Um Presente Inesperado
5 Mortadela
Notas iniciais
A mente do japonês trabalhava a toda velocidade.
Lógico que ficara envergonhado! Estava estampado em seu rosto! Viu Máscara se levantar, indo até a bica após guardar o restante do adubo. E... BANHO?!?
Essa palavra fez com que seu sorriso se desfizesse em questão de segundos. O tom usado por ele não insinuava nada mais do que isso. Um banho. Meneou a cabeça, concordando, mas cauteloso.
Máscara percebera quando o sorriso deixou de iluminar o rosto do japonês e atribuiu isso ao "incidente da banheira", ocorrido pela manhã. Não o culpava por sentir-se dessa maneira; culpava-o por ter sido obrigado a agir daquela maneira. Mas pelo jeito, não precisaria repetir a ação. Shun parecia conformado e um tanto dócil.
"Ele também estava dócil na biblioteca quando surtou de repente e me agarrou pela gravata".
O italiano passou as mãos nos cabelos, arrepiando-os ainda mais, num sinal claro de desconforto.
"Não vai acontecer de novo".
Shun voltaria pra casa e não teria mais que se preocupar com isso.
Quando ambos estavam próximos da entrada da mansão, um rapaz de bicicleta veio pedalando pelo jardim. Era uma das raras pessoas que tinham permissão para entrar na propriedade.
– Monsieur Mask! — o jovem tirou uma das mãos do guidão para acenar freneticamente. Não era exatamente belo, mas sua simpatia e natural alegria concedia-lhe certa graça.
O italiano o fitou, espantado.
– Ma che?!? Já está pronto?! — Misty se superou, dessa vez!
O jovem argelino assentiu, sacudindo a cabeça vigorosamente e entregou ao italiano o pacote que levava amarrado à bicicleta . Máscara tirou uma nota de cem do bolso e deu para o garoto, que recusou a gorjeta.
– É muito, monsieur! — respondeu, não achando aquele valor justo para pagar somente uma entrega.
– Compre algo para Misty. o canceriano deu uma piscadela cúmplice. O que fez o rapaz corar violentamente e responder:
– Monsieur sabe que não tenho condições de dar presentes assim. Por mais que quisesse... admitiu cabisbaixo.
O italiano perdeu o ar brincalhão e dessa vez falou imperativo, mas com inusitada doçura:
– Então mande para a sua mãe.
Sem mais hesitar o jovem pegou a nota que lhe era estendida e subiu na bicicleta.
– Merci, monsieur! — agradeceu, acenado para os dois homens que ficavam para trás. Sua voz sumindo à medida que se distanciava da mansão.
– Suas roupas chegaram em boa hora! Já tem o que vestir depois de tomar banho. Não vai mais ficar pelado. — falou para Shun, em tom leve e divertido.
É... Certamente o senso de humor de Máscara era diferente do seu. Shun abriu um sorriso plástico, tentando afastar as imagens da cena da banheira da sua cabeça.
– Graças a Deus! — respondeu com certo alívio, levantando-se do chão e segurando os sapatos na frente do corpo.
Entraram na mansão e dirigiram-se à suíte.O quarto, limpo e com o vidro novo, não lembrava em nada a cena de destruição promovida naquela manhã.Máscara colocou o embrulho sobre a cama e dirigiu-se a janela. Com o punho cerrado, bateu no vidro com os nós dos dedos.
– Blindado. Isso aqui não trinca nem com tiro de fuzil, então... Nada de malabarismos com os móveis, que eles vão voltar na sua cabeça. o italiano riu alto, ainda de bom humor. Mexer no jardim sempre o deixava com o espírito leve.
– Quer tomar banho primeiro... Ou me espera? Máscara perguntou, enquanto pegava duas toalhas no armário.
Shun olhou para os móveis sem entender... Como iriam parar na sua cabeça? Isso não fazia muito sentido.
E... Tomar banho com Máscara?!
Olhou rapidamente ao redor e agiu sem pestanejar: Pegou a toalha da mão dele e correu pra pegar, de cima da cama, a roupa feita especialmente para si e que fora entregue há pouco.
