Um Presente Inesperado
18 Bunker
Notas iniciais
O comboio de Máscara da Morte seguia veloz, pelas estradas italianas. Há muito os prédios que ambicionavam tocar os céus e as aglomerações de pessoas ficaram para trás, dando lugar a uma paisagem erma e quase paradisíaca, não fosse a situação extrema em que os homens que a admiravam se encontravam.
Cada vez mais afastados do centro urbano, os carros se meteram por uma estrada de terra batida, até um velho galpão abandonado, isolado no meio... No meio do nada.
O lugar era desértico. Veículos não trafegavam por ali. Não havia casas, indústrias ou qualquer outra construção em um raio de duzentos quilômetros. A única coisa que a vista alcançava eram os gigantescos cata-ventos que se erguiam do imenso descampado, gerando energia eólica.
Existia mesmo um lugar assim na Itália?
Um pigarro coçou a garganta de Máscara da Morte ou fora um rosnado? Estava ofendido com a Itália desconhecida. Logo ele, o dono do país, nunca imaginara que existisse tal pedaço de terra. Bufou, contrariado e colocou os óculos escuros estilo aviador, evitando que o sol, brilhando impiedosamente, atrapalhasse qualquer movimento seu.
Chegando ao destino indicados pelas pistas obtidas, o bando mafioso desceu dos carros.
Um avião antigo, coberto por ferrugem e com a estrutura corroída pelas intempéries quedava abandonado em um galpão. Uma relíquia que seria apreciada por um bom colecionador, talvez pelo próprio Máscara da Morte, se ao menos tivesse sido conservado.
Máscara correu os olhos ao redor, procurando alguma máquina que conseguisse voar. O tal ‘galpão’ era, na verdade, um velho hangar.
“Muito conveniente se você tem o que pilotar!” – pensou.
O mafioso fez um sinal e os capangas saíram em formação. Alguns homens foram na frente, invadindo o hangar e dando cobertura ao segundo grupo, assim como ao chefe.
Alguns disparos de reconhecimento, então, o silêncio absoluto.
– Não tem nada aqui!
Máscara abaixou a pistola, constatando a veracidade das palavras do capanga. O hangar estava vazio. As vozes e passos ecoavam pelas paredes sem qualquer empecilho, fosse humano ou instrumento de aviação.
Uma pista falsa. Era de se esperar.
Retirou os óculos e massageou o ossinho entre os olhos, como se isso fosse acalmá-lo ou fazê-lo pensar melhor.
– Vamos... – murmurou, dando meia volta em direção ao portão pelo qual entraram.
O sol, implacável, parecia zombar de si. A temperatura aumentara ou era somente seu desespero?
Parou as hastes dos óculos a caminho das têmporas, interrompido pelo grito de um capanga.
– Espere! O que é isso aqui?
Virou-se para ver dois de seus homens se esforçando para puxar uma pesada placa de metal do chão.
– Tem alguma coisa aqui embaixo! É uma passagem, chefe!
Uma escotilha de metal, camuflada no chão, escondia uma passagem subterrânea.
– Você primeiro, Mike*.
Máscara sorriu de canto e o capanga acatou a ordem.
===
Pela passagem subterrânea, Máscara da Morte e seus capangas seguiam por uma série de túneis e escotilhas que o levavam cada vez mais à baixo da terra. A sensação era claustrofóbica à medida que os túneis iam se estreitando e se contorcendo, como um labirinto escavado sob o solo italiano.
Alguns homens começavam a mostrar sinais de desesperos. A sensação de que estavam sendo enterrados vivos crescia à medida que nenhuma saída, ou chegada, prometia ser vislumbrada. Contudo, Máscara da Morte liderava o grupo com firmeza e confiança, mantendo os subordinados unidos e sob controle. Enquanto prosseguia o trajeto desconhecido, o mafioso tentava refletir sobre o significado daquilo.
Que lugar era aquele? Quem o construiu? Por que estava escondido sobre um antigo hangar? A construção era forte e bem arquitetada, mas pelo material que mantinham os túneis de serem soterrados pelo peso da terra e de seu aspecto geral, era visível que aquele não era um trabalho recente. Na verdade, notava-se que a passagem havia sido construída a décadas, principalmente pelo feitio das escotilhas que intermediavam a passagem de um nível a outro.
– Um bunker – falou para si mesmo, mas sendo ouvido pelos demais que, por sua vez, sentiram-se aliviados por ouvir uma explicação racional para o labirinto onde estavam.
Agora tudo parecia mais plausível. O hangar talvez não fosse para vôos comerciais, e sim uma pista de pouso para a força aérea italiana. Isso explicaria a complexidade daquela construção, que além de servir como refúgio antibombas, também dificultaria a invasão de soldados inimigos caso a base militar fosse atacada. Uma herança do período nazifascista.
Se fosse esse o caso, o italiano estava com problemas. Eles eram os invasores e se o grupo que os atacou estivesse mesmo se escondendo ali, certamente estariam de tocaia esperando para detê-los em pontos estratégicos, desconhecidos pelos mafiosos italianos.
– Mais uma escotilha. Essa está difícil de abrir – falou um dos capangas, ao mesmo tempo em que empregava uma força descomunal para girar a portinhola, aparentemente emperrada.
