Um Presente Inesperado
13 Ristoranti
Notas iniciais
O automóvel esportivo podia atingir centenas de quilômetros por hora em uma fração de segundos. Propositalmente, o mafioso dirigia a uma velocidade bem abaixo da potência máxima da escuderia italiana.
Aquela região era realmente muito bela. Não por menos Máscara a escolhera para instalar sua residência. Não tinha pressa em chegar ao restaurante, e Hades parecia apreciar a vista tanto quanto ele.
O tempo passou rápido, assim como as imagens que via na janela se dissipavam pela neblina que encobria a cidade.
O vento soprou mais uma vez, bagunçando os cabelos do oriental. Um frescor misturado com a frieza da água. Foi num dia assim que tudo aconteceu.
Pensando bem, se naquele momento as coisas tivessem tomado outro rumo... Sua existência talvez não fosse necessária.
Os olhos esmeraldinos vagaram silenciosamente das árvores parcialmente escondidas pela cortina de vapor e se fixaram no rosto de Giovanni, que dirigia em velocidade pelas ruas italianas.
O acaso os havia unido.
O virginiano perguntava-se o motivo de ainda não ter tomado as providências necessárias para... Terminar tudo.
Piscou os olhos e voltou a olhar para as edificações. O tédio voltando a dominá-lo. Ou talvez fosse outro sentimento... O de que estava chegando a um ponto crítico.
A Ferrari chegou ao seu destino.
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O restaurante era luxuoso, entretanto, conservava o clima caseiro e aconchegante, típico dos estabelecimentos familiares que, de geração para geração, mantinham a tradição da culinária siciliana.
O japonês sabia, mas não queria admitir para si. A verdade era que ainda não queria... Acabar com a brincadeira.
Não esperou que o canceriano abrisse a porta do carro. Assim que ele estacionou, abriu- a e olhou as pedras que faziam parte da construção à sua frente.
Alguns homens vestindo roupas padronizadas. Os garçons, provavelmente.
Passou os dedos na nuca, ainda pensativo.
Tsc. O que era isso? Hesitar era uma palavra que não existia em seu dicionário. Virou-se discretamente, vendo que Máscara havia saído do veículo pouco depois de si.
Ao menos gostaria de te uma refeição agradável, e o fato de Shina não estar ali era uma benção. Não teria que fingir ignorar a presença daquela jararaca que vivia se enrolando no italiano. A presença dela o irritava sem motivos aparentes. Seria um reflexo de Shun, talvez?
– Espero que esteja com fome. Se não estiver, também não faz diferença, a comida daqui é tão boa que você não vai querer largar o garfo! falou o italiano, em tom alto e divertido.
Máscara era um velho conhecido do dono, consequentemente, foi encaminhado, juntamente com seu acompanhante, para a melhor mesa do estabelecimento.
Hades deu um pequeno sorriso ao ouvir o comentário. Preferiria segurar uma faca no lugar do garfo... Só por precaução.
Não tinha tanta fome. Não tinha tanto apetite para comer como Shun, embora apreciasse um bom prato.
– Devo considerar melhor que a comida que você faz, então? — cutucou Giovanni, andando ao seu lado.
O clima que se instalou entre os dois era ameno... Calmo. Gostaria de não se sentir tão...
Suspirou.
O que vivia ali eram apenas... Momentos. Não tinha que pensar muito sobre isso.
Acompanhou o mais velho até a mesa onde se sentariam. Dali podia ver o céu. A vidraça que cobria o teto dando uma imagem espetacular acima de suas cabeças.
– Já está impressionado com tão pouco? — sorriu debochado, rebatendo a ofensa, semelhante a que recebera quando estavam se provocando ao pé da árvore. — E para a sua informação, a única comida melhor que a minha é a da minha nona. Então, posso dizer que esse restaurante serve a terceira melhor comida da Itália.
O garçom se aproximou com o cardápio, mas o mafioso não precisou olhar a carta de vinhos para decidir o que iriam tomar.
O rapaz saiu para buscar a bebida e os dois puderam ficar a sós para escolher, com calma, o que iriam comer.
– Traduzindo... Você está me oferecendo uma comida de terceira qualidade o japonês ergueu uma sobrancelha enquanto pegava o menu e olhava os aperitivos. — Precisa se esforçar mais se quiser me impressionar... — comentou casualmente, relaxando na cadeira.
Da posição onde estava, conseguia ver quem entrava e saía do ambiente.
Ouviu um leve tilintar sobre o vidro. Uma garoa fina caía sobre a vidraça acima deles. Pousou , novamente, o menu na mesa.
– Escolha algo decente pra nós. Se a comida não é tão boa, você deve saber ao menos aquilo que pode ser comestível — falou, passando o dedo pela faca em cima da mesa, absorvido em pensamentos.
O italiano deu uma risada gostosa.
