Um Presente Inesperado
4 Jardim
Notas iniciais
– Ohhh... Que gracinha! — falou, de forma muita afetada, o homem de gloss.
Bem, pela voz deveria ser homem, mas o rosto era de mulher.
O italiano fitava Shun com assombro. O menino mudara de personalidade em questão de segundos. Sim! Máscara ficara atordoado pela atitude ousada do garoto e ainda mais pela súbita mudança de postura. Sacudiu a cabeça com força, para voltar a si. Já vira algo parecido com aquilo antes; na verdade, já vira algo pior!
– Shina, já trocaram os vidros? — Máscara recebeu um sim como resposta.- Leve Shun até o quarto para que Misty possa tirar suas medidas. Então, dirigiu-se ao alfaiate: — Eu gostaria que terminasse tudo hoje. Sei que tem competência para isso. — disse sério, a voz rouca e densa. Em nenhum momento olhou para Shun.
A mulher percebeu que algo se passava. Conhecia o patrão tão bem quanto a si mesma e, depois de deixar o japonês e o alfaiate no quarto, voltou para ter com o ele.
O garoto viu Shina sair e tentava não complicar o trabalho do alfaiate, mas acabou se sentindo muito desconfortável naquela situação. Virou-se, então, para o loiro, tentando entender o que acontecia:
– N-nani?
Shun estava meio incomodado com a forma como Misty o estava apalpando. Seu rosto estava vermelho como um tomate. Não aguentou todos aqueles toques estranhos em seu corpo.
– P-pa- pare! D-de me tocar!
O japonês afastou o outro com as duas mãos e se escondeu atrás da cadeira de Máscara, à procura de proteção, enquanto os olhos esmeraldinos espiavam, com receio, o homem de pintinha no olho. De repente, não se sentia seguro pra ficar sozinho com ele em qualquer ambiente!
– Misty é o alfaiate. Ele veio fazer suas roupas. Deixe que tire suas medidas. disse Máscara, para o garoto que se escondia atrás de si. Então, o italiano virou-se para o costureiro: — E você Misty... menos afetação e mais eficiência, por favor. Eu preciso que tudo esteja pronto até o final do dia.
E Mais essa! Shun não estava gostando nada daquilo. Olhou de Misty para Máscara, ainda incerto. Bom... talvez se...
– Só se você ficar comigo! Shun deixou sair a resposta, de supetão. Não confiava naquele loiro. Tinha certeza de que aquela mão boba no seu traseiro não foi por acaso. Não que o italiano fosse mais confiável; afinal, ele quase o estrangulou, mas pelo menos... AHHH!!! Não sabia dizer! Apenas se sentia mais seguro assim.
Irônico?! Sim! Mas o que poderia fazer?
Erguendo uma sobrancelha indagadora, Máscara tentava entender que papo era aquele de querer sua companhia, agora... Enfim, não iria perder seu tempo pensando naquilo. Queria apenas que o alfaiate pudesse fazer seu trabalho rapidamente.
– Va bene... vamos logo com isso. O italiano levantou-se e foi em direção ao quarto, fazendo sinal com a mão para que Misty tomasse o mesmo rumo que ele.
Não era a primeira vez que o loiro ia lá, então já sabia o caminho. Antes de entrar no quarto, cochichou algo no ouvido da assistente. Parecia sério, pois a mulher deu uma olhada nada simpática para Shun.
Dentro do quarto o costureiro abriu sua malinha com diversos tecidos, alfinetes e botões, além de fita métrica e tesoura.
– Tente fazer algo parecido com isso.
Máscara lançou alguns retalhos de tecido sobre a cama. Era a roupa de Shun, que ficara em frangalhos. Misty deu um sorrisinho sacana, deixando transparecer suas suposições sobre como as vestes terminaram rotas.
– Minhas roupas? questionou o japonês, sem acreditar.
Sentiu um rebuliço no estômago. Desviou o olhar.
– Não! Não precisa fazer uma igual. — disse rapidamente, se sentindo mal com o olhar libidinoso do loiro. Não tinha nada a ver com o que aquela mente pervertida devia estar pensando; mas, poderia ter sido... não poderia?
– Uma roupa simples é o suficiente. o menor acrescentou.
Vestir aquela roupa novamente não lhe traria boas recordações. No mínimo, se sentiria sufocado em lembranças indesejadas ao usá-la.
