Um Eterno Amanhã

3 Capítulo 3: Mudança de Rotina


Acordou pouco tempo depois, dando-se conta de que adormecera. Seu coração estava aquecido por um novo brilho, e a confusão a fizera adormecer, embora sua mente continuasse abarrotada de questionamentos que não parava de fazer a si mesma. Levantou-se, tentando esquecer tudo o que a emoção do momento lhe causara. Tantas coisas a pensar e fazer, e ela lá, deitada, dormindo, pensando em seus conflitos pessoais.

Seu primeiro instinto foi consultar o relógio, descobrindo que já era noite. Sentiu o coração apertar ao lembrar da promessa que fizera ao Hanyou... Voltaria no mesmo dia, mas sem dúvida ele já estava fraco com a fome que sentia. Olhou para seus trajes, assustando-se. Mantivera as roupas que usara diante dele, e sentia-se grata por ter-se lembrado de trancar a porta, fazendo com que ninguém a visse usando aqueles trajes simples.

Arrumou-se muito rápido, pegando várias frutas que haviam em um cesto, diante de sua cama, e reservando-as em uma trouxa improvisada, que deixou em sua cama, tal qual o quimono que antes trajava. Saiu de seu quarto, para dar uma olhada no castelo, tentando manter a naturalidade. Lembrou-se, instantaneamente que esquecera-se de Kaede, no afã do momento. Decidiu ir pro quarto dela, ter uma conversa com a menina. Não poderia, de maneira alguma, contar-lhe tudo o que acontecera, mas quem sabe soltar pequenas partes da história.

Dirigiu-se diretamente ao aposento da criança. Bateu duas vezes e entrou, não obtendo resposta da menina. Olhou em volta, indo em direção a cama da irmã. Aproximou-se, sorrindo, aliviada. Ela dormia como um anjo, profundamente. A Princesa sentou-se a seu lado, sorrindo, maternalmente. Nada daquela confusão a afetara, talvez nem estivesse ciente de nada do que se passara naquele dia. Estava em seu próprio mundo, sentada em seu castelo, resguardada em seu refúgio, protegida por uma concha, que quando se abrisse, poderia lhe dar um grande choque de realidade, se algum dia se abrisse.

Hesitou, por um momento, sem saber se deveria acordá-la ou não. Decidiu-se por não perturbar a menina com problemas que não a afetariam, ao menos não de imediato. Quando fosse o momento certo, contaria a ela, sem remorso de fazê-lo, pois sabia que aquela menina estaria sempre a seu lado. Retirou-se, batendo a porta atrás de si com a maior leveza possível, para não acordar a adormecida princesinha.

Saiu, querendo ver se os ânimos já haviam se acalmado, ou quem sabe se o caos havia aumentado ainda mais. Seguiu pelos corredores, mas não parecia nem que algo havia acontecido hoje mais cedo. As pessoas haviam retomado seus afazeres diários e rotineiros, e os cochichos com relação àquele assunto havia muito tempo cessaram, retomando a calmaria de um reino que há muitos anos não tinha conflitos. Será que só ela via o tamanho da injustiça que seu pai cometera?

- Soube que o rei já deu um jeito no Youkai – Ouviu uma mulher falar, na cozinha. Escondeu-se, para ouvir a conversa, preocupando-se com o que ouvira.

- É, disseram que ele não quis falar nada que o ajudasse contra o Reino Monoke... Parece que ele tomou uma lição. Bem, é muito bem feito, Youkais devem ser punidos, especialmente os que não respeitam as regras de seu próprio reino

- Mas você não está achando o rei estranho? Ele está muito agressivo ultimamente, bem mais revolucionário... Eu não sei não... Isso me cheira a guerra

- Ai, meu Deus, Natsuya, nem fale uma coisa dessas, fico toda arrepiada

- Pois é, Chizura, estou apavorada também... Mas, vamos terminar isso, senão ele vai ficar uma fera conosco.

