Um Eterno Amanhã
2 Capítulo 2: O Prisioneiro
Notas iniciais
Os dias se passaram. Kaede já estava muito boa no arco e flechas, e o orgulho de Kikyou só crescia. A menina estava se aprimorando, mostrando que tinha uma pontaria excelente. A alegria de passar aquele pequeno tempo sozinha com a irmã era de valor inestimável.
Mas não era esse o fato que preocupava Kikyou. Seu pai estava muito estranho. Há três dias atrás ele saíra, sem dizer nada a ninguém. Voltara no dia seguinte, dizendo qualquer coisa, mas com uma atitude nada natural. Estava tratando-a pior do que à Kaede, e isso a assustava. Seu pai era rancoroso, mas não seria por causa daquela pequena discussão, a mais de duas semanas que ficaria desse jeito. Afinal, ele já a havia esquecido há muito tempo, esperava ela.
Foi até a janela, vendo as pessoas trabalharem, calmamente. Ela já conhecia várias ervas medicinais, estudava muito sobre elas, é claro, escondida do pai. Queria muito ser uma deles, daria seu título de princesa a primeira que lhe pedisse, se pudesse. Mas isso não lhe era permitido, e seu pai não permitiria que renunciasse pra Kaede, já que parecia querer coroá-la antes que Kaede atingisse a maioridade.
De repente, algo perturbou o cenário trivial que lá se expunha. Uma aglomeração de soldados passavam, escoltando alguma coisa. Esta parecia causar tumulto, já que as pessoas corriam pra longe, com desespero. Kikyou abandonou a janela, correndo escada abaixo, o longo vestido a lhe atrapalhar de andar. Chegou lá embaixo a tempo, vendo os soldados passarem, escoltando uma criatura, a qual ela não pôde ver, pela má posição e o grande número de soldados que eram necessários pra contê-lo.
- ME SOLTEM! MALDIÇÃO! ME DEIXEM IR! – Era uma voz fina e alta, embora perceptivelmente masculina. Parecia-lhe que era difícil para os guardas conter a fúria da criatura.
- O que está... – Kikyou tentou perguntar a um dos guardas, que a interrompeu, bruscamente.
- Afaste-se, princesa! Ele pode feri-la. Afaste-se, falarei com o rei. – O homem retrucou, ajudando os outros a arrastar a criatura castelo adentro. Kikyou se aproximou de uma das criadas, que parecia chocada. Era uma senhora de idade, e ela se aproximou.
- Quem era a presa? Não era humano, era?
- Não, senhorita, não... Era um Youkai... Um youkai... – Lágrimas percorreram os olhos da senhora – Vai ser igual ao que foi, há cinqüenta anos... Eu vi, e vivi, foi um massacre horrível... Se ele for importante, os Youkais nunca cumprirão sua parte do acordo, e teremos uma nova “OverDrive”. Oh, não, meu Deus, não... – A mulher falou, soluçando, abraçando-se ao marido.
Kikyou não falou nem mais uma palavra. Correu até o quarto do pai, desesperada. Não podia permitir, tinham que libertá-lo. Poderia ser um Youkai, mas haveria mais mortes se não impedisse essa loucura.
*** Em Outro Lugar ***
- Então, o que fazemos, majestade? – Um dos homens perguntou, nervoso.
- Prendam-no. Não vamos executá-lo, somente torturar... Seria estratégico tê-lo em mãos, e ainda mais se ele for um nobre. Mas isso, nós só vamos descobrir depois. Levem-no! – O Rei ordenou, veemente.
- Às suas ordens, Majestade. – O Homem retrucou, dizendo aos colegas – Vamos levá-lo.
*** Em Outro Lugar ***
Kikyou chegou à porta, vendo os homens saindo. Parecia-lhe que eles tinham ainda mais dificuldade em forçar a criatura a ir. Ela viu que iam ao calabouço, e sentiu seu coração se corroer. Ele havia feito aquela loucura, havia posto todo o Reino em apuros.
