Um Presente Inesperado
17 Imperador
Notas iniciais
Num pequeno quarto secreto, no subsolo italiano, o silêncio era sepulcral.
–O que estão esperando?! — Minos ordenou, manifestando-se com autoridade aos outros, que olhavam pasmos aquela cena. — Apressem-se e façam logo o que nosso Imperador mandou. Querem terminar como ele? — perguntou impaciente, referindo-se ao subordinado com a cabeça decepada.
Levantou-se sem desviar o olhar do jovem oriental, sentado com uma postura naturalmente elegante, apesar da situação bizarra.
– Com sua licença — o ariano disse antes de esticar a mão.
Hades estreitou o olhar. Era um aviso para que não chegasse perto demais.
A mão de Minos desceu vagarosamente até a cabeça decepada do subordinado entre as pernas de jovem oriental e, sem pensar duas vezes, pegou-a pelos cabelos e a arremessou nos braços de Laime, que não esperava por essa jogada fenomenal. O sangue salpicou pelo chão, tingindo-o, gloriosamente, enquanto a cabeça rolava pelo ar.
– Eh? Ahhhhhh! — Laime gritou, em surpresa, ao pegar desajeitadamente a cabeça. Ou pelo menos tentar.
Ficou tão aparvalhado com a dita cuja que jogava-a para cima, de uma mão para a outra. O sangue obviamente acabou por respingar nele, deixando-o mais nervoso. A cabeça resvalou de sua mão e rolou até a parede. Os olhos petrificados de horror de sua vítima, encarando-o.
–Laime, deixe de brincar!
–Hai! — Laime empertigou-se junto à coluna, imediatamente, tentando não parecer tão assustado e falhando miseravelmente.
Não era tão inocente. Todos os que estavam ali haviam matado alguém para fazer parte da Yakuza. Fazia parte do ritual. No entanto, achava macabro um jovem como o que via sentado na cama, olhar com tanta naturalidade para um cadáver e ainda acariciá-lo como se fosse algo precioso. Sentiu seu estômago embrulhar.
Fez uma mesura rápida para sair dali. Respirou fundo, pegando a cabeça com as mãos ligeiramente trêmulas. Se não se enganava seu nome era Iwan.
– Todos se retirem daqui. Não voltem até que seja ordenado. E não esqueçam que devem obediência a mim – sintetizou, observando cada um dos homens sair do recinto.
Ao ver-se sozinho, Minos deu um olhar contemplativo a Hades com profunda admiração. Aquele pingente no pescoço dele era a prova que fazia parte da Yakuza. Prova de que estava vivo.
– Yokoso, Hades-sama! — cumprimentou-o formalmente, quando ficaram finalmente sozinhos.
Tinham muitos assuntos a tratar e pouco tempo. Precisavam sair da Itália o quanto antes e voltar ao Japão.
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Estavam finalmente sozinhos. Somente ele e Minos. Hades remexeu-se ligeiramente e ouviu o tilintar das correntes que o prendiam à cama.
.. Foi por causa disso que aquele idiota achou que podia tocá-lo. Tsc... Quanta petulância! Achar que era indefeso somente por estar acorrentado.
– Minos, aproxime-se — Hades percebeu um momento de hesitação do ariano, mas seu olhar permanecia o mesmo: ilegível.
Minos andou cautelosamente até Hades, o Imperador. Tal alcunha foi dada ao oriental pela forma que ele manejava sua espada. Havia algo de gracioso e, ainda assim, imponente quando o jovem japonês detinha a katana em suas mãos. Não era apenas a habilidade e precisão de seus movimentos. Não; não era somente isso. Era o olhar que ele lançava aos seus oponentes. Um olhar de profunda gentileza que determinava a vida e morte daqueles que se opunham a ele. Uma gentileza que se confundia com sua própria ambição. Uma ambição sem limites para concretizar seus desejos.
O ariano parou de andar ficando a dois passos do virginiano. Hades não apreciava contato físico; assim, invadir seu espaço pessoal sem permissão era algo que poderia custar caro.
– Mais perto — a voz suave, porém firme disse mais uma vez.
– Como? — o loiro viu-se perguntando automaticamente, e este quase se xingou mentalmente.
Não deveria questionar. Nunca. Devia obediência irrestrita e absoluta como prova de sua lealdade. Mais um passo; e o que aconteceu a seguir fez o ariano ficar com os olhos arregalados.