Kikyou saiu de seu esconderijo, voltando em direção a seu quarto, o coração aos pulos. Estava muito nervosa com o que aquelas mulheres diziam. Aprendeu a lição? O que elas queriam dizer com isso? Sua mente não parava de questioná-la... E se seu pai o havia matado? Aquele pobre ser, tão dividido, ainda assustado com tudo o que lhe acontecera... Como ele poderia? Seu pai não seria capaz de matar um semelhante, ou seria? Afinal, ele era também um humano, como todos eles... Perguntava-se se aquele rei teria cometido tamanha crueldade. Aquilo causava repulsa, e no fundo de seu coração, despontava um medo. Medo de que ele estivesse morto.

Ao entrar em seu quarto, correndo, encontrou sua irmã, tranquilamente parada diante da porta, dizendo-lhe, sonolenta:

- Oneesan... Eu ia te procurar... Vamos treinar com o arco e flechas?

- Kaede, querida, quero que faça uma coisa pra mim. Agora não posso brincar com você, estou resolvendo um problema, urgente. Eu quero que você diga que eu estou deitada, caso te procurem. Eu vou trancar a porta, e levar a chave, ninguém vai saber. Por mim, Kaede. Eu juro que te conto tudo mais tarde, quando voltar. Faria isso por mim, Onee-chan? – Parecia aflita, o que preocupou a menina, que nunca a vira assim tão nervosa.

- Claro Kikyou-sama, mas... Depois me conta o que aconteceu, ta bom? – Ela falou, desconfiada.

- Sim, claro... Obrigada, amorzinho, sabia que podia contar com você. Não diga a ninguém que estive aqui, por favor, Kaede-chan – Beijou-lhe a testa, adentrando o aposento rapidamente.

Quando saiu de lá, já em seu disfarce, trancou a porta de seu quarto, a chave segura em seu bolso. Pegou a trouxa e escondeu embaixo de seu manto. Não sabia se o encontraria vivo, e as lágrimas queriam escorrer por seus olhos, mas ela as reprimia, rapidamente. Correu, desabaladamente, pelos corredores desertos do enorme castelo. Até aquela porta, do lugar aonde anteriormente se encontrava seu refúgio, e aonde agora se encontrava a triste e sofredora morada de outra pessoa, que no momento era a coisa mais importante de todas.

Ela entrou sem sentir todo aquele medo da primeira vez. Dirigiu-se, rápido, àquela cela. Olhou diretamente pra ela, o coração dando pulos, desesperado, ainda descrente do que ouvira dizerem. Agarrou-se as grades da cela, reprimindo uma exclamação de surpresa. Aquilo era maldoso, horrível, seu pai era um monstro em fazer aquilo com ele. Com lágrimas presas nos olhos, adentrou a cela, sem se importar com segurança, como da outra vez:

- InuYasha! – Ela correu ajoelhando-se ao lado dele – Meu Deus! Não acredito que aquele homem fez isso com você... Isso é cruel, nojento, mau... Aqueles malditos...

Ele estava deitado, num canto da cela. Seu olhar estava abatido, os olhos arroxeados. Seu rosto estava cheio e hematomas, e seu corpo repleto de cortes. E ele estava com os braços feridos, como se tivesse tido que lutar contra cordas, certamente fora amarrado. Quando ela aproximou as mãos dele, este rangeu os dentes, encarando-a, novamente exibindo a vozinha fina e desesperada que ele possuía, especialmente quando acuado:

- Saia daqui! Você teve culpa nisso também, eu sei. Pare de fingir que gosta de mim, os humanos são uns nojentos... Saia de perto de mim!

- Não! InuYasha, eu nunca te tratei como os outros monstros, você não é como eles. Os humanos é que são monstros, de fazer isso com seu semelhante! Por favor, me deixe te ajudar! Eu sei que está com medo, eles foram muito maus com você. Mas me deixe ajudá-lo. Me conte o que aconteceu, por favor! Eu sei que não confia em mim, e entendo que nem poderia, sou como eles, uma humana, mas... Eu quero ajudar você.

- Não está vendo? – Sua voz tornava-se ameaçadora, enquanto ele se forçava a sentar, recostado a uma parede, distante da moça – Eles me amarram, e bateram em mim, pra me fazer falar... Mas eu não tinha nada pra falar! Eu não sou ninguém; foi o máximo que pude dizer pra aqueles nojentos! E me deixaram desse jeito.