Máscara revirou os olhos.
– Faça uma roupa decente, mas sem muita firula. O suficiente para deixá-lo apresentável. E tire esse sorrisinho besta da cara antes que eu a deixe toda retalhada. — falou ao alfaiate, que logo parou com os gracejos e focou no seu trabalho.
Os olhares e toques inapropriados cessaram e Misty tirou rapidamente as medidas do japonês. Cortou o tecido e o prendeu com alfinetes.
– Experimente, por favor — disse o loiro.
Apesar da má postura inicial, Misty era competente quando queria e logo fez o molde inicial. Mas precisava que fosse provado antes de costurá-lo definitivamente. E para isso, Shun precisaria tirar a roupa.
– O-onde posso me trocar? Shun perguntou, olhando ao redor.
Ali não tinha banheiro por perto. E nem passava por sua cabeça ficar nu na frente daqueles dois.
– Anda bambino, coloca logo essa roupa. A gente não tem o dia todo — o italiano reclamou vendo que o garoto estava envergonhado e não ia tirar a roupa na frente dos dois. Então, pediu que Misty se retirasse.
Máscara continuou no quarto, pois não confiava em deixar o garoto sozinho. Ainda mais depois do que vira na biblioteca. Ficou de costas para o japonês e esperou que este se trocasse.
– Io non vou olhar.
Shun apertou a prova de roupa nas mãos, tenso. Misty saiu e ele se viu sozinho com Máscara novamente. Olhou para o moreno, que se virou, fazendo uma promessa: Não olharia. Mas ele já o tinha visto nu antes! E de uma forma que foi bastante humilhante e vergonhosa.
– O-ok... N-não olhe! Você fez uma promessa, viu?!
–Tsc!
O italiano estalou a língua. Não tinha paciência para aquelas baboseiras. A imagem de Shun nu em seus braços ainda estava bem fresca na memória, logo, não entendia o motivo para tanto recalque.
O garoto tirou rapidamente as roupas que usava e, com agilidade, vestiu o modelo apresentado por Misty. Provavelmente receoso de que o italiano descumprisse sua promessa.
O molde estava um pouco folgado. As calças meio que "dançavam" em sua cintura e as mangas encobriam quase a totalidade de suas mãos; apenas os dedos ficavam visíveis.
– Pronto! — disse, balançando os braços à frente do corpo, tentando ajeitar as mangas compridas.
Máscara ouviu que o menino estava vestido, mas nem se deu ao trabalho de olhar. Abriu a porta para Misty, que entrou já reclamando pelo menino estar mexendo em suas costuras:
– Pare com isso! Vai desfazer minhas marcações! — disse o alfaiate, dando um tapinha leve nas mãozinhas, que tentavam ajeitar as mangas, deveras compridas.
Misty precisava deixar um folga para fazer a bainha e passar a costura. Tudo calculado. Apesar da personalidade não muito agradável, o loiro era exímio em seu ofício. Além dele, só o próprio Giorgio Armani podia cortar os ternos de MDM.
Últimos ajustes feitos e o costureiro liberou Shun.
– Já tenho tudo o que preciso. Mando Jabu trazer as roupas antes das oito da noite — disse o loiro, já recolhendo seus materiais. Usaria aquele conjunto como molde para as demais peças, dispensando assim outras provas de roupa.
– Grazie! — o italiano pegou a mão do alfaiate nas suas e depositou um beijo. — Eu sei que foi um pedido em cima da hora.
O loiro sorriu, amável, com uma doçura que não havia apresentado até então.
– Seus pedidos são minha prioridade! — despediu-se com um beijo no rosto do moreno e partiu com suas costuras.
Para o garoto, até que tinha sido rápido. Quando deu por si, Misty adentrou novamente o recinto e se despediu de Máscara com um beijo no rosto.
Um beijo...
Shun estreitou os olhos, terminando de abotoar a sua camisa.
"Ele é muito diferente de você".
Aquela mesma voz que temia e se fazia sempre presente, quando estava distraído, sussurrava em sua mente.
"Ele não consegue te entender. Ele não sabe tocar a sua pureza sem ferí-lo, Shun".
Não sou puro. Sou humano e nada mais. Não sou melhor, nem pior que ninguém. Mas também não sou igual e jamais terei nada em comum com esse homem!