Doía de forma excepcional e também fazia seu sangue fervilhar. No entanto, não podia revidar. Sabia que Hades estava sendo muito complacente ao dar-lhe um belo tapa na cara.
– Isso é por terem me acorrentado como se eu fosse um animal! Olhe pra mim quando eu estiver falando com você! — Minos sentiu sua gravata ser agarrada com força e um puxão firme fez com que fechasse os olhos e retesasse as mãos para não se livrar daquela pressão exercida em sua garganta.
– H-hai!– o ariano respondeu em voz baixa, evitando encará-lo ou mostraria em seus próprios olhos a vontade de esbofeteá-lo.
Sentiu uma mão tocar sua franja, retirando os fios loiros que encobriam seus olhos bem como um dedo tocar-lhe o queixo, levantando seu rosto. Fechou os olhos respirando fundo, acalmando seu interior antes de encarar os olhos esmeraldinos novamente com devoção.
O virginiano aproximou o rosto do ariano e, antes que seus lábios pudessem se tocar, desviou, sussurrando no ouvido deste:
– Tem sorte de eu estar de bom humor — e sem dizer mais nada Hades cerrou a mão num punho fechado e deu um soco na altura do estômago, centralizando no diafragma de Minos.
Um soco nesse lugar era capaz de dobrar qualquer pessoa, impedindo-a de respirar. Hades podia não ter o porte físico de Minos, mas sabia utilizar de agilidade e rapidez para atingir pontos vitais a fim de imobilizar qualquer pessoa mesmo sem uma arma, fazendo com que elas, automaticamente, adotassem uma posição que considerava ideal quando estivessem em sua presença.
Soltou a gravata de Minos, apreciando a maciez do tecido de seda que escapava entre seus dedos. Ah, sim... As pessoas deviam ficar da mesma forma que seu subordinado estava nesse momento: ajoelhado aos seus pés.
O ariano precisou usar de muito autocontrole para não levantar-se e matar o jovem que estava em pé em cima da cama e o olhava pacientemente. Apertou a camisa branca no exato local em que havia levado o soco. Tossia, sentindo um fio de saliva escapar por seus lábios. A face avermelhada se contorcia de dor. Uma dor que era bem vinda. Sabia que havia extrapolado em suas ações ao resgatá-lo.
Minos ainda tentava se recuperar daquele golpe quando viu um par de pernas se cruzaram à altura de seus olhos. Levantou ligeiramente o olhar, espiando, desconfiado, as reações de seu amo e senhor. De seu imperador. Até que o ariano sentiu o pé do outro tocando seu pescoço. Merda! Ele ainda não estava satisfeito?!
Sabia que se Hades quisesse poderia decretar sua morte ali mesmo. No entanto, o que mais odiava era justamente não saber o que se passava na mente dele. Servia uma pessoa que para si era um ponto de interrogação. Uma incógnita. De tantas pessoas... Por que havia aceitado servi-lo? Foi quando Minos vislumbrou aquilo que o havia feito se curvar às vontades de uma pessoa tão contraditória. Tão diferente como as duas faces de uma mesma moeda. Uma pessoa que se confundia em Shun e Hades.
– Quem és o teu senhor, Minos? — Hades perguntou com o olhar límpido.
Um olhar gentil que não se maculava com as impurezas do mundo que o rodeava. O olhar soberano de alguém que está acima da terra e do céu. Um olhar de quem compreende o inferno do simples ato de viver e o transforma a seu bel-prazer como se fosse... Um Deus.
Minos segurou o pé alvo entre suas mãos e o beijou com reverência, ganhando em resposta um leve franzir de sobrancelhas. Shun e Hades... Tão próximos e distantes. O loiro se viu incapaz de renegar que essa ambivalência o atraía.
–Tu e mais ninguém, Imperador — Minos reafirmou seu voto de obediência e levantou-se. Com o olhar sério reportou a situação no Japão: — Não tenho uma boa notícia de nossa casa.
– Prossiga — o virginiano estreitou o olhar, fechando os dedos no lençol manchado de sangue em expectativa.
– Nosso oyabun faleceu há poucos dias.