- Pai! – Ela chamou, adentrando o cômodo, abruptamente – Por favor, corrija essa loucura... Está pondo as nossas vidas em risco, criando a possibilidade de uma nova guerra.
- Kikyou... – Ele interrompeu – Do que fala?
- Do Youkai que seus soldados trouxeram.
- Ah, isso... – Ele retrucou indiferente – Acabei de mandar prendê-lo nas masmorras do castelo. Um Youkai vagabundo, sem explicação plausível pra estar em nossos domínios. Há de ser um espião. Mas nós o pegamos, a esta altura deve estar preso. Não haverá guerra minha filha, preso ele não fará mal a ninguém. Está muito bem preso, as algemas foram feitas especialmente pra resistir a Youkais, não se preocupe. Vamos tentar fazer com que fale sobre sua posição, mas vamos precisar torturá-lo um pouco...O bom mesmo seria que ele sobrevivesse, seria estratégico ter um deles na mão, depende muito da posição dele. Vou ter que descobrir isso...
- Pai, o senhor está louco? – Ela perguntou, reprimindo todo o seu desespero, para que fosse levada a sério — Isso pode causar outra guerra, vai acabar com a paz! Vamos ter mais batalhas e perder mais guerreiros, acha mesmo que eles vão cumprir o acordo? Não são honestos, pai, e o senhor sabe disso...
- Filha, você pensa pequeno... Eu quero expandir dominar os Youkais.. Só assim poderemos..
- Além de tudo, isso é ridículo! Aquelas masmorras estão vazias há como o senhor mesmo me disse, cinqüenta anos! Não tem guardas lá, ele vai morrer de fome! Vocês poderiam matá-lo logo de uma vez, então! – Ela o interrompeu revoltada com o absurdo que era ouvir aquilo tudo da boca de seu pai, que nunca havia sido tão imprudente quanto no momento.
- Sempre podemos reabrir. Não precisa de guardas, é muito mais seguro sem eles. Só assim não há como ele fugir, sem ninguém pra persuadir. Não haverá guardas, e está feito! Não vou discutir minhas decisões para com o reino com você, Kikyou – Ele retrucou, furioso – Agora trate de lembrar-se dos seus bons modos, e crie juízo, dando meia volta e indo pra seu quarto, como uma boa princesa! Vá!
- Eu vou, mas saiba que sou totalmente contra sua atitude, pai. Saiba que isso não vai terminar aqui. Nunca imaginei que o senhor fosse capaz de tamanho disparate, estou verdadeiramente decepcionada...– Ela falou, lançando-lhe um olhar de puro ódio e se retirando, a cabeça erguida, sem perder a costumeira pose. Não era porque seu pai agia feito um idiota que perderia sua postura.
Ela saiu do quarto, sentindo a raiva subir-lhe a cabeça. Decidiu ir a seu quarto, refletir. Aquilo que ele fazia era uma loucura, estava pondo a vida de todos os humanos em risco, era uma total falta de bom-senso... Não conseguia encontrar palavras para definir o nível daquela incoerência.
Foi então que percebeu que havia mais uma coisa. O prisioneiro tomaria conta das masmorras, e não haveria mais um lugar pra Kaede treinar... Teria que suspender os treinos... Não havia outro jeito; Tinha que comunicar a Kaede, mesmo que lhe doesse, que as aulas teriam de ser suspensas, permanentemente...
Mas não o faria, não agora. Primeiro precisava zelar pela segurança do reino. Podia não querer governar, mas precisava salvar os humanos, agora em perigo. Ia conhecer esse tal Youkai, tentar descobrir sua posição no reino Monoke, e saber qual era o tamanho da ameaça. Se fosse muito grande, iria tomar uma atitude, mesmo que a castigassem, severamente, por isso, ou até mesmo a deserdassem. A vida dos humanos era mais importante que isso.
