Um Presente Inesperado
9 Alter Ego
Notas iniciais
A mensagem no pingente era clara: Shun tinha dono; mesmo que este fosse um fantasma.
Estranhamente, Giovanni não ficou irritado, mas sim... Triste? Decepcionado, talvez.
Afinal, o que o mafioso pensava? Que iria ganhar o coração do japonês? E para que lhe serviria um coração?
– Io vou fazer o jantar.Venho te chamar quando estiver pronto — disse com a voz fraca, então virou-se em direção à porta.
Shun nem bem abriu o olhos e Giovanni já tinha saído do quarto. Ajeitou sua postura fechando as mãos no pingente do colar, vendo apenas a sombra dele desaparecer com o fechar da porta. Algumas gotas pingavam dos seus fios, descendo pelo pescoço e eventualmente caindo no chão. Olhou para o quarto vazio. Estava sozinho. Sentiu-se sozinho repentinamente. Esfregou as mãos uma na outra e as levou até o rosto. Quente.
Não... Devia ser imaginação sua. Retirou o roupão e colocou as roupas que o moreno tinha trazido até o quarto. Um short com suspensórios e uma camisa branca por dentro. Enxugou o cabelo e procurou por um pente ali, mas não havia. Seu cabelo estava todo embaraçado, mas iria até a cozinha daquele jeito mesmo.
Chegando lá espiou o italiano de longe, um cheiro bom exalava pelo ar chegando até suas narinas. Ele sabia cozinhar muito bem! E aquele avental o deixava um homem mais caseiro.
Pena que Shun não sabia cozinhar. Era um desastre nesse quesito. Bem, nunca ninguém se interessou em ensinar-lhe isso. Tinha outros dotes, mas fazer comida não era um deles.
O italiano, por sua vez, era muito eficiente e organizado na cozinha. Separara todos os ingredientes e cortara os alimentos que precisava para fazer o jantar em poucos minutos. Seria algo simples, porém gostoso: um risoto. Os ingredientes, uma vez misturados na panela, aromatizavam o ambiente. Máscara ficava muito concentrado enquanto cozinhava e, por isso, não viu o garoto se aproximar.
Shun observava-o com atenção. O italiano não se deu conta de que tinha plateia até o prato ser finalizado.
– Ah, você está aí... – disse quando finalmente notou sua presença. – Ma Che!? Que cabelo é esse? — falou ao ver o outro todo despenteado.
Bem, não havia tempo para aquilo. A panela soltava uma fumaça cheirosa e era bom que comessem logo, enquanto a comida ainda estava bem quente e fresca. Máscara serviu o risoto em dois pratos e os levou para a mesa.
– Pegue o suco e o vinho na geladeira — indicou para que Shun o ajudasse a servir a mesa.
O mais novo deu um sorriso amarelo antes de fazer o que o italiano lhe disse. Entrou na cozinha abrindo a geladeira, pegando um suco de uva em caixinha e o vinho. Mas pra que precisavam de suco? Ele não achava que realmente que ainda era menor de idade, não é?
Hunf! Colocou o suco lá dentro de novo e levou a garrafa de vinho até a sala de jantar. Estranhou que só houvesse dois pratos na mesa. Perguntou-se onde estaria Shina, e mesmo alguns dos outros empregados. Eles faziam um bom trabalho em se confundir com o ambiente. Não havia notado a presença deles durante todo o dia.
Enquanto Shun divagava, Máscara colocou os pratos, que equilibrava no braço direito, sobre a mesa, assim como os copos e talheres que levava na mão esquerda. Quando reparou no japonês, este trazia apenas a garrafa de vinho.
– Você não encontrou o suco? — estranhou, a garrafa estava bem na primeira prateleira da geladeira.
– Acompanho você no vinho — disse firme em sua decisão. — Quero provar o vinho italiano -pousou a garrafa na mesa. Aproximou o nariz da travessa de risoto. O aroma era maravilhoso e tinha uma cara ótima! Sorriu para o italiano. — Parece muito bom! Um dia quero cozinhar assim.
