Um Presente Inesperado
12 The Morning After
Notas iniciais
O japonês deixou o corpo inerte, sem nenhum movimento, relaxando-o por completo. Mesmo a respiração estava calma, no entanto, ainda estava acordado. Abriu os olhos esmeralda lentamente. As feições do canceriano indicavam que ele estava num sono profundo. Estranhou que ele pudesse adormecer sem qualquer receio de estar ao seu lado.
Não... Giovanni não fingia. Estava mesmo dormindo, dava pra perceber. Não se via a movimentação dos olhos dele sob as pálpebras cerradas. Um sono tranquilo.
O virginiano aconchegou-se mais no calor daquele corpo junto ao seu. E assim ficou até o dia clarear. Vigilante... Ou pelo menos tentou, visto que o sono começava a seduzi-lo.
Antes que o italiano pudesse despertar, levantou-se rapidamente da cama, jogando um travesseio na cara dele.
– Seu... Seu... viado pedófilo!!!! — repetiu as exatas palavras que ele havia falado quando se conheceram. Ainda estava sentado na cama, mas mantinha uma distância considerável dele.
O pobre italiano, que dormia profundamente, foi abruptamente acordado. Antes estava tendo um sonho gostoso, nostálgico... Havia voltado aos tempos de infância, estava na casa de sua nona e podia sentir o cheiro de bolo, biscoitos e demais guloseimas que a idosa fazia regularmente no fogão à lenha. Fazia tempo que não sonhava algo assim: uma viagem onírica a um mundo de carinho, aconchego e segurança. Algo bem diferente da sua atual realidade. E voltou a essa dura realidade da pior maneira possível: com uma travesseirada na cara e acusações de pedofilia.
Máscara arregalou os olhos, ainda meio sonolento e completamente atordoado. Fitou o oriental que gritava com ele, raivoso.
– Shun? – perguntou, temeroso de que houvesse acontecido exatamente o que previra na noite anterior e o pequeno tivesse acordado com a personalidade inversa.
O virginiano abaixou a cabeça, colocando as mãos em volta do próprio corpo. Mudo.
– Dio Mio... — esfregou os cabelos com as mãos, num gesto típico seu. Abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas desistiu. Não tinha como explicar a situação, sabia que corria o risco de dormir com um, mas acordar com o outro.
– Você não se lembra de nada?
O japonês apertou mais as mãos ao redor do corpo, ligeiramente trêmulo. Parecia uma vara de bambu.
– Io non fiz nada! — falou o italiano, mas, pelo contexto, aquilo não soaria convincente. — Só estávamos dormindo!
– HAHAHAHAHAHAA! — o jovem de olhos esmeralda começou a rir alto, passando as mãos em volta da barriga. Lágrimas desciam por seu rosto, marcado por um sorriso aberto. – Brincadeira! — disse, diante do olhar estupefato do italiano.
Por algum tempo Máscara ainda ficou com a cara abobalhada, até que a ficha caiu e sua face se contorceu em raiva.
– Bambino maledetto! — jogou o travesseiro de volta contra o oriental, enquanto berrava este e outros xingamentos em italiano.
Hades voltou a rir com a reação de Giovanni. Simplesmente não resistia. Tinha que provocá-lo. Pegou o travesseiro que ele tinha lhe jogado e escondeu o rosto ali, abafando o riso. Fazia muito tempo que não se divertia, e Giovanni estava se saindo muito bem no quesito diversão. Passou os dedos pelos olhos verdes, antes de ir atrás do canceriano, que andava de um lado para outro no quarto, como uma fera enjaulada.
Não se intimidou, apenas o puxou pelo braço e o beijou nos lábios, calando-o.
– Sua punição por ter feito Shun ficar com o traseiro dolorido e por me dar um tapa na cara — disse baixinho, no ouvido dele. — Você sabe que isso é pouco perto do quanto o magoou. Agora acalme-se e vamos comer. Estou com fome — falou, dando outro beijo na bochecha dele, antes de ir fazer sua higiene pessoal.
Máscara fechou os punhos com força, o rosto vermelho de raiva, controlava-se ao máximo para não avançar no pescoço do oriental e torcê-lo.
