Um Presente Inesperado
15 Sob Ataque - parte II
Notas iniciais
O túnel era estreito, mas os dois puderam atravessá-lo sem problemas. Hades, mesmo contrariado, seguiu as instruções de Máscara da Morte e, em pouco tempo, ambos chegaram do outro lado.
O italiano empurrou umas ripas de madeira que bloqueavam a saída, a luz do sol adentrando o túnel e ferindo seus olhos, checando a área externa e procurando algum atirador. Podia ver uma movimentação ao longe, mas se corressem de forma rápida e silenciosa, poderiam chegar até o carro estacionado sem serem vistos.
Virou o rosto, lançando um olhar significativo para o oriental. O jovem era esperto e com certeza havia notado os inimigos à espreita. Fez um sinal com as mãos, indicando que discretos e apontando para o seu objetivo: a Ferrari, assim como o caminho que deveriam seguir. Eles teriam que dar a volta pelo canteiro e entrar pela porta do carona, o único ponto cego dos atiradores.
Esse era o plano e eles não podiam falhar. Eram apenas os dois contra um bando de assassinos. Sua munição estava no fim e, por maiores que fossem suas habilidades de combate corpo a corpo, não daria conta de defender a ambos contra homens fortemente armados. As vidas deles dependiam do sucesso desse plano de fuga.
Máscara esperou até o momento adequado e, quando a oportunidade apareceu, deu o sinal para que o japonês o seguisse.
A distância até o carro, que não passava de poucos metros, tornava-se quilômetros sob os pés dos homens em fuga.
A sensação que Hades tinha era de que estavam interpretando um filme de ação onde os mocinhos tinham que ganhar a rodada e acabar com os vilões. Com a diferença que não eram mocinhos. O que acontecia ali, naquele momento, era uma disputa de poder. Poder sobre o tráfico.
Nesse caso, agir com valores éticos para alcançar o que queriam não era algo a ser cogitado. Exceto, somente, se o acordo fosse vantajoso e obviamente seguro.
Ao tomar a decisão de alertar Máscara da Morte de que estavam em uma emboscada naquele restaurante, havia jogado por terra os planos que tinha feito até ali. E terra era o que os pés de ambos pisavam, no túnel estreito e mal ventilado, para conseguirem sair dali sem a chuva de disparos na direção dos dois.
Não tinha entendido sua própria reação. Seguiu o italiano, sem dizer nada. O importante era que ambos saíssem de lá em segurança.
Piscou os olhos quando as madeiras que obstruíam a saída caíram no chão ao serem chutadas pelo canceriano. Havia levantado uma poeira úmida que chegou a altura dos olhos. Aquele lugar não devia ser usado com muita frequência.
Saíram perto do lado de uma parede descascascada do estacionamento. Alguns tiros e gritos podiam ser ouvidos ao longe. Mais adiante, viu o carro de Giovanni, estacionado. Somente alguns passos, numa distância de 4 metros e poderiam sair dali em alta velocidade. Ainda assim, aquela sensação lhe era extremamente familiar. Ela não o deixava... relaxar.
Entraram no carro, fechando as portas. Era só ligar o carro e irem embora, certo?
Então... Por que o carro não ligava?
Um gás de coloração branca começou a adentrar o carro.
Monóxido de carbono? Não... Era... Cof, Cof...
– É um sonífero gasoso! Cof! — disse, tossindo e tentando abrir as portas, mas estavam trancadas. Mas, quando chegou a esta conclusão... O efeito do gás em seu corpo foi rápido. Olhou para Máscara, vendo que ele também tinha dificuldades em se movimentar.
A Yakuza não perderia tempo em adormecê-los se não tivesse um bom motivo. Restava saber qual. Hades ouviu o barulho de um dois toques no vidro do seu lado do passageiro. Não conseguiu enxergar quem era, mas a voz lhe pareceu extremamente familiar. Respondeu batendo no vidro, a consciência deixando-o aos poucos. Sequer conseguia entender direito o que Máscara berrava ao seu lado. Tentava se concentrar em identificar o que a pessoa falava.
– Parem de se debater! Você não vai conseguir escapar de novo... Chibi– uma voz rouca e divertida falou do lado de fora do carro enquanto mais capangas se aproximavam ao redor deles.
O gás penetrava as narinas, amortecendo os sentidos. Máscara tentou cobrir o rosto com o pano do paletó, mas o tecido não era barreira para a substância gasosa. Esforçando-se ao máximo para manter o controle do próprio corpo apontou a arma em direção à janela, efetuando vários disparou. O vidro ficou estraçalhado, e por tabela algumas balas atingiram seus agressores.
O italiano não soube dizer como o inimigo conseguiu sabotar o carro a ponto de não conseguir abrir as portas da Ferrari, e era impossível efetuar qualquer raciocínio naquelas condições.
Ficar dentro do carro não era uma opção e as possibilidades do lado de fora eram tão desanimadores quanto.
Máscara pôde ver a dama que completava seu apelido rondar o pátio do estacionamento. Talvez estivesse efetivamente se jogando nos braços da Morte, mas a perspectiva trágica não arrefeceria seu espírito combativo e tenaz. Com um golpe que lhe exigiu extremo esforço, Máscara partiu o resto do vidro abrindo caminho por ele. Suas mãos tatearam o metal e, pelo lado de fora, ele conseguiu abrir a porta.
Tentou puxar o garoto pelo pulso e arrastá-lo consigo para fora do veículo, mas logo seu pé tocou o asfalto, o mafioso tombou no chão, sendo sacudido por um acesso de tosse. Mesmo ao ar livre havia uma grande quantidade de fumaça. Era impossível resistir ao entorpecente. Aquele seria o fim.