O mafioso deixou escapar uma risadinha, mas não falou nada. Vira o garoto beber um copo de martini e ficar bêbado. Agora ele queria botar banca e tomar vinho? Pois que o fizesse, então. O álcool com certeza aliviaria qualquer desconforto que ainda pudesse estar sentindo. E, claro, o italiano não o impediria de provar o vinho que ele próprio havia produzido artesanalmente.
– Va bene... — encheu as taças, então ergueu a o cristal como se fizesse um brinde. — Pelo jeito não sabe fritar um ovo... — sorriu divertido, lembrando o último comentário do japonês.
Shun fez bico ao escutar o comentário e cruzou os braços na frente do corpo.
– O que posso fazer? Nunca me deixaram chegar perto da cozinha.
A yakusa tinha muitos empregados e grandes chefes de cozinha oriental para atender os exigentes líderes da facção. Não havia motivo para aprender culinária.
– Que pena... Eu estava esperando que você fosse preparar um sushi para o almoço de amanhã — riu divertido e tomou um gole de vinho, depois, ficou encarando o menino, pensativo. — Já que você vai ficar por aqui mesmo... Posso te ensinar algumas coisas, principezinho — falou debochado, mas não de uma forma pejorativa. — Vai ser bom ter alguém para me ajudar nas tarefas domésticas.
– Não sou um príncipe — contra-argumentou suavemente. — Honto ni?! Vai me ensinar a cozinhar?! — os olhos verdes brilharam de contentamento. Era um desejo seu de infância. Queria principalmente aprender a fazer doces. Agarrou o pescoço do canceriano e lhe deu um beijo na bochecha sem pensar duas vezes. — Arigatou! — disse alto rindo feito um bobo até se aperceber que tinha se excedido. — A-Eh... Que... Boku wa... Iie... GOMENASAI! – curvou-se várias vezes. O que tinha dado em si para ser tão impulsivo?!
Máscara da Morte esboçou um sorriso, corando levemente com o beijo inesperado, mas logo o garoto se afastou visivelmente envergonhado.
– Eu não entendi uma palavra que você falou... Mas não precisa ficar cheio de dedos só porque me beijou — tomou outro gole de vinho, recuperando o controle de si e da situação. — Eu prometi que não iria encostar mais em você... — fez uma pequena pausa dramática e fitou o oriental de canto de olho, uma mirada intensa e sensual — Mas você está livre para me tocar quando quiser.
Shun havia se sentado na cadeira envergonhado de sua própria atitude. Olhou pro risoto e foi logo se servindo. Se sua boca ficasse ocupada poderia ao menos parar de encontrar palavras para justificar seus atos, que por si só o embaraçavam. E, intuitivamente, foi isso que fez. Colocou uma porção generosa do risoto no prato e deu uma garfada, provando-o. Arregalou os olhos com o sabor que tocava sua língua. Estava muito gostoso. Começou a comer mais rápido até que escutou o italiano dizer que poderia tocá-lo quando quisesse. O garfo que estava a caminho da boca caiu em cima da mesa e abriu a boca cheia de comida num "oh" perfeito. Parte dela desceu pela sua garganta e se engasgou. Tossia involuntariamente. Agarrou o vinho que tinha a rolha já solta e o abriu bebendo alguns goles na garrafa mesmo. Tentava se recuperar do impacto que aquelas poucas palavras tinham tido em si.
Podia tocá-lo em qualquer lugar e quando quisesse? Matte!! Por que estava pensando seriamente sobre isso?!
Na cabeça do italiano, este não dissera nada demais para o garoto fazer aquela trapalhada toda à mesa, derrubando comida, engasgando e...
– Ei, vá com calma nesse vinho — tirou a garrafa da mão do garoto antes que ele entornasse todo o seu conteúdo.
Máscara ria divertido, achando uma graça Shun ter ficado todo desastrado e tímido. O mais novo poderia ter ficado irritado e revoltado com o comentário, mas sua reação foi de puro constrangimento. Isso deixou seu coração do mafioso um pouco mais leve. Talvez ainda pudesse conservar alguma esperança de poder tocar novamente aquela pele macia, beijar seus lábios saborosos, tê-lo em seus braços...
