisas.
Essa gente tinha o costume de querer nos enganar, por achar que podiam “ler” nossas mentes, e quanto mais tempo tenham passado se especializando, maiores eram seus egos.
– Isso não vai ser fácil. – Korsak falou.
– E quando é? – perguntei.
– Você conhece psicólogos, psiquiatras e o bando todo Jane, um ou outro se salva, mas a maioria quando é colocada numa sala de interrogatório, tenta a todo custo virar o jogo, vai nos fazer perder tempo.
– É, você tem razão. – pensei um pouco e tive uma ideia – Eu posso chamar a Maura.
– Pra que? – Frost perguntou.
– Pra nos acompanhar, ela frequentou umas aulas de não sei o que comportamental, pode ser útil.
– Bom, ela já ajudou antes.
– É, quer dizer, acho que pior do que está não fica, certo?
– Melhor não duvidar. — Frost disse, em tom de brincadeira.
Eu concordei levemente e peguei meu celular.
Está ocupada?
Logo veio a resposta.
Não muito, só esperando o resultado de alguns testes, por quê?
Preciso de você aqui em cima, pode vir?
Claro, estou indo.
Alguns minutos depois e ela chegou, eu expliquei a situação, como sempre ela mencionou os riscos de sua presença não ser de grande ajuda, mas eu insisti e acabou cedendo.
Entramos na sala, Silvia Pierce estava sentada na cadeira, com seu terno feminino bege impecável, cabelo preso em um coque e ar de serenidade.
Nos apresentamos e eu fui fazendo as perguntas, vez ou outra olhando para Maura, que continuava fixamente encarando e analisando cada movimento de Silvia, que obviamente tentava sempre que podia soltar alguma frase que adentrasse no nosso subconsciente.
Chegamos a um ponto em que ela nos contou sobre como havia conhecido a vítima, que aparentemente tinha dado carona a um de seus pacientes, e enquanto o mesmo ia ao banheiro ela saiu e se aproximou dele, que estava na sala de espera. Conversa vai, conversa vem, acabaram marcando um encontro e saíram algumas vezes, o que já eliminava a hipótese de serem apenas amigos, mas também que deixou claro que não envolvia nenhum sentimento muito forte, já que ela não me pareceu nem um pouco perturbada com a morte do “amigo”.
Logo falou sobre como o paciente havia descoberto a relação dos dois e acusou-a de estar sendo antiética, e de omissão, por ter mudado o comportamento durante as sessões, o que resultou numa briga com Michael, na qual ele foi ameaçado caso continuasse “atrapalhando a única coisa que estava dando certo” segundo as palavras de Silvia, descreveu toda a situação e alegou não entender o porquê de todo o escândalo, e de não saber exatamente qual a ligação que Michael tinha com ele.
– Precisamos de nomes, Dra. Pierce.
– Eu sei disso detetive, mas suponho que conheça uma coisa chamada sigilo médico e paciente, estou certa?
Droga, essa conseguia ser ainda mais arrogante.
– Está, mas eu posso conseguir um mandado pra isso, o que faz ambas de nós perdermos nosso tempo, já que eu vou ter que procurá-la de novo, então por que não acabamos logo com isso?
Ela suspirou.
– Simon South, mas não fui eu quem lhe disse isso, não esqueça.
– Tem medo dele? – Maura perguntou.
– E quem em sã consciência não teria? Ele quase destruiu o meu consultório, foram precisos cinco seguranças pra dominá-lo, tem ideia do que isso significa?
– Eu posso imaginar.
– Não, eu não acho que você possa. Olhe, ele não é um paciente comum, na verdade me foi designado por um colega que saiu de licença devido a um problema pessoal, e... – parou e umedeceu os lábios com a língua, fechou os olhos por um momento e tornou a abri-los, eu sabia que Maura havia reparado naquilo também, e sabia que ela tinha uma explicação para aquele gesto – Eu o considero perigoso detetive, seu histórico não é nada bom.
– Ele tem passagem pela polícia?
Mais um suspiro.
– Ah, que se dane, eu vou viajar assim que tudo isso acabar mesmo. – relaxou um pouco sua postura – Sim, ele tem. Além é claro de uma longa lista de problemas familiares, pais ausentes, em seguida divorciados, irmão mais velho opressor, mas tudo se encaixa se pararmos pra analisar.
– Como assim? – perguntei.
– Como tenho certeza de que vai falar com ele, preciso que saiba com quem está lidando, seu pai é um dos homens mais influentes do sul da Califórnia, e quando eu digo influente, não é do tipo dentro da lei.
– Então, a família tem envolvimento com o crime?
– É, você pode colocar assim. O que eu quero dizer é que eu podia até esperar que ele fizesse algo desse tipo, está em seu código genético, certo? Tal pai, tal filho.
– Não tem como saber disso.
– Você queria que eu falasse, não queria? Queria que eu abandonasse a pose de psicóloga, pois é o que estou fazendo. Estou falando como uma mulher que ficou um tanto quanto assustada, mas que ainda possui uma certa experiência e pode afirmar com certeza, que mesmo que Simon tenha procurado ajuda e tentado passar por cima dessa árvore genealógica do mal, é claramente impossível. Ele é o que é. Ele é o que a família toda sempre foi.