Sorte o pequeno ter saído de seu campo de visão e se metido no banheiro. Pensou se não teria sido melhor que fosse mesmo Shun acordando ao seu lado e não sua versão... Maligna. Pois o que o japonês fazia consigo era pura maldade – pelo menos era assim que o italiano via as coisas.
“Mas Shun não fica te beijando toda hora” – falou para si mesmo, e um sorrisinho sacana aflorou em seu rosto.
É... Hades não era tão mau assim.
Então, desceu as escadas rumo à cozinha; o café não iria ficar pronto sozinho.
Hades fechou a porta do banheiro atrás de si, olhando seu reflexo no espelho. Os cabelos um pouco emaranhados, um olhar um pouco cansado, mas com um sorriso feliz nos lábios.
Feliz?!
Os dedos tocaram seu próprio rosto. A expressão do virginiano ficou séria repentinamente. Era verdade que estava achando divertido brincar com Máscara da Morte, porém poderia dizer que estava realmente... Feliz?
Abriu a torneira e molhou o rosto. Não ia ficar pensando em nisso.
Franziu o cenho antes de levar a mão até o nariz e assoprar de seus pulmões. Hum... Tinha que se lembrar de não dar beijos matinais no italiano ao acordar. Tinham um gosto estranho. Fez uma careta, pegando uma escova de dentes e fez sua higiene bucal. Enxugou o rosto com a toalha e fez um rápido asseio. Até que se lembrou que suas roupas não estavam naquele quarto.
Suspirou e teve uma ideia. O italiano não iria se importar... Não muito.
Abriu o armário e pegou uma camisa do canceriano. As mangas ficavam muito longas, bem como o comprimento que cobria apenas parte de suas nádegas. Balançou as mãos cobertas pelo tecido na frente do corpo e fez um bico. Shun realmente não iria mais conseguir crescer. Enrolou as mangas até a altura do antebraço e foi até a cozinha.
Ao chegar à entrada dela viu Gianni de avental, preparando seu café da manhã. Abriu um sorriso enorme antes de abraçá-lo por trás.
– Você é um uke muito dedicado — assoprou no ouvido dele antes de se afastar, com os braços escondidos em suas costas. Um olhar calmo e pacífico como o leito de um lago.
– Uke? – o italiano levantou uma sobrancelha inquisitiva. – O que é isso?
Virou-se para o garoto e o viu praticamente nu. Embora a camisa social estivesse enorme no oriental, suas perninhas estavam totalmente descobertas.
“Ah, essas perninhas...” – pensou em arreganhá-las e meter-se entre elas, ali mesmo, no chão da cozinha. Afinal, só podia ser isso que o japonês queria ao aparecer vestido daquela maneira.
– Io non gastei uma fortuna com as costuras de Misty, para depois você ficar usando meu Armani – mentiu o italiano.
Mentira pura; Misty nunca cobrava os pedidos do mafioso, mesmo este insistindo em pagar. Emprestar sua camisa também não era problema, e sim a perturbação que aquela imagem cheia de erotismo lhe causava. Estava difícil manter a promessa feita a Shun com Hades o provocando constantemente.
O italiano tirou o avental e o largou sobre a pia. A mesa já estava posta, faltando apenas o suco de laranja que Máscara acabara de fazer, e que agora era adicionado ali.
Tentando ignorar as perninhas bem torneadas e a carinha marota do oriental, Mask sentou-se para fazer o desjejum. Se ficasse concentrado em tomar seu café, talvez parasse de pensar em comer outra coisa que não fosse... pãezinhos.
– Uke? Hum... Uke é... – o japonês levantou o olhar para o teto, pensando numa boa explicação — Alguém destinado para o seme, como koibitos– deu a melhor explicação que podia.
– Io non falo sua língua... Não adianta querer me explicar alguma coisa usando palavras que eu não compreendo — falou o italiano, entre um gole e outro de café.
– Não se preocupe com os conceitos... Apenas continue agindo do seu jeito normalmente — disse com um sorriso gentil, com o queixo apoiado sobre as duas mãos.