Trancou-se no banheiro. Abriu de novo a porta; botou a cabeça pra fora e falou:
– Eu vou primeiro! — e voltou a trancar a porta.
Ele escolheu se lavar primeiro. Bom... Fazer o quê?!
– Não demore! o canceriano falou, do outro lado da porta. Odiava esperar.
O italiano tirou os sapatos, o cinto e a calça, mantendo apenas a boxer preta tampando suas partes íntimas.Escolheu um belo conjunto para vestir, estendendo o terno sobre a cama. Era um traje completo: calça, camisa, colete, paletó e gravata, todo em tons de grafite. Sorriu ao ver o belo trabalho de alfaiataria. Já estava anoitecendo e não tardaria para Afrodite chegar.
O canceriano queria ficar impecável para receber sua puta de luxo.
– Anda bambino, que eu não aguento mais esse suor no corpo!
Shun sentiu-se aliviado por ter um momento de privacidade. Retirou as roupas que usava. Seu rosto estava mais corado por conta do sol que pegara no jardim. Olhou, meio receoso, para a banheira e engoliu em seco. Usaria o chuveiro, por precaução sabe-se lá de quê.
A água morna molhou seu rosto e corpo. Ensaboou-se, limpando a pele. Pegou o xampu e colocou nos cabelos. Aquele aroma... já tinha sentido antes. Sua mente vagava tentando decifrar o momento, mas não se recordava. Lembrava de um carinho feito em seus cabelos.
Escutou a voz do canceriano. Estava demorando?
Apressou-se antes que ele tomasse uma atitude drástica e acabasse arrombando a porta. Não tinha dúvidas de que, com a força dele, seria capaz de conseguir. Afinal, ele não disse que a porta do banheiro era blindada também.
Do lado de fora, Máscara resolveu que, já que estava suado e teria que esperar pelo garoto, ficar parado de braços cruzados não seria produtivo. Então, começou uma série de flexões. Já contava oitenta, quando Shun saiu do banheiro, mas continuou até completar a série de cem.
Levantou-se, ainda mais suado, os braços um pouco mais inchados que o normal pelo exercício recente.
– Até que enfim!
Pegou a toalha e a cueca limpa e dirigiu-se ao banheiro, deixando a porta escancarada para manter um olho no garoto, caso fizesse qualquer movimento ou barulho estranho.
– Não tente sair. Eu tranquei o quarto. — e mostrou a chave que levava consigo para o banheiro. — Não demoro.
Entrou no chuveiro, sem vergonha nenhuma de que o outro pudesse espiar.
Shun viu a chave entre os dedos de Máscara. Por que ele queria mantê-lo ali, preso?! Sentiu um princípio de pânico.
– Eu não vou fugir. Não tenho como ir embora sem meus documentos. disse Lembrando-se de que havia deixado toda sua documentação em outro quarto.
– Se não vai fugir, então senta aí e espera. Não é como se você tivesse outra coisa pra fazer Máscara riu, divertido. Ainda mantinha o bom humor.
A única coisa que escondia sua nudez era o vapor que preenchia o box. Não estava prestando atenção em Shun; estava entretido no banho. Tão entretido que começou a cantar Tiziano Ferro a plenos pulmões.
O menino não pensava em fugir. Não mais...
Foi nesse instante que Shun escutou uma voz cantar. Grave e marcante. Por um momento, duvidou de sua audição, mas era Máscara cantando. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era medo... era como se estivesse sendo guiado para perto dele. E foi isso que seus passos fizeram até porta do banheiro.Ele cantava sem vergonha nenhuma e havia certa leveza de sentimento na forma como fazia isso. Prestou atenção na letra, encostando sua coluna na parede. Uma letra apaixonada...
"E più mi vorrai e meno mi vedrai
E meno mi vorrai e più sarò con te".
Olhos se voltaram para a janela. Ele estava brincando quando dizia isso? Não, talvez fosse apenas a música. Mera coincidência.
"Lo giuro"
Por que queria acreditar que essas palavras eram verdadeiras?
Balançou a cabeça.
"Puoi rimanere. Perché fa male male.
Male da morire.