– Ah... – Maura murmurou em tom abafado e eu olhei para ela, logo então notando seu desconforto – Eu preciso ir, com licença. – levantou e antes que eu pudesse dizer algo ela já estava fora da sala.
Mas o que foi aquilo?
Ela estava bem até alguns minutos atrás.
Em silêncio, prestando atenção em cada palavra, o que poderia ter mudado isso?
– Bem, obrigada por sua atenção Dra. Pierce, peço que não saia da cidade, ainda podemos precisar de algumas informações.
– Claro detetive. – sorriu fracamente e também se levantou, logo indo embora.
Eu fiz o mesmo e vi que Frost e Korsak esperavam por mim.
– Temos um nome, pelo que vocês devem ter ouvido. – eles assentiram e então me dei conta de algo – Espera, ainda não almoçamos, não é?
– É, você está certa. – Korsak olhou seu relógio – Duas da tarde, como isso é possível?
– O tempo é um ser estranho, meus amigos. Bom, a gente pode chamar ele quando voltarmos, em... Uma hora, ok? – os dois assentiram – Vocês por acaso viram pra que lado a Maura foi?
– Pra lá. – Frost apontou para nossa esquerda.
– Certo, obrigada.
Virei e saí.
Encontrei-a na lanchonete, pegando um café da máquina.
– Finalmente, fui até a sua sala e nada, achei que tivesse surtado e ido pra casa. – falei ao parar do lado dela.
– Eu não surtei, Jane.
– Ah não? Então que nome você dá pra aquela cena lá em cima?
– Eu não estava me sentindo muito bem, só isso.
– É, eu percebi, o que ainda não entendi é o motivo. – olhei-a melhor quando virou para mim – E isso são urticárias, leves, mas são! – apontei para a região do seu pescoço.
– Oh não, eu tomei meu remédio, deveriam ter desaparecido.
– Então além de mentir agora, você também mentiu antes... Em que, Maura?
– Jane...
– Não me venha com “não é importante”, porque eu não caio mais nessa. O que aconteceu lá em cima?
– Você está preocupada com o fato de eu ter saído sem ao menos dividir minha conclusão que ajudasse com o caso, e embora eu tenha alertado sobre os riscos de poder não ser útil, entendo, então, o que posso dizer é que a Dra. Pierce me pareceu muito confiante, apresentou leves traços de arrogância, e...
– Leves? Sério? Aquela mulher coloca a si mesma num pedestal Maura, por favor.
– Continuando, ela realmente tem um perfil não muito gentil, mas apresentou muitos poucos sinais de postura defensiva, e apesar disso não ser uma certeza já que eu não frequentei todas as aulas, eu duvido muito que tenha cometido esse homicídio.
– Bom, isso... Ei, você mudou de assunto!
– Não, eu...
– Urticárias...
– Só estou compartilhando minha conclusão.
– E eu aprecio isso, mas não é o que quero saber no momento, sim, estou interessada no que você pensa, senão não teria te chamado, mas podemos deixar pra depois, até porque, eu ainda não almocei.
– Nem eu.
– Ótimo, almoçamos e conversamos. – falei enquanto me sentava em uma das cadeiras.
– Geralmente sou eu quem diz essa frase.
– Eu sei, é estranho né?
E ela sorriu em resposta e se sentou em frente a mim.
O tempo passou rapidamente e quando dei por mim, Maura há havia conseguido mudar de assunto de novo, e de novo, e outra vez, sem parar. Confesso que fui deixando, esperando que em algum momento ela se distraísse e dissesse algo que justificasse aquele comportamento.
Almoçamos em meio a conversa, vez ou outra eu tentava pescar algum sinal, mas sem sucesso.
– Eu sei o que está fazendo.
– Eu? Como assim?
– Está tentando me fazer falar.
– E eu preciso?
– Pode parar, por favor? Só quero um almoço agradável, o que é irônico, já que nem estou com fome.
– Eu percebi, você fica remexendo a comida e não sai disso.
– Estou com dor de cabeça, deve ter afetado meu apetite.
– É, mas dores de cabeça não surgem do nada Maura, você mesma já me disse isso várias vezes. Acho que está na hora de começar a falar, seja lá o que for, é óbvio que não é besteira.
– Não do meu ponto de vista.
– Se é tão bobo assim, por que você não esquece ao invés de quase entrar em colapso?
– Eu não posso entrar em colapso Jane, é humanamente impossível.
– Você me entendeu.
Outro suspiro.
Parecia que aquilo havia virado um hábito, e conhecendo-a como eu conhecia, isso não era bom.
– Bem, acontece...
E o universo mais uma vez conspirou contra mim.
Quando Maura estava prestes a falar o que tanto a incomodava, adivinha?
Isso mesmo, meu celular tocou.
Eu revirei os olhos.
– Mas que maravilha... – reclamei – Rizzoli... – atendi – O que?... Não, eu entendo, mas tem certeza que é ele?... Droga... Sim... – olhei rapidamente para Maura que parecia intrigada com minha conversa – É, ninguém merece ver algo assim logo depois do almoço, cuidado com o Frost perto do corpo... Isso, ok, até logo. – desliguei.
– Quem era?
– Korsak, parece que o tal paciente que ameaçou a vítima foi encontrado morto no quarto de hotel que estava hospedado.
– Oh...
– E eu tenho que ir ver essa linda cena de estômago cheio, perfeito não é? – levantei.
