Um Círculo de Flores
9 Onde as árvores brotam
Almoço, domingo. Domingo? Talvez fosse segunda-feira já. Ou era sábado? Clarice esticou-se bem no divã e colocou o celular de lado, após ver o horário. Não sabia quando caira no sono, apesar de saber que teria sido em algum momento da madrugada. O fato é que não colocou nenhum alarme para despertar pela manhã e ninguém viera atrás, o que ela agradeceu e se ressentiu ao mesmo tempo. Mas importava, de fato? Passava das onze horas num lugar em que não importava sequer que dia era.
Levantou-se e sentiu a casa quieta. Em um dos quartos, acima da cama bagunçada de Judith, viu uma das sugestões do guia marcada, ao lado de um livro da coleção de capa cor de madeira escura. Ah, sim. A natureza ao redor da casa enchia os olhos e, por mais que se recusasse a entrar no lago, Clarice imaginava que a amiga meio bruxa desejasse ver onde as árvores brotam. Mas não ficou triste por não ter ido junto, Pois iria só para tirar fotos e apreciar o calor. Imaginava como Judith teria convencido Elaine a percorrer aquela pequena trilha e quais discussões travavam no caminho.
Ah, céus. Talvez estivesse um pouco triste sim de não ter sido chamada. Era um espetáculo familiar a implicância entre as duas, um tipo de comédia ruim que ela não se importava em assistir de novo.
Inspirou fundo. Sentiu cheiro de comida. Não tinha jeito de delivery desta vez.
Atravessou a casa até chegar na cozinha. Em outros cômodos, embora não em todos, havia ainda o sistema de campainha para chamar os empregados na área de serviço, algo que caiu em desuso principalmente depois que o senhor e a senhora Rios faleceram. Chegando lá, no ambiente reformado para ser mais funcional e ainda preservar a estética, era possível ver a saída da campainha, mostrando em quais cômodos o sinal poderia ter sido dado. Dificilmente aquilo teria chamado sua atenção além do pensamento sobre resquícios de ar colonial mesmo numa casa construída no século XX, mas Clarice parou para olhar com cuidado.
Imaginou e talvez tivesse que parar de imaginar. Mas imaginou Ofélia, menina. Sim, na casa dos vinte anos e ainda uma menina, encarando a saída da campainha enquanto preparava algo no fogão para o irmão. Esperava a campainha tocar, indicando a suíte dos pais. Subiria as escadas correndo, pulando degraus. E eles estariam lá.
Mas aquilo era a imaginação da sua imaginação; Ofélia sabia que era só uma fantasia e isso também era só um devaneio de Clarice. O barulho de alguém cortando vegetais numa tábua foi o suficiente para cortar aquele faz de conta.
Liana cozinhava.
Chop, chop, chop. Os movimentos dela eram precisos, a faca de qualidade ajudava. Cozinhar era uma atividade que ela não queria que fosse só um passatempo, pois cursara gastronomia e hoje trabalhava como assistente contábil num escritório de advogados. O salário era bom, maior do que a média, mas não lhe pagava uma sensação de completude, satisfação. Cozinhar agora era sempre meio agridoce.
Clarice murmurou um “bom dia” sem graça por ser tarde, sentou-se ao balcão. Quando faziam comidas para Festa Junina ou comemorações entre todas, era comum a fotógrafa ficar só assistindo. Não porque era incompetente ou preguiçosa, mas porque não tinha o mesmo método, a fineza ou rapidez. E se antes não ligava para isso, pois era verdade, com o tempo aquilo tomou outras nuances.
Liana continuou cozinhando, concentrada e em silêncio. As cebolas cortadas, junto com as cenouras, foram jogadas na panela. Em seguida, passou a limpar os utensílios para manter a bancada organizada antes do próximo passo.
Calor, cheiro, estalidos de utensílios.
Quando Clarice perdeu a admiração por ela? Isso, obviamente, aconteceu. Ela sentia e sabia distinguir esse incômodo no peito, era nítido. Mas quando? Admiração, quem sabe, não fosse a palavra certa. Liana ainda tinha várias qualidades e Clarice podia listá-las. Perdera então encanto? Intimidade? Não era isso. O entendimento consciente veio com atraso, já que o desconforto existia há anos: Clarice não havia perdido a admiração, só tinha percebido que não era mútua. Se aquilo fosse um laço romântico, talvez tivesse um nome mais reconhecível. O incômodo era seu coração partido, por uma amizade mais forte que já existiu.
Hoje, era quase como se Clarice não estivesse lá.
Fale com o autor