- InuYasha... – Ela se aproximou, os olhos fixos nos dele, que mantinham-se pouco convidativos. Porém, ela pôde chegar tão perto dele que poderia abraçá-lo num estender de braços, e ele nem mesmo moveu-se para repeli-la. E ela sabia disso, desde que dera o primeiro passo, ele nunca a machucaria, ela podia sentir isso – Eu trouxe comida pra você. Imagino que esteja fraco; coma, você vai se sentir melhor depois disso.

Ela lhe estendeu uma maçã, mas ele continuou a observá-la, desconfiado. Parecia, no fundo, apavorado, com medo do que ela poderia fazer com ele, se lhe desse confiança. Encarou a maçã, pensativo, e sua fome falou mais alto. Era isso ou morrer de estômago vazio. Pegou a fruta, dando uma mordida. Desviou os olhos dos dela, observando o chão. Baixinho, prosseguiu meio sem-graça:

- Kikyou... E-eu... – Ruborizou totalmente abobalhado – Eu... Esquece.

- Não, pode dizer... – Um leve sorriso assomou a face da jovem

-... – Ficou em silêncio, os olhos abaixados. Pareceu ignorar o que ela disse embora seu rosto ainda estivesse um pouco avermelhado.

- Esses ferimentos são bem feios... O rei foi muito violento... Mas, InuYasha, me diga uma coisa: o que você veio fazer no território dos humanos? Não sabia que isso iria acontecer? Eles vão te matar se não te acharem poderoso o suficiente para fazer chantagem com seu reino. São monstros, só querem saber deles mesmos... Todos esses humanos.

- Eu vim para cá porque os youkais me expulsaram! Eles não me queriam mais lá, diziam que eu era impuro. Eu vim pra cá para tentar encontrar um lugar para viver. E fui mais mal recebido que lá! Eu nunca devia ter saído, devia tê-los deixado me matar... Mas isso não vai ficar assim! Eu vou me vingar de todos... Dos malditos que me tiraram de lá, e desses idiotas que fizeram isso comigo... – Havia muito rancor e tristeza em suas frases. Mirava o chão, apertando a própria mão, sem dúvidas remoendo-se em seu próprio ódio. Sentiu pena dele, de todas as feridas que aquilo tudo proporcionava em seu coração, Tinha certeza de que ele não merecia tal coisa.

- Eu entendo – Ela parecia muito triste agora, os olhos baixos – Eu queria poder te tirar daqui... Mas não sou ninguém também, sou incapaz de fazer qualquer coisa... O rei parece louco... Ultimamente, todos por aqui têm achado isso. Ele não fala mais como antes... Dizem até que ele tem destratado a... A filha dele. – Pareceu recear em dizer isso – Antes ele não seria capaz de fazer isso. Mas agora... Eu acho que ele mataria qualquer um.

- Ele foi muito violento. Mandou o maldito do servo dele lá, sei lá o nome dele, me dar uma surra. – Calou-se, depois disso, comendo a maçã. Parecia ressentido quanto a falar mais do que isso.

- Eu vou dar um jeito... Eu vou te tirar daqui, custe o que custar. Mas preciso que você confie em mim... Você confia? – Desejava ouvir uma resposta positiva, embora fosse quase uma certeza que ele fosse incapaz de confiar nela.

- Eu... Não! Eu não vou confiar em uma humana, nunca! Vocês são todos traidores, eu não... Posso fazer isso. – Retrucou agressivo e brusco, indo ainda mais longe do que a moça pôde pensar que fosse.

A princesa se afastou, recuando alguns passos, ainda olhando-o nos olhos. Aqueles olhos tranqüilos da moça diminuíram, e seu olhar habitual e altivo retornou a seu rosto, um olhar que nunca mostrara a InuYasha. Esse se assustou, encolhendo-se. Parecia furiosa com sua resposta. Sem dúvidas que ele a havia magoado, sendo tão grosseiro.

- Quer dizer... Que eu não sou mais que uma humana para você? Sou como aqueles... Monstros que te deixaram desse jeito? – Seu tom de voz era triste, embora sempre se mantivesse tranqüila, nunca em sua vida demonstrara em seu rosto todos os reais sentimentos – InuYasha, me diga... O que eu sou para você? Você acha que sou como eles, depois de tê-lo ajudado?

- Eu... Eu nunca confiei em ninguém! Você não pode me obrigar a confiar em você! – Retrucou, tentando ser convincente.