Vestiu um quimono branco e vermelho, que antes pertencera a sua mãe, na época que ainda não era rainha... Essa era a roupa mais simples que tinha. Prendeu os cabelos com uma fita branca, tirou a maquiagem, os enfeites, brincos, cordões. Calçou sandálias simples, cobrindo-se com uma velha capa preta. Pendurou as flechas no ombro, levando o arco numa das mãos. Passou rápido por todo o castelo, mantendo a porta de seu quarto trancada, a chave segura no bolso da roupa.
Dirigiu-se até o calabouço, a passos rápidos. Mal foi notada, já que todos estavam muito mais preocupados ante a perspectiva da futura guerra. Ela vira várias servas chorando, abraçadas aos seus respectivos maridos, aos prantos, temendo pelo obscuro futuro do Reino Miko...
Finalmente chegou a seu destino, resfolegante. Adentrou o conhecido “aposento”, notando que as chaves estavam penduradas, ao alcance de qualquer um, numa parede. Qualquer um poderia abrir aquela cela, menos, esperava ela, o prisioneiro.
O local estava escuro e sujo, dando uma sensação de abandono, o que, de fato, era verdade. Ninguém ia ali há cinqüenta anos, exceto a própria princesa, escondida de seu pai. Ela observou o local, antes tão familiar a ela. Agora sentia um medo, uma sensação de frio percorrer-lhe a espinha... Como seria ele? Provavelmente assustador como quase todos os Youkais que ela já vira em gravuras de livros de estudo.
Viu a infinidade de celas, que agora davam uma sensação de imenso vazio. Ouviu a respiração, descompassada, da criatura, que ela ainda não achara. Devia estar lá no final, mas, ela podia sentir, ele já percebera sua presença. Ela sentia uma curiosidade que nunca antes sentira em ver quem era o autor de toda aquela confusão e tristeza, que varrera o Reino Miko, com incrível velocidade.
A cada passo ela se aproximava mais das últimas celas, o que, ela percebeu, era ainda pior. Quanto mais próximo do final o local ficava, maior era o cheiro de mofo, a sujeira e a sensação de total abandono. Lançou um olhar esquivo a uma das celas, ouvindo o tilintar de metal na cela do lado oposto. Com um sobressalto, virou-se pra ela, podendo vê-lo pela primeira vez.
Assustou-se por não se deparar com um monstro, totalmente deformado, como sempre ouvira falar que eram os Youkais. Este parecia um humano, e ela o achou, a primeira vista, muito bonito. Tinha longos cabelos prateados, mal-cuidados, que deviam ir até a cintura. Duas graciosas orelhas de cachorro se localizavam no topo de sua cabeça, demonstrando que era um Youkai Canídeo. Possuía belos e excêntricos olhos amarelos, que estavam fixos nos seus, num tom de pura ameaça. Sua boca estava amordaçada, de maneira que ele não podia dizer nada.
Trajava um chamativo quimono Vermelho, que lhe dava um ar um pouco descomunal. Suas duas mãos, atadas uma a outra pelas algemas, que lhe pareciam muito pesadas, pelo perceptível esforço dele pra levantá-las, possuíam compridas garras, que ele deixava a mostra, parecendo querer ameaçar-lhe, provando que eram uma arma extremamente poderosa, e que ele pretendia usar contra ela.
Ele parecia bastante apreensivo, os olhos fixos nela, as garras a mostra, embora se mantivesse a um canto da cela, um pouco encolhido. Ela percebeu que estava muito ferido, e pegou-se sentindo um pouco de pena. Afastou o sentimento, imediatamente, pensando no tormento que ele seria apesar de sua aparência humana a fizesse sentir como se ele fosse um ser de mesma raça, muito embora, fosse perceptível a diferença.
- Não se preocupe, não vou machucar você... Não sou guarda, nem nada disso. Vim aqui apenas para conversar... Venho em paz, não tentarei nenhum golpe baixo. Posso entrar? – A princesa lhe falou, deixando a capa cair, as chaves da cela numa das mãos.