– Beba um pouco de água, ajuda na digestão. – ela se levantou também e seu celular tocou – Dra. Isles... – e olhou pra mim, logo reconhecendo que iríamos para o mesmo lugar.
A tarde se seguiu tumultuada, assim que fizemos o que precisávamos na cena do crime, deixamos o resto com a perícia e voltamos para o departamento.
Notificamos a família, aproveitamos para checar a suposta ligação com o crime que a Dra. Pierce havia mencionado, e infelizmente ela não estava mentindo, o que por sua vez e pra variar, só tornava tudo mais difícil.
Pistas, suspeitos, mas nada concreto, então Maura me notificou que havia começado a autópsia.
– Hey. – falei ao entrar no necrotério – Por que demorou pra começar?
Ela me olhou.
– Eu não sabia que você controlava os meus horários.
Ok, percebi que pelo jeito ia sobrar pra mim.
– Foi só uma pergunta, vai com calma.
– Eu sei, me desculpe. – suspirou – Eu demorei por que houve um problema com a vã que transporta os corpos, ele chegou tem pouco mais de dez minutos.
– Certo. – sorri indicando que estava tudo bem.
Passei os próximos minutos em silêncio, apenas observando enquanto ela realizava os procedimentos.
Confesso que não era muito fã de ver aquilo, preferia mil vezes quando me chamava só pra dizer se tinha encontrado alguma coisa, era mais tranquilo e menos nojento.
Então eu repetia para mim mesma que já deveria ter me acostumado, mas a verdade é que nunca se fica 100% à vontade em situações como essas, e os poucos que conseguem, tem meu total respeito, porque sinceramente...
– Jane? – a voz de Maura me tirou do meu monólogo interno.
– Sim, eu me distraí, desculpe, pode falar. – pisquei algumas vezes.
– Ah bem, não há nenhum semelhança com a morte da primeira vítima, isso eu posso afirmar, pelo menos com base no que tive acesso até agora. Só resta o resultado do exame toxicológico pra vermos se alguma informação bate.
– Então... Nada?
– Não, sinto muito.
Foi a minha vez de suspirar.
– Eu já estou acostumada. – olhei a hora no meu celular – Ok, acho que eu vou subir, estamos tentando achar o pai dele, mas o homem é mais escorregadio do que sabonete. – vi quando Maura me olhou confusa e eu balancei a cabeça, num sinal de que não importava.
– Tudo bem, eu aviso se encontrar algo.
Deu um sorriso, mas não o verdadeiro e aquilo estava me preocupando cada vez mais.
– Você não está nada bem. – falei.
– E isso não foi uma pergunta.
– É porque eu já não tenho mai duvida.
– Jane...
– Eu sei, não é o momento, mas você não vai escapar Maura, é bom saber disso.
– Por que você insiste tanto? – perguntou, mas não com hostilidade, apenas com seu tom curioso, como se precisasse afirmar algo pra si mesma, e a minha resposta pudesse ajudá-la.
– Porque eu me importo com você, e sim, as coisas mudaram entre nós... – eu sorri sugestivamente e ela abaixou a cabeça com um leve sorriso nos lábios, o que me fez comemorar por dentro – Mas antes de mais nada você é a minha melhor amiga e eu te conheço bem demais pra te ver nesse estado e deixar passar, e porque eu...
Não Jane...
É cedo pra isso, você não sabe se está pronta pra dizer e muito menos se ela quer ouvir.
Pra começar, de onde foi que esse desejo súbito veio?
Meu coração acelerou e eu quis me dar um soco naquele momento.
– Você o que?
– É isso, eu me importo com você, ainda mais agora. – disfarcei e rezei pra que ela não percebesse meu nervosismo.
Sorriu de novo eu não podia ficar mais feliz por ter causado isso.
– Eu sei... Eu acredito que estou pronta pra falar, mas não aqui.
– Está bem, assim que tudo se resolver por hoje, a gente vai pra minha casa... – notei que ela se preparou pra argumentar e completei – Ou pra sua, tanto faz, decidimos isso depois. O que importa é termos um lugar sem policias, cadáveres ou a minha mãe, pra nos atrapalhar.
– Sua mãe não nos atrapalha.
– Sério? Quer mesmo debater isso comigo?
Ela riu.
– Não, eu passo.
– Ótimo. – meu celular tocou pela milésima vez naquele dia – Rizzoli... Tá, eu vou subir. – desliguei – Korsak cobrou um favor e conseguiu um endereço, você me chama...
– Sim. – ela respondeu sem que eu precisasse terminar.
Eu assenti e saí.
Duas horas se passaram e a noite já havia chegado, nenhuma mensagem de Maura, o que significava que ela não tinha novidades, e uma onda de frustração me atingiu.
– Mas que coisa! – reclamei sentada na minha cadeira – Passamos o dia todo nisso e agora eu estou exausta e parece que corremos em círculos.
– Odeio dias como esses, parece que estamos progredindo, mas então percebemos que não saímos do lugar. – Korsak falou, afrouxando o nó da gravata.
– Exatamente. – concordei, e então Frost que estava ao telefone com um dos contatos ligados ao pai da vítima, desligou, mas sua expressão não era muito animadora – E aí? – perguntei.
– E aí que é como dar murro em ponta de faca, quer dizer, ele até pode ajudar, mas está viajando e só volta amanhã, e os arquivos estão com ele, pelo que eu entendi, ele os protege como um cão vigia seu osso.