Sacudiu a cabeça ante a memória da noite que tiveram, ia acabar ficando excitado se continuasse pensando tais coisas.
– Io non disse nada demais para você ficar assim todo estabanado. Ou disse? — perguntou com um sorriso malandro no rosto.
Shun deu dois tapinhas no peito, tentando regularizar a respiração. Oh... Estava corado. Muito corado!
– I-ie! Impressão sua! — o gosto do vinho em sua língua deixando-o com a voz pastosa e mais grave. Mais parecia com aquela voz da sua própria mente, que de tempos em tempos o perturbava. Colocou mais uma porção da comida no garfo, se servindo. O talher encostando nos lábios carnudos e os olhos delineados pelos longos cílios olhando para o outro canto da mesa de jantar.
O italiano parou de provocar o... Novo morador? E resolveu deixar que o outro terminasse de comer em paz. Mas parecia que Shun não tinha a mesma intenção em deixá-lo quieto, pois mirava o italiano constantemente, embora tentasse disfarçar os olhares que escapavam pelos cílios espessos. Aquilo estava parecendo, à sua maneira, extremamente erótico. Shun possuía certa inocência marota que mexia com o mafioso, ainda mais por este não conseguir distinguir se o garoto fazia de propósito ou não. Por fim, Giovanni manteve a postura sóbria e terminou o jantar e o vinho, refreando a vontade de tentar algo com o seu conviva.
A refeição seguiu depois dessa breve troca de palavras entre eles. O vinho estava gostoso. Tanto é que o oriental encheu seu copo pela terceira vez após terminar seu prato. Pegou o copo de cristal, sentindo o aroma do vinho com os olhos fechados. Antes de abri-los novamente e tomar um gole olhando fixamente para Giovanni.
Deu um gole, depois mais um sem piscar. Não era elegante colocar os cotovelos em cima da mesa, mas o fez assim mesmo. Aproveitou para apoiar a mão na cabeça.
– Gotisso sama... — disse vendo o reflexo do italiano pelo cristal.
O mais novo falava com o mafioso como se este entendesse a língua nipônica. Máscara achava bonitinho, então não se incomodava em não compreender uma palavra ou outra. E pela expressão do japonês a refeição havia sido proveitosa, assim como o vinho que ele não parava de beber.
– O que achou do vinho? — perguntou; a voz profunda e melodiosa.
O oriental sentia-se estranhamente leve. E gostava disso. Dava uma sensação de liberdade. Pousou o copo com vinho novamente na mesa de jantar. Os dedos finos percorriam a borda do cristal, criando um pequeno som agudo e audível como uma nota musical. Abriu um sorriso discreto.
– É encorpado; denso como os melhores vinhos devem ser. Assim como tua língua — não conseguiu segurar o riso ainda que contido.
Shun havia escolhido alguém muito interessante dessa vez. Fazia já um bom tempo desde a última vez. Faria o italiano entender com quem ele estava lidando.
O italiano ergueu uma sobrancelha inquisidora. Havia escutado direito? Shun acabara de elogiar... Sua língua! Pelo visto o álcool já mostrava seus efeitos.
Levando um sorriso divertido nos lábios, Máscara foi até a outra ponta da mesa, parando próximo ao japonês.
– Não é de se surpreender que o gosto do vinho se assemelhe à minha boca, afinal... Fui eu quem o produziu — pegou a garrafa, afastando-a do jovem inebriado. — Acho que já chega de vinho por hoje — disse o italiano, que atribuía aquele comportamento "mais soltinho" à uma alta concentração de álcool na corrente sanguínea.
O oriental levantou a mão quase que imediatamente e tocou o braço do canceriano o impedindo de levar o vinho para a cozinha.
– Não... É apenas o começo, Giovanni — ergueu-se da cadeira, aproximando o rosto do moreno, observando-o atentamente. As esmeraldas atentamente se deleitando com a expressão dele.