Ela não sentiu qualquer mudança na expressão dele, muito menos reação alguma para parecer amigável. Por apenas um segundo, ela se perguntou se ele entenderia o que ela diz. Mas, respondeu a si mesma, relembrando a cena, ouvira-o gritar em sua língua no meio do salão de entrada do castelo. Esse fato não lhe deixou dúvida alguma.
Ela, não obtendo qualquer resposta para sua pergunta, decidiu entrar, sem medo. Não havia porque ele atacá-la, e ele lhe parecia bastante ferido, não seria realmente racional ficar atacando-a sem motivo naquele estado. Destrancou a cela, ciente que as algemas e a corrente que prendia seu pé, não deixariam que ele fugisse. Manteve a porta encostada, colocando a chave a um canto, fora do alcance dele.
- Bom, não faz sentido eu te deixar amordaçado. Pretendo ter uma conversa civilizada com você, por favor, não me ataque. – Ela desamarrou o pano que lhe tampava a boca, prosseguindo – Olha, eu estou aqui por que não aprovo a decisão do meu... Quero dizer: do Rei de Miko... – Ela decidiu esconder dele sua posição social, já que ele mentiria, sabendo que ela era a princesa – É desumano trancar alguém aqui nesse calabouço velho e abandonado... Bem, qual é seu nome?
- InuYasha... – Ele murmurou aparentemente contrafeito. Não parecia confiar nem um pouco nela, mas não havia escolha no momento.
- InuYasha? – Ela perguntou, serenamente – Suponho que seja um Youkai cão, não é? – Ele fez que sim, de leve, os olhos fixos no chão. – Sabe, o achei tão parecido com um humano... Você tem uma forma transformada?
- Isso não te interessa. – Ele resmungou, sem lhe encarar os olhos.
- Não vai me responder? – Ele não se moveu, e ela prosseguiu – O que você era no Reino Monoke? Por favor, preciso saber. Quero te ajudar, te libertar daqui, e acabar com a loucura de p... Do rei. – Ela se atrapalhou, as palavras fluindo rápido demais pra controlá-las.
- Eu não era nada... – Ele pareceu furioso, finalmente encarando-a, uma grande sede de vingança invadindo-lhe o peito, e sendo transmitida a ela por seus olhos, que agora flamejavam cada vez mais ameaçadores – Eu sou um Hanyou, garota. Um Meio Youkai, uma aberração ou seja lá como chamam aqui nessa maldita terra! – Ela pôde perceber, no fundo de seus olhos, que InuYasha não mentia, e que, cada vez que seu olhar se tornava mais ameaçador, ele demonstrava, involuntariamente, mais insegurança quanto a ela.
- Perdão... – Ela pediu, sinceramente, sentindo o coração acelerar, mas sem demonstrar medo. Sabia que ele poderia aproveitar-se do seu medo, o que seria um ponto pra ele – Eu não queria... Eu não sabia disso... – Ele lançou-lhe um olhar entre o revoltado e o emburrado – Quer dizer... Que você é um mestiço? Um meio Humano? – Pela expressão dele, ela viu que a resposta era sim, e preferiu interromper-se – Não, não precisa responder. Olha, o Rei está totalmente louco, não faz sentido algum você ficar preso aqui... Meu pai disse que... – Percebeu o que ia dizer, e mudou o rumo, fingindo que seu pai era apenas um servo do rei – Ou melhor, ele sempre dizia que todos, tanto humanos quanto youkais são iguais na essência, e que não devemos prejulgar criatura alguma... O Rei está fora de si, preciso dar um jeito de te tirar aqui... Olha, eu me escondi na porta do aposento real, e ouvi uma conversa dele. Ele pretende te torturar até você ajuda-lo, e se ele não te achar importante, quer matá-lo... – Ela falava isso com uma expressão de desprezo, e o Hanyou se perguntava quem ela seria de verdade, por trás da visível farsa que armava – Mas antes... Você está muito ferido... Posso tirar todas essas flechas? – Ele se encolheu defensivo – Não vou te machucar, prometo. Vai ser pior se ficar com isso fincado em você, vai acabar infeccionando e você vai ficar doente. – Ele não parecia querer dizer nada, e não quebrou o silêncio, deixando-a, visivelmente, nervosa. Ainda não absorvera totalmente tudo o que acontecera, e parecia que não era mais tão capaz de ocultar do Hanyou suas emoções quanto era em sua postura normal. Tinha de atuar com perfeição, qualquer deslize e seria o fim de seu disfarce – Não diz nada?