Mask fez um sinal para os demais recuarem um passo e ficarem em alerta, com as armas em punho. Sua intuição nunca falhava.
O subordinado finalmente conseguiu destravar a portinhola, seu rosto estava vermelho e a testa, suada pelo esforço. Talvez por isso tenha se descuidado: abriu a escotilha e pulou, confiante de que não encontraria nada além de outro túnel, como nas vezes anteriores.
Foi alvejado impiedosamente por atiradores invisíveis.
O corpo convulsionava pelos tiros que vinham de múltiplas direções. Caiu morto em frente aos companheiros de crime que nada puder fazer. Máscara fez sinal para que os outros aguardassem. Pelo som dos tiros fez uma estimativa de quantos inimigos enfrentariam e o armamento que portavam. Em breve alguém apareceria para checar quem mais acompanhava o defunto, e não obstante, ouviram os passo do outro lado da escotilha.
Um dos homens, o mais destemido e competente do bando, se posicionou atrás da portinhola, seguindo o comando do chefe, que orientava os capangas por gestos e contato visual. Mas certas ações, Mask preferia realizar ele mesmo, então, o mafioso pegou a granada que estava em posse de outro italiano.
Aquele plano tinha tudo para dar errado; desde a possibilidade de não serem rápidos o bastante para atirar o artefato explosivo antes da chuva de balas, até serem soterrados em consequência da explosão. Ainda assim, valia o risco, pois a alternativa era a morte certa nas mãos do inimigo.
Do outro lado passos se aproximavam. E quando a distância pareceu suficiente, um dos homens de Máscara tomou a frente para fazer o primeiro disparo. O tiro foi certeiro no meio da cabeça, matando o atirador inimigo e atraindo a atenção do bando rival. A resposta do não demorou a vir.
A sequência de ações que se sucedeu a isso não durou mais que poucos minutos, mas para os envolvidos os segundos passaram em câmara lenta. O capanga escapou ileso dos tiros que vieram na direção dos italianos e o chefe mafioso conseguiu lançar a granada com precisão, antes que a escotilha fosse fechada.
As balas ficaram detidas na densa portinhola de metal, o que comprovou as suspeitas de Máscara da Morte acerca daquela instalação. Talvez os italianos tivessem mesmo uma chance de saírem vivos dali.
Todos se afastaram, menos um capanga, que ficara escorando a porta para que esta não fosse aberta do outro lado. A explosão fez a terra tremer, mas as paredes continuavam firmes e intactas. Um bunker, de fato, para alívio dos italianos, que agora faziam o sinal da cruz e agradeciam à Madonna por não terem sido soterrados. Contudo, nem todos tiveram a mesma sorte. A explosão arrebentou a escotilha, que foi lançada longe levando junto quem a escorava. O homem morreu esmagado pela força e impacto do metal sobre si.
A perda do colega foi sentida por cada membro do grupo, mas não fez com que estes desviassem do seu objetivo com perdas e lamentações. Cautelosamente, o bando entrou na sala anexa, bem mais ampla que os túneis pelos quais seguiram até ali. Haviam chegado ao seu destino, e a cena com a qual se depararam não deixava a desejar em nada aos horrores da Segunda Guerra Mundial.
Sangue espalhado para todos os lados, corpos desmembrados e desfigurados, e o cheiro de morte, que por pouco não sufocava os vivos. Os italianos torceram a cara em nojo, e outras expressões vinham mescladas com desdém, em fingida indiferença.
A partir daquele ponto não havia mais escotilhas, túneis ou portinholas. O trajeto entre as pequenas salas de concreto era livre, com uma ou outra porta que não chegava a criar um obstáculo à passagem. Contudo, homens armados continuavam posicionados em pontos estratégicos, fazendo contratempo ao avanço dos italianos.
Saindo do holocausto, o bando voltou à barbaridade familiar e cotidiana, própria da atividade mafiosa: à troca de tiros, ao assassinato, ao espancamento de um inimigo cativo. O que se seguiu foi um bando de sangue. A intensa troca de tiros causou mortes em ambos os lados, mas, no final, os italianos levaram a melhor.
A quantidade de inimigos foi reduzindo drasticamente, até que o bando Máscara da Morte não encontrou mais ninguém que tentasse detê-los.
Chegaram a uma sala diferente das outras: mais espaçosa e com alguns pouco móveis em ferro e metal. O cômodo parecia próprio a ser habitado, mas se encontrada vazio. Não parecia haver nada além dele. Aparentemente, haviam chegado num beco sem saída.
Não era possível que aquele fosse um endereço falso. Todos aqueles homens não teriam ficado ali para morrer por nada.
Será que eles tinham perdido alguma passagem no meio do caminho? Será que existia alguma passagem secreta para onde a chefia do bando inimigo estava? Para onde Shun e Shina estavam sendo mantidos cativos?
Máscara esfregou os cabelos nervosamente. Não havia nada ao redor que levasse para além daquele lugar. Não podia; não queria acreditar que aquela incursão o levaria a nada!
O italiano andava de um lado para o outro, procurando por algo. Algum sinal, alguma pista, alguma esperança!
Ficou pasmo com o que achou.
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