– Então eu acho que por hoje é só. – os dois assentiram – É bom, porque eu não aguento nem mais um minuto ficar aqui sentada. – o alerta de mensagem do meu celular tocou, olhei no visor.
Desculpe o “silêncio”, não havia nada relevante nos resultados, mas eu preciso falar com você. :) Pode descer?
Eu até podia, mas o que me intrigou foi aquela carinha feliz no final da frase, não combinava com o humor que ela apresentou durante aquele dia.
Estranho...
Resolvi responder.
Posso, estou indo.
– Boa noite. – falei enquanto levantava e pegava meu terninho.
– Boa noite. – responderam juntos.
Peguei o elevador e apertei o botão pro andar do necrotério, enquanto ele descia fiquei pensando no que encontraria assim que as portas se abrissem.
Sim, porque meu instinto me dizia que alguma coisa tinha mudado, e eu não gostava de não saber o que era.
Assim que cheguei ao meu destino vi as luzes apagadas, mas as da sala de Maura estavam acesas, ao parar na porta a vi em sua cadeira mexendo no computador, usava seu vestido vermelho, sem o jaleco.
– Oi. – falei e ela mudou sua atenção pra mim.
– Olá. – abriu um sorriso e eu entrei, sentindo um clima suspeito – Você já está de saída?
– Estou, não podemos fazer mais nada por hoje.
– Tenho certeza que tudo se resolverá. – eu sorri em resposta e me preparei pra perguntar sobre a repentina mudança, mas ela foi mais rápida – Enfim, pode me acompanhar até uma loja de móveis no centro?
Espera, o que?
Hã?
– Pra que?
– Eu preciso comprar um colchão. – respondeu naturalmente enquanto desligava o computador.
– Você o que?
– Preciso comprar um colchão. – repetiu, agora organizando a bolsa.
– Desde quando?
– Desde que eu me lembrei de que o meu já excedeu seu período de uso.
– Maura, seu colchão está ótimo, eu posso garantir.
– Sempre arrumando um jeito de introduzir nossa vida sexual na conversa, não é? – perguntou.
– Ok, primeiro: não use “introduzir” e “vida sexual” na mesma frase, porque não ajuda, e segundo: eu devo ter pegado essa mania de você.
– Eu não faço isso. – cruzei os braços em desafio e ela continuou – Ao menos não com tanta frequência, e não estou pedindo pra me acompanhar a uma loja de sapatos, será rápido, eu prometo.
– Em qualquer loja você enrola, fica questionando tudo, eu não sei...
– Por favor...
– Está tarde.
– Eu apenas vou escolher e encomendar, estaremos em casa em menos de uma hora.
Eu juro que não fazia ideia de em que ponto foi que me tornei o tipo de pessoa que não consegue dizer não a alguém, e muito menos quando esse alguém se tornou a Maura, provavelmente quando ainda éramos só amigas, mas parecia que agora a coisa tinha se elevado a um nível que eu não podia mais controlar.
Ela me olhava com um meio sorriso, já de pé, a menos de um metro de distância, a bolsa numa mão e o celular na outra, enquanto mordia levemente o lábio inferior, e os olhos brilhavam de expectativa.
– Está bem, vamos.
Ela sorriu em resposta e passou por mim.
Esperou que eu saísse, apagou as luzes e trancou a porta.
Fomos em direção ao elevador com nossos braços se tocando vez ou outra. Ao entrarmos ela se aproximou de mim e automaticamente passei minha mão pela sua cintura, e a segurei ao meu lado durante todo o trajeto.
Quando chegamos ao térreo nos separamos e assumimos uma distância confortável, não precisávamos dos olhares curiosos de ninguém.
Cada uma em seu carro, fomos pra tal loja de móveis que Maura me falou o endereço enquanto andávamos pela calçada.
Logo chegamos ao nosso destino e paramos no estacionamento do lado de fora, a noite estava agradável, nem muito quente, nem muito fria.
O lugar era grande, não imenso, mas grande, tinha uma boa variedade de produtos pra casa e embora eu achasse tudo uma bobagem sem tamanho, procurei não fazer nenhum comentário, sabia que Maura não estava bem, e não queria desencadear uma briga, muito menos num local público.
Após chegar na sessão de colchões e alguns minutos se passarem, minha impaciência gritou dentro de mim.
– E aí? Algum progresso?
– Eu não sei, a espuma desse me parece realmente de ótima qualidade, enquanto esse outro tem um acabamento mais refinado.
– É só um colchão Maura, você não vai casar com ele.
– Não, mas posso usá-lo com a pessoa com quem irei.
Ah ok, por essa eu não esperava.
Vamos Jane, não fique muda, ela vai perceber.
– Ah...
– Desculpe, não foi isso que eu quis dizer, eu só...
– Tudo bem.
Sério?
Mais alguns minutos e nada dela escolher de uma vez.
– Qual é, você não precisa de um colchão, isso é ridículo. – reclamei.
– Vamos mesmo discutir isso novamente?
– Não, e sabe por quê? Já está tarde e logo essa loja vai fechar.
– Não me apresse Jane, você sabe que eu não funciono assim.
Droga, pior que eu sabia mesmo.
Mais algum tempo depois e eu já estava quase explodindo de tanto tédio, já tinha mexido em tudo o que podia e até derrubado alguns itens das prateleiras, e um dos funcionários olhou torto pra mim.