Por um segundo ela hesitou entre aproximar-se ou não. Afinal, porque ajudava ele, um inimigo, rival, que causava tantos problemas a eles? Só por ser meio humano? E daí? Era ainda a fonte de tudo de ruim que se sucedia, não? Então porque se sentia impotente olhando nos seus olhos, porque suas pernas bambeavam quando os encontrava? O que era aquilo? Pegava-se desprevenida, às vezes, pensando em como ele era bonito, observando sua silhueta em momento vulnerável, sentindo vontade de arrebentar aquelas correntes, que pareciam trazer-lhe tamanha amargura... Perguntava-se, o que era aquilo que nascia em seu peito?
Aproximou sua mão, devagar, sabendo que era perigoso fazê-lo, mas sentindo, no mais fundo de seu ser, que não havia e nem nunca haveria qualquer perigo vindo daquele Meio Youkai. Refletiu por um momento, dizendo, baixinho, mais próxima à ele:
- Se perguntarem algo sobre as flechas... Foi você mesmo quem tirou certo? Ninguém pode saber que eu estive aqui, ou eu posso... Acabar presa também ou pior... Entendeu? – Ele moveu, afirmativamente, a cabeça, sem ânimo. Começava a sentir como seria difícil viver ali. Seu estômago começava a pedir por comida, e sentia o cheiro de mofo perfurar seu olfato sensível, causando-lhe enjôo.
A mão da moça se aproximou, segurando, com firmeza, a flecha que estava cravada em sua barriga. Pareceu se preparar pra puxar de uma vez, ainda receosa com relação à reação que o rapaz teria, mas não parecia que seria ruim, já que a deixara chegar tão próxima dele assim. Puxou, com força, de uma só vez, e ele fechou um olho, abafando uma exclamação de dor. Manteve-se quieto após isso, refletindo sobre a moça que estava a sua frente. Era muito misteriosa, embora ele sentisse que era bem diferente disso longe dele. Seria ela uma espiã? Então porque o ajudava? O que ganhava com aquilo, afinal de contas?
E ela retirou todas as flechas, sentindo pena dele, no fim das contas, após sentir tanta raiva quanto sentira. Afinal, acabara simpatizando com o rapaz, embora o sentimento não parecesse ser recíproco. Precisaria de mais para conquistar sua confiança, faze-lo contar mais e conseguir tira-lo dali, ciente do que ele era capaz de fazer. Olhou pra ele, sentindo pena da condição em que se encontrava. Aquilo não estava em condições de abrigar ninguém, por mais criminoso que fosse. Não havia nem comida.
- InuYasha – Começou ela, calmamente – Vou te amordaçar de novo, trancar a cela e deixar tudo como estava. Ainda hoje, volto pra te trazer comida. Agora tenho que sair daqui antes que alguém me procure. Eu lhe juro que voltarei, então, por favor, não diga nada a ninguém.
- Espere! – Ele disse, e ela pareceu surpresa, virando-se pra ele – Qual é o seu nome? – Foi a pergunta que fez, e ela não pôde resistir a dar um sorriso aliviado, parecendo mais tranqüila e feliz em ver que ele parecia seguro de que ela voltaria.