Sentiu um nó se formar em sua garganta.
"Se é assim... Por que teu coração está tão aflito, pequeno? Por que choras?"
Piscou os olhos e as lágrimas silenciosas desceram devagar, uma após a outra. Abriu as mãos olhando-as, assustado, sem entender o motivo do choro, enquanto as lágrimas quentes acumulavam-se, indisfarçáveis, em suas palmas. Esfregou os dedos no rosto e foi até a varanda, repousando as mãos fechadas em punho sobre o alambrado. Só mais um pouco e estaria em casa.
Casa?
Nunca em sua vida essa palavra preencheu seu íntimo com um vazio tão grande.
Após despedir-se do alfaiate, o italiano deu as costas para Shun, intentando dar o mínimo de privacidade que o menino necessitava para terminar de se vestir.
– Já está pronto bambino?
Não obtendo resposta, Máscara virou-se e, para sua surpresa, encontrou o jovem nipônico debulhando-se em lágrimas.
– Ma che?! — o canceriano acompanhou os passos do japonês até a sacada, indagando sobre o motivo do choro. — Misty te furou com o alfinete?
O menino, por sua vez, continuava mudo; a cabeça baixa e os punhos cerrados denunciando sua dor.
– Pare com isso... — a voz do mafioso saíra calma e gentil; era a primeira vez que utilizava aquele tom para com Shun.
Com delicadeza, ergueu o rosto do mais novo pelo queixo e, sacando um lenço que guardava no bolso do paletó, enxugou-lhe as lágrimas.
– Io disse que te mandaria de volta ao Japão, non disse? — o tecido tocava suavemente a pele macia. — Então, pare com a choradeira que não demora a você se ver livre de mim.
Olhava para o moreno, surpreso com a atitude dele. Os dedos de Máscara alcançaram seu queixo, erguendo-o com suavidade. Era... diferente. Tão diferente de como ele o havia tocado da primeira vez. O lenço tocou seu rosto manchado de lágrimas com um cuidado atípico... Que até então não havia experimentado pelas mãos do moreno.
– Misty não me machucou... — disse, com a voz pequena, sem entender o motivo de Máscara tratá-lo daquele jeito.
Livrar-se dele? De fato não tinha motivos nem algo que o mantivesse ali, ao lado do italiano. Não era que não quisesse voltar pra casa. Apenas... Aquela ainda seria sua casa, quando voltasse ao Japão? Aquele lugar realmente ainda seria seu lar? O breve período que ficou com o canceriano o fez refletir sobre sua condição.
– Não é por tua causa que choro... Shun segurou a mão do italiano entre as suas, notando como eram diferentes entre si.
Maiores? Sem dúvida.
Fortes? Sim! Como havia comprovado quando lutou contra ele.
Mas também, inesperadamente quentes. Um calor surpreendentemente reconfortante quando ele enxugou suas lágrimas.
Provavelmente ele tinha dificuldades em demonstrar isso.
Falta de prática? Talvez.
– A minha liberdade só se prende à gentileza — abriu um sorriso mínimo e mais duas lágrimas desceram pelos olhos esmeraldinos e caíram sobre a mão de Máscara da Morte, que o olhava, aturdido.
O italiano estava um tanto surpreso com a docilidade do garoto.
Será que aquela era outra personalidade que o japonês escondia? Qual delas era a verdadeira afinal?
Não importava. Shun voltaria para o Japão em breve e Máscara não teria mais que se preocupar com suas súbitas variações de humor. Era isso que faria... era isso que deveria fazer.
Mas por que o simples pensamento de entregar Shun de volta ao irmão fazia seu estômago revirar?
O mafioso não estava reconhecendo a si mesmo.Desde quando se importava com o triste destino dos seres humanos?
– Se não é por causa do Misty, nem por minha causa... — enxugou as duas novas lágrimas — Por quem choras?
Como uma pergunta tão simples podia quebrar seu coração? Riu, tentando não parecer tão abalado. Abriu um sorriso e soltou a mão de Máscara.
– Por mim — sua boca se movimentou sem produzir um som.
O som de sua própria dor se consumia em si mesmo e não encontrava eco para se libertar no vento que balançava seus cabelos, naquele final de tarde.
Ficaram ambos em silêncio por um momento. Então, Shun fez um último pedido ao italiano.