Senza te. Senza te. Senza te. Senza te"
Desviou o olhar pra janela, escondendo os braços atrás de si. Era só uma música. E mais nada. Repetia para seu coração e sua mente ansiosa.
Máscara tinha o hábito seu cantarolar durante o banho. Tinha uma bela voz e quando criança sonhava em ser artista. Obviamente, a vida o faria trilhar um caminho diferente: o caminho de seu pai e que um dia foi também percorrido pelo seu avô.
Afinal, a família era o que ditava a vida de um homem, e foi também com a família que Máscara aprendera a cantar. Sua avó chegou a ser vedete de programa de TV e, por vezes, cantava e interpretava em rádio-novelas. Profissão esta que foi abandonada assim que aceitou se casar com Don Giovanni. Máscara herdara o tino artístico da avó, além das receitas de pasta e de pizza.
Mas, apesar do hábito de cantar no chuveiro, a música que escolhera para a performance tinha um significado especial naquele dia. Significado que nem o próprio italiano saberia explicar, sequer identificar. Sentir a água escorrendo pelo corpo, enquanto o som ecoava e preenchia o ambiente azulejado, geralmente dava ao italiano uma sensação de leveza e, por que não dizer? Felicidade.
Entretanto, não era isto que estava acontecendo. Havia algo de dolorido naquela cantoria. Uma sensação de angústia, um incômodo ou sabe-se lá o quê. A verdade era que o mafioso não sabia como definir o que se passava consigo.
Talvez fosse melhor calar a boca. Talvez aquele não fosse um dia propício para shows. Ainda assim, Máscara cantou até o final. Cantou, pois, mesmo tendo o peito esmagado por aquelas rimas, cada vibrato que emitia servia de catarse para sentimentos ainda em latência, mas prontos para desabrochar no coração do italiano.
Terminada a canção, o italiano encerrou também o banho. Enrolou uma toalha na cintura e voltou para o quarto a fim de se vestir. Algumas gotículas de água escorriam pelo corpo enxuto displicentemente. Os cabelos úmidos e desgrenhados pareciam ainda mais enegrecidos. O mafioso borrifou um jato de perfume pelo tronco nu e, ignorando totalmente a presença do japonês no mesmo cômodo, tirou a toalha. Certamente sabia que Shun ainda estava ali, entretanto, era isento de qualquer traço de inibição. Jogou o tecido molhado sobre a cama, pegou a cueca com o logo da Armani bordado no cós e começou a se vestir.
O garoto ouviu os passos do moreno saindo do banheiro e o cheiro do perfume importado Hugo Boss. Em seu peito o coração se comprimia em batidas incertas, erráticas, refletindo a confusão de seus sentimentos.
As esmeraldas se ergueram, brilhantes, admirando as costas nuas e repousando nas nádegas firmes. As pálpebras se fecharam, censurando sua admiração e cerrando as dúvidas de sua visão.
Levou a mão à garganta. Tinha sede.
– Não sabia que gostava de cantar no chuveiro Shun comentou se aproximando da janela e ficando de costas para ele propositalmente.
– É claro que não sabia. Você me conheceu há poucos dias; como poderia saber algo de mim? falou, sem qualquer traço de animosidade na voz, era apenas uma constatação lógica.
Notou que o garoto ficara um pouco desconfortável e atribuiu isso à timidez. Ou talvez fosse algo próprio da cultura japonesa, esse problema com a nudez. O italiano alinhou a camisa dentro da calça e colocou o colete.
– Se quiser pode se virar. Já estou vestido. Máscara disse, enquanto fazia o nó da gravata. — Desafinei muito? o mafioso sabia que não. Perguntou só para puxar assunto.
Shun espiou por sobre os ombros, vendo que ele estava mesmo, completamente vestido. E com uma roupa muito bem alinhada, como da primeira vez que o viu.Por um instante, isso o desagradou. Achava que uma roupa informal o deixava mais...
Acessível.
– Não. disse, virando-se para o italiano. — Mas acho que você já sabe disso. — viu a gravata um pouco torta e não se conteve; aproximou-se desfazendo o nó e o refazendo.
Deu-se conta do que fazia e retrocedeu alguns passos.