- Então é isso. – Foi o que ela respondeu, sentando-se, tranquilamente. — Você está me usando, não é, InuYasha? Você me trata melhor que eles só porque lhe trago comida, e ajudo você quando precisa. É isso que está me dizendo? – Ela provocou, ainda encarando-o, tão fixamente que ele mal podia desviar os olhos.

- Não... Se você for embora e nunca mais voltar, não vou sentir sua falta! – Virou a cara, como uma criança birrenta. Não se importava se ela estava lá ou não, ficaria bem sem ela. Ao contrário do que ele pensou, ela sorriu, tranquilamente, aproximando-se dele.

- InuYasha... Você é tão ingênuo. Fale a verdade: Como você me vê? Como uma humana? – Seu tom de voz se tornava tão sereno quanto sempre fora. Incrível como ela mudava tão rápido, ele concluía observando-a.

- E-eu.... Ora, Kikyou! Porque está me perguntando isso? – Ele se esquivava da pergunta, cada vez mais, sem conseguir resposta plausível para ela. Sabia que ela o testava. Não entendia o porquê da calma que ela demonstrava. Nem mesmo suas mais rudes palavras seriam capazes de desalinhá-la. Agora mesmo parecia que havia se ofendido, mas agora se mostrava compreensiva com suas respostas. Isso o atordoava, profundamente.

- Então, é isso... Bem, quando estiver pronto pra responder essa pergunta, eu vou fazê-la de novo. — Ela mantinha-se totalmente tranqüila, sem preocupações. Tinha que fazer isso sabia que o instigaria a pensar sobre o assunto, quanto mais mistério houvesse em suas palavras. E sem dúvida, aquilo o aturdia, ainda que tentasse demonstrar poder diante dela – Mas, você vai ficar bem, com todos esses ferimentos?

- Hunf! Esses arranhões não são nada pra mim! – Gabou-se, os olhos fechados, recostado na parede. Ela somente segurou seu braço, para examinar, e ele se encolheu, involuntariamente. Devia doer muito, até mesmo nele que era bem mais forte que um humano.

- Fique parado, não vou te machucar – Ela disse baixinho, examinando seus braços, totalmente cortados – Esses ferimentos estão muito feios. – Mantinha seu olhar normal, mas por dentro, estava horrorizada com o que seu pai fora capaz de fazer. Realmente, não queria ter visto aquilo – Eu... Sinto muito... Por não ter te ajudado. Eu queria tê-los parado. Me perdoe. – Seus olhos, sempre melancólicos, estavam cada vez mais tristes, olhando pro chão, fixamente.

- Bem, eu... – Ele parecia sem graça. Nunca sabia o que fazer quando via uma mulher triste. Sentia seu coração apertar ao vê-la pedir perdão por aquilo, no fundo a culpara por não estar do seu lado – Err... Você não ia poder fazer nada. E não foi nada, eu... Vou ficar bem... Se você estivesse aqui, eles iam te matar. Não se preocupe com esses arranhõezinhos. – Não sabia o que dizer lançando todas essas frases no ar, sem resultado – Feh, Kikyou! Tire essa cara ou vou pensar que você é uma fraca!

- Uma fraca, hein? – Ela perguntou um brilho tomando-lhe os olhos – É... Deve ser isso que eu estou parecendo mesmo... – Sem hesitação, pegou uma fruta, levando-a até a boca, graciosamente – Pode pegar mais algumas, deve estar com muita fome.

No momento seguinte, os dois estavam calados, mastigando suas frutas, devagar. InuYasha encolhia-se cada vez mais, os olhos baixos, sentindo os olhos de Kikyou fixos em seu rosto, o olhar de pena dela o incomodava profundamente, e queria pedir para que parasse, mas não parecia saber exatamente como fazê-lo. Sempre sentira repulsa pela pena alheia e o olhar dela o fazia ficar inquieto, desejando ter coragem de dar-lhe uma reprimenda.

- InuYasha.. Deixe eu ver seu rosto mais de perto? – Foi a pergunta dela que tinha os olhos enegrecidos pela tristeza. Ele abanou a cabeça, em afirmação, sem ter como impedi-la.