- O meu nome? – Ela hesitou quanto a inventar um nome falso, mas não havia problema em usar o seu, era bem comum por ali. Já vira duas servas com esse nome, então, prosseguiu – Kikyou. Agora fique quietinho, mais tarde eu volto pra te ver.
Amordaçou sua boca, e ele não protestou. Cobriu-se com a manta, pegando as chaves e trancando a cela. Colocou-as no mesmo lugar, saindo, apressadamente, do lugar escuro, sombrio e fedorento, ao mesmo tempo aliviada e triste, sem saber discernir seus reais sentimentos.
InuYasha permaneceu lá, quieto, sem poder dizer nada, sustentando nos pulsos, cansados, o peso das algemas. Começava a sentir as marcas, do tempo agindo sobre suas mãos. Deitou-se no chão frio, sem alento, pensando na moça. Era muito bonita, e nunca em toda sua vida, alguém além de sua mãe o tratara tão bem quanto ela. Sentia-se inseguro quanto ao que devia pensar dela, mas sentia que ela era alguém muito especial, e, apesar da desconfiança com relação a sua origem e seus interesses nele, tremendamente obscurecidos pelas palavras vagas dela, sentia que podia confiar nela, e obedecê-la, sem nem pestanejar com relação a isso.
Não sabia realmente o que era aquilo que sentira aquele calor que apossara seu coração quando seus olhos encontraram os dela. Sentia-se capaz de matar qualquer pessoa para protegê-la, sentia-se forte quando a via, e quase não controlava seu instinto de tocá-la, de sentir sua pele tão clara... Começava a pensar que enlouquecera, só podia ser isso, estava louco... Mas aqueles sentimentos não o abandonavam, e sentia vontade de suspirar, ao pensar naqueles belos olhos brilhantes que ela tinha.
Mas aos poucos retornava a realidade, e o contato de seu corpo com o chão frio e imundo, em união ao desagradável cheiro de mofo que sentia a sua volta, faziam com que ele sentisse ódio por tudo aquilo. Queria fugir e estar bem longe, mas não havia nada que pudesse quebrar ali. Tudo era reforçado contra Youkais, já que as celas foram projetadas para detê-los, e o desalento percorria seu ser, como prova do erro que havia cometido ao intrometer-se em território humano. Sua única esperança era a bela moça, que, se cumprisse a sua palavra, voltaria para dar-lhe alimentos. Naquele momento, ela era seu alicerce e sua salvação, a única pessoa em todo o mundo na qual seu coração confiava, dando-lhe a certeza de que ela voltaria para ajudá-lo, todos os dias.
E naquele momento, deitada em sua própria cama, Kikyou pensava nele, em seus olhos amarelos, em suas reações peculiares, naqueles olhos ameaçadores que no fundo pareciam implorar por sua ajuda, naquele corpo, frágil e atado, que só poderia ser libertado por ela. Sentia que seu coração fora, sem dúvidas, raptado por aquele jeitinho agressivo e reprimido, que escondia alguém que, ela sabia, tinha muito caráter. Parecia conhecê-lo melhor do que qualquer um jamais conhecera, embora não tivesse tido qualquer contato com ele.
E seus corações e mentes se conectavam em um só ritmo, um só pensamento. Para cada qual, o outro era uma estrada, um caminho para a salvação, uma porta que o destino lhes abria, que lhes dava a deliciosa sensação de alegria, adrenalina e tranqüilidade. E naquele ritmo só deles, no compasso dos seus corações, havia um mútuo entendimento de um para com o outro. Nada era realmente importante, somente sentir aquele delicioso e novo sentimento, que os dois experimentavam em silêncio, deitados, seja lá onde estivessem. E embalados nessa deliciosa magia que os unira, adormeceram, ele no duro e frio chão, e ela na sua cama, macia e quentinha. Os dois, em posições tão divergentes apenas pensavam um no outro, e mais nada poderia importuná-los. Não naquele momento.
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