Notas iniciais
Desculpa pela demora gente, nem me dei conta de que havia passado tanto tempo sem atualização. Tentarei ficar mais atenta a isso. Espero que gostem. Reviews são sempre bem-vindos. [Daftookami]

Máscara havia sido carregado por Enzo até o carro e agora seguia de volta para a mansão. Aos poucos, o efeito do gás foi passando, mas o italiano só recobrou completamente a consciência quando já estava em segurança, sendo depositado pelo capanga sobre o couro do sofá.

Ainda atordoado, tentou se levantar, mas caiu sentado no estofado. Sentia o corpo dormente.

– Onde...onde est...? – foi interrompido antes de concluir sua frase.

– Está tudo bem, você está em casa – respondeu o capanga, achando que havia entendido o que o patrão queria dizer. Mas não era isso que o mafioso ia perguntar.

Máscara olhou em volta e agarrou Enzo pela gravata. Não era ele o encarregado pela sua segurança pessoal.

– Shina...

Enzo desviou o olhar, fugindo do olhar fulminante do chefe.

– Ela ficou para trás.

– O quê?!

Máscara cerrou o punho ao redor do pescoço do subordinado, mas a substância ainda presente em sua corrente sanguínea o fez ficar tonto. Quando se recuperou da tonteira, volveu os olhos ao redor e deu falta também do japonês. Rapidamente ligou os pontos: “Ela voltou para buscá-lo”. Essa era a única explicação possível para ter acordado e dado de cara com Enzo, alguém que não tinha autorização para circular livremente pela sua residência.

– Shun...

Temeu pelo que poderia ter acontecido. Queria sair dali e ir atrás dos dois, mas seu corpo ainda não o obedecia completamente.

– É esse o nome do japinha que você anda comendo?

O capanga recebeu um olhar mortal pelo comentário e por pouco não foi um golpe no meio do rosto. Aquilo não era hora para aquele tipo de brincadeira.

– Er... Aqui – estendeu um copo d’água para o patrão.

– Pegue o telefone e ligue para o escritório em Nápoles. Eu preciso descobrir o que está acontecendo. Mas antes, tente saber notícias dos dois e não deixe que ninguém se aquiete antes de encontrá-los, nem que eles estejam... – o italiano apertou os olhos com força e não concluiu a frase. – Faça isso, agora!

Máscara não confiava em Enzo, mas era o que tinha no momento. Deixou o copo intocado sobre a mesa e tomou o tempo que precisava para seu corpo se recuperar. Enquanto isso, o capanga passava a ordem do líder para as equipes que deveriam sair em busca de Shun e Shina.

A central em Nápoles iria investigar o ataque. Lá funcionava a inteligência da organização e era onde se faziam os contatos políticos e negociações com empresários. Uma empresa de fachada, que funcionava tanto para lavagem de dinheiro como para o cultivo de relações estratégicas.

Quando Enzo voltou para prestar contas, tranquilizou o chefe dizendo que não havia sido encontrado nenhum corpo, o que significava que eles ainda poderiam estar vivos.

– Ou só foram desovados em outro lugar...

O italiano repreendeu a si mesmo por pensar aquilo. Shina era forte e já havia escapado de situações muito mais tensas que aquela. Máscara também, mas dessa vez havia abaixado a guarda.

– Estúpido! Estúpido de Merda! — xingava, e Enzo não sabia se a ofensa era dirigida a ele ou a outra pessoa.

Máscara respirou fundo e tentou se acalmar; ficar agitado não ia resolver a situação. Precisava pensar para saber o próximo passo a ser dado.

– Se eles estiverem mortos não vai demorar até os corpos serem encontrados. Se eles conseguiram fugir, logo a Shina irá mandar notícias. E se...

Então outra possibilidade surgiu na mente perspicaz do mafioso.

– Se eles foram feitos reféns, não vai demorar para o inimigo entrar em contato.

===

O vidro do parabrisa estava trincado. O impacto do carro, na saída do estacionamento com catraca de segurança, tinha feito um belo estrago. Ainda bem que o carro não era seu.

Minos sorriu. Teve uma grata surpresa ao encontrar sua princesa ali.

Quer dizer que ela estava a serviço de Máscara da Morte?! Que piada! E pensar que voltariam a se reencontrar depois de tanto tempo.