Ótimo.
– Já me decidi, eu quero aquele. – apontou para um dos colchões e eu sinceramente não conseguia ver diferença entre os outros vários que haviam ali.
– Até que enfim, eu já estava criando teia de aranha de tanto esperar.
Ela me olhou com aquela cara de “isso é impossível, e você sabe” e eu apenas dei de ombros com um pequeno sorriso.
Quando pensei que finalmente estava livre daquela tortura e poderia ir pra casa descansar, ou não, dependendo do que aconteceria...
Foco Jane!
Enfim, quando me permiti ficar feliz um instante...
– Mas antes... – começou a olhar em volta.
– Antes o que? O que está procurando?
– O banheiro feminino.
– Maura!
– O que?
– Encomenda logo esse colchão e vamos sair daqui.
– Você já esperou tanto, o que custa um pouco mais?
– Custa a minha paciência.
– Impossível, você não a tem. – sorriu.
– Você é tão engraçada.
– Ali está. – falou olhando para os fundos da loja – Eu não vou demorar, mas caso queira ter certeza, pode vir comigo.
– Fazer o que né...
Fomos até o banheiro, que ficava numa área mais isolada da loja, no lado esquerdo o masculino e no direito o feminino.
Entramos e Maura foi pra uma das cabines enquanto eu fiquei esperando encostada numa parede, mas como já estava inquieta fazia tempo, logo mudei de posição e comecei a andar de um lado pro outro, dando algumas olhadas rápidas para o meu reflexo no espelho.
Até que o tempo que gastei ajeitando meu cabelo depois do banho mais cedo surtido algum efeito.
Fechei os olhos e continuei andando, de braços cruzados, sem pensar em nada, então de repente esbarrei em algo, na verdade em alguém, em Maura.
– Ai. – abri os olhos e me afastei um pouco – Quando saiu que eu não vi?
– Há alguns segundos, e não me viu porque estava de olhos fechados, que é o que eu não entendi. – falou ao parar de frente pra um dos espelhos e começou a lavar as mãos.
– Eu só queria descansar, e... O que está fazendo? Vai se maquiar? Aqui? – perguntei ao ver que estava mexendo na bolsa, e ela confirmou com a cabeça me olhando através do espelho – Não está preocupada com os milhares de germes que essa pia pode ter? – apontei para o batom que ela havia colocado em cima do mármore.
– Não no momento. – passou um pouco – Você sabia que muitos casais escolhem banheiros de locais públicos para... – olhou pra mim e ergueu as sobrancelhas sugestivamente – Demonstrar afeto?
– Demonstrar afeto? – eu ri – Se esse é o seu jeito de dizer que muitos casais se agarram em banheiros de shoppings, supermercados e etc, sim eu sei. – sorri e encostei de novo na parede.
– É um costume interessante.
– Você acha?
– Sim, pense bem... – guardou o batom de volta na bolsa e virou pra me olhar – Ambientes sujeitos a riscos de flagrantes aumentam o nível de adrenalina, o que estimula uma série de outros fatores e pode até ajudar o relacionamento.
– Esses seus termos médicos... – revirei os olhos.
– Quer que eu simplifique? – perguntou, mas não esperou minha resposta – Fazer sexo ou até mesmo apenas beijar em lugares nos quais se corre o risco de ser pego, torna tudo mais excitante.
O banheiro ficou quente de repente, e Maura usou sua arma mais poderosa e recém-descoberta “contra” mim, ela deu aquele sorriso de canto, com os olhos semicerrados.
Sim, eu conhecia aquele sorriso muito bem, e aqui entre nós, ele era capaz de me levar a loucura em menos de dois segundos.
Quem eu quero enganar? Como se ela não soubesse disso...
– Foi pra isso que você insistiu em entrar aqui?
– Pode ser, caso você queira é claro. – começou a se aproximar lentamente.
– Maura...
– Sim...
– Você não é assim.
– Será que não?
Engoli em seco.
Era como se alguém tivesse colocado fogo ao meu redor, e eu me peguei olhando diretamente para os lábios dela.
Pisquei um pouco e me concentrei nos olhos.
– Quem sou eu pra duvidar...
Resolvi me render, afinal de contas era tarde, aquela loja estava praticamente deserta e não faria mal algum aproveitar um pouco, se Maura queria bancar a ousada, eu não seria doida de questionar.
Aproximei meu rosto do dela devagar, mas estava na cara que não seria tão simples, pois quando faltavam apenas um ou dois centímetros...
As luzes apagaram...
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– Não pode ser, no site disse que fechava às 21h00.
Com certo esforço peguei meu celular do bolso, acendi a tela e o mostrei pra ela.
– Viu? Já são quase nove e meia.
– Oh, isso não estava nos meus planos.
– Jura?
– Por favor Jane, deixe o sarcasmo pra depois. – disse virando as costas e caminhando pra algum lugar que eu ainda não sabia onde era.
– Aonde vai? Aliás, como você chegou até aqui sem derrubar nada?
– Senso de direção. – disse ainda andando — Se você se dedicasse mais à ioga, como eu, o seu também estaria bem desenvolvido.
– É impressionante como até nessas horas você arruma um jeito de me dar sermão.
Parou e virou devagar.
– Não é sermão, apenas respondi sua pergunta e fiz uma pequena observação no final.