Ela, então, aproximou-se o observando. Levou uma das mãos ao seu rosto ferido e tocou-o, de leve, fazendo o Hanyou desviar um pouco de sua mão, sentindo dor. Ela aproximou-se mais, repetindo o movimento. Seu rosto estava inchado, tomado de hematomas. Havia marcas semelhantes as de bofetadas em suas bochechas, inchações dos lados de sua boca, aonde ainda haviam rastros de sangue, e ainda pequenos cortes em seu rosto, marcas da violência que sofrera, sem duvidas. Seus olhos abaixaram até seu pescoço, aonde havia dois cortes, bastante profundos... Se ele fosse um humano... Não queria nem pensar no que teria acontecido.

Sentia a carga de culpa sobre seus ombros. Tinha vontade de pedir-lhe perdão, de abraçá-lo e dizer-lhe que aquele maldito homem que lhes causara tamanho sofrimento era seu pai, que era tudo culpa sua, que talvez tivesse podido impedi-lo... Mas logo voltava a razão, e notava o quão estúpido seria fazer uma coisa daquelas. Não havia dúvidas de que ela o perderia para sempre, e que seu pai o mataria, antes mesmo de ela ser capaz de intervir a seu favor. Tinha de se manter neutra, pelo bem daquele que agora a observava, com olhos da criança que sua alma jamais deixara de ser.

- InuYasha.. Ele te feriu além disso, não é? – Preocupava-se com o que seu pai lhe pudesse ter dito. Preocupava-se com ele, acima de tudo, sentindo dor em pensar em todas as atrocidades que seu pai cometera. Sentia-se culpada, sobretudo. Porém, ele não captara nenhum de seus pensamentos, já que seus olhos eram pura indagação. Certamente não fora capaz de compreender o que ela queria lhe dizer – Ora, esqueça... – Ela disse, sacudindo a cabeça, negativamente, e escondendo a tristeza que se apossara dela – Então, eu prometo pra você que voltarei amanhã, o mais cedo que puder. Tente proteger os ferimentos de toda essa sujeira, senão vai acabar doente. – Passou um guardanapo pelos lábios sujos do rapaz, juntando todo e qualquer resquício de comida em sua trouxinha improvisada – Eu espero que o rei o deixe em paz amanhã... Descanse o máximo que puder, eu tenho que ir agora. Até amanhã, InuYasha. – Ela disse, suavemente, o trancando em sua cela.

- Sayonara, Kikyou – Ele disse baixinho, o olhar abatido retornando ao seu rosto. Deitou no chão frio, querendo desesperadamente que ela não se fosse, em vão. Ela tinha sua vida, não importa como ela fosse... E certamente que seria melhor que a dele se tornara, desde que fora capturado.

A princesa se dirigiu à passos rápidos ao próprio quarto, preparando-se para a conversa com Kaede. Era inevitável, e inadiável, portanto teria de pensar antecipadamente no que diria. Seria complicado demais detalhar, e doloroso demais saber dos detalhes envolvidos, então, lhe omitiria o máximo que sua curiosidade infantil lhe permitisse, mas não havia garantias de que não fosse o suficiente para chocar a menina.

Adentrou o aposento sem nem pensar duas vezes, destrancando a porta. Olhou ao redor e lembrou-se que ela não poderia estar lá dentro, só poderia estar em seu próprio quarto, logicamente. Sentiu-se uma tonta, virando-se em direção a porta. Surpreendeu-se ao ver a menina na porta, olhando pra irmã, os olhos preenchidos pela indagação muda.

- Kaede-nii-chan, sente aqui. – Apontou a mulher, sentando-se na cama. A menina sentou-se ao seu lado – Querida, o papai fez uma coisa muito feia... Você não deve entender muito sobre a história do nosso reino... Bem, de qualquer forma, um Youkai foi capturado pelo papai e levado às masmorras... Isso que ele fez foi errado, pois pode causar uma guerra... Isso não importa pra você, que ainda é nova. O problema é o seguinte: não vamos mais poder ter nossas aulas de arco e flechas... O calabouço está ocupado, não sei se vai ser perigoso ficarmos lá sozinhas... Então, não poderemos ter aulas, ao menos por enquanto.

- Aaaaaah... Mas Oneesan... – Ela estava visivelmente desapontada – não tem outro jeito?