– Desculpe... Eu...
O que tinha dado em si pra fazer isso? Mania de ver tudo em ordem!
– Obrigado. Máscara sorriu, maroto, com as mãos do outro sobre si.
Shun estava muito perto de si e, apesar do perfume acentuado que ele próprio usava, conseguia inalar o aroma que emanava do japonês. Engraçado como, mesmo usando os mesmos produtos de toillet, Shun conseguia ter um cheiro tão particular; algo cítrico e levemente adocicado, diria até agridoce, como alguns dos temperos da culinária oriental.
Será que todos os japoneses cheiravam assim?
Não. Não se lembrava de ter sentido esse aroma quando se reuniu com os membros da Yakuza. Aquele perfume era exclusivo de Shun.
O italiano curvou a cabeça para frente, aproximando o nariz no topo da cabeça do menor para inspirar o aroma que exalava dos cabelos castanhos. Provavelmente o rapaz percebeu sua intenção e não gostou, pois se afastou logo em seguida, pedindo desculpas pelo gesto. Colocou o paletó, última peça que faltava na sua produção, e foi até o espelho. Ajeitou os cabelos com os dedos, jogando os fios para trás, e colocou o rolex de ouro no pulso. Satisfeito com a imagem que via refletida, destrancou a porta do quarto.
– Vamos, bambino! chamou, dirigindo-se para a sala de estar.
O garoto recriminou-se mentalmente por seu ato impensado e, ao ver uma flor no chão do quarto, ajoelhou-se. Era o ciclame que tinha colocado nos cabelos, no jardim. Devia ter caído sem que percebesse.
Os dedos deslizaram pelas pétalas aveludadas relembrando que estava ali de passagem. Colocou a flor no bolso de sua camisa, levantou-se e foi atrás do moreno, que já estava parado no meio do corredor.
Máscara se dirigiu para a sala e Shun o seguiu. Lá encontraram Shina que, sentada no sofá, mexia displicentemente no celular.
– Olha, sua babá já chegou! — virou-se para o japonês com um sorriso zombeteiro. Mas a mulher reagiu:
– Nada disso! Não vou ser babá do pokémon!
– Shina... — Máscara se aproximou com seu sorriso mais canastrão e pegou as mãos da mulher entre as suas — Io não posso ficar de olho nele enquanto estiver com Afrodite. — e beijou as mãos femininas para selar o favor que pedia.
A assistente, por sua vez, abriu um sorriso zombeteiro.
– Afrodite não virá.
O chefe fez uma cara tão engraçada, os olhos arregalados e o queixo caído, que Shina teve que se segurar para não cair na gargalhada.
– Ma che?!- exclamou o mafioso.
Shina não se segurou mais e deixou escapar uma risadinha marota, pois ela era uma das poucas pessoas no mundo que podiam zombar do italiano.
– Ele ainda está puto com você, Mask... — explicou a mulher — E pelo jeito vai continuar assim por muito tempo. Agora, se você me dá licença... — puxou a mão, que ainda estava entre as dele. — Eu tenho que ir para o meu encontro. Tchauzinho... — e saiu com um sorrisinho maroto e sacana, acenando com os dedinhos antes de fechar a porta.
– Merda! — bradou, irritadíssimo pelo bolo que levara. — Eu preciso de um uísque — serviu uma dose dupla no copo e acendeu um cigarro.
Shun esperava relaxar com um corpo quente sob o seu, mas pelo jeito teria que se contentar com aquelas substâncias químicas.
Escutou um rosnado vindo de Máscara quando Shina disse que o tal Afrodite não viria. Ela quase ria de forma zombeteira, o que só fez confirmar sua hipótese de que a loira tinha mesmo alguma carta na manga, para falar daquele jeito, sem receber uma reprimenda.
O italiano bufou, fumando um cigarro. Parecia, naquele momento, um tigre enjaulado.
O fato dessa visita não comparecer o deixara assim? Isso só fez despertar ainda mais sua curiosidade.
– Quem é Afrodite? o japonês acabou perguntando, em voz alta.