Por um segundo a informação não fez sentido. Os olhos verdes até então impassíveis oscilaram e as lágrimas surgiram, descendo gloriosas pelo rosto bonito. Uma fina dor transpassou sua cabeça fazendo com que o virginiano apertasse os fios castanhos com as mãos. A face do oriental transfigurou-se, expressando mais sentimentos conflitantes em seu rosto. Os dentes trincaram enquanto a voz embargada sussurrava o aperto que sentia em seu peito em uma única palavra:
– Otou-san.
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“Estranho”. Foi o que Minos pensou naquele momento. Nunca tinha presenciado Hades chorar.
Será que... Shun? Não sabia dizer ao certo. Mesmo o loiro se sentia confuso com aquela reação do oriental.
– Hades — sama? — o ariano tornou a falar o nome de seu mestre, entretanto, a mão direita deste se levantou, interrompendo-o.
Os dedos que estavam nos cabelos castanhos desceram até os ouvidos, tapando-os e os olhos perdidos em dor se fecharam por alguns segundos. Era como se o virginiano estivesse se preso em si mesmo. Preso em um conflito interior.
Um tempo depois a respiração que estava um tanto alterada se apaziguou lentamente como se o controle emocional tivesse sido recuperado.
– Verifique se já temos sinal de transmissão. Vamos voltar ao Japão... Hoje — a voz sussurrante do virginiano se fez presente e este abriu os olhos esmeraldinos, revelando certo distanciamento da realidade.
Uma única lágrima deslizou por seu rosto involuntariamente.
– Entendeu? — o oriental perguntou ao subordinado em busca de uma confirmação. Sua voz era como um eco. Dava a impressão que a mensagem nunca chegaria ao seu destino por mais que ansiasse uma resposta. Era como se ela tivesse se perdido no vácuo e vagasse sem rumo.
Minos não respondeu à pergunta. Ele apenas fez uma mesura formal ao estilo nipônico, inclinando o tronco pra frente. Em seguida, retirou o casaco preto que usava colocando-o sobre os ombros do virginiano com devoção.
– Os preparativos serão feitos de acordo com tua vontade — disse antes de se afastar e ordenar as últimas instruções os demais membros do clã ao abrir a porta do recinto em que estavam. — Limpem o quarto! E não façam perguntas — disse se afastando dali em direção à outro corredor onde se esbarrou com Laime.
– Espero que já tenha se livrado daquela cabeça ou será a sua que vai rolar por esse chão em breve — estreitou o olhar sem paciência. — Ah?! O que foi? Tem algo a dizer?
– Minos-sama! — o homem gaguejou. Tinha acabado de sair dos aposentos em que Shina estava aprisionada. Ela tinha se recusado a comer a refeição que tinha levado. — Não tinha um lugar apropriado para enterrá-la, então... — os olhos vagaram meio indecisos antes de abrirem um sorriso brutal: — Acabei levando de presente pra nossa hóspede ilustre... Para fazer-lhe companhia.
A resposta de Minos foi uma rasteira nas pernas de Laime que caiu gloriosamente batendo a cabeça no chão. Ele sequer teve tempo para se colocar novamente de pé. Minos agarrou sua camisa com força.
– Está me dizendo que ela está fazendo companhia aos mortos? — a essa altura Minos achava que algum dos membros da Yakusa também pudesse ter prestado uma visita à Shina. E se algo tivesse ocorrido com ela...
Pelo menos tinha liberado sua raiva depois de Hades-sama tê-lo golpeado minutos antes.
– Eh? — a cabeça de Laime latejava por causa da pancada e, por isso, não conseguia formular uma frase coerente. E se respondesse algo que desagradasse Minos... Bom, não queria ser punido novamente como estava ocorrendo agora. Mas o que diabos ele fez de errado, afinal?!
– Que seja — Minos soltou o colarinho do outro. — Quando o sinal de transmissão voltar me avise imediatamente — dito isso foi até o pequeno quartinho onde Shina estava.
Abriu a porta e viu os olhos firmes da loira, fuzilando-o com determinação. Ela estava amarrada numa cadeira de madeira com uma mordaça na boca. À sua frente, a cabeça que Laime deveria ter se livrado jazia resplandecente numa mesa ao lado de um prato de comida ainda quente.
Sem perder tempo pegou outra cadeira e virou-a pra si, repousando os braços nas costas dela enquanto se sentava. Minos abriu um sorriso divertido e abaixou a mordaça que a loira usava.
– Watashi no sekai yokoso, hime.
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