Máscara respirou fundo; não estava com ânimo para enigmas e o garoto não estava disposto a cooperar.
– Que seja... — sorveu mais um pouco do café e pegou a geleia de morango para passar na torrada — Quando terminar de comer vista uma roupa decente. Shina pode aparecer... E se ela te encontrar assim, não vai gostar.
– Não estou preocupado com a Shina. A opinião dela importa pra você? – o oriental perguntou curioso, enquanto colocava uma uva na boca.
– A opinião dela é a única que importa — respondeu sincero.
– Pretendo ficar o tempo que for necessário — fez uma pausa e cruzou a perna direita sobre a esquerda por debaixo da mesa, balançando-a vagarosamente. — Confesso, entretanto, que seria mais prático ir embora — pegou a faca sobre a mesa e habilmente a girou entre os dedos, antes de colocá-la dentro do vidro de geleia de damasco. Esticou a língua, provando de seu sabor. Tinha um gosto bom. Não queria que sua temporada ali deixasse um sabor amargo em sua consciência.
O italiano não entendeu muito bem o significado daquelas palavras. Talvez a personalidade alternativa estivesse disposta a deixar que Shun voltasse a se manifestar; de qualquer forma, não sentia-se confortável vendo Hades manejar um objeto cortante.
Nesse momento sons abafados de salto alto fizeram-se ouvir e a secretária do mafioso apareceu na sala destinada às refeições. Fitou o garoto, reconhecendo a blusa que este trajava; suspirou contrariada, mas de modo alguma surpresa. Como de costume, sentou-se à mesa e serviu-se do suco de laranja. A mulher não começava sua rotina diária sem uma boa dose de vitamina C. Somente quando o líquido alaranjado havia sido reduzido à metade, em goles contínuos e sedentos, Shina permitiu-se falar:
– Bom dia.
Hades abriu um sorriso discreto. Praticamente uma imitação da pintura de Monalisa, sem dizer nenhuma outra palavra. Mal tinha tocado no café da manhã e subitamente deixou de sentir fome, mas obrigou-se a comer um pouco mais, afinal, Shun precisava se alimentar direito.
Talvez tenha sido a cara azeda de Shina que o fizera perder o apetite.
Repousou a faca no prato quase limpo e pegou uma generosa porção dos cachos de uvas, levantando-se da mesa. Deu um olhar significativo pra Giovanni, antes de se retirar e ir pro jardim, colocando outra uva na boca.
O italiano suspirou aliviado com a saída do japonês; podia sentir a tensão que se instalara com a chegada de Shina, mas felizmente, tudo correra bem.
– Já está assim? – a mulher falou calmamente, então um sorriso se desenhou na bela face. — Parece até sua ex-mulher – e logo o sorriso se transformou em gargalhada.
– Não é nada disso! – retrucou o mafioso.
– Ai, ai... – a secretária enxugou algumas lágrimas que se formaram pelo riso intenso e continuou: — Falando em ex-mulher... Pandora ligou. Semana que vem ela desembarca em Milão, e já que vai estar na Itália... – não precisou completar a frase para que a mensagem fosse transmitida.
A notícia não agradou em nada o italiano.
– Não faça essa cara... – Shina emendou, estranhamente alegre e divertida. — Pelo que entendi, ela não vem sozinha.
Então as feições de Giovanni alteraram-se completamente, do nojo ao puro gozo.
– Será? Será que ela vai trazê-lo, Shina? – perguntou, já de pé e andando de um lado para o outro, não conseguindo conter a felicidade. – Isso é uma ótima notícia!
A mulher meneou a cabeça, concordando com o patrão em pensamento e sentimento.
A conversa continuou, alternando a visita que iriam receber com assuntos de negócios. Máscara avisou que iria tratar dos assuntos do trabalho em casa, até o final da semana, e pediu para Shina cuidar das pendências no escritório central.
– É por causa dele?
O silêncio de Giovanni ante a pergunta da secretária não dava margem a dúvidas.
– Suponho que a volta dele ao Japão está suspensa.
– É... Por enquanto, sim. – era nítido que a mulher não concordava com aquela decisão. – Eu sei o que estou fazendo – disse, numa tentativa desastrosa de se justificar.