– Ok, mas eu dispenso. – guardei o celular e passei a mão no cabelo.
– Lá se vai seu bom humor... – virou de novo.
– Meu humor está ótimo, só quero sair daqui. – comecei a segui-la.
– Por quê? Tem medo do escuro? – diminuiu o passo e ao ficarmos lado a lado, liberou um leve sorriso.
– Parece que alguém engoliu um palhaçinho. – sorri de volta.
– Como eu... – aposto que ia argumentar sobre minha frase, mas ao ver minha expressão, parou – É só modo de falar, acertei?
– Finalmente.
– O que faremos agora?
– Sei lá, você que me arrastou pra cá, está por sua conta.
– Mas...
– E além do mais, você mesma alegou aí esse seu maravilho senso de direção, e eu confesso que no escuro sou mais desajeitada do que um filhote de girafa. – ela riu levemente.
– Embora cômica, sua referência não faz o menor sentido, mas vou deixar passar. – eu sorri.
Vi quando ela vasculhou dentro da bolsa, ainda que sem olhar para ela, mas não questionei, aquela situação toda já era ridícula demais por si só, o melhor era ficar quieta.
Ao pegar o celular e apertar um botão, o sorriso, mesmo que discreto que carregava nos lábios, desapareceu, e assumiu uma expressão de angústia.
– O que foi? — perguntei.
– Uma mensagem de Hope.
– Ainda não falou com ela?
– Já, nós marcamos de almoçarmos num restaurante amanhã, mas ela acaba de cancelar.
– Sinto muito.
– Não, tudo bem, eu entendo, não posso exigir que de repente tenha todo o tempo do mundo pra mim, ela é uma mulher ocupada.
– Você também.
– É diferente.
– Será?
– Eu só... Estou feliz que as coisas estejam bem entre nós duas agora, de verdade, mas ainda assim é como se faltasse algo.
– Seja o que for vocês vão encontrar, é só ter paciência. – até eu me surpreendi por dizer aquilo.
– Você está bem? – ela perguntou – Acaba me dar um conselho sobre paciência.
– Haha, vejo que seu palhaçinho está de volta.
– Ainda não entendi essa metáfora, mas não importa, eu vou fazer uma ligação e estaremos fora daqui em breve... – acendeu de novo a tela do celular, mas logo sua expressão de esperança desapareceu – Ah, por favor... – começou a erguer o aparelho.
– Sem sinal?
– Nenhum. – mostrou pra mim.
– Ok, deixa eu ver o meu... – peguei-o – Tudo em ordem.
Disquei o número e enquanto esperava a ligação completar fiquei observando Maura, que havia parado em frente a uma prateleira com algumas roupas de cama, e olhava quase que sem piscar para a embalagem de um edredom.
Notei quando passou a mão pelo cabelo e suspirou, em seguida olhou para o chão.
Não sei ao certo o motivo de ter tido aquela ideia repentina, mas simplesmente aconteceu.
Eu a conhecia, até demais como já havia dito algumas vezes, sabia cada coisa sobre ela, e não precisei frequentar nenhuma aula de uma faculdade importante pra isso.
Não, o que eu sabia era resultado de anos de convivência, através dos bons e dos maus momentos, sempre ali, acompanhando tudo de perto.
Eu não me cansava de repetir porque era a verdade, antes de qualquer coisa, ela era minha melhor amiga, eu podia reconhecer muito bem quando algo estava fora do normal.
Claro que nem sempre acertava logo de primeira, mas eu nunca deixava passar batido, e não era de repente que iria começar.
Desliguei meu celular e o coloquei de volta no bolso.
Maura percebeu.
– E então? Não conseguiu?
– Na verdade eu nem tentei.
– Por que?
– Porque eu acho que temos um assunto mais importante pra resolver.
– Qual?
– Você.
– Eu? O que... – mas acho que entendeu – De novo?
– Eu não vou parar até que você fale, devia saber disso.
– Não é o lugar nem a hora pra isso, Jane.
– Eu não ligo, tem alguma coisa perturbando essa cabeçinha e você pode dizer quantas vezes quiser que não é nada, que eu não vou acreditar.
– Eu não vou...
Então avistei algo nos fundos da loja.
– Vem comigo. – peguei no braço dela e fomos caminhando no escuro.
– Pra onde?
Paramos e eu me sentei no imenso colchão de casal, que ficava em cima de uma cama bonita. Bati com a mão no espaço ao meu lado.
– Senta aqui.
– Não.
– Por quê?
– Porque não faz sentido Jane, nós estamos presas, você mesma surtou quando percebeu isso e praticamente me obrigou a fazer algo pra nos tirar daqui.
– Isso foi antes, eu estou mais calma agora, e sinceramente não dou a mínima pra onde estamos, eu só sei que não saio daqui até você falar.
Assumi uma postura séria e tentei transmitir com meu olhar que não estava brincando.
– Mesmo?
– O que nós temos a perder? Quer dizer, poderíamos ter essa conversa na minha casa ou na sua, mas não, você preferiu inventar essa história de colchão, o que pra mim está mais do que na cara que foi só um jeito que você encontrou pra evitar tudo isso.
– Eu não...
– Se você mentir eu vou saber, não esqueça. – vi quando ela relaxou – Vem cá.
– Isso é errado. – falou enquanto se aproximava e se acomodava ao meu lado.