Máscara olhou para o garoto, estranhando a súbita audácia, quiçá intimidade, da qual se investiu para fazer aquela pergunta. Não que Máscara se importasse. Pelo contrário: preferia extrapolar e liberar toda a sua irritação do que acumulá-la dentro de si. Assim, virou o copo de uísque e desabafou suas mazelas com o japonês.
– Afrodite é um puto! — aquilo não era um xingamento; o rapaz, de fato, tinha na prostituição sua fonte de renda e sustento. — Um puto burro, mesquinho e sem qualquer profissionalismo.
O mafioso andava de um lado pro outro na sala, fumando e bebendo compulsivamente como se aquilo fosse acalmá-lo.
– Depois de todas as peripécias que você aprontou... — dizia ao japonês, mas seus olhos não o miravam; era como se estivesse falando sozinho. — Io só queria relaxar um pouco... Beber, fumar e trepar. E agora?! Onde vou arranjar uma puta decente a essa hora da noite?
Encarou o garoto, como se ele fosse lhe dar a resposta.
– Exatamente! Máscara respondeu à própria indagação. — Io não pego esses lixos que se oferecem na rua e sou visado demais para frequentar os prostíbulos.
A última vez em que foi a uma casa de meretrício, o italiano sofreu um atentado de um mafioso local, com quem disputava poder. Foi uma confusão generalizada. Prostitutas correndo de medo, clientes saindo sem pagar e Máscara da Morte distribuindo socos e tiros, do jeito que veio ao mundo.
– Merda! — o moreno tirou a gravata que apertava seu pescoço e jogou o paletó e o colete longe. Sentia-se sufocado. Abriu os botões da blusa, no intuito de ficar mais confortável e jogou-se no sofá. As mãos passavam nervosas, pelos cabelos negros, arrepiando os fios e dando-lhes um ar selvagem. Respirou fundo inúmeras vezes, até conseguir se acalmar e por as ideias no lugar.
– Bem, só me resta uma coisa a fazer...
O corpo de Shun congelou ao ver a reação do moreno.
Então, Afrodite era puto de luxo dele? Claro! Fazia sentido! Ou melhor... Não fazia...
Quer dizer que ele também era gay?! Aparentemente, sim. Isso sim era uma revelação e tanto! Jurava que ele era heterossexual.
Shun afastou-se devagar, mantendo uma distância segura.
– O-o que quer dizer? — perguntou, mas receava saber a resposta. Sentia uma tensão crescente no ar e isso não era bom.
– Só tem uma coisa que me acalma quando estou nesse nível de stress... — levantou-se do sofá e deu alguns passos à frente — Mortadela!
Máscara foi até a estante da sala onde estava sua coleção de DVDs e pegou o filme que levava o nome do embutido de carne. O italiano era obcecado pela Sophia Loren. Tinha na atriz italiana o seu ideal feminino, que congregava perfeitamente elegância, beleza, sensualidade e personalidade espirituosa.
Talvez por isso tivesse Afrodite em tão boa conta, pois algo no garoto de programa evocava a dama do cinema. Sim! Era a pintinha que o mafioso considerava o mais adorável! Sem contar os ares de diva que Dite intentava sustentar. Mas não era mais que uma versão genérica e muito aquém do modelo de mulher e esposa que o italiano almejava. Afrodite era uma fraude em todos os sentidos, mas possuía um acessório interessante, do qual a dama do cinema não dispunha.
Máscara era um amante do belo. Fosse o belo feminino ou o masculino. Por vezes, até um misto dos dois elementos, como era o caso de Afrodite. O italiano não economizava palavras para exaltar a beleza andrógena do rapaz que, fato era, não passava de um travesti. Para o mafioso, seduzir era como respirar: fazia-o de forma mecânica e, por vezes, inconsciente.
Já Afrodite, era um michê burro, a quem se ludibriava fácil, e se achava melhor do que os outros. Depois de colocar o disco no aparelho de DVD, Máscara voltou a se jogar no sofá, o copo com o líquido dourado numa das mãos e o controle remoto na outra.