– Se sabe ou não sabe, não é problema meu... Minha função é apenas seguir suas ordens – dito isso, deixou o mafioso lavando a louça e partiu rumo ao escritório.
Shina jamais iria contra as decisões do patrão, mas não escondia sua opinião, muito menos quando estava certa.
Máscara, por sua vez, sabia que estava errado... Mas insistia no erro.
Uma vez que a louça estava limpa e a mesa arrumada, Máscara foi atrás do oriental. As tarefas de casa consumiam um tempo precioso, mas o italiano não tinha alternativa a não ser fazê-las ele mesmo.
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O gosto pelo jardim parecia ser compartilhado por ambas as personalidades do jovem oriental. Hades degustava o cacho de uvas à sombra da árvore frondosa da qual se jogara, na noite anterior.
– Eu também gosto daqui... – Mask falou descontraidamente, enquanto se sentava na grama, de frente para o oriental.
Hades levantou o rosto ao escutar a voz do canceriano. Colocou outra uva na boca, observando Gianni sentar-se à sua frente.
– É um lugar muito... — sentiu uma brisa agitar seus cabelos — Agradável.
Viu, de longe, a serviçal Shina os olhando.
– Ela cumpre o papel de espiã muito bem — disse baixinho, mastigando outra uva.
– Ela não é espiã, apenas uma boa observadora — o mafioso acenou para a secretária que, então, entrou no carro e foi embora. — Não leve para o lado pessoal, ela tem o pé atrás com orientais.
Hades pegou uma uva e colocou nos lábios dele, segurando a frutinha com um dedo apenas. Não se interessava por Shina ou qualquer coisa relacionada a ela.
– Prove, está doce — sugeriu, encarando os olhos azuis com gentileza.
Máscara abriu os lábios lentamente, deixando que a uva fosse empurrada para dentro de sua boca. A língua brincou com a pequenina fruta, antes que os dentes rompessem sua fina membrana e o suco, doce e levemente ácido, inundasse as papilas gustativas.
– Na minha casa só entra o que há de melhor.
– Convencido — disse o virginiano, antes de seu dedo deslizar pelos lábios do outro, espalhando o líquido doce que saía da uva. — Nesse caso, você tem sorte de eu estar aqui — deu um olhar sugestivo, antes de apontar para os próprios lábios. — Aqui é bem melhor.
– Bambino... — o italiano passou a língua pelos próprios lábios, pensando sobre a validade de sua promessa. E, sem muito esforço, se convenceu que tocar em Hades não era o mesmo que tocar em Shun.
O jogo de sedução engendrado pelo oriental tivera o efeito desejado: Máscara deixou o desejo prevalecer e avançou sobre os lábios macios do mais novo. A língua provando o sabor de uva que, na boca do outro, parecia ainda mais doce. Um beijo lento, intenso e sensual. As mãos grandes deslizando pela nuca e cintura do japonês, aproximando os corpos.
O virginiano apartou os lábios, permitindo que a língua ávida de Máscara da Morte brincasse com a sua... Mas não por muito tempo. Mordiscou o lábio inferior dele, antes de dar uma lambida no local, envolver a nuca do italiano com seus dedos e puxá-lo para frente, aprofundando o beijo, quase o fazendo sentar-se em seu colo. Atreveu-se a abrir os olhos enquanto o beijava e resolveu tentar algo... Novo.
Segurou a língua dele com os dentes, impedindo-o de movimentá-la e deu um leve sorriso antes de prosseguir. Seus lábios se concentraram na língua do italiano, sugando-a lentamente, como se fosse um picolé. Era como se estivesse fazendo um boquete, mas com a língua dele. Observava, de olhos bem abertos e atentamente, as reações dele. Assistiu, com enorme deleite, um rubor surgir no rosto do canceriano. Não tinha se enganado.
“Um uke... Perfeito.”
O jovem oriental fazia uma sucção gostosa e sensual na língua do italiano, e este não pôde deixar de imaginar aquela habilidade oral em outra parte de seu corpo. Achava uma gracinha o empenho do garoto em impressioná-lo: de passar uma imagem de exacerbada confiança e experiência que Máscara duvidava que ele realmente possuísse.