A mente enviou um sinal para que a arma fosse empunhada em um último ato de bravura. Entretanto, o membro continuou inerte. Progressivamente os olhos do italiano foram se fechado, mesmo com sua tentativa de se manter desperto.
Morreria daquela forma tão patética, sem ao menos identificar seu inimigo?
Cometera erros infantis naquele dia, fora descuidado.
Máscara da Morte nunca era descuidado. Então, o que o fizera falhar de forma tão grosseira?
A resposta era bem óbvia.
“Shina tinha razão” – falou para si mesmo.
Nesse intente o som de tiros irrompeu com uma intensidade violenta, como se o número de atiradores tivesse dobrado.
Realmente, seria uma morte patética, contudo, inevitável.
Convencido de seu fim inglório, o mafioso esperou pela dor das balas transpassando seu corpo, a umidade do sangue banhando suas roupas, o gosto amargo da derrota subindo à garganta. Esperou, sem ser acometido por nenhuma dessas sensações. Será que era efeito do gás?
Quão misericordioso era seu algoz!
Sendo ele da ‘mesma laia’ daqueles que o atacavam, Máscara era ciente de que não havia qualquer misericórdia naquela ação. O gás era para amortecer e paralisar suas reações, não para anestesiá-lo.
O italiano conseguiu abrir os olhos e mover a cabeça para olhar ao redor. Os disparos das automáticas se cruzavam, vindos de todos os lados, mas nenhum em sua direção.
Deixou escapar um meio sorriso, então seu corpo não resistiu mais aos efeitos do gás. Desmaiou.
Enquanto o mafioso dormia, Shina liderava o bando que viera em seu resgate.
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Com o rosto coberto por uma máscara que a protegia dos efeitos do gás, Shina se aproximou do carro do chefe. Chamou Enzo e mais outro capanga para erguer o italiano e levá-lo para dentro do carro blindado, estacionado próximo dali.
O tiroteio continuou sem dar trégua e a mulher deu cobertura para que os três chegassem ao carro em segurança. Uma vez que a integridade do chefe estava garantida — e com o retorno de Enzo para auxiliá-la na sua própria fuga, Shina voltou-se para o interior do carro em busca do japonês.
Bastava pegar o Pokémon e sair imediatamente dali.
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Hades não conseguia mais manter os olhos abertos. Escutou um barulho do seu lado. O vidro se estilhaçando contra o chão, os disparos secos no ar. Não podia acreditar que o que estava vivenciando fosse real. Isso não fazia parte dos seus planos. Maldição!
O corpo pesou e perdeu a noção do que ocorria ao redor. As palavras não faziam mais sentido. A escuridão tomou sua vista e o tragou em seu silêncio. Odiava isso. Essa sensação de enclausuramento em si mesmo. A cabeça pendeu para o lado e adormeceu profundamente, num sono inquieto e irritadiço. Tinha cansado de brincar.
Do lado de fora do carro, pessoas vestindo máscaras de gás brotavam no estacionamento e se confrontaram com o grupo da Yakuza.
Um homem de cabelos compridos e olhos dourados trincou os dentes ao ver a baderna que os outros invasores faziam ali. Faltava tão pouco!
Pegou sua arma, presa nas costas e atirou contra o grupo mascarado. Deviam estar ali para livrar Mascará da Morte de sua captura. Justo agora quando tinha o pequeno e ele em suas mãos...
Escondeu-se ali mesmo, ao lado do carro onde Shun e Máscara estavam, utilizando o veículo esportivo como proteção. Arrastou-se ao redor da Ferrari e viu um dos mascarados levando o corpo inerte de Máscara até um outro carro, pouco mais à frente. Outro ficou e adentrou o carro esportivo em que estava escondido.
Não pensou duas vezes. Guardou a arma na cintura e pegou uma linha fina e uma pequena adaga que guardava perto do tornozelo. Sorrateira e silenciosamente, como um gato, posicionou-se atrás da pessoa , estrangulando-a com o fio e, por fim, enfiou a adaga na cintura do desconhecido que lutava contra si para se libertar. Sua pegada no pescoço da vítima era mortal. Se quisesse poderia matá-lo.
Com os movimentos bruscos do outro, acabou se irritando e puxou a máscara do rosto do sujeito dando de cara com Shina.
Uma mulher?! Riu alto, deliciado. O gás dentro do veículo continuava a escapar pelo ar-condicionado. Colocou a máscara que ela usava em si mesmo com uma das mãos e deu um soco no rosto delicado da mulher, fazendo que ele ficasse com a face virada contra o ar-condicionado. Sentou-se em cima de seu corpo enquanto a sufocava pelo fio de náilon até que perdesse a consciência.
O homem sorriu de lado, os olhos brilhando de êxtase. Fazia muito tempo que não se sentia tão bem!
Assim que o corpo da mulher aquietou-se, estando no mesmo estado dormente de Shun ao seu lado, desligou o ar-condicionado e empurrou o corpo dela, fazendo-a ficar de joelhos no espaço entre o porta-luvas e as pernas de Shun. O tronco dela deitado sobre o peito do virginiano.
Ligou o carro e, dirigindo em alta velocidade, quebrou a catraca do estacionamento. Pegou o celular que tinha no bolso e acionou um número conhecido.
– Só consegui parte da mercadoria. Não reclame! Podemos trabalhar com isso também. No final vamos nos divertir do mesmo jeito — desligou sem escutar as reclamações do outro lado da linha.
– É bom vê-la novamente... Princesa — disse, olhando para o rosto de Shina.
O carro sumiu entre as ruas, despistando, com a ajuda da Yakusa, o local onde Shun e Shina seriam mantidos como reféns.
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