Um Círculo de Flores

8 Que tal olhar lá fora?


Depois de outro pedido de delivery e conversas ruins, todas foram dormir e Clarice pensou, por que não olhar lá fora? A janela do sótão era generosa e a visão do lago, de novo, a atraía. O vento puxava folhas, provocava ondulações e dissolvia os pensamentos. Ela viu um redemoinho de flores de ipê, que logo se desfez.

Curioso.

Passou a mexer nas réplicas de correspondências e anotações de Ofélia, vendo coisas interessantes que batiam o que já tinha lido em biografias. Uma delas, era que a autora investia nas cartas: bons envelopes, cera e sinete, uma lista de chás em sachê para enviar. Caprichosa. E também fazia colagens de imagens que julgasse engraçadas de revistas com propagandas de gosto questionável da época. Ofélia escrevia mais do que esperava-se para uma casa com linha desde que os telefones ainda eram raridade.

As cartas recebidas eram menos elegantes. As remetentes eram amigas de colégio, naquela altura casadas ou avançando em uma vida muito diferente da dela, que agora tinha filho sem parir e dívidas sem gastar. As coisas já não iam bem na empresa dos pais, uma indústria têxtil, mesmo antes da tragédia de Ano Novo. Foi quando o tio de Ofélia aconselhou o cunhado e a própria irmã a abrirem sociedade, atraírem investidores e baixarem o preço por um período. As biografias não autorizadas inferiam uma intenção de tomar a empresa. Foi um quase. Mas sobraram poucas ações para a jovem Ofélia, embora mais do que cada acionista individualmente. Sua estabilidade financeira virou tempestade em alto mar, sedenta por afogá-la também. Com bônus de um tubarão traiçoeiro rondando.

Ainda assim, escrevia quase como quem lança garrafas com mensagens ao oceano. As respostas vinham curtas e aos poucos, quando vinham. Clarice encarou o próprio celular apagado. Zero notificações. Entendia a sensação.