O puxão que o menino lhe dera o desequilibrou parcialmente e quase o fizera cair sobre ele. Máscara não era indiferente ao seu toque; o sangue esquentou e correu rápido pelo corpo, enrubescendo seu rosto. Em resposta, agarrou-se à blusa que o oriental vestia, fechando o punho e repuxando o tecido que revelou o ombro alvo e delicado, enquanto alguns botões fugiam de suas casas. Lentamente, deixou que o peso do corpo caísse sobre o outro, cujas costas seminuas foram pressionadas de encontro ao gramado.
Hades gemeu em resposta, ao sentir o contato do corpo do outro sobre si. Os dedos se emaranharam nos cabelos negros, puxando-os para trás ligeiramente. O virginiano moveu o rosto para a direita encaixando seus lábios nos dele mais uma vez e se contorceu quando suas costas tocaram a grama. Sentia cócegas, o que o fez impulsionar seu corpo pra frente e deitar-se com o tronco sobre o peito de Giovanni. Os cabelos castanhos deslizando por sua face e tocando a do italiano como uma cortina que os protegia de olhos alheios.
Os fios sedosos e macios acariciando a face de Máscara da Morte fizeram o mafioso sorrir. Encarou intensamente os olhos verdes, enquanto as mãos subiam indecorosamente pelas coxas alvas que rodeavam seu corpo. Apertou a carne tenra, deliciando-se com a liberdade que o outro lhe dava para tocá-lo. E, sentindo-se autorizado, continuou o passear de mãos até o bumbum arredondado.
Hades abriu os olhos ao sentir as mãos do italiano vagarem até seu traseiro. As mãos automaticamente se fecharam sobre a grama, mas o beijo que trocavam ainda continuava calmo, lento e sedutor. Os olhos verdes, porém, estavam imparciais e alertas... Friamente vigilantes. Deu uma pequena mordida no lábio inferior do canceriano e, em seguida, um selinho, antes de se afastar do abraço dele e sentar sobre as pernas, olhando para a piscina.
O menino, que há pouco parecia se divertir tanto quanto Máscara naquele jogo de sedução, sustentava um olhar perdido em uma direção qualquer que não a do seu ‘amante’.
O italiano apoiou-se sobre os cotovelos, fitando, curioso, a expressão do outro.
– O que foi, bambino? – aproximou a boca lentamente do pescoço do outro, roçando os lábios úmidos na pele sensível. — Vai se fazer de difícil agora? – a voz saiu sussurrada e um tanto debochada.
Os olhos verdes piscaram com aquela carícia feita em seu pescoço, antes de se moverem e encararem os impassíveis azuis-safira.
– É isso que acha? — o virginiano deu um sorriso discreto. — Empolgado com apenas um beijo? Você é fácil de agradar — riu baixinho e deu um selinho nos lábios do canceriano. Levantou-se e estendeu o braço para dar-lhe a mão. — Podemos brincar a hora que quisermos — disse suavemente, enquanto uma brisa soprou, levantando ligeiramente a parte de baixo da camisa.
– Vero...Io sou bem fácil! — riu.
Para Máscara aquilo não era ofensa. Aceitou a mão que lhe era oferecida, mas não para se levantar. Assim que ficou de pé, puxou o japonês para si, prendendo-o num abraço.
– Quero brincar agora — sussurrou em seu ouvido, de maneira sensual.
– Tudo que é muito fácil me entedia — suspirou, antes de dar um selinho no canceriano. — Agora, deixe-me colocar uma calça para sairmos, sim? É minha primeira vez na Itália e tenho certeza de que você será um ótimo guia, além de uma excelente companhia. Vamos — entrelaçou os dedos nos dele, desvencilhando-se de seu abraço e conduzindo-o de volta para a mansão.
– Tudo que é fácil me entendia... — Máscara imitou, zombeteiro e com voz anasalada, a fala do japonês.
Bem, menos mal... Assim não quebrava a promessa feita a Shun. O garoto ainda devia estar todo arrebentado por dentro e o italiano já estava pensando em...