–Posso caminhar pelo jardim, antes de ir embora? — havia visto da sacada uma bela roseira perto da piscina.
Máscara assentiu com a cabeça e dirigiu-se, a passos lentos, até à porta.
– Vamos... — iria acompanhar o japonês na caminhada, mas não por medo de que esse fugisse. Naquele instante Shun não parecia ter forças sequer para intentar cruzar o portão. E mesmo que o fizesse... Que diferença faria? Se estava mesmo prestes a se livrar do japonês, não faria diferença se este voltasse para o irmão ou perambulasse, perdido e sem rumo, pelas vias italianas.
Assim, Máscara desceu com o menino até o jardim.
Estava um tempo agradável e o mafioso faria bem em pegar um pouco de sol, já que passara os últimos dias enfurnado em casa ou no escritório. O clima era ameno e o sol acariciava a pele sem acalorá-la e, apesar do gosto requintado que ostentava com suas roupas, móveis e demais posses, Máscara sabia apreciar as pequenas coisas, os prazeres simples da vida.
Shun acompanhava o canceriano até o jardim a passos lentos, não conversaram, mantendo um silêncio que não era incômodo.
O japonês olhou para a grama verde e não pensou duas vezes: tirou os sapatos, ainda em pé e os segurou em uma mão. Pisou na grama áspera, coberta pelo orvalho que fazia cócegas em seus pés desnudos. Respirou fundo, fechando os olhos ao sentir a brisa tocar seu rosto. O vapor de sua respiração saiu pela boca, formando uma pequena névoa. Estava frio.
Aventurou-se por mais alguns passos, sem esperar pelo italiano. Procurava não pensar muito. Surpreendeu-se com os diferentes tipos de flores ali cultivados. Eram muito belas. Conhecia algumas e...
Sorriu ao achar uma que definia bem seu estado de espírito. Deixou seus dedos acariciá-la. Olhou para Máscara, que estava há poucos passos de si.
– Tem bom gosto! São muito bonitas. — elogiou sinceramente.
O homem mais velho deixou escapar um sorriso quando o mais novo retirou os sapatos. Achou o gesto um tanto infantil, mas não de uma maneira pejorativa. Pelo contrário, era até gracioso. Acompanhou Shun há alguns passos, muito bem calçados, de distância. Parou próximo ao japonês quando este se maravilhou com algumas flores.
– Um gosto herdado de meu pai — disse.
Aproximou-se do jardim e começou a retirar alguns galhos secos e flores que começavam a murchar.
– Não está bem cuidado como deveria... falou, pensativo, mais para si mesmo que para Shun.
Diante de tal comentário, o garoto piscou os olhos, percebendo mais atentamente. Algumas, de fato haviam murchado, mas ainda assim... Muito belas! Vários tipos delas espalhavam-se numa confusão colorida.
Pegou aquela que mais combinava consigo, no momento. Era pequena e vermelha. Chamava-se ciclame e representava, na linguagem das flores, a resignação e o adeus. Colocou o ciclame sobre a orelha direita, encaixando-o nos cabelos e passou a ajudar Máscara naquela tarefa, mesmo sem lhe ter sido solicitado.
– Qual foi a última vez que colocaram adubo? Elas devem estar com fome. — comentou, tentando descontrair o clima.
– Nem sei ao certo. Tenho estado tão ocupado ultimamente... — falou, sem desviar os olhos das flores; estava concentrado em sua tarefa. — Acho que faz uns dois meses, talvez mais — meneou a cabeça negativamente, repreendendo a si mesmo por ser tão relapso.
Pensando por um instante, o japonês parou o que fazia e se levantou, dando dois tapinhas nas mãos.
– Sabe onde estão guardados?
O italiano o olhou, interrogativo.
Shun colocou as mãos atrás das costas, abaixando o tronco e seus olhos ficaram na altura do rosto do moreno.
– Você sabe... O adubo? — insistiu, vendo que ele havia ficado calado até então.
Desviando a atenção do que fazia para encarar Shun, o homem notou que ele não parecia em nada com o garoto choroso de alguns minutos atrás. Tinha as bochechas coradas, não mais pelo cair das lágrimas, mas pelo sol que incidia suavemente sobre sua pele, dando-lhe um ar saudável e primaveril. O ciclame adornava-lhe os cabelos, compondo belamente a moldura de seu rosto.