– Por que eu iria querer te impressionar? É muito convencido! Shun era mais humilde — falou, brincando, também gostava de provocar. — A comida daqui é maravilhosa! Você vai dar o braço a torcer quando provar — fez um sinal para o garçom e pediu o especial do dia.
O oriental deslizou as mãos pela toalha de mesa, olhando os talheres.
– Gianni, você acredita no acaso? — perguntou, sem levantar o olhar.
A chuva fina começou a ficar mais intensa, abafando os ruídos de fora do restaurante.
– O quê? — o italiano fez uma cara de interrogação.
Máscara era um homem prático e aquela pergunta estava muito metafísica para sua mente objetiva. Ficou alguns segundos metabolizando o teor daquela pergunta.
– Eu acredito em causa e consequência; ação e reação — respondeu, encarando os olhos esmeraldinos.
– As leis da física também compartilham de sua ideia.
Hades fechou os olhos, se concentrando nos sons ao seu redor. Conversas amenas que não lhe interessavam, barulho de talheres que tocavam a comida no prato, passos apressados dos garçons para atender os clientes, a chuva tocando as vidraças de forma escorregadia.
Já tinha feito sua escolha e não podia voltar atrás.
O oriental abriu os olhos e, do outro lado do restaurante, atrás de Máscara da Morte, viu uma sombra se mover com agilidade pelo jardim.
O garçom parou ao lado dos dois, pronto para anotar o pedido.
Segurou delicadamente a faca do lado do seu prato, com a mão direita, encarando o olhar do italiano. A respiração mortalmente tranquila.
Naquele momento o garçom chegou com o vinho.
O italiano dispensou a prova da bebida conhecida e assim que terminou de encher as taças o rapaz deixou a mesa, avisando que os pratos não demorariam mais que vinte minutos para serem servidos.
– Sabe... — o mafioso girou o líquido no cristal, fazendo o aroma se desprender e chegar até as suas narinas — Eu cheguei a pensar em pedir a sopa, para você não precisar ficar perto de nenhum objeto cortante. Mas seria uma lástima se você resolvesse jogar o líquido quente no meu lindo rosto. — proferiu o adjetivo com uma pitada de sarcasmo, embora não fosse uma inverdade.
Depois de sorver a bebida, Máscara pousou a taça sobre a mesa e finalizou a sua fala com uma admoestação:
– Não preciso dizer que estou armado, não é?
Hades observou atentamente o italiano sorver a bebida em seus lábios.
Tolo... Ele não tinha desconfiado de nada?
Franziu o cenho ligeiramente.
– Bom saber... Que você pode se proteger.
Pelo canto do olho, viu o garçom colocar a mão vagarosamente dentro do bolso, num gesto casual, como se fosse pegar algo. Ao mesmo tempo, vislumbrou um pequeno ponto vermelho no pescoço do italiano. Era a deixa de que precisava, antes de pegar a faca que tinha entre os dedos, girá-la rapidamente e enfiá-la com força na mão do garçom impedindo-o de movimentá-la.
– Pro chão! — gritou pro canceriano, empurrando o garçom no chão com o peso de seu próprio corpo, pouco antes de ouvir o estilhaçar dos vidros ao seu redor.
O som de disparos e o cheiro de pólvora inundou o ambiente. Retirou a faca que havia atingido o garçom e, sem pestanejar, cortou-lhe a garganta. O sangue dele tingindo seu rosto impávido.
"Qual é o fascínio que esses japoneses vêem no gore?" — foi o que pensou Máscara, vendo a lambança que o oriental fazia no restaurante.
No final, de nada adiantara ter levado a pistola de longo alcance; seu Armani estava todo sujo de sangue por conta das peripécias do mais novo com os talheres.
– Uma faca de refeição! Dio mio, que deselegância! — exclamou o mafioso, sacando a arma e chutando a mesa para longe, desviando a atenção sobre si.
Ignorou o apelo do oriental para que se jogasse no chão e foi se esquivar atrás de uma pilastra que sustentava o teto do salão.
Como se já não fosse suficiente ter espirrado sangue em seu paletó, agora o pequeno queria que ele rolasse no chão imundo?
O restaurante estava um pandemônio. Balas cruzavam o salão por todos os lados, mas os tiros eram dados a esmo. Pura brutalidade das automáticas, sem qualquer apuro ou precisão.
Máscara empunhou a arma e, ao contrário de seus agressores, iniciou disparos certeiros.
Um por um, os vultos que rodeavam o estabelecimento foram caindo inertes ao chão; suas cabeças perfuradas pelas balas da Desert Eagle.
Tsc. A morte não era bonita. Morrer não era algo belo para a maioria das pessoas. Porém, a paz que ela carrega em seu fim é recheada de simbolismo. E somente uma vez na vida uma pessoa é capaz de ter essa experiência.
Salvo raras exceções.
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