Passou a marcha e o carro acelerou nas ruas da Sicília. Pelo visto, tinha capturado dois pássaros com apenas uma cajadada. Já tinha cumprido sua função ali, agora era esperar pelas instruções do seu chefe.

Passaram-se mais alguns minutos e adentrou uma casa simples. Acionou o controle do portão e adentrou o estacionamento. Pouco tempo depois do portão se fechar, evitando o olhar de possíveis curiosos, o chão se inclinou, fazendo uma ladeira surgir à frente do carro, num caminho que dava para o subterrâneo. Desligou o motor e, imediatamente, outros membros da Yakuza cercaram o carro. Saiu, retirando um maço de cigarros do bolso e acendendo um com um isqueiro. Deu uma tragada profunda, fazendo a fumaça exalada preencher o ambiente escuro, parcialmente iluminado.

– Arranjem as acomodações dos nossos hóspedes. Queremos que eles tenham uma estadia... Inesquecível — deu um sorriso ladino e adentrou as demais instalações, enquanto seus subordinados tiravam os corpos adormecidos de Shun e Shina, como se fossem sacos de farinha.

Longe dali, Máscara da Morte deixava a mansão e seguia com Enzo para seu escritório.

Os subordinados que estavam presentes na ação feita no restaurante se reuniram com o chefe, passando todas as informações que conseguiram coletar. Os capangas conseguiram identificar algumas placas de carro.

Os contatos que a máfia italiana tinha na polícia iriam ajudar a checar os números das placas. Provavelmente seriam placas falsas ou de carros roubados, de qualquer forma, poderiam levar a alguma pista.

A cada hora que passava; não, a cada minuto, Máscara ficava mais agoniado. Como se as vidas do japonês e da mulher se esvaíssem progressivamente ao passo dos ponteiros do relógio.

– Enzo, ainda não temos nada?! – berrou com o subordinado, que fora temporariamente “promovido” a seu assistente pessoal.

– Estamos aguardando a resposta de Nápoles. Nossos homens estão na rua, qualquer novidade eles ligarão imediatamente. Só nos resta esperar e...

A fala do rapaz foi interrompida pelo toque do telefone. Antes que Enzo pudesse atender, Máscara arrancou o objeto de suas mãos, levando o fone ao ouvido.

Parla!

Imediatamente ao comando, a voz do outro lado da linha se fez ouvir. Rouca e densa, definitivamente de uma pessoa de idade mais avançada. Ela impunha respeito e segurança; claramente não era a voz de um subordinado qualquer.

– Giovanni...

Um mero capanga não tinha autorização para tratar o chefe pelo nome de batismo.

– Diga, o que você tem pra mim?

Máscara baixou o tom de voz, mas estava longe de parecer calmo. Era perceptível sua ansiedade.

– A Yakuza foi a responsável pelo atentado – respondeu seu interlocutor.

– Impossível! Nós tínhamos um acordo!

O italiano estava revoltado. Pior, aquilo não fazia sentido algum. O que a Yakuza ia lucrar quebrando um pacto semanas após ele ter sido acordado?

Talvez uma facção dentro da máfia japonesa não aceitara o acordo, ou tudo fora uma armação desde o início.

Bambino, se você estiver envolvido nisso... Eu vou arrancar seus braços e pernas e mandar cada um deles para um continente diferente!” – pensou, ao imaginar que Shun poderia ser um espião infiltrado.

– Giovanni, ainda está aí? – a voz do outro lado da linha trouxe o mafioso de volta à realidade.

– Sim, estou. Você descobriu o paradeiro deles?

– Ainda estamos trabalhando nisso. Pelos números das placas nós encontramos dois carros abandonados numa beira de estrada. Provavelmente eles trocaram de veículo no meio do caminho para despistar. Mas estamos tentando traçar o trajeto que eles fizeram a partir daí. Eles deixaram algumas marcas de pneus e temos dois policiais conosco que vão analisar as filmagens das câmeras de segurança da cidade.

O homem deu uma pausa em sua fala e, depois de alguns segundos de silêncio, concluiu:

– A Itália é nossa. Eles não podem se esconder no nosso próprio quintal. Nós vamos encontrá-los. Não se preocupe.