– Vai ficar em pé bambino? Parece uma estátua, aí, parado no meio da sala! Senta! falou, com o tom de voz alto, como era típico dele, mas não de forma agressiva. — Um bambino culto como você deve saber apreciar uma obra prima do cinema... Já viu esse filme?
Por um instante, o menino pensou que ele estava falando de mortadela. Aquela de comer. Aí ele se explicou melhor. Ah...Era o filme.
Sim, havia visto uma vez, quando era muito pequeno, com sua mãe. Uma das poucas lembranças que tinha dela. Pena que ela o deixou cedo. Vítima de tuberculose. Aproximou-se do italiano e sentou ao lado dele e deu um sinal afirmativo com a cabeça.
– Esse tipo de filme o agrada? Shun tentava imaginar como esse filme podia apaziguar a fera interior do italiano. Bem, se ele podia manter seu bom humor, não iria se recusar em fazer-lhe companhia.
– Se me agrada? Esse é o meu filme preferido da Sophia Loren! A melhor atriz que o cinema já viu, e a dona mais bela que eu já vi! Máscara falou animado.
De repente sua mente divagou, seus olhos se perderam no espaço, com um brilho especial e as feições suavizaram.
– Sabe que eu já a conheci? o canceriano abriu um sorriu largo que iluminou sua face. Foi na entrega do Oscar. Ela estava linda naquele palco, gritando: 'Roberto!' — Ah, que inveja eu tive do Roberto... gargalhou alto ao se lembrar de quando viu a diva do cinema italiano entregando, para o seu conterrâneo, o Oscar de melhor filme estrangeiro. — Isso foi em 1997. Eu tinha apenas 19 anos, na época. Mas também já tinha meus negócios e meus contatos...
Virou-se de lado no sofá, ficando de frente para o japonês, a fim de contar melhor sua história. Havia se empolgado.
– Eu fui apresentado a ela na festa que acontece após a premiação. O melhor dia da minha vida! Encantadora... Bela... Engraçada... Perfeita! Se ela quisesse, io me casava na mesma hora! Sabe o que ela disse, quando a convidei?
A pergunta era retórica. Máscara não parava de falar sequer um instante.
O italiano ajeitou a coluna, fazendo pose como se imitasse a atriz: "Ma Che?! Não passa de um bambino! Io non preciso de outro filho. Vá procurar uma menina de sua idade ou uma mulher disposta a te criar!"– gesticulava intensamente, como fez a mulher no passado. Então voltou a relaxar o corpo no sofá, findando a interpretação. — Ela entrou no carro gargalhando... rindo de mim, debochada: "Um bambino!" - e riu, ele também, de sua sina.
– Em toda a minha vida, ela foi a única mulher que me recusou. Melhor dizendo: foi a única pessoa, pois os homens também nunca me ofereceram resistência... ficou divagando. — Pelo menos eu ganhei um selinho, pela janela do carro, antes que o motorista arrancasse com o automóvel.
Suspirou o italiano, nostálgico.
– Ah, mas eu desatei a falar e não parei mais! espalmou a mão na coxa fazendo um barulho alto. E você? Essa sua obstinação em voltar pro Japão é pra rever alguma namoradinha que você deixou pra trás? — encarou o garoto sentado ao seu lado, esperando por uma resposta.
Era a primeira vez que puxava assunto com Shun sobre algo que dizia respeito a sua vida pessoal. Nunca perguntara sobre a história de vida do garoto, sobre seus gostos pessoais ou simplesmente sobre o que ele pensava, mas ao rememorar e contar suas próprias experiências, baixou a guarda e ficou à vontade para conversar com o garoto, pela primeira vez, de igual para igual.
O japonês olhava para Máscara, genuinamente curioso. Relaxou as costas no sofá, observando como os olhos azuis brilhavam de contentamento e o sorriso leve adornava-lhe os lábios. Ele parecia mais calmo e afável. Arriscaria dizer que ele parecia mais jovem e nem de longe lembrava o temido Máscara da Morte, líder da máfia italiana. Levou uma mão à boca, tentando abafar um riso, quando ele falou que Sofia Loren o havia rejeitado e chamado de bambino.