Aquele comportamento era demasiado estranho. Mesmo estando alcoolizado, Shun não teria uma atitude como aquela. Além disso, sua fala era eloquente e sua postura segura. Não, aquele não era o álcool falando, aquele era... O outro.
Imediatamente o mafioso estreitou os olhos, seus sentidos ficaram em alerta, sentia um alerta de perigo no ar quando Shun transformava-se naquela outra pessoa.
– Quem é você? — perguntou; a voz grave tinha um tom discreto de agressividade.
– Eu? — piscou os olhos. — Eu sou o Shun. Não vê? — perguntou divertido. Os dedos acariciando o braço do outro até segurar o vinho sobre a mão do canceriano enquanto os olhos exigiam total atenção do italiano para si.
Máscara percebeu o tom de zombaria na fala do outro.
– Não tente me fazer de bobo rapaz, pois isso não vai terminar bem para você — falou seco; não podia abaixar a guarda. — Fale seu nome, se é que você tem algum — apesar de não gostar nada daquela situação que fugia a seu controle, foi impossível não se arrepiar, de uma forma prazerosa, com o toque em seu braço. Shun continuava sendo uma tentação, mesmo em sua versão 'evil'.
–Humm... — um dedo percorreu o queixo do italiano, descendo pela garganta vagarosamente. Seria fácil... Tão fácil fazê-lo calar a boca. Um corte certeiro na jugular e ele pararia de fazer tantas perguntas. Franziu ligeiramente o cenho. — Eu não tenho um nome. Eu sou o Shun. No entanto, se você quer um nome. Dar-te-ei um, Gianni — apelidou-o falando com a voz aveludada. Mortalmente calma no ouvido do moreno. — Pode me chamar de Hades. Era assim que Ranmaru me chamava — e dito isso tirou a garrafa de vinho das mãos do italiano, num movimento ágil, servindo-se de mais uma dose de vinho e depois indo se sentar em cima da mesa ao lado do outro.
– Hades, o deus do submundo? — deixou escapar uma risadinha, aquilo era morbidamente cômico. — Parece apropriado... — mas o sorriso deixou os seus lábios tão logo surgiu. — Esse Ranmaru... É bem popular — mais uma vez aquele nome surgia para assombrar o italiano! Era como se estivesse competindo com seu fantasma em todos níveis. — Afinal, o que você quer comigo? — foi direto; se o lado obscuro de Shun havia se revelado algum motivo existia por trás disso.
– Ora, pelo visto não é nenhum ignorante. Gosto disso — deu uma pequena piscadela para o outro. O doce Shun o faria de forma mais inocente, mas vindo de si... Perguntava-se qual o efeito de suas expressões nas pessoas. Devia ser um pouco mais... Intimidante. — Serei direto — colocou a taça de vinho na mesa e se inclinou para o lado fazendo os cabelos castanhos descerem por seus ombros ligeiramente. As palavras rolaram por sua boca, saindo como um aviso imperativo: — Quero que se afaste de Shun. Eu sou o único que pode protegê-lo.
Máscara não acreditava no que estava ouvindo. O garoto era mais maluco do que o mafioso imaginara. Seu alter ego estava pedindo para que se afastasse, quando fora o próprio Shun que pedira para ficar! Giovanni não sabia nada de psicologia, ou psiquiatria, que parecia ser o mais apropriado ao caso; mas sabia que aquilo era problema. E dos grandes! Não por menos o irmão quis se livrar dele. Então, por que Máscara não fazia o mesmo?
O italiano coçou a cabeça, nervoso, caminhava pela sala em círculos. Estava cavando a própria cova mantendo o garoto em sua casa, e isso sem nem contar com o tal 'Hades'.
– Io já tinha me afastado... — disse sério, o olhar tão perigoso quanto àquele que era direcionado à sua pessoa — Foi ele quem veio atrás de mim.