– Vai ficar tudo bem, eu sou policial. – falei mostrando meu distintivo, em tom de brincadeira.
Me ajeitei melhor até estar deitada na cama, e vi quando Maura fez o mesmo, colocando a bolsa ao seu lado, ainda que com um pouco de receio.
Segundos passaram e logo se transformaram em minutos, eu olhava para o teto alto no escuro e pelo que podia perceber, Maura fazia o mesmo, só que com um ar mais preocupado.
– E aí, você vai falar ou eu vou ter que recorrer à tortura? – perguntei ainda na mesma posição.
– Duvido que você seja capaz de algo assim. – disse, e eu podia “ouvir” o sorriso em sua voz – Mas em todo caso, não será necessário.
– Então vai falar?
– Vou, mas como já disse antes, não considero de tanta importância.
– Se não é importante por que se esquivou do assunto o dia inteiro?
– Pelo mesmo motivo. – virou o rosto para me olhar e então meu dei conta de que eu mesma já havia feito isso fazia tempo.
– Você não pode guardar algo pra si só porque acha que não é nada demais, não é saudável Maur, quer dizer, claro que pode ser bobagem e logo passar, mas e se não? Vai ficar aí tendo esses surtos toda hora?
– Eu não gosto dessa palavra.
– Surto? – eu ri – Pois fique sabendo que é normal, ok? E você surta como todo mundo, porque é humana... Pelo menos é o que eu venho repetindo a mim mesma desde que te conheci. – ela beliscou meu braço – Ai!
– Não devia dizer coisas assim, afinal, eu já provei o quanto sou humana nas últimas semanas.
Meu Deus.
Quando que ela havia aprendido a colocar nossa vida sexual no meio da conversa com tanta facilidade?
Tive que lutar pra manter o foco e não ceder, eu sabia o que ela estava tentando fazer.
– Boa tentativa. – me olhou – Mas eu estou focada aqui, não vou desistir.
– Me incomoda termos essa conversa num colchão de mostruário, onde centenas de pessoas já se sentaram.
– Ah é? Engraçado, porque há dez minutos você não se importou nem um pouco com o seu batom em cima da pia do banheiro.
Um suspiro.
Pela minha... Ok, eu já tinha perdido a conta de quantos suspiros Maura havia dado naquele dia, então não sei, mas aquele parecia diferente, como se finalmente estivesse pronta.
– Tudo bem... – virou novamente para olhar o teto – É sobre... Paddy Doyle.
Oi?
– O que tem ele? – não esperei a resposta, pois minha mente já formulava um milhão de possibilidades – Ele deu um jeito de falar com você? O que ele quer? Maura, se...
– Não. – me interrompeu e virou para me olhar – Eu não falei com ele, não é isso... É que depois de ontem eu não pude evitar alguns pensamentos.
A partir dali eu vi que não podia ser bobo como ela dizia, porque se envolvia o dia anterior e toda aquela coisa que nos fez brigar, então não, definitivamente não era bobo.
– Que pensamentos?
– Eu atirei numa pessoa.
– Sim, pessoa essa que era um assassino e também tinha uma arma apontada pra mim.
– É, mas eu não hesitei, você mesma percebeu isso.
– Assim como você explicou que foi automático, e fez o que precisava fazer. – me mexi um pouco no colchão – Maura, eu não estou entendendo, essa conversa está invertida você não acha? Ontem era você que defendia suas ações e eu questionava, pensei que tivéssemos resolvido isso.
– E resolvemos, ao menos essa parte.
– Então não tem a ver com a gente? – ela negou com a cabeça – O que é então?
– Como eu disse, Paddy...
– Você está sendo vaga. – interrompi.
– E minha genética. – continuou.
– Sua... – pensei um pouco e juntei as peças, Maura + Paddy Doyle + Genética + o dia de ontem – Você não está relacionando o que aconteceu ontem com o fato de ter o sangue dele, não é?
Sem resposta e eu tive minha confirmação.
Não podia acreditar que era mesmo sobre aquilo, como ela ainda podia ter duvidas do tipo de pessoa que era?
Como podia associar situações tão diferentes?
– Eu não acredito nisso... – foi minha vez de suspirar – Quantas vezes vou ter que te dizer que você não é nenhum monstro, Maura?
– Eu...
– Não, me escuta. – virei um pouco mais e apoiei o rosto em uma das mãos – Da última vez que você teve esse tipo de crise foi com o Hoyt...
– Não vamos falar dele, é difícil pra você. – disse com os olhos ternos.
– Sim, é verdade, mas se for pra colocar nessa sua cabeça que você é uma ótima pessoa, eu falo mesmo assim.
– Eu só fiquei pensando e pensando e quando vi já estava ligando cada atitude que tomei com o fato de ser filha dele, como se eu tivesse feito o que fiz automaticamente não porque precisei, ou melhor, sim, porque precisei, mas também porque faz parte de mim agir desse jeito, principalmente com uma arma em mãos... – passou a mão pelo cabelo – Como se de algum modo minha genética explicasse tudo, e eu tentei não pensar nisso, tentei convencer a mim mesma de que era ridículo e que não faria bem insistir nessa ideia, mas...
– Mas você é humana, assim como eu disse. – interrompi – Tem todo o direito de surtar às vezes e questionar suas escolhas, mas isso não faz o menor sentido Maur, você não é nada como Doyle ou toda a família mafiosa por trás dele.