- Não, receio que por enquanto não. Eu vou tentar dar um jeito, mas, querida, não posso garantir isso... Mas não fique triste, Kaede-chan. Vou arrumar um jeito de a gente brincar, certo? – Ela sorriu, abraçando a criança – Bote um sorrisinho nessa carinha, ta bem? Eu tenho outras coisas pra resolver. Estou muito preocupada com o reino, não quero te ver triste como as pessoas, ta bem?

- Ta certo, Kikyou-nii-san. – Replicou ainda triste – Vou pro meu quarto.

- Certo.

Ela deu um beijo na menina, que se retirou, sem nenhuma palavra. O coração da mais velha estava apertado em ver a decepção da irmãzinha. Deitou-se, um livro nas mãos, tentando concentrar-se na leitura. Mas em sua mente permanecia a imagem do rosto marcado pelas feridas daquele mestiço, o ar desesperado no olhar cada vez mais agredido e amedrontado dele, provando que as feridas foram além do físico e atingiram a mente fragilizada. Algo sem duvidas lhe fora dito, algo que lhe doera muito... Não sabia exatamente o quê, mas um dia saberia.

Guardou os livros, rendendo-se e fechou os olhos. Não sabia mais o que pensar, sua mente preenchia-se de questões, até mesmo sobre a afirmação que fizera ao rapaz: “O rei parece louco. Ultimamente todos por aqui tem achado isso. Ele não fala mais como antes... Dizem até que ele tem destratado a... A filha dele.” Será que realmente diziam isso? Era muito provável que sim, porque muita gente já teve a oportunidade de testemunhar a estupidez do rei, quando o assunto envolvia sua primogênita.

Não sabia mais o que dizer de seu pai. Debatia contra si mesma, sentia-se culpada pela transformação de alguma forma... Ele estava visivelmente diferente, não somente em sua postura com relação a ela, mas também em relação aos empregados e a tudo que envolvia o reino, incluindo o incidente de hoje que manchara de sangue as mãos daquele que durante tanto tempo apesar de cometer erros sempre se esforçara para ser o melhor possível e que agora, após tamanha crueldade com um ser de mesma raça, perdera a credibilidade e a confiança até mesmo da própria cria.

E o coração da moça estava ferido, consumido pela dor de ver uma pessoa que tanto amara destruir-se desta forma. E naquele contexto era inútil, mínima. Apenas tentava resolver os problemas sem machucar ninguém, nem a si mesma. Infelizmente, o sangue derramado era todo dela, que sentia as lágrimas transbordarem-lhe os olhos. Era aquilo que ganhava depois de tudo o que fizera por ele? Porque ele fazia aquilo com ela? Aquele pai, que um dia lhe pegara no colo e abraçara e que tantas lições, mesmo que por vezes fúteis, lhe dera de vida... Aquele que regera o comportamento que no momento, impecável, mantinha-se... Por que tinha que vê-lo matar sua dignidade, sua benevolência daquela forma dolorosa?

Jamais sentira sofrimento como aquele... A dor era real, profunda. Queria salva-lo. Não sabia do que seria capaz se encontrasse o prisioneiro morto, daquela maneira cruel, algum dia desses. Jamais poderia olhar em seus olhos. Ele nunca mais poderia ser seu pai. E isso doía mais do que se lhe apunhalasse o peito. Ela apenas deixara duas lágrimas solitárias rolarem, sem produzir um único som. Jamais deixaria que ninguém notasse seu sofrer. Jamais deixaria que qualquer um sentisse pena ou tristeza por sua causa... Jamais deixaria que alguém testemunhasse um momento tão intimo, tão privado, como ela derramando aquele líquido precioso.

E foi naquele turbilhão de pensamentos que adormeceu sem saber qual seria seu próximo passo. Certamente que aquilo ainda renderia muita história, mas não poderia jamais abandonar aquela criatura, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante dela, ao mesmo tempo humano e monstro que lhe despertava diferentes sensações. Lutaria até o fim sem pestanejar, embora o final incerto lhe reservasse medo do que haveria de acontecer com o mestiço que no fim tornara-se prioritário em seu dia-a-dia e em seu peito.

Notas finais
Obrigada a quem está lendo a fanfic e por favor comentem, para me incentivar srsrs ^^