Um Presente Inesperado
14 Sob Ataque - parte I
Notas iniciais
INÍCIO DO FLASHBACK:
" Bam! Bam! Bam! Clack! Clack!
Os sons se avolumavam criando uma sinfonia perturbadora.
– E um rato foi preso na armadilha. O que fazemos quando isso acontece? — uma voz perguntou.
– Exterminamos! — Risadas foram ouvidas ao redor.
– Por que? — perguntou novamente, com tom divertido.
– Porque fedem! — esbravejou outra voz, dessa vez mais anasalada.
– Devem voltar pro lixo de onde vieram... E não sair mais de lá -sentenciou, com prazer, o destino da "presa".
“Parem...”
– Vai ser bom para ele aprender a obedecer... Você tem alguma coisa contra, chefe? — colocou o celular no viva-voz para que todos os presentes pudessem escutar.
O silêncio era mortificante.
“Parem...”
Parecia que via as cenas em slow motion. Sua própria voz estava selada... Trancafiada pelo medo em sua garganta.
Um canivete. Fios castanhos tremulando sob um olhar triste. Uma imagem embaçada. Era culpa da chuva. Então...
Por que a chuva inundava apenas seus olhos?
“Parem...”
Fechou os olhos, mas um puxão em seu cabelo o fez encarar novamente a cena a sua frente. Queria se soltar, porém a pressão exercida em seu corpo o impedia de se movimentar.
“Parem!”
Apenas um movimentar de lábios.
Um sorriso tranquilo.
E o carmin tingiu sua visão.
Jamais veria o mundo da mesma forma.
Tão pouco haveria testemunhas de sua transformação.
Naquela noite ao eclipsar da lua...
Seu coração mergulhou em trevas.
FIM DO FLASHBACK
Hades encarou, por poucos segundos, o rosto em choque do garçom que tinha acabado de matar. E no fim, sua camisa nova tinha ficado suja com o sangue daquele humano imundo.
Fazer pouco de sua inteligência era algo que não tolerava.
Colocou a mão dentro do bolso de sua vítima e tirou dela um pequeno controle remoto. Pelo visto não tinha se enganado. Ele era mesmo um homem-bomba.
Esgueirou-se pelo salão em meio aos gritos e alguns corpos já sem vida no chão, escondendo-se atrás de uma pilastra. Dali via a figura de Máscara da Morte, que apontava sua arma para o inimigo invisível. Ele não fazia ideia de onde eles iam atacar. De qualquer forma, tinham que sair dali. A segurança do italiano não podia ser mais garantida.
Nem a sua própria.
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Alguns atiradores haviam caído, mas o clima tenso no ar não deixava dúvidas para o experiente mafioso: o perigo ainda era presente e eles não ficariam seguros escondendo-se atrás de pilastras. Tinham que sair dali imediatamente.
O breve momento de cessar fogo foi a deixa que Máscara precisava. Lançou um olhar significativo para o oriental, mirando profundamente os olhos verdes e, com um movimento de cabeça, apontou para a direção da cozinha.
O italiano conhecia aquele restaurante. O dono do estabelecimento já fizera uma parceria com ele, quando o negócio era usado como fachada para lavagem de dinheiro, embora os lucros do restaurante, por vezes, superassem o das atividades escusas.
Na dispensa da cozinha havia uma passagem escondida, que dava saída para o estacionamento. Era uma antiga rota de fuga para possíveis batidas policiais, mas agora seria a salvação para Hades e ele. Se eles conseguissem chegar até o carro, vivos, a chance de continuarem assim seria grande.
As balas da Desert Eagle já estavam chegando ao fim, mas havia mais armamento e munição no carro do mafioso e, uma vez em movimento, dificilmente os perseguidores conseguiriam alcançar a Ferrari.
Esse era o plano: fugir.
Máscara tomou a frente e correu para a cozinha, dando cobertura para que o japonês seguisse-o, disposto a balear qualquer um que atentasse contra sua vida. Estava contando que Hades tivesse um mínimo de bom senso e seguisse à risca suas instruções. O êxito da fuga dependia disso.
Hades, por sua vez, colocou o dispositivo que estava com garçom em seu próprio bolso e rapidamente se esgueirou entre as colunas do restaurante. Era o caos que reinava ali. Parecia inacreditável que seu coração estivesse mortalmente calmo, apesar da cena cruenta e chocante dos corpos e sangue no local.
Tinham que sair dali. No entanto, isso não era garantia de que estaria a salvo. Se tinha uma coisa da qual tinha certeza era que a Yakuza nunca deixava viva uma testemunha.