A ligação foi encerrada e Máscara deixou-se cair na cadeira de couro.

“Yakuza...”

– Enzo – chamou o subordinado, mas dessa vez sua voz era estranhamente calma e séria. – Chame o tradutor que trabalhou conosco no acordo com os japoneses. Eu vou contatar Yokohama.

===

Minos andou pelo corredor estreito do subterrâneo, sem sequer dispensar um segundo olhar ao chibi e à princesa, que dormiam dentro do carro com o parabrisa estilhaçado. Suas ordens tinham sido claras e ninguém seria louco de contrariá-las. Se havia algo que a Yakuza não permitia era quebrar uma de suas regras e sair ileso, sem uma punição.

Andou, decidido, até uma pequena saleta parcamente iluminada, encontrando alguns de seus subordinados. Um deles entregou um copo com saquê em suas mãos após se sentar numa poltrona vermelha.

Entornou a bebida na boca em um único gole. O líquido tocando sua língua, dando-lhe as boas vindas.

Lembrou-se do sakazuki, a partilha do saquê, quando finalmente passou a fazer parte da máfia japonesa e sorriu minimante, cruzando as pernas.

O olhar estreitou-se ao observar seus homens engravatados, usando óculos escuros. Quem diria que conseguiriam se infiltrar no território da máfia italiana sem serem descobertos?!

Máscara da Morte, hã? Pelo visto ele não devia ser grande coisa. Conseguiu trazer de volta o chibi e, de brinde, ainda encontrou sua princesa. Ia adorar relembrar os velhos tempos com ela.

–Já avisaram nosso Oyabun? — o loiro perguntou, entrelaçando os dedos na frente do rosto, depois de repousar o copo sobre uma mesinha de centro.

– Estamos tendo alguns problemas de conexão por estar no subterrâneo, mas assim que conseguirmos um sinal, a mensagem será enviada.

Seus olhos encararam os óculos pretos de um deles, que tinha uma corcunda perto do pescoço e era meio dentuço. O rosto do subordinado que lhe respondia se contorcia de forma asquerosa quando sorria. Seu nome era Laime.

Na sua opinião ele não passava de um verme.

Bem, vermes podiam ser úteis para trabalhos sujos. Talvez por isso a Yakuza aceitasse qualquer tipo de pessoa em sua organização, desde que seguissem seu código de honra.

– Dispensado, Laime — lançou um último olhar ao subordinado, com promessa que não deixaria haver falhas na missão de que foram incumbidos. Aos demais que ainda o cercavam, fez apenas um menear de cabeça e um gesto com a mão para que saíssem do recinto, deixando-o sozinho.

Pensando bem, o próprio nome Yakuza não era uma denominação edificante que vangloriasse seus membros. Ao contrário. Esse termo havia surgido a partir de um jogo de cartas chamado Sanmai Garuta, semelhante ao jogo de cartas “Blackjack” cujo objetivo é somar 19 pontos.

No entanto, no Sanmai Garuta, a soma de 20 pontos na sequência 8, 9 e 3 determina a derrota. No jogo, “ya” seria a abreviatura de oito, “ku” de nove e “za”, de três. Somada, essa numeração resulta em 20 pontos e, neste jogo, quem somar 20, perde.

O significado de Yakuza seria, portanto, algo como perdedor ou derrotado.

Eles eram a escória da sociedade. Os rejeitados em suas diversas espécies.

Qual era a sua espécie? Ora, a que tinha ambição e desejo de poder para mudar o futuro, óbvio. O seu futuro. A seu bel-prazer.

Um prazer ao qual estava ficando mal-acostumado.

Depois de ir para os Estados Unidos cuidar de alguns pormenores com a célula do grupo mafioso japonês, podia dizer que seus gostos estavam ficando cada vez mais ocidentalizados. Preferia tomar um Red Label ao saquê, agora. Entretanto, tradição era tradição, e na Yakuza elas eram incontestáveis.

Em cima da pequena mesa, ao seu lado, pegou uma carta de baralho aleatória e tirou...

Um ás de copas.

Heh, que ironia.

Teria que lidar com assuntos do coração?

Levou a carta até o lábio, deixando um sorriso deliciado surgir ao se lembrar da sua princesa. A bela adormecida que havia trazido para seu castelo.