Engoliu seco ante a pintura viva posicionada frente a seus olhos. Por vezes, o temperamento instável de Shun fazia Máscara esquecer o quanto o japonês era bonito.
– Io vou buscar...
A proximidade com o garoto o deixara momentaneamente atordoado, então aproveitou para ir ele mesmo até o pequeno depósito, onde guardava os materiais de jardinagem. Não tardou a retornar e, quando voltou, já não vestia mais o terno. Do conjunto, só manteve as calças e os sapatos. O peito estava totalmente desnudo e exibia, desavergonhadamente, os músculos magistralmente esculpidos, além dos pelos negros que se espalhavam estrategicamente pelo torso, formando uma trilha de perdição que cruzava o abdômen e seguia para além do que os limites impostos pelo cós da calça permitiam ver.
Shun não conseguiu deixar de notar os músculos daquele peitoral definido.
Era... tão diferente de si.
Seu corpo era muito magro. Não chegava a ser franzino, mas era muito delgado para um rapaz da sua idade. Quando era adolescente se incomodava mais. Queria ter nascido mais másculo, como MDM.
Não se deu conta de que encarava o corpo dele com admiração.
– Que foi bambino?! Nunca viu um homem antes? — brincou, ao ver que o japonês não tirava os olhos de seu corpo. — Ou só está gostando muito do que vê?!
Largou o saco de adubo ao lado do garoto e se ajoelhou na grama para tratar das flores. Um sorriso sacana bailava em seus lábios. Não havia tirado a camisa e o terno para se exibir, mas para fazer a jardinagem com maior conforto e, obviamente, não estragar as peças de alfaiataria; já bastava a sua calça toda suja de terra. Ainda assim, agradava-lhe causar esse tipo de impressão. Tinha a sua vaidade e não negava.
Shun chegou a abrir a boca pra falar, mas voltou a fechá-la quando ouviu o comentário.
– Claro que vi! Afinal, sou homem também!
Virou-se para o italiano e o observou por sobre o ombro.
– Não sabia que era convencido! disse, pegando uma pá de mão e começando a escavar a terra.
– Io non sou convencido! Mas é impossível não notar... a baba está escorrendo pelo seu queixo! — deu uma gargalhada sonora; verdadeiramente divertido com a situação.
Quando se acalmou, abriu o saco, retirando a quantidade de adubo necessária para alimentar as flores. Observou o garoto trabalhando a terra. Não esperava aquele tipo de atitude de alguém que chegou tão cheio de babados e palavras rebuscadas. Não que Máscara fosse o estereótipo de trabalhador braçal, mas o italiano fora criado até a adolescência no sítio da avó na Sicília, então era comum para ele ajudar nas tarefas da casa e do campo. Não só aprendera a fazer essas pequenas tarefas como adquirira o gosto por realizá-las. Era como um hobby, uma folga de seu ofício de mafioso.
– E-eu não estava babando! — o oriental franziu o cenho, contra-argumentando o que o moreno disse.
Ele também não estava se saindo mal ao revirar a terra e, enquanto o fazia, deixou escapar um comentário inusitado sobre a imagem que fazia de si mesmo:
– Eu queria ter um corpo mais masculino — deixou escapar uma pequena confissão.
– Não diga bobagem bambino! Seu corpo é perfeito.
Shun nunca esperara ouvir o que Máscara dissera. Seu corpo era perfeito?! Corou absurdamente. Teria ficado petrificado, como uma estátua, se possível. Apenas abaixou a cabeça, fazendo a franja encobrir seus olhos e seu embaraço diante da situação. Mordeu o lábio inferior, tentando se focar na sua tarefa. No entanto, a presença do italiano seminu ao seu lado, não o estava ajudando a se concentrar.
– Ficou envergonhado? — o mais velho riu, divertido.
Eles rapidamente adubaram a terra e trataram das flores, deixando o jardim ainda mais belo do que estava. O clima havia esquentado e uma leve camada de suor cobria a pele do italiano.
– Eu vou guardar isso.
Pegou o que restava do adubo e guardou. Lavou as mãos numa bica que havia ali e pegou o terno que deixara sobre os bancos da área externa. Voltou com o paletó na mão chamando Shun para retornar à mansão.
– Acho que precisamos de um banho falou em tom amigável.
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