Bem, nada os impedia de tentar. Sempre teve que lidar com o inferno de sua própria consciência. A morte era algo que não temia.
O sangue salpicado em seu rosto começava a coagular. Tsc. Precisaria tomar um banho demorado.
Conseguiu fazer contato visual com o italiano. Se ele tinha um plano pra sair dali era bom colocá-lo em prática logo.
Os japoneses eram pacientes como a tartaruga, mas rápidos como um lince se tivessem que agir. Agilmente, Hades conseguiu seguir os passos do mafioso, encontrando-o na cozinha. As coisas pareciam estar mais calmas por lá. Pelo menos até o momento.
– Bambino, por aqui! – Máscara abriu a dispensa e jogou tudo que havia nas prateleiras no chão.
Uma pequena porta fez-se visível na parede dos fundos e, empregando toda a sua força, o mafioso chutou a madeira que tampava a estreita passagem.
– Esse caminho vai dar no estacionamento, quando chegar do outro lado nós vamos direto para o carro.
O italiano explicou a situação ao japonês e deu um último aviso:
– Permaneça sempre atrás de mim, vai ser mais difícil te proteger se você se distanciar – dito isso, adentrou o túnel que os levaria para o exterior do estabelecimento.
Estavam em uma situação complicada. Tiros eram disparados sem direção. Um pequeno tumulto se fazia presente nas entradas do restaurante. E...
– Eu não sou kodomo*, Gianni – replicou o japonês, meio irritado, pegando um guardanapo de tecido e limpando um pouco o próprio rosto. — E essa bagunça que o sangue daquele... — bufou.
Ajeitou mais seu corpo contra as pilastras, imprensando -o junto ao do italiano. Tsc. Pelo visto a máfia japonesa não pouparia esforços pra conseguir o que queria. Porém, quebrar o acordo dessa forma... Alguma coisa devia ter acontecido no Japão.
Estreitou os olhos, à medida que o canceriano ditava como devia agir para escapar dali.
– Ok, ok... Irei acompanhá-lo — levantou o rosto, aproximando-o da face de Máscara — Pare de dizer o que devo fazer — era uma atitude que não gostava; ninguém lhe dizia o que devia ser feito.
INÍCIO DO FLASHBACK:
– Então? Estou esperando. — a voz era severa e não admitia contestação.
– E-eu... — gaguejava. Queria parar mais não tinha coragem de expressar isso em voz alta.
– Se não fizer como estou dizendo você sabe o que vai acontecer... não sabe? — era um aviso que o outro não tornaria a repetir.
Os olhos esmeraldinos se encheram de lágrimas, mas sabiam que isso não iria comover o homem á sua frente.
– H-hai. — a voz do pequeno japonês saiu trêmula e incerta, antes de pegar a espada de madeira com as palmas das mãos calejadas com feridas abertas e voltar a fazer mais 100 movimentos de kendo.
A perfeição do estilo de kendo, passado de geração em geração pela família Mitsumasa, era conhecida dentro da máfia e um orgulho que deveria ser transmitido e aprimorado entre seus membros. Teria que aprendê-lo mesmo que não gostasse de manejar uma espada, ainda que de madeira, para treinar.
Um boneco feito de palha, colocado à sua frente, recebia os golpes errantes do virginiano. E, sob o olhar crítico e impaciente de seu instrutor, naquele dia, Shun se desconcentrava e tornava a cometer novas falhas.
A dor lancinante em sua mão irradiava para os dedos já enfraquecidos. Se pelo menos não se sentisse tão frustrado... Desferiu mais um golpe no boneco, que permanecia insistentemente de pé.
Por que tudo que fazia não era o suficiente para agradá-lo?
Mais um golpe no boneco, dessa vez com mais força.
O rosto de Shun começou a ficar vermelho. Estava acordado desde cedo e cumpria religiosamente tudo o que o mandavam fazer. Queria apenas ter um tempo pra si. Um momento só seu. Os golpes voltavam a atingir o boneco com mais precisão e rapidez. Se pudesse se livrar desse sentimento...
Girou o pulso com a espada em sua mão direita, ao mesmo tempo que seu quadril acompanhou seu corpo. A espada tocou a junção da cabeça do boneco com o seu corpo, fazendo aquela voar pelo ar e cair aos pés do instrutor dentro da sala.
Se ao menos... Pudesse extirpar essa frustração de seu coração.
Shun respirou fundo controlando sua respiração, com os olhos lacrimejantes fixos na cabeça do boneco.
"Ele está quase pronto" — foi o que pensou o professor de kendo, ao abrir um sorriso ladino que passou despercebido por Shun.
FIM DO FLASHBACK
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