Mal podia acreditar que havia se reencontrado Shina nessas circunstâncias; e tampouco que ela fizesse parte da máfia italiana. Ia adorar interrogá-la mais tarde.

Ouviu duas batidas na porta, antes de outro subordinado entrar, meio esbaforido.

– O que aconteceu? — perguntou acidamente, levantando-se da cadeira, irritado.

– O garoto acordou. Mas... E-ele... — o homem falou, com a voz trêmula.

– Leve-me até ele.

Saiu dali rapidamente, indo até Shun, que se encontrava acorrentado pelos dois pés, numa cama, em outra instalação igualmente precária. A luz do teto piscando intermitente.

– Você demorou, Minos — o jovem de olhos verdes falou pausadamente, sem levantar a cabeça. — Limpe essa bagunça — disse, tocando devagar os fios pretos banhados em sangue de um dos subordinados, o qual tinha a garganta cortada e o corpo estendido sobre a cama, perto de seus pés.

A katana jogada no chão não muito longe dali.

Se ele não tivesse tocado o menor enquanto dormia, este não precisaria tê-lo matado. Ninguém o tocava sem sua permissão. Ninguém.

Minos deu uma pequena risada de excitação.

– Eu te ordeno! – a voz do chibi ressoou mais imponente, fazendo alguns membros se afastarem, impressionados como uma criatura de aparência tão frágil podia ter uma presença tão marcante.

Não, o loiro jamais se arrependeria de ter entrado para a Yakuza.

Minos colocou o joelho direito no chão e levou a mão ao peito do lado de seu coração:

– Ao seu dispor, Imperador.

===

Enquanto isso, no escritório da máfia italiana, Máscara da Morte recebia uma informação importante.

– Temos uma pista! – Enzo entregou ao chefe um papel com algumas direções escritas. – Conseguimos rastrear um dos carros até esse endereço, mas não podemos confirmar que o esconderijo deles seja realmente aí.

O mafioso entendia o que o subordinado queria dizer. O grupo poderia ter se dividido, para desviar a atenção de quem pudesse ir atrás deles. Era provável que encontrassem alguém no tal endereço, mas Shina e Shun poderiam ter sido levados para outro lugar.

– Já é alguma coisa por onde começar – dito isso, o italiano se levantou, decidido a ir verificar pessoalmente o local.

– Espere! – o capanga interrompeu sua saída. – O tradutor está a caminho. O que faremos se ele chegar e você não estiver aqui?

– Quando ele chegar entre em contato com Yokohama e descubra que merda está acontecendo. Estou confiando isso a você, Enzo.

O subordinado assentiu com a cabeça, deixando um sorriso ladino escapar pelo canto dos lábios. Estava contente pela responsabilidade que lhe fora atribuída e que expressava, em sua concepção, a confiança do chefe em si.

Confiança que de fato não existia. Mas Máscara não tinha como delegar aquilo a outra pessoa no momento. Para ele, checar a pista e averiguar se o japonês e Shina ainda estavam vivos era tarefa mais importante. Logo, ele faria pessoalmente.

De qualquer forma, conhecia a inteligência e eloquência do tradutor, o que evitaria maiores deslizes por parte de Enzo, caso este se portasse de maneira inadequada frente à Yakuza.

O mafioso armou-se e juntou seus melhores capangas para a investida ao que poderia ser o esconderijo do grupo que havia lhe atacado. Então, seis carros blindados com homens fortemente armados partiram no que poderia ser chamada uma operação de resgate.

Notas finais
Glossário: Parla! = Fala! Chibi = pequeno Nápoles e Yokohama = cidade italiana e japonesa, respectivamente. Oyabun = líder da yakuza, corresponde ao "Don" da máfia italiana Katana = espada japonesa Acho que é tudo, rs. Eu sou péssima pra títulos de capítulos que eu não escrevo como capítulo (a gente vai dividindo o texto depois que ele está pronto), mas como ele é centrado na yakuza e no minos, acho que a palavra traduz bem toda a complexidade da organização, a importância desse personagem para a história e o envolvimento do hades nisso tudo (seria uma metáfora do saquê que é partilhado entre eles). Okay, porque que eu falei isso? XD Bjssssssss