E, sim! Quando ele desatava a falar, se empolgava como um bambino. Algumas lágrimas se formaram em seus olhos, pelo esforço que fazia pra não rir da situação. Passou um dedo nos cílios longos e deu um sorriso gentil.
– Entendo perfeitamente como se sentiu ao ser chamado de bambino! — cruzou os braços na frente do corpo e fechou os olhos. Depois abriu um olho fixando-o na figura do italiano. — É justamente como me sinto quando você me chama de... — deslizou a mão pelo sofá inclinando seu corpo na direção do canceriano. Seu rosto mostrava o seu descontentamento — Bam-bi-no! — soletrou cada sílaba, com o cenho franzido como se o acusasse, antes de rir baixinho e ajeitar sua postura.
O motivo de querer voltar para o Japão? Não parecia óbvio? Ali era onde se encontravam suas raízes. E havia sim, uma pessoa que gostaria de voltar a ver, afora seu irmão, que o traíra daquela forma tão baixa.
Repousou as mãos sobre o colo. Gostava desse clima descontraído. Permitiu-se falar um pouco sobre si mesmo.
– Não tenho namorada. Pelo menos, não agora. — brincava com os próprios dedos. — Apenas queria vê-lo novamente...
Ranmaru.
Máscara observava atentamente o japonês. Era a primeira vez que via Shun daquele jeito: com um ar divertido, contendo-se para esconder as risadas. Ele, que sempre se mostrara arredio e temeroso, agora parecia mais descontraído. Até mesmo acessível.
Abriu um sorriso quando o mais novo reclamou da forma que o chamava, comparando um caso com o outro.
– Ma Io era apaixonado por Sofia, quando ela me chamou de bambino... — então os olhos do mafioso se estreitaram e a voz saiu carregada de malícia. — Por acaso está apaixonado por mim?
– N-nani? Shun perguntou, surpreso com a indagação.
Sentia uma certa malícia nessas palavras ou era impressão sua? Foi rápido na resposta:
– Não sabia que eras tão convencido... — cruzou os braços na frente do corpo, um pouco desconfortável. — Nesse caso, sou eu quem deve perguntar se você está apaixonado por mim... Pois só me trata por bambino desde o dia em que me viu. — retrucou, olhando para o outro lado.
Máscara tinha um olhar penetrante e, por vezes, se sentia desnudo, mesmo usando roupas.
Era... pertubador.
– Sabe... Ao contrário da Sofia Loren, Io non rejeito um belo bambino...
Deslizou o corpo pelo sofá, chegando mais perto de Shun. Na verdade, chegando muito perto de Shun! Passou o braço pelo encosto do sofá, rodeando o mais novo, quase o abraçando. A proximidade era tanta que o japonês podia sentir o calor que emanava do mafioso, embora esse não o tocasse diretamente.
– Não sou convencido. Se fosse, teria feito uma afirmação, não uma pergunta. Mas, pelo seu nervosismo, suponho que a resposta seja sim. — a voz do italiano ficara propositalmente mais rouca e profunda.
Shun se encolheu no sofá e sua coluna deslizou suavemente. Tinha praticamente o corpo de Máscara sobre si. Ele não o tocava, mas sua presença era indiscutivelmente... Perturbadora. Seu coração falhou uma... não... duas batidas, com a aproximação dele. Sentia como se...
Se...
Aquela voz hipnótica tivesse um enorme poder sobre si.
– O-o que... — por que raios estava gaguejando?! — O que quer dizer? — perguntou apressadamente.
– Estou dizendo... — o canceriano curvou seu corpo ainda mais sobre o do garoto e baixou o rosto para sussurrar no ouvido do menor — Que não sou burro de te rejeitar.
Shun podia sentir a respiração quente do outro sobre sua pele, e logo depois seus lábios, que depositaram um beijo úmido no pescoço alvo do oriental. Arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras. Suas mãos encontraram o peitoral forte e definido. Um arrepio percorreu sua coluna quando sentiu os lábios do moreno beijando sua pele. Fechou os olhos com o rosto rubro de vergonha. Empurrou os braços pra frente, tentando afastá-lo. O contato com ele era como a eletricidade: Repentina e de alta voltagem.
– E eu não estou me oferecendo!
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