– Mas e se...
– Não, sem “e se”, porque nós duas sabemos que você não gosta disso, e agora eu confesso que estou começando a entender o motivo.
– Eu avisei que era bobagem.
– Não... – segurei sua mão e por um momento perguntei a mim mesma quando exatamente havia me tornado essa pessoa tão chegada em toques, mas se tratando de Maura, a resposta seria um pouco mais complicada e continuei – Eu não disse isso e nem vou dizer, porque não é. Tudo o que te perturba é importante, só que pra mim pra cada pergunta que surgiu na sua cabeça, a resposta parece óbvia.
– Como assim?
– Você não é como ele, Maura. Nunca foi e nunca vai ser, não importa se o DNA dele corre nas suas veias e nem quantos tiros dispare ao longo da vida... Deixando bem claro que eu espero que aquele seja o primeiro e último. – falei e quase pude ver um sorriso nos lábios dela – O que eu quero dizer é que tudo bem ter duvidas de vez em quando, mas pelo menos com isso você não tem que se preocupar. – decidi tentar algo – Você tem o selo Jane Rizzoli de qualidade.
E deu certo, consegui o que queria, porque logo depois dessa última frase ela riu abertamente.
Senti falta daquele som.
– E com certeza isso é algo de que eu deva me orgulhar.
– Claro que é! – sorri.
Alguns segundos depois e senti ela apertar minha mão suavemente.
– Obrigada. – disse olhando nos meus olhos.
– De nada, e se for pra seguir o padrão teremos essa conversa de novo daqui a quatro anos, acho que já vou começar a pensar no que dizer...
Senti um beliscão no meu braço, mas só fiz careta e não reclamei.
– Não se preocupe, eu farei todo o possível pra que não se repita.
– Acho bom. – sorrimos e então me dei conta de uma coisa – Foi por isso que você evitou a Hope hoje mais cedo?
– Sim, eu pensei que falar com ela traria a tona toda essa questão, mas não, foi tranquilo.
– Ótimo, um progresso. – ela concordou – E essa história de colchão? Foi mesmo só pra evitar o assunto né?
– Eu não sei, estive pensando em comprar um já tem algum tempo, mas sim, é possível que tenha feito disso uma espécie de válvula de escape.
– Hm sei, e aquela conversa no banheiro foi isso também?
– Ah não, aquilo foi apenas... Propício.
Eu sorri e a vi aproximar o rosto do meu.
Terminei de fechar a distância e trocamos um beijo suave, que logo se transformou em algo mais urgente, nossos corpos já estavam colados, mas então eu lembrei de algo e me afastei.
– Temos que sair daqui.
Como se despertasse de um transe, ela piscou algumas vezes e sentou na cama.
– Oh Deus, é mesmo!
Levantei e pela sua silhueta no escuro pude ver quando ela fez o mesmo e pegou sua bolsa.
Peguei meu celular e liguei para Frost, lembrei que ele havia dito que ficaria até mais tarde no departamento adiantando alguma coisa, e rezei para que ainda estivesse lá.
– Hey, eu preciso de um favor... Não, explico depois, quero que ache o nome e o número do telefone do dono, gerente ou sei lá quem responsável por uma loja de móveis no centro... Ok?... Sim, o nome é...
E passei o nome pra ele, que logo me deu a resposta, agradeci e desliguei, peguei o número que era do gerente pois o dono aparentemente não estava na cidade, e liguei, alguns minutos e leves ameaças de prisão depois, e ele disse que estava a caminho.
– E então? – Maura perguntou quando eu desliguei.
– Estão vindo.
Respirou aliviada, e eu também, só que por dentro.
Quando tudo terminou e já estávamos do lado de fora, junto com o gerente e um segurança magrelo que não parava de bocejar, fomos questionadas do por que termos ligado mais de meia hora depois da loja fechar, mas eu disse que não era da conta dele e quando sua arrogância subiu mostrei meu distintivo e fiz seu ar de superioridade descer tão baixo que poderia chutá-lo se quisesse.
Enquanto caminhávamos rumo aos nossos carros, vez ou outra olhei para o gerente que estava com cara de poucos amigos.
Paramos uma ao lado da outra ao chegarmos onde queríamos.
– Que noite agitada. – falei, sorrindo.
– Eu concordo, mas ela ainda não acabou.
– O que quer dizer?
Por favor, até hoje me pergunto como pude ser tão idiota a ponto de não prever a frase seguinte.
Maura andava tão “saliente” ultimamente que parando pra pensar, o próximo passo seria totalmente previsível.
– Sabe aquele momento no banheiro? – perguntou e eu assenti – Digamos que... – se aproximou até sua boca praticamente encostar no meu ouvido – Eu vou terminar o que comecei. – sussurrou.
Bom, previsível hoje, porque naquela noite eu francamente não esperava, e minhas pernas fraquejaram por um instante, mas logo tratei de recuperar a compostura enquanto a vi se afastar e entrar no carro, e já dentro dele, sorrir para mim do jeito mais sexy possível.
Depois daquilo, pra minha casa, pra dela, ouonde quer que fosse, eu entraria no meu carro e a seguiria, estava hipnotizada e parei de tentar encontrar razão pra isso.
Se sua intenção era me enlouquecer, parabéns, tinha conseguido.
Continua...
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