Talvez fosse melhor manter uma distância segura, um perímetro de segurança, para não cair mais naquelas armadilhas eróticas. Sair da mansão e dar uma volta pela cidade tornaria a tarefa mais fácil. Não seria uma má ideia almoçar fora.
O japonês deu um sorriso e foi com o italiano até o quarto, para se trocarem. Hades não fazia ideia do que vestir. Aquelas roupas faziam o estilo do Shun, não o seu. Suspirou mais uma vez e levou um dedo até o queixo, olhando com atenção as roupas que tinha espalhado em cima da cama. De costas, sequer percebia o italiano mirando-o com curiosidade.
– Qual a dificuldade, bambino? Essas roupas foram feitas sob medida; escolha um conjunto e vista. — disse Mask, já trajado de Armani.
Hades passou a mão na testa e suspirou. Tinha que ter paciência com o italiano. A questão não era o tamanho... Era o estilo. Duvidava muito que se oferecesse a Giovanni uma calça de couro preta e camisa xadrez, ele usaria. No entanto, tentar explicar isso ao canceriano... Ah, só de pensar lhe dava dor de cabeça!
O virginiano pegou uma calça de corte reto e uma camisa de manga longa, dobrando-a na altura no cotovelo e deixando o primeiro botão na altura do peito descasado. Gostava de usar uma roupa mais formal e clássica. Shortinhos naquele tamanho eram indecentes demais pro seu gosto. Os dedos percorreram seus cabelos bagunçando-os um pouco antes dos olhos esmeraldinos se fixarem nas safiras de Máscara.
– Estou pronto. E tu?
– Eu estou sempre pronto — falou o italiano, com um sorriso no canto dos lábios. — Vamos... — fez um movimento com a cabeça, indicando que o japonês o acompanhasse.
Máscara não achou necessária a presença da sua segurança particular, afinal, seria apenas um passeio de lazer. Dispensou Shina da tarefa, pois o próprio daria conta de proteger a Shun e a si mesmo caso esbarrasse em algum desafeto.
Hades colocou as mãos dentro dos bolsos da calça e acompanhando Giovanni a caminho do carro. Shina brotou de algum lugar do chão e, quando menos percebeu, a mulher já estava ao seu lado. Tsc. Tinha que dar um jeito nessa erva daninha.
Naquele momento o virginiano nem precisou fazer muito esforço. O próprio mafioso dispensou a presença dela e a jararaca olhou para si como se soltasse veneno pelas ventas... Hades abriu um meio sorriso, antes de esperar ao lado do carro.
– O que é tão engraçado? — perguntou o mafioso, embora já desconfiasse da causa daquele sorrisinho. Era um sorriso discreto, mas que não passou despercebido ao olhar perspicaz do italiano.
Perspicaz e cavalheiro: Máscara abria a porta do carona para que o japonês se acomodasse no banco de couro da Ferrari negra.
– Ora... Se tu não percebeste por que eu deveria contar? Iria estragar a diversão — o virginiano falou tranquilamente, antes de entrar na Ferrari. — Então, hoje tu serás meu motorista? Quais lugares iremos conhecer?
Máscara ignorou a esquiva do japonês, achando melhor não alimentar o assunto Shina. Mas não gostou nada da palavra "diversão" utilizada pelo mais novo. Só torcia para que o menino não inventasse de querer "divertir-se" com Shina. Se houvesse algum atrito aberto entre os dois o mafioso teria que tomar partido de um dos lados. E ele sabia muito bem qual seria.
Não queria ter que chegar a isso.
– Vamos a um restaurante primeiro, depois podemos rodar por aí — respondeu o italiano.
A chave virou na ignição, o motor roncou suave e o carro acelerou para além dos limites da mansão.
O garoto abriu a janela do carro, apoiando o cotovelo na borda, enquanto observava a paisagem ao redor. O bairro era luxuoso, mas tinha algo de idílico. Talvez fossem as ruas de pedra ou alguns casarões mais antigos que guardavam a essência arquitetônica de tempos passados. Com a mão direita no rosto e olhos fechados, o japonês sentiu a brisa tocar-lhe como numa carícia.
Sentia-se livre.
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