– Ele que veio atrás de mim... — repetiu o que Giovanni falou dando um sorriso quase zombeteiro. — Tu gostas dele. Por isso que o aceitou de volta. E ainda o quer ao teu lado, não é? — questionou olhando profundamente para o italiano. Um olhar que enxergava a alma de um homem corrompido pelas mortes que ele carregava em vida, e que o transformou em Máscara da Morte.
O mais velho engoliu seco. Hades era o extremo oposto de Shun: ácido, confrontador, malicioso... Uma sexualidade latente exalava dele. "O que estou pensando?" — bagunçou os cabelos com os dedos, nervosamente.
– E seu eu quiser ele aqui? — o confrontou. — Acha que ele ficará melhor com o irmão? Vai protegê-lo da yakuza? Não seja estúpido, irão morrer "os dois".
– Eu nunca vou deixar que o matem. Eu sempre cumpro minhas promessas. — estreitou os olhos. — Você realmente acha que a Yakusa quer me matar? — deu uma risada. — Você não sabe de nada. — deu um sorriso gentil antes de agarrar a gravata do canceriano e o puxar para frente, seus rostos ficando a milímetros de distância. — Sua língua já provou ser bastante habilidosa, mas certamente ainda deve aprender bons modos. Garanto que o estúpido será você se me irritar. Eu não esqueci aquele tapa na cara, Gianni.
Nesse momento o mafioso se controlava para não dar outro tapa na cara do japonês. Mas não ia criar uma briga com seu alter ego.
– É você quem está me irritando — falou com a voz grave. — Estava quieto na minha quando você resolveu aparecer — os olhos azuis encaravam com firmeza as duas esmeraldas, não iria titubear com as ameaças de um 'eu' lunático. – Ah, espere... Quer dizer que você também apreciou minha língua? — sorriu sarcástico. — Isso quer dizer que o Shun também se lembra das coisas que 'você' faz?
– É eu gostei. Você sabe fazer um oral como um perfeito uke — elogiou o outro. — E não... Ele não se lembra de nada porque eu não quero. É assim que quero que ele permaneça. Sem saber de nada, entendeu? Ele não precisa sofrer mais por causa de ninguém — soltou a gravata do italiano e desceu da mesa, acariciando o colar em formato de estrela num gesto inconsciente. Os olhos distantes... Perdido em lembranças do passado.
“Uke?!” Máscara da Morte não sabia o que era aquilo, mas não gostou nada do jeito que o oriental falou. Boa coisa, obviamente, não era. Só não arrombava aquele filho da puta ali mesmo, pois quem ia acordar todo dolorido seria Shun, a versão... ”boa”.
– Foda-se. Não vou ficar te dando trela... — pegou a garrafa de vinho e deu as costas para Hades, cruzando a sala de estar em direção à sacada. Abriu as grandes portas de vidro que protegia o interior da brisa noturna e foi até a pequena varanda que dava vista para o jardim.
O céu estava estrelado, livre de qualquer nuvem. O ar estava fresco e agradável. Sentou-se numa cadeira que lá havia e, deixando a elegância de lado, engoliu o vinho pelo gargalo mesmo. Não tinha outra escolha a não ser esperar Shun voltar. Assim pensava o italiano.
Hades piscou os olhos quando viu o italiano sair como um furacão do seu lado. Quase podia ver os ombros trêmulos dele... De raiva. Oras... Havia feito um elogio! Não era qualquer um que conseguia agradá-lo numa felação. Deu de ombros. Queria esticar as pernas e assim o fez.
Seguiu o caminho dos corredores até o jardim e tirou os sapatos antes de pisar na grama. Estava de fato uma noite belíssima. O céu estava livre de nuvens e as estrelas reinavam soberanas. O olhou ao redor e avistou uma árvore. Não pensou duas vezes e foi até ela. Deixou os sapatos caírem sobre a grama verde e subiu em seu tronco com agilidade, sentando-se num galho lá do alto.
"Consegue me ver?"
Lembrou-se da pergunta feita por Ranmaru anos atrás. Seus olhos se voltaram para a constelação de virgem, onde o brilho de spica majestosamente emergia do céu. Segurou o pingente que usava com força.